Gurdjieff

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quarta-feira, novembro 30, 2005

Mitos Fundadores (Continuação II)

Os mitos relacionados ao dilúvio chamam-nos a atenção porque estão associados a lendas tão velhas quanto as da Atlântida e Lemúria (Ilha lendária engolida pelo mar e pela primeira descrita por Platão) e a uma gama extensa de referências em diferentes culturas. Para os gregos do VIII século A.C. a decisão de extirpar os homens da terra por intermédio de um dilúvio partira de Júpiter (Zeus), que se convencera a punir os homens ímpios que violavam o juramento da hospitalidade (uma virtude, "árete", bastante cara à "Paidéia"), repelindo os pedintes. O encarregado da execução da sentença foi Netuno. Em Ovídio, genial poeta romano, este episódio marcante da história humana é descrita com arrebatado ardor (1):
"O deus dos mares fere a terra com um golpe de tridente; ela estremece e a água jorra abundantemente dos mais profundos abismos. Os rios, transbordando, inundam a terra, arrebatam o trigo, as árvores, os rebanhos, os homens e fazem ruir os templos e casas. Quando um palácio resiste à impetuosidade da torrente, a água o cobre inteiramente e as próprias torres ficam submersas sob as ondas. Já estavam a terra e o mar confundidos. Este busca asilo numa montanha, aquele se lança num barco, e rema sobre o mesmo lugar em que costumava cultivar (...)".
Exatamente como na estória bíblica do Gêneses, Zeus extermina a humanidade, mas não totalmente. Havia um homem justo no meio dos mortais, Deucalião, que os deuses resolvem poupar, assim como sua mulher, Pirra. Os dois refugiaram-se em um barquinho (a arca de Noé helênica?) , ancorando no monte Parnaso (ora, não era o monte Ararat na Turquia?) ao término do dilúvio. Netuno então ordenou aos Tritões que fizessem ressoar suas conchas para que as ondas regressassem ao oceano, a terra apareceu aos poucos e Deucalião gritou:
"Ó minha irmã, ó minha esposa! Tu és a única que se salvou; o sangue e o casamento nos uniram outrora; hoje as nossas desventuras comuns mais ainda nos devem unir. Onde quer que o sol atire os seus olhos, só a nós dois é que se vê sobre a terra; o resto está sepultado para sempre debaixo das águas (...)".
Eivado de toques líricos, o "Noé Grego" e sua mulher não eram tão rudes e prosaicos como o semita que fizera sua arca por ordem de Javé. Oraram em um templo dedicado a Têmis (a justiça), todo coberto de musgo e a Deusa lhes proferiu oráculos que garantiram o futuro da espécie humana na tera. Tomaram então de pedras, das quais, ao lançarem ao chão, nasceram os homens e as mulheres.

(1) MÉNARD, René. Mitologia greco-romana. v.1. São Paulo. Opus Editora: 1991.



terça-feira, novembro 29, 2005

Mitos Fundadores (Continuação)


Para os antigos vedas, aqueles que legaram à Índia os Unapanishads e seu sistema social, as "Eras" pelas quais atravessava a humanidade (de acordo com Rao Bahadur Row, citado por Helena Blavatsky na "Síntese da Doutrina Esotérica (1)) eram o Krita Yuga, o Treta Yuga, o Dvapara Yuga e os tempos atuais, a "Era de Ferro" (2) (como na mitologia grega), a "Kali Yuga (ou "Era da Deusa Kali"). Um Quadro muito antigo descreve a duração destas "Eras" em anos terrestres (anos do ciclo de vida do homem, pelos calendários solar ou lunar) e está apresentado logo abaixo, em uma tabela:


Anos
360 Dias Mortais 1
O Krita-Yuga contém 1.728.000
O Treta-Yuga contém 1.296.000
O Dvapara Yuga tem 864.000
O Kali-Yuga tem 432.000


O total destas quatro Yugas perfaz um Maha-Yuga de 4.320.000. Setenta e um destes maha-Yuga formam o período do reinado de um Manu (306.720.000) e o reinado de 14 Manus é igual a 4.294.080.000 anos. Acrescentem-se os Sandhis (intervalos entre o reinado de cada Manu, de 25.920.000 anos e chegamos ao total desses reinos e interregnos de Catorze Manus que é de 1.000 Maha-Yugas que constituem um Kalpa, isto é um dia de Brahma. Levando em conta que a noite de Bhrama tem igual duração, um dia e uma noite de Brahma contêm 8.640.000.000 dias e um ano de Bhrama tem 360 dias e noites (3.110.400.000.000 dos nossos anos). Logo, 100 anos constituem um período ou idade de Bhrama, isto é, um Maha Kalpa de 311.040.000.000.000.

Falando do Senhor Caitan Mahaprabu, uma das encarnações de Krishna (os vedas e verdadeiros hindús crêem na reencarnação e em Avatares), adorado pelos "Gosvamis" (senhores dos sentidos, de Go, que pode significar "terra", "vaca" ou "sentidos" e swami, senhor), o sábio Bhaktivedanta Swami Prabhupadha (3) (fundador "Sociedade Internacional da Consciência de Krishna"), explica através de um belo poema em sânscrito de Rupa Gosvami o significado pleno da "Kali Yuga":

"anarpita-carim cirãt karunyavatirnah kalau
samapayutum unnatojjvala rasam sva-bhakti-sryiam
harih purata-sundara-dyuti-kadamba-sandipitah
sada hrdaya-kandare sphuratu vah saci-nandanah
(Caitanya-caratamrt, Adi 1.4).

O termo "kalau", em sânscrito, significa esta "Era", a de "Kali", "Era de Ferro", que segundo o Swami "(...) é muito contaminada, uma era de desavenças e discórdias. Rupa Gosvami diz que nesta era de Kali, em que tudo é discórdia e desavenças (...)", referindo-se à encarnação de Krishna diz: "(..)'Vós descestes para oferecer o mais elevado amor a Deus.' Samapayutum unnatojjvala-rasam: e não somente a mais elevada, mas também uma rasa, ou sentimento transcendental muito brilhante".

Em um mundo que a cada dia mais banaliza o sagrado, vale neste ponto - talvez adiantando outra temática - recordar como os oportunistas, vigaristas e "vendilhões do templo" banalizam a yoga, a arte milenar védica da União com o Cosmos, apresentando aos incautos versões desta ciência que se equiparam aos mais rudimentares exercícios físicos ocidentais, que aumentam a força física mas deixam irremediavelmente combalido o espírito, gerando os violentos rapazes que, embriagados, envolvem-se em incidentes homicidas, desastres nas estradas e enchem seus pais de dissabores.

Na "Era de Kali", os homens afastam-se do real significado do Yoga, cantado por Krishna do 'Bhagavad Gita" (4):

"Quando não tem nenhum desejo ardente, nenhum ódio,
Um homem anda a salvo entre as coisas
da luxúria e do ódio,
Obedecer ao Atman
É sua alegria tranqüila:
A tristeza se dissolve
Nesta paz transparente:
sua mente quieta
logo se estabelece na paz".

NOTAS:

(1) BLAVATSKY, Helena P. Síntese da doutrina secreta. São Paulo. Ed. Pensamento: s.d.
(2) Kali personifica a fúria feminina que deixa destruição e morte, vindo à terra em um momento de grave guerra entre Deuses e Demônios.
(3) PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Swami. ciência da auto-realização.Lisboa. The Bhaktivedanta Book Trust International. 1995.
(4) Há várias traduções do "Canto do Senhor" em português. O mais importante é que seja bilíngüe (cotejada pelo texto original em sânscrito).

segunda-feira, novembro 28, 2005

Mitos Fundadores

Um tema que deve ser caro à "Ciência Mística" são os mitos fundadores que a humanidade acalenta desde seus mais tenros anos. Em todos os povos, em diversos continentes, da Eurásia à África, da América à Oceânia, um conjunto de idéias arcanas ("arché") faz-se presente nas representações culturais dos indivíduos, perenizadas em suas artes (especialmente na poesia e na prosa) ou em transcrições orais que passam de geração a geração.
Estes antigos mitos, comuns a povos tão díspares, exprimem eventos traumáticos que se sucederam no início da humanidade (como seria o caso do dilúvio) ou impressões místico-religiosas primevas que se fincaram como fundamentos de muitos cultos, alguns deles extintos, outros ainda vivos, sob novas denominações.
Da leitura de parte da produção escrita dos gregos, romanos, babilônios (e demais povos do "Crescente Fértil"), egípcios, hebreus e hindús, depreende-se que há dois tipos de mitos fundadores, segundo a sua abrangência e cinco segundo o número. Estes são mitos privativos da tradição indo-européia-semítica e aqueles últimos possuem menor nível de universalidade, abrangendo diferentes culturas.
Entre os mais importantes mitos fundadores está o do primeiro homem. O Adão bíblico, batizado "Adam Kadmon" pelos cabalistas, o "homem primordial". Outro mito fundador é do pecado original, Eva atraída pela serpente, dando a Adão o fruto da vida. A lenda do paraíso - com todo o seu significado ético - toma feitio distinto nas histórias de Prometeu e Pandora em Hesíodo, na queda queda dos Titãs, a "Titanomaquia" (por analogia, a queda de Lúcifer) e tantas outras idéias-mestras da humanidade. Prometeu, imortalizado em Ésquilo, aliás, é "Ankylométis" em grego, "habilidoso na arte da tramar" e capaz de desafiar Zeus, assim como Eva e a Serpente ludibriaram o Criador.
Por comer do "fruto da razão", Adão e sua descendência passaram a carregar o fardo do "pecado original" e "Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás", diz o Gênesis(1). Na Grécia, mais tarde, Hesíodo seria mais condescendente com o homem e mais otimista com o trabalho. O mesmo tema é gravado na mitologia grega, advertindo o poeta a seu irmão: "Ó Perses! Mete isto em teu ânimo: a luta malevolente teu peito do trabalho não afaste para ouvir querelas na Ágora e a elas dar ouvidos" (2).
Um segundo mito de especial significação esotérica é o dilúvio. Ele é bem claro nas tradições babilônicas, hebréias (semíticas em geral), grega e romana. Entre os babilônios, o relato do dilúvio aparece na "Epopéia de Gilgamesh", descoberta em tabuinhas cuneiformes por John Henry Layard, nas ruínas de Nínive. Seu inestimável valor foi reconhecido no encontro de dezembro de 1872 da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em que, pela primeira vez, reconheceu-se uma nova descrição do dilúvio (3).
Da antiga literatura suméria (o sumeriano era uma língua, já à época, adstrita aos intelectuais, como o grego antigo e o latim) restaram cinco poemas relativos ao herói Gilgamesh e uma tábua, incompleta, tratava do dilúvio, não fazia parte do ciclo de Gilgamesh, mas foi nele incluído posteriormente. Há na realidade um Noé, nesta tábua, chamado Ziusudra ("ele viu a vida") e ainda um mais arcaico, datando da primeira metade do segundo milênio A.C., no qual o protagonista se chamava "Athrasis".
Com efeito, o Noé Bíblico que constrói sua arca e recolhe os animaizinhos indefesos para procriar-lhes as espécies inspira-se em estórias que circulavam na Babilônia nos anos do exílio Judaico. Por trás de um Deus que cria a humanidade e se arrepende depois, decidindo exterminá-la pela água, está um segredo ainda maior: o milagre do arrependimento e da remissão dos pecados pela água, retomado no batismo cristão. Assim, cessada a intempérie, disse Deus a Noé (Gênesis, capítulo 9, v. 1-3; tradução de João Ferreira de Almeida):
1 Abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra.
2 Terão medo e pavor de vós todo animal da terra, toda ave do céu, tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar; nas vossas mãos são entregues.
3 Tudo quanto se move e vive vos servirá de mantimento, bem como a erva verde; tudo vos tenho dado (4).
Este não é o momento adequado para abordar o assunto, mas hoje se sabe que boa parte da "Torá" fora escrita na Babilônia. Talvez agrupe estórias esparsas reunidas pelos hebreus desde o cativeiro egípcio, pois muitos episódios do "Velho Testamento" são cópias quase literais de papiros famosos no Delta do Nilo. Outras versões retratam tradições babilônicas absorvidas pelos Hebreus em seus contatos com povos vizinhos. Independente disto, Noé e Adão, o homem primordial, são patrimônio conjunto de hebreus, cristãos, gregos e uma série de povos antigos.
Um outro mito freqüente entre os antigos é o das "Idades do Mundo". Para Hesíodo, em "Os Trabalhos e os Dias" ("Kai Erga Imerá") estas idades correspondiam às cinco raças, a de ouro, a de prata, a de bronze, e a dos Heróis e a de Ferro. A raça de Ferro, assim como a "Kali Yuga" dos vedas e hindús coincide cronologicamente com o tempo comum, ou seja, nossa era. Lamentava Hesíodo que:
"Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça,
mais cedo tivesse morrido ou nascido depois.
Pois agora é a raça de ferro e nunca durante o dia
cessarão de labutar e penar e nem à noite de se
destruir: e árduas angústias os deuses lhes darão.
Entretanto a esses males bens estarão misturados.
Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
no momento em que nascerem com têmporas encanecidas.
Nem pai a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a
hospedeiro ou companheiro a companheiro
e nem irmão a irmão caro será, como já haviam sido;
vão desonrar os pais tão logo estes envelhaçam
e vão censurá-los, com duras palavras, insultando-os;
cruéis, sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder
retribuir aos velhos pais os alimentos;
[com a lei nas mãos, um do outro saqueará a cidade]
graça alguma haverá a quem jura bem, nem ao justo
nem ao bom; honrar-se-á muito mais ao malfeitor e ao
homem desmedido; com justiça na mão, respeito não
haverá; o covarde ao mais viril lesará com
tortas palavras falando e sobre elas jurará.
A todos os homens miseráveis a inveja acompanhará,
ela, malsonante, melevolente, maliciosa ao olhar.
Então ao Olimpo, da terra de amplos caminhos,
com os belos corpos envoltos em alvos véus,
à tribo dos imortais irão, abandonando os homens,
Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar
aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!".
NOTAS:
(1) "Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida.
(2) Anônimo. A Epopéia de Gilgamesh. São Paulo. Martins Fontes: 2001.
(3) Hesíodo. Os trabalhos e os dias.São Paulo. Iluminuras: 2002; Hesíodo. Teogonia - a origem dos Deuses. São Paulo: Iluminuras: 2003

Mais alguns Limites da Ciência

Sou um produto do século XX. Estudei matemática, física, química e biologia. Não deixo de consultar meu médico regularmente, uso antibióticos, interesso-me por astronomia. Leio bastante sobre técnicas para prolongar a longevidade e até mesmo a que está relacionada uma vida extensa e de boa qualidade. Na semana passada maravilhou-me um estudo científico que relaciona um determinado gene ao câncer. Retirando-o, pode ser inibida a reprodução desordenada de células que os médicos denominam "carcinogênese" mas também se acelera o processo de envelhecimento. Uma relação paradoxal entre os opostos.
O fato de respeitar a ciência não me tornou fanático por ela. Reconheço que muitas perguntas não foram ainda satisfatoriamente e, talvez, nunca o serão. Tomou ares de lugar comum a falta de precisão da medicina. Todos os dias nos deparamos com novas descobertas que contradizem tudo aquilo que havia sido dito há poucos anos ou meses. Não me surpreenderia se um grupo de pesquisadores australianos afirmassem em breve que fumar cigarros faz bem à saúde ou beber vodka aumenta a quantidade de neurônios no cérebro.
Na astronomia os estudos também são extremamente contraditórios e as "conclusões" instáveis. Houve mesmo a inflação do universo? Há defensores ardorosos desta tese, outras a afastam com desdém. O mesmo ocorre com a famosa teoria do "big-bang", que parece favorecer a tese cristã da criação "ex nihilo" (a partir do nada). Esta versão da origem do Universo coincide estranhamente com a visão neoplatônica do Uno e suas emanações ou do desdobrar do "ein soft" da cabala em "sephiróts" (ou hipóstases de Plotino). É bastante atraente para algumas religiões monoteístas mas não se sabe de quem a tenha provado, por enquanto.
As "dobras do universo" - e a pressuposta capacidade de nos remetermos a dimensões paralelas - ou as consequencias lógicas da teoria mais ampla da relatividade, como o espaço-curvo, têm servido mais para alimentar a imaginação dos escritores de roteiros para Hollywood que para ampliar nossa compreensão do funcionamento das coisas. Estas teorias - e outras que pululam no meio científico de hoje - soam extravagantes para os cérebros mais refinados e nos fazem, às vezes, acreditar que a parábola da criação do "Gêneses" é bastante racional (face ao que temos lido...)
Apesar dos astrônomos e físicos elaborarem modelos do universo, as certezas estão confinadas mais a estas construções racionais que à realidade. Mesmo com os poderosos telescópios - como o "Hubble" e aqueles dispostos em observatórios em terra - até hoje sequer conhecemos nosso próprio sistema solar (há coisa de um mês identificamos outro planeta e temos dúvidas se Plutão é mesmo um planeta ou apenas mais um objeto do "Cinturão de Kuipfer", uma vez que sua órbita é muito irregular).
E a matéria escura? Depois de termos negado o recurso teórico do éter (que fascinou tantos pensadores), cunhamos um outro conceito que não sabemos definir muito bem do que se trata, mas é útil para garantir a estabilidade de nossos modelos. Ela faz sentido por que nos dá um "quantum" adicional de matéria (espertamente chamada de "escura" e invisível") que ajuste nossas hipóteses a conclusões que deliberamente queremos tomar. Mais um "artifício de cálculo" que algo palpável.
E se nossos conhecimentos do universo e nossa Via Láctea são tão estreitos, o que dizer do que sabemos de nosso próprio planeta, a Terra. Nós ainda não a conhecemos, isto é inquestionável. Décadas após o lançamento de "Viagem ao Centro da Terra" do fantástico Júlio Verne, ainda ignoramos quase por completo o que existe no centro do planeta. Embora saibamos que a Terra não é oca (ao contrário do que pensam alguns fanáticos que sustentam esta doutrina esotérica), nada podemos asseverar com segurança sobre sua composição interior. Há projetos como lançar um bólido impulsionado por chumbo derretido em seu interior, provisionado com câmeras, porém este experimento é mais inviável que lançar sondas espaciais aos confins do sistema solar.
Em outras áreas do (des) conhecimento nossas limitações são ainda mais evidentes. Principalmente na biologia, na medicina, na economia, na física (sim, na física) e no terreno aparentemente árido e correto da matemática. Prosseguimos como viajantes cegos neste mundo que um dia sonhamos ter desvendado, do alto de nossa ignorância, propriedade indissociável da condição humana.
Como conclui Stephen W. Hawking em "Uma Breve História do Tempo" (1), tudo o que temos são modelos explicativos do comportamento das leis da universo. Os povos primitivos acreditavam que uma torre infinita de tartarugas sustentava a terra, nós referendamos a teoria da supercordas. "As duas descrevem o universo, ainda que a última o faça de maneira muito mais matemática e precisa do que a primeira. A ambas, entretanto, falta a evidência empírica: ninguém jamais viu uma torre gigante de tartarugas com a terra em seu topo; mas tampouco ninguém jamais viu uma supercorda".

NOTAS:

(1) HAWKING, Sthephen. Uma breve história do tempo - do big bang aos buracos negros. São Paulo. Ed. Rocco: 1988. 30a Edição.

domingo, novembro 27, 2005

Ciência e Divino - Tortuosa Relação

A ciência praticada entre os antigos ignorava a tortuosa relação entre o saber e o divino. O conhecimento nascia e se desenvolvia em meio á religião, que era um aspecto do conjunto da vida social. Só o iluminismo produziu a separação definitiva entre ciência e filosofia – abrindo caminho para o ceticismo absoluto - pois Kant foi o último filósofo-cientista.

Mas o que chamam de “ciência”, baseada no “método experimental” (formulação de hipóteses, teste das hipóteses e rejeição ou aprovação de seus resultados em um continuum ) ou no instrumental das matemáticas e da lógica formal nada mais que descrever o funcionamento do mundo, anotar regularidades dos fenômenos (sua repetição) e ampliar a previsibilidade dos eventos naturais.

Descrever a natureza não é conhecê-la nem afirmar a “razão” (sentido) do que existe no mundo. Se Newton e os físicos aplicam os princípios da mecânica e admitem o domínio da “Lei da Gravidade”, apenas dizem: dadas a distância, a massa de dois objetos e uma constante gravitacional se produzirá tal atração. Nada é dito a respeito dos mistérios do mundo e o “porquê” dos fenômenos.

A ciência atual conhece quatro grandes forças da natureza que exprimem o inefável e místico princípio criador: o magnetismo, a eletricidade, a atração nuclear forte e atração nuclear fraca. Não houve cientista que até hoje pudesse dizer em que consistem estes princípios. É possível tão somente descreve-los por meio de equações, o que prova as limitações de todo o conhecimento científico.

A moderna cosmologia também nada diz sobre a origem real do Universo. Pensou-se, durante séculos, que antigos como Cláudio Ptolomeu no “Almagesto” estivessem errados em colocar o planeta Terra como centro do sistema solar e não faltaram aqueles, após Copérnico e Galileu, que caçoaram das verdades sagradas e do “misticismo” daqueles que sustentavam esta teoria. Este proceder dos antigos tinha significado muito mais espiritual, pois do ponto de vista lógico, tanto faz dizer que a terra gira em torno do sol quanto o contrário, pois o problema é apenas o de apontar referências.

A leitura dos cosmólogos é sensacional e abre novos horizontes. Suas especulações matemáticas – extremamente complexas – sobre o início dos tempos (uma “explosão inicial”, ou não, finitude ou infinitude do universo, homogeneidade, processos de formação da matéria) e as peculiaridades dos universos (no plural), da matéria comum e da matéria negra (invisível) são instigantes. Mas, toda esta teorização continua dizendo muito pouco sobre as razões que levam as coisas a se darem desta forma e não de outra.

Jamais os cientistas saberão dizer por que os seres racionais surgiram neste pequeno planeta, por que motivo a vida está na terra e, até o momento, não foi encontrada em outras regiões do espaço e qual o sentido de nossa existência. Por que razões especialíssimas os elementos imprescindíveis à vida se achavam na Terra e por que motivo centenas de premissas para o brotar de seres animados se concretizaram aqui, não em outro lugar do Cosmos.

Estas explicações só nos podem ser dadas pela ciência esotérica, pela nova “Teoria Mística do Conhecimento”, jamais pelos cientistas.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Novas Teses sobre o Mundo

13. O mundo dotado de uma lei interna de movimento que estabelece proporções entre sexos e o termo da vida das pessoas, de ambos os sexos (Lei da Natureza). "A natureza ama esconder-se" (Heráclito).

14. A luta pela vida como princípio eterno e um dos componentes da Lei da Natureza enquanto Lei Superior de regulação das sociedades humana.

15. A falácia do "Natura non facit saltus". O "eterno retorno" como imperativo lógico-dialético.
15. O Uno e o Trino. O três aspectos do Uno. Manifestações exteriores do objeto (hipóstases). O objeto em si ("Uno") é incompreensível e inefável.

16. A "causa primeira" pode ser intuída ou vista em suas emanações (arrebatamento místico).
17. Da "Lei do Eterno Retorno" depreende-se a cadeia perpétua dos silogismos Tese-Antítese-Síntese ... Tese (ad infinutum).

19. O "destino". Erro daqueles que não acreditam no destino e supõe que o indivíduo sempre determina o seu rumo nesta terra. Da "Lei da Natureza" decorre como conseqüência lógica o poder do destino sobre a vida dos homens.

20. O "Pai, o Filho e o Espírito Santo". Deus, Alma, Espírito. "Psiqué" e "Pneuma". "Hagion Pneumaticon". Nada mais incompreendido que a distinção entre os conceitos de alma e espírito, cujo esclarecimento é a chave para a compreensão do princípio máximo da Trindade (o "Trino", explicado como a "santíssima trindade" cristã, egípcia, grega ou babilônia).

22. As fontes necessárias do conhecimento são duas: a razão e o arrebatamento místico.

23. A magia como conhecimento do "super-natural" (supra-natural) que é diferente da "Meta ta physica" (metafísica = "além da física"). A magia considera o arrebatamento místico como fonte do conhecimento, a metafísica a especulação lógico-formal ou lógico-dialética.

24. O "Homem" não historicamente realiazável no mundo pós-iluminista. O "Homem" se reduz ao "homem" (Universal contra particular). O "homem" não-determinado atual aparece como amálgama de atributos externos não-jungidos ao conceito universal de homem (este ponto necessita de explicação dada a sua complexidade).

25. O "homem-grupo" contra o "homem-sociedade". O homem presentificado como reflexo imediato não-consciente do grupo que engolfa sua alma ("psiqué"). Há um contraste nítido com o homem antigo que consciente e por imperativo da vontade coloca as pedras de uma sociedade que espelha o seu pensar. Não se verifica nos tempos passados a contradição ("contradictio") "homem-sociedade" mas homem = sociedade. Negativamente, o "homem" terráqueo hodierno é composto de elementos de um amálgama indeterminado e não-direcionado (aqui chamado de "grupo social", por contraposição a "societas").

26. Um princípio comum a todos os pensadores e homens de bom senso desde o começo do mundo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei, ou como sentenciou o Logos, "O primeiro mandamento é: amarás o teu próximo como a ti mesmo". Imperativo categórico de Kant e do rabino Hillel. Em nosso sistema natural o mandamento é alterado: "Ama o teu próximo como a ti mesmo, mas se padeceres de fome, coma-o".

Igreja Católica

Por quê ser católico? Por que a Igreja Católica Apostólica Romana representa a linha de continuidade com a Antiguidade Clássica. Estranho não?

quinta-feira, novembro 24, 2005

Daniela Mercury zomba do Papa

Não é possível que uma criatura vulgar, um subproduto da mídia histriônica baiana, a Sra. Daniela Mercury, ouse insinuar que irá entregar uma camisinha ao Papa Bento XVI no interior de um livro. Julga que o Vaticano pode ser tratado nos mesmos termos chulos que emprega em sua música e analisado sob a ótica medíocre de um raciocínio pobre, dominado por considerações da opinião pública.. O Vaticano é uma Instituição Milenar e o Papa, chefe de uma Igreja que congrega milhões de adetos. Deve ser respeitado, como dignatário de um país e líder de uma das maiores religiões do Mundo.

Entrementes, a proibição do uso da camisinha deve ser compartilhada por todas as fés cristãs. Embora não seja cristão, admito que uma religião deva zelar pela coerência entre práticas e suas doutrinas. O sexo, no cristianismo, é muito mais um meio para a procriação que uma brincadeira para obtenção de prazer. Admitir que a concepção pudesse ser evitada com o preservativo equivale a negar o princípio da vida e associar o ato sexual à egoística satisfação de institutos animais.

O que mais causa estranheza é que ninguém pede a um "Mullah" muçulmano para liberar as bebidas alcóolicas e a camisinha. Não há viv'alma que se preocupe com a ortodoxia sexual de algunas rabinos judeus e poucos se levantam contra os moralismos das diferentes seitas cristãs protestantes. Mas se o Vaticano faz isto ou aquilo, logo todos os "guardiões das liberdades" de plantão se levantam. Nunca nos esqueçamos: o Vaticano é de "direita", cometeu "atrocidades na Inquisição" e blábláblá.

Mas este é assunto para discussões futuras. Isto dá é pano para a manga.
Quando à Daniela. esta Senhora se diz católica, mas prova que é uma vulgar, pobre de espírito e que desconhece totalmente as doutrinas da Santa Madre Igreja. Volta pro Trio Elétrico e pra pipoca Daniela e deixe-nos em paz!

Nota sobre o Renascimento

É preciso fazer uma ressalva quanto ao renascimento. Por que os países árabes passaram por algo semelhante centenas de anos antes (redescoberta e tradução para o árabe dos textos gregos) e o movimento nunca resultou em "iluminismo". Há "iluminismo" árabe? Os jovens turcos como embrião do "iluminismo" muçulmano? E quanto às ditaduras e socialismos laicos em países muçulmanos. Não se pode dizer que sejam experiências nem de longe assemelhadas ao episódio histórico das luzes na Europa.

Estudando a história árabe encontraremos respostas para o desafio de burlar o "iluminismo". Lembrar que os árabes desenvolveram também o capital mercantil sem o capital industrial. O mistério da assunção e decadência da cultura árábe surpreende-me há anos. Como um povo de tamanha invergadura intelectual dobrou-se ao mais miserável atraso. De todos os monoteísmos, aquele que abriu mais portas ao conhecimento foi o árabe, produzindo pensadores como Avicena, Averróis, Ibn Al Arabî e os falsuf (filósofos).
Babilônia capital da humanidade, cidade sagrada. Babilônia dos profetas, a mãe das prostituras. Babilônia de Ninrod, Babel dos povos. O berço da cultura universal, jóia do rio Tigre. A Bagdá dos poetas feita "bunker" do Tirano grosseiro de Tikrit. O sangue de Ali derramado nas esquinas. Xiitas se chicoteando e cortando-se com lâminas afiadas. Eu consigo ver o céu azul dos astrólogos nas planícies de Babilônia.

terça-feira, novembro 22, 2005

TESES

1. “Phisys” e “Aletheia”, a dualidade atual entre natureza e verdade.

2. A coincidência entre ser e objeto se realiza na comunhão do homem com a natureza. Esta comunhão (união) não é operada por um ato puramente intelectivo mas pela interpenetração das essências do homem (“Anthropos”) e da natureza.

3. A verdadeira religião (“religare ”) é a cosmovisão dos antigos como permanente e imutável coincidência entre o ser e o ente. O abismo/fosso ser-ente não era estranho à antiguidade clássica.

4. A possibilidade metafísica moderna do conhecimento (“nous”) aparece enquanto falsa consciência iluminista e dissimulação. Gradativa tentativa dos iluministas em justificarem a mudança no curso do mundo desencadeada em meados do século XVIII (fuga da ordem natural das coisas).

5. A “Ordem Natural das Coisas” enquanto natureza (“natura = physis”). A "ontogênese" interrompida com a queda da cidade de Roma.

6. O “progresso” aniquila a relação entre a possibilidade de conhecimento da natureza interna (“self”) e externa.

7.Distanciamento da meta do “conhece-te a ti mesmo” (“Gnosses auton”) inscrita no Templo de Delfos.

8. A vontade atual em ato, a do homem antigo em potência.

9. Dissolução atual dos laços entre o homem “universal” e o “homem singular” e aparecimento do indivíduo. Não havia o indivíduo na antiguidade mas a compreensão do homem singular pelo universal. O universal dado no singular (Aristóteles).

10. Condições reais (dadas) para a prática da virtude entre os antigos. Real possibilidade do “ethos”. Na modernidade pós-iluminista subsistem as condições meramente formais da virtude.
Scientia servae Ethica entre os antigos. Limites da “polis” sobre a “episteme”.

11. Magia/Encantamento do Mundo. O “Ágape” e o “Agaton” inacessíveis ao homem secular. “Kalos” e o homem secular. O não-contemplar a verdade ("atheorein") da sociedade contemporânea.

12. O eterno retorno. O mundo (“Kosmos ”) como fluxo, refluxo e influxo perpétuos ("panta rhein" = “devir”). Curso do Mundo sujeito a interrupções de proporções cósmicas. Retorno ao ponto de partida (“Teos = Aletheia”).

segunda-feira, novembro 21, 2005

Continuação

Todo este arrozoado sobre o renascimento tem como finalidade dar nomes aos bois na qüerela sobre o caráter da ciência moderna. Ela é, ou não, fruto direto do iluminismo. Mais do que do "Renascimento", que, como vimos, mesclava-se ao sadio sobrenatural, ao terreno místico. O "iluminismo" era prosaico e sofrivelmente empírico. O "renascimento" abortado poderia equivaler à retomada do impulso verdadeiramente novo das civilizações da Grécia e Roma, a um novo humanismo que recuperaria todas as perdas sofridas pelo planeta desde que foram apagados os vestígios das grandes culturas.

Por que a ciência também se desenvolvia na antiguidade, mas dentro dos limites éticos impostos por uma sociedade ciosa do seu instinto de sobrevivência e do pertencer à natureza. Ninguém hoje duvida das imensas conquistas daquela sociedade. Em grande parte, os escritos daqueles povos se perderam. Imaginemos o que fora a Biblioteca de Alexandria e o pouco que nos trouxeram os monges copistas. Aristóteles é conhecido pelas anotações de seus alunos, pois nenhum dos Tratados originalmente escritos por ele foi preservado. Ademais, recordemo-nos das inovações tecnológicas dos antigos.

Caso não houvesse esta imprevista ruptura na ordem do universo, caso as formações sociais do passado não houvessem sucumbido, os destinos da humidade seriam outros. Uma sociedade unindo a ciência à natureza teria gradualmente tomado corpo - como já o fazia em Roma e na Grécia -; incorporando todo o conhecimento também da Alta Antigüidade. O mundo teria seguido um curso tal em que os homens não perderiam seus elos com a natureza.

O Renascimento é Superior ao Iluminismo

O “Renascimento” foi um movimento literário, artístico e filosófico que se estendeu de fins do século XIV ao final do século XVI difundindo-se da Itália em direção a outros países da Europa. A partir do século XV a palavra se aplica à indicação de uma grande renovação moral, intelectual e política através da volta aos valores da cultura em que o homem encontrou sua maior realização: a greco-romana. Em sua dimensão mais naturalista, despertou o interesse pela indagação direta da natureza, tomando o rumo do aristotelismo, da magia e da metafísica da natureza de Campanella ou um Giordano Bruno (1).
Sob um ponto de vista sócio-político, o “Renascimento” se verifica sob circunstâncias extremamente favoráveis a que as artes brotassem no solo europeu. Novas nações haviam sido fundadas no final do século XV e a expansão ultramarina das cidades-Estado italianas, Portugal e Espanha abriam novos horizontes aos europeus, ávidos de conhecimento acerca de outras culturas. Havia por trás deste movimento uma classe de mercadores, que sacava mão do capital mercantil para promover as navegações, sustentando as ambições dos reis e nobres em um processo simbiótico que sustentava as artes. Entre as classes coroadas e os plebeus endinheirados não faltaram “Mecenas” que patrocinassem a pintura, a escultura, a literatura, a poesia e a música, configurando-se naqueles anos dourados uma sociedade sem igual do ponto de vista da história universal.
Em contraponto, o “iluminismo” representou a reação das camadas mais sórdidas da ralé burguesa contra a ordem milenar européia, as sacras monarquias e a Igreja Católica Romana enquanto organização internacional, que, ao fim e ao cabo, responderam por séculos a fio pela relativa estabilidade política e o cosmopolitismo cultural do continente. Pobres de espírito como Voltaire e Rousseau, embalados pelo sucesso do grupo de Cromwell na Inglaterra, embalaram os sonhos conspiradores de uma parte da burguesia que despida de atributos intelectuais e dos mínimos dotes civilizacionais achava-se relegada aos estratos inferiores da sociedade francesa.
A guisa de esclarecimento, cabe aqui uma nota sobre o papel da Igreja Católica na Europa, durante a Idade Média e parte da Idade Moderna. Há que se fazer uma distinção entre a religião ao nível teórico – o monoteísmo cristão na versão romana – e o exercício prático do poder, que a Igreja desde a conversão de Constantino exercia sobre os reis europeus, com intervalos críticos e embates freqüentes nos quais, ao final, o cetro sempre retornava ao Papa da Cidade Eterna. A diferenciação entre a argumentação travada ao nível teórica sobre as doutrinas da Igreja e a avaliação de suas funções reais no cenário político europeu é de fundamental importância, pois sem uma estrutura fortemente hierárquica, de cunho internacional como a Igreja, jamais a Europa teria conservado após a queda de Roma sua invejável cultura e quaisquer laivos de civilização, tendo sido solapada pelos bárbaros que partilhavam de crenças que iam da bruxaria grosseira, ao arianismo e ao nestorianismo (2).
A opção “exotérica” da Igreja, ou seja, a predileção pelas minúcias nos ritos, uma liturgia sofisticada e o esplendor de suas catedrais e templos remonta ao bem conhecido amor romano à pompa e às formalidades sacramentais. Ao proceder desta maneira, inclusive resistindo ás tendências iconoclastas em seu seio e promovendo o culto aos Santos como intercessores junto ao Altíssimo, a Igreja Católica, tácita ou abertamente, contribuiu para conservar na memória coletiva aspectos essenciais do paganismo e, sem dúvida, ostenta até os dias de hoje um brilho e vivacidade que faltam às foscas seitas protestantes.
A Igreja Católica Apostólica Romana é a menos cristã – se compreendermos por “cristão” o corresponde ao núcleo rudimentar de ensinamentos do Nazareno. Graças aos “degradados” Papas da família dos Borgia e as orgias por trás da sucessão dos pontífices, devemos muito do que o renascimento e os maiores artistas europeus legaram à posteridade. Este feito, por si só, é grandioso, e parece justificar parcela dos males da Inquisição que, aliás, era certamente um instituto socialmente aceito e com impacto – hoje bem se sabe – menor do que supunham os historiadores marxistas e os reformistas religiosos que a escolheram como bode expiatório das suas próprias falhas.
Retornando aos revolucionários do Século XVIII que se auto-eclaravam “iluministas”, além das conseqüências imediatas de seu movimento – a Revolução Francesa e a Guilhotina, Napoleão e guerra fratricida – deixaram uma herança de sangue e ódio que alcançou a apoteose ao final do século XIX e início do século XX, com a vitória dos regimes socialistas na Rússia e Europa Ocidental. Na segunda metade, após a desastrosa experiência do nazi-fascismo, o socialismo tomava conta da Europa Oriental, tolhendo as liberdades individuais de milhões de indivíduos.
O “iluminismo” só poderia redundar nos macabros experimentos políticos do Século XX, o mais torpe e violento da longo história do Homem. Atendendo aos interesses de uma pequena camada da sociedade – a burguesia industrial, os capitães de indústria – este movimento só podia acelerar o processo de separação entre o ser humano e a natureza iniciado quando a grandiosa civilização pagã do Ocidente sucumbiu ao monoteísmo. No nazismo e, principalmente, no socialismo, o indivíduo estava aniquilado e a cultura era instrumentalizada por um aparelho de Estado cínico e alheio a princípios morais. O “iluminismo” teve como triste fim o “Konzentrazionslager" ("Campo de Concentração”) e o “Gulag”.


Notas:
(1) ABBAGNANO, Diccionario de filosofia. Fondo de Cultura. México, D.F: 1992.
(2) Seitas dissidentes do cristianismo professado pela Igreja de Roma.

A Ciência Moderna reduz o Homem

Nos acostumamos a vislumbrar o mundo pelas lentes da ciência por mais de quatro séculos e nossa sensibilidade diante das maravilhas da natureza foi embotada. A perspectiva científica com seu método clássico, à base da prova, se mostrou importante enquanto divisora de águas entre o misticismo medieval primário. Sobretudo, abalou o fanatismo religioso que levou à inquisição e aos inúmeros episódios de intolerância que mergulharam a Europa em um mar de sangue que se estendeu até o Novo Mundo.
Mas, uma vez liberto, o Prometeu da ciência, sem controles e desrespeitando os fundamentos do convívio humano por séculos, tornou-se um pesadelo que também produziu seus próprios fanatismos e o terror de massas genocida, que caracterizou o século XX. A ciência dos iluministas que visava à libertação dos homens do que se supunha a opressão das trevas converteu-se em seu oposto, uma arrogante ferramenta a serviço das elites econômicas e políticas, despojada de princípios, ignorante da ética, desvinculada da reflexão filosófica maior e insensível às grandes indagações do Homem desde os primórdios da vida em comunidade.
O período do renascimento foi qualitativamente diferente do iluminismo posterior. A antiguidade greco-romana era descoberta, a ciência passava a ser cultivada e apoiada pelos príncipes e nobres, mas as tradições esotéricas e místicas, as artes e a filosofia caminhavam em harmonia em um humanismo completo e global. Os grandes cientistas dos séculos XVI e XVII, Johannes Kepler, Isaac Newton, Leibiniz e tantos outros, ocupavam-se da astronomia e da física como instrumentos para a contemplação da verdade mística e divina.
Para Tycho Brahe, o formidável astrônomo observacional que construiu o maior observatório de sua época, reunindo a mais fantástica coleção de dados sobre os objetos celestes até então vista (que amparou as próprias teorias de Kepler), o rigor em precisar a posição dos astros e suas órbitas era fundamental para traçar horóscopos. Sim. A astronomia, em essência, não fazia qualquer sentido se não pudesse ser empregada como meio de aprimorar as previsões da astrologia. Importantes eram os homens e seu destino, não o exercício científico per si. Filosofia e ciência ainda não haviam se apartado, e celebres cientistas ou matemáticos como Leibniz e Descartes assentavam seus sistemas em uma procura resoluta pela razão última das coisas que remetia a Deus.
Contemporâneo e tido como co-descobridor do cálculo, Leibniz discutiu a localização da alma e concluiu, como Kepler, que o movimento depende da ação de um espírito, Deus. Isto pareceria estranho e inaceitável para um físico moderno, mas Leibniz partilhava do visão de mundo dominante (“Weltanshauung”) em que a metafísica abstrata conduziria o homem ao encontro do criador. Déscartes criou um método até hoje associado ao “cientificismo” e o crítico vulgar equipara “mecanicismo” a “cartesianismo” pois se esquece, deliberadamente ou não, que todo o seu sistema voltava-se premeditadamente para Deus.
Do que se sabe de Isaac Newton, seus estudos sobre mecânica, ótica, astronomia e cálculo diferencial e integral ocuparam bem pouco de seu tempo de vida. Suas maiores obsessões eram a teologia e alquimia, às quais se dedicou com paixão durante anos a fio. Talvez para Newton, assim como para Brahe, Kepler e, quem sabe, o próprio Galileu, progredir na concepção do mundo e conhecer suas leis naturais (ampliando a previsibilidade dos fenômenos) não fosse mais que um instrumento para alcançar a divindade e apreender parte do mistério da existência.
O homem era a medida de todas as coisas e aquela que se erguia como o campo mais importante do conhecimento, a alquimia, mais que a busca da pedra filosofal ou a transformação dos metais inferiores em ouro – objetivos de artífices vulgares – procurava separar o sutil do denso, a matéria corrutível da alma, nas palavras de Hermes Trimegistus na “Pedra da Esmeralda”.

domingo, novembro 20, 2005

O Álcool e o Sentimento de Culpa

O pior após uma noite de bebedeira é o sentimento de culpa que se apossa de mim. O "day after" é simplesmente tenebroso, depressivo, angustiante. Sinto que não deveria ter feito aquilo e que perdi grande parte do dia na cama. Fico me lamentando das bobagens que falei. Mas por quê? Mais uma vez, o resultado de um passado cristão radical que condenava a ingestão de qualquer bebida alcóolica. Dos subterrâneos do inconsciente emerge a censura que entristece e dá um enorme sentimento de arrenpedimento pelo arrebatamento etílico.

Isto é totalmente cristão. Um psiquiatra, certo dia, me disse que a bebida atua em nosso sistema nervoso central, desinibindo-nos, a princípio. Quando seus efeitos atingem o auge, a concentração de álcool no organismo é máxima, ocorre o movimento inverso. Acredito que seja como uma curva em "U" invertido, que tem uma fase ascendente (o bem estar causado pelas doses iniciais e a euforia) e outra descendente (a depressão). Mas esta é uma explicação demasiado controversa no meu ponto de vista. Conheço várias pessoas que sentem mau psicologicamente quando têm um porre, mas uma série de outras que não sentem nada além dos sintomas tradicionais de indisposição e se limitam a tomar um "engov", sem culpa nenhuma.

A melancolia do bêbado arrependido é, nada mais, nada menos, que o cristianismo infantil que aflora. Nenhuma das velhas religiões pagãs via com maus olhos os álcool. Nem me consta que os vetustos patriarcas da Bíblia (o "Velho Testamento" é repleto de ecos politeístas e pagãos), como Noé, abominassem a bebida. Pelo contrário, em uma noite de festa regada a vinho, foi flagrado pelo filho nú. Tirante algumas excessões, como as regras para as sacerdotisas de algumas deusas e deuses (as "vestais romanas", as "prostitutas sagradas" da Mesopotâmia e Oriente Médio), os antigos até veneravam o alcóol como meio ritual de acesso ao divino, o que tinha significado pleno nas festas dionisíacas dos gregos.

Eu gostaria de me debruçar um dia sobre a associação entre álcool e pecado presente em religiões como o cristianismo - para me restringir àquela predominante no Ocidente, pois o islamismo o condena até mais veementemente. Certamente é menor o grau de censura em organizações cristãs mais antigas como a Igreja Católica, maior em outras da matriz protestante, sobretudo o calvinismo. Mas não se pode negar que já estava inscrito nas palavras dos evangelistas e autores do "Novo Testamento", que exortavam os fiéis a abominarem as paixões dos sentidos, que o vinho aguçava.




sábado, novembro 19, 2005

Objetivo do Livro

Bem, tentando ser claro, o objetivo do livro é discorrer sobre a aparição do monoteísmo na história em suas diversas variantes - sobretudo as três maiores e atuais (judaísmo, cristianismo e islamismo) e a maneira como este acontecimento enterrou toda a cultura politeísta milenar, mergulhando a humanidade em condições de vida que a afastaram brutalmente da natureza.

A obra se dividiria em quatro partes. Uma ampla discussão dos contornos das sociedades antigas, sua religião, filosofia e arte. Mais adiante, as condições da dissolução daquela velha civilização e a penetração do cristianismo nos corações e mentes do ocidente, precedido pela religião hebraica. Segue daí o esforço em esquadrinhar os traços fundamentais dos monoteísmos que os tornam inferiores às religiões antigas em sua capacidade de promover o homem integral. A obra terminaria com uma exortação à volta dos valores consagrados do passado, à ética pagã e seu apego à família e à natureza, expressas no panteão divino.

Esta tarefa se constitui em trabalho homérico, resultante de anos de estudo, dedicação e contemplação das maravilhas da antiguidade. Certamente será aliviado pela pobreza de meu estilo moderno, os limites de expressão da língua portuguesa (outro detalhe interessante é a progressiva mediocrização das línguas de origem latina) e a parca literatura acessível aos pesquisadores do tema.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Plano da Obra - IV

Ah, os filósofos gregos. Foram eles que irrefletidamente abriram caminho para o cristianismo. Oxalá a Grécia nunca houvesse produzido outros filósofos que os epicuristas e estóicos. Estes eram médicos da alma que faziam do pensamento um estilo de vida. Todos eles são culpados pelas idéias que se encontram no cerne da Teologia Cristã. A permanência, a eternidade, a unicidade de Deus. A inconstância do mundo fenomenal face ao universo das idéias, imutáveis, perfeitas. O Bem e o Belo, o misterioso "Logos". Sócrates e Platão, o Cristo e o Paulo da Atenas clássica. O mito da morte e ressurreição incorporado em Sócrates vítima, na verdade, da democracia ateniense. Platão, o homem que detestava a poesia. Sem ele a humanidade seria bem melhor, sem Homero, Píndaro e Safo nenhum de nós contemplaria o belo que aquele odioso falastrão só concebeu intelectualmente.

Claro que detestavam o teatro. O filósofo idealista era matéria satírica naqueles tempos. Supunham que a poesia e as artes em geral iludiam os homens. Os dois eram muito inferiores à Aristóteles, o primeiro filósofo a uma visão de mundo abrangente e com alto poder explicativo. O sábio estagirita não desprezava a cultura. Estudou-a, traçou-lhe as origens, fez fama como o primeiro grande crítico literário que se conhece. Remontou as origens da tragédia ao Ditirambo, da comédia nos cantos fálicos dos rituais de fertilidade. Dioniso, pai da verdadeira beleza, não a quimera abstrata de Platão.

Aristóteles foi admirado e desprezado pelos cristãos na idade média. Seu pensamento foi amesquinhado e privado do que tinha de original e eterno. Não a física, mas a sua admirável visão da beleza, construída como um contraponto à ignorância arrogante de Platão e sua escola. A tragédia, expressão mais alta do drama, provoca-nos a "katharsis", uma purgação das emoções pelo compartilhamento do terror e da piedade. Os cristãos jamais acolheriam plenamente em seu seio um filósofo da arte que, ademais, preferiu fugir a ser morto após a queda de Alexandre. Não tinha a vocação socrática para mártir.




Fui Mórmom

Olha, em primeiro lugar, o que chama atenção em um blog é que o leitor deve começar a visualizá-lo de baixo para cima. Lembra a escrita hebraica e os antigos alfabetos, da esquerda para a direita. Voltando ao meu tema principal, eu já fui mórmom, sim Senhor. Naqueles tempos era obrigado a ler, além da Bíblia, o Livro de Mórmom e Doutrina e Convênios (D&C), afora a revista Liahona (a tal bússola que guiou a família de Lehi de Jerusalém aos EUA. Que viagem, meu Deus!).

Havia uma aura interessante em tudo aquilo, mas já estava entrando na adolescência e queria fazer várias coisas que igreja considerava pecados. Aliás, tudo era vedado a um mórmom. Beijar na boca, masturbar-se, ir a bailes (é claro que podia ir àqueles chatíssimos da Igreja), fumar, beber, tomar café, comer carne demais, tudo isto podia te mandar direto para o inferno, que existia e era liderado pelo CEO Lúcifer. E ainda tínhamos que nos casar com uma prendada moça mórmom, após um breve namoro onde carícias satânicas eram veementemente evitadas.

Aquela religião me deixava com medo de tudo. Tinha medo até dos meus pensamentos, pois quem não se lembra daquela passagem da Bíblia que nos manda arrancar o olho se cobiçarmos uma mulher, mesmo na mente. Eu vivia atemorizado, temendo o fogo do inferno e o Diabo. Rezava todos os dias segundo uma fórmula infalível (sempre começava com "Pai Celestial" e terminava com "em nome de vosso filho Jesus Cristo, amém"). Tudo aquilo de bom na vida era pecado. E para culminar, tinha de aceitar que os Estados Unidos eram o paraíso na terra enquanto Reagan invadia o Panamá e o Rambo matava aos borbotões no Afeganistão.

A religião mórmom ou, melhor dizendo, "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias" tinha um quê de pitoresca, isto não posso negar. Não era cristã, em sentido estrito, pois admitia, ao lado da Bíblia, o "Livro de Mórmom", como revelação e palavra do Senhor. Para quem não sabe, esta clara farsa fora escrita pelo "Profeta" Joseph Smith, que plagiou um livro de aventuras da época. O "Livro de Mórmom" foi supostamente traduzido por Joseph Smith graças à revelação de um anjo. Preparado durante anos para sua tarefa, Smith encontrou as placas de ouro do "Profeta" Mórmom (um "nefita" que vivera milênios) e usando o urim e tumim (duas peças fabulosas que davam a quem as usava o dom das línguas) verteu-o para o inglês (o livro era escrito em uma língua desconhecida, com caracteres estranhíssimos).

O enredo do "Livro de Mórmom" de tão improvável soa anedótico, mas milhões de pessoas no mundo acreditam nele (os mórmons são maioria no Estado de Utah, EUA, por exemplo). Em linhas gerais, narra-se ali a história da descendência de Lehi e Néfi, que vieram até à América em um navio construído por ordem do Senhor, guiados por uma bússola miraculosa, a Liahona. Daquele núcleo original surgiu um povo que se dividiu em duas nações - nefitas e lamitas. Os nefitas eram bons e brancos, os lamanitas, maus e escuros. Ao final, as duas nações entram em guerra e ganham os lamanitas (negros), que são, na verdade, os atuais índios americanos.

Ninguém em sã consciência acreditaria nesta estória, mas, quando se tem dez anos, crê-se em tudo. E no dia em que me batizei na Igreja, mal sabia que começariam todos os meus atuais tormentos, que decorrem da influência nefasta daquele pensamento intolerante sobre o meu inconsciente. A religião introduz freios fortíssimos em nossa alma, torna-nos pessoas doentes, acabrunhadas por um perpétuo sentimento de culpa. Até hoje, sinto-me culpado quando bebo. Sinto-me culpado por sentir desejo. Apesar de não ser mais religioso, continuo a nutrir um medo tenebroso da morte. Afinal, está dentro de mim, arraigada no interior do meu ser, a idéia do inferno e das penas que lá me aguardam.

Mas continuo a não me sentir livre. Abandonei a religião e ainda sou religioso, no íntimo. Como dizia Philipp Carey (1) , deixei a religião mas conservei-lhe a ética. Cheguei à conclusão que ninguém se torna totalmente irreligioso. Pertencer à uma Igreja ou seita deixa marcas por toda a vida. E o pior: largá-la nos faz ansiar eternamente por algo mais, pois apesar de não existir, Deus era o único motivo de nossas vidas.

Notas:
(1) Personagem de Sommerset Maugham em "Servidão Humana".

quinta-feira, novembro 17, 2005

Plano da Obra - III

O cristianismo - mais contagioso e de evolução mais rápida que a religião hebréia - representou a ruína de uma civilização grandiosa, inventiva e que legaria à posteridade os elementos do progresso material da atualidade. Ninguém mais genial que o Nietzche do "Anticristo" ao vituperá-lo, "a religião da piedade" (barata, diga-se de passagem), "(...) A piedade, porém, é deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver. O homem perde o poder quando é contagiado pelo sentimento da piedade, e esta dissemina todo o sofrimento".

A humanidade, para o alemão, aprendera a considerar a piedade uma virtude, quando ela é, na verdade, uma enorme fraqueza. Ela é uma tendência hostil à vida, vista por Arisóteles como algo nocivo e perigoso que se fazia mister eliminar. Era contrária ao instinto vital e à lei da sobrevivência, algo profundamente anti-natural. O cristianismo transformou em produto do pecado e em "sacramentos" os atos mais banais e corriqueiros da vida: o batismo, que nos redime do pecado de nascer, o crisma, de nos tornarmos férteis, o casamento, de podemos fazer amor. Até morrer é vergonhoso é merece uma extrema-unção.

Mais que isso, este monoteísmo carente de fundamentos introduziu uma noção estranha à toda a evolução: a igualdade dos homens-carneiros, a dinamite cristã, "essa falsidade , esse pretexto para os mais baixos rancores de todos os espíritos inferiores (...)" que só poderia degenerar no socialismo real e em seus horrores. Este, nascido sob os auspícios da revolução russa, nada mais foi que obra de cristãos travestidos em marxistas, agarrados à nova doutrina do Pai, do Filho e do Espírito Santo representada por Marx, Engels e, ao longo do século XX, Joseph Stálin, ditador ainda mais sanguinário que Hitler.

Plano da Obra - II

Nos "Atos dos Apóstolos", obra atribuída a "Lucas, nosso amigo", o diálogo de Paulo com os filósofos de Atenas é um curto testemunho do início da contaminação daquela portentosa sociedade pela medíocridade monoteísta, pelo Deus invisível, o Amon reencarnado em Cristo. "Havia até filósofos e epicureus que conversavam com ele". Aí disseram os filósofos:

"Realmente estás sempre a nos atezanar os ouvidos com afirmações estranhas, e nós queríamos saber o que é que elas significam". Então, "De pé no meio do aerópago, Paulo tomou a palavra: 'Atenienses, eu vos considero, sob todos os aspectos, homens quase religiosos demais. Com efeito, quando percorro as vossas ruas, o meu olhar se dirige, muitas vezes, para os vossos monumentos sagrados, e descobri entre outros um altar com esta inscrição: 'Ao Deus desconhecido'. Aquilo que venerais assim, sem o conhecer, é o que eu vos venho anunciar".

Este discurso de Paulo no sagrado aerópago marcou o termo formal da civilização antiga. Paulo de Tarso, o judeu convertido, zombava das tradições e da cultura de Atenas (a bem da verdade, já empobrecida intelectualmente) e contaminava aquela sociedade com o veneno do misticismo egípcio-oriental. Este mesmo Paulo, formado na tradição greco-romana, lançava mão das artes da retórica contra a civilização que lhe fizera um homem livre (condição de que se valeu nas inúmeras vezes em que esteve prestes a morrer). Pela primeira vez na história da humanidade uma sociedade avançada e livre, magnânina e benéfica com os povos, cedia à força de milhares de sorrateiros conspiradores infiltrados em seus poros: os cristãos.

Foi este mesmo Paulo que deu os retoques finais nas doutrinas rudes de pescadores que seguiam Jesus de Nazaré, cuja existência histórica - além do "Novo Testamento" - é mencionada apenas da "História dos Hebreus" de Flávio Josefo. É opinião geral, partilhada por Ernest Rénan ("La vie de Jésus"), que o próprio Jesus, se existiu, jamais aprendeu o grego, sendo seu idioma o dialeto siríaco misturado ao hebraico palestino. Não tinha nenhum conhecimento da cultura grega, proscrita pelos doutores da Lei que exerciam absoluta autoridade sobre sua classe.


Plano da Obra - I

No dia em que a filósofa e matemática Hipácia foi supliciada em Alexandria, com as carnes escanhoadas por cacos de vidros empunhados por fanáticos cristãos, o velho mundo pagão deu seu derradeiro suspiro. O politeísmo estava morto, Héracles, Zeus, Hera, Apolo, Ártemis eram sombras do passado que muitos séculos depois, no renascimento, viriam novamente a inspirar as artes e o pensamento. Os Deuses romanos e seus templos tinham sido devastados, atendendo à ânsia por ouro ("auri sacra fames") dos governantes. A enéada egípcia jazia em uma diáfana fumaça de superstição, embrenhando-se no misticismo dos cristãos coptas (graças a Deus terem existido, pois Champolion jamais decifraria os hieroglifos sem seu rito religioso). Toda a imensa riqueza cultural acumulada através dos tempos morrera com os homens e os livros daquelas civilizações.
Já nos estertores do império romano, o Bispo de Hipona (Cartago), Santo Agostinho, estigmatizava os poetas e Deuses do passado. Sem conseguir se libertar inteiramente de grandes homens como Platão, Aristóteles, Plotino e os moralistas romanos, os cristãos foram, no entanto, medíocres em preservar a sua essência. A realidade era a de S. Bento de Múrcia, que anatematizava os "demônios" (antigos ídolos) sob as igrejas e dos lunáticos que se despedaçavam em lutas intestinas em torno de bizarros artigos de fé. Algo de são seria descortinado com o advento do islã, mas também adstrito às grossas barreiras de pensamento impostas àquele monoteísmo.
Agora era Apolo esfolado por Marcias, não o contrário. A vingança da barbárie contra a civilização. Anos antes, com as conquistas de Alexandre, o Grande; os próprios gregos haviam fornecido ao futuro inimigo as armas que os aniquilariam. Fundaram uma nova civilização na Palestina, o jardim onde floresceu o monoteísmo egípcio. Deram a seus ignaros habitantes uma língua, que embora mais pobre que a falada e escrita possuía enorme potencial de difusão, o grego "Koiné", em que fora escrito o Novo Testamento. Presentearam aquele povo com a filosofia platônica e neo-platônica, que traria fôlego ao pensamento cristão. Ensinaram rudimentos de arte e domínio de técnicas da guerra àquele povo.
Dotaram-lhes os gregos, enfim, do "Logos" e da "Sophia". "Fos" (Luz), clama o evangelista. Os lumes da academia helênica davam foro privilegiado a um pensamento até então tão tosco e rude, o monoteísmo hebreu. Vinha à tona um conjunto mais harmonioso de idéias, o "Novo Testamento", lastreado em valores comuns à civilização greco-romana - e férteis em "modelos de vida" como o epicurismo e o estoicismo - como a piedade, a temperança, a justiça, a compaixão. O cultivo perpétuo da virtude e o princípio do "Ama o teu próximo como a ti mesmo", elevado no século XVIII ao imperativo categórico kantiano.

José no Egito. O Asiático


Há dois momentos históricos "catalizadores" do monoteísmo que viria mais tarde a ser universal. A venda de José ao Faraó do Egito - uma alegoria da entrada deste povo, os "hapirus", no país do Nilo - e o contato dos hebreus com as novas idéias da Era Amarniana (aqui compreendida como o período que se estende do avô até o próprio Akhenaton, fundador de Akhetaton, atual Tel-El-Amarna) e que introduz Moisés como personagem.

Para Bernard Lazare ("Antisemitism - Its history and causes. Nebraska. Nebraska Press, 1995"), "É certo que os filhos de Jacob que vieram à terra de Goshen sob o Faraó Pastor Aphobis, foram tratados pelos egípcios nos mesmos termos que seus irmãos, os Hicsos, aos quais se referem os textos hieroglíficos como 'leprosos' e 'praga', 'peste' em outras inscrições. Eles chegaram justamente no momento em que um sentimento nacional extremamente forte se manifestou contra os invasores asiáticos, odiados por sua crueldade; o que levou à guerra de independência de Ahmos I (Amosis I) e à escravidão dos hebreus" (tradução própria).

Federico Arboria Mella, no seu "Egito dos Faraós - História, Civilização e Cultura. São Paulo. Ed. Hemus, 1998"), é magistral ao pintar com o mais vivo colorido as turbulências daquele momento histórico, que cobria as XV e XVI dinastias, segundo a lista de Mâneton (1). Durante as duas dinastias anteriores a estabilidade da coroa se tornara precária, com uma série de lutas dos pretendentes ao trono, as fronteiras do país eram porosas e sujeitas a invasões. Surgiram até mesmo duas dinastias distintas, uma em Tebas, outra em Xóis, no Delta.

Não era de se estranhar que, "Os asiáticos, que há muito atacavam as fronteiras orientais, especialmente me períodos de carestia, visando a alimentar seus rebanhos, nas pradarias do Delta, eram acolhidos e colocados em algumas zonas para eles reservadas. Aproveitando-se agora da falta de controles, faziam migrações mais numerosas, autorizadas ou não. Tempos atrás este fato não teria despertado preocupações, pois tratava-se de pacíficas tribos de pastores nômades que, uma vez superada a carestia, retornavam a seus países de origem. Mas depois de vinte ou trinta anos de imigrações sucessivas, havia-se formado uma grande contingência".

Exoticamente, "em certa ocasião, elegeram o próprio Rei, Ciarak (Saratis), o qual mandou buscar seus patrícios, destronou o negro Nehesi e assumiu o título de 'Rei dos dois países', surgindo a XV dinastia. Estes eram denominados por José o Hebreu de "hicsos" ("os Reis Pastores") e pelos egípcios de Hika-Khasut, os "chefes de países estrangeiros". Eram um cadinho de semitas e indoeuropeus cujo primeiro núcleo partiu do Cáucaso em torno de 1900 a.c., sujeitou o Retenu (2) e, após, consolidou um império no Egito com centro em Àvaris.

É este, indubitavelmente, o período de José no Egito. Há duas razões pelas quais não poderia ser outro: a) não há documentos autenticamente egípcios que citem um vizir de nome Yussuf (José), mesmo avaliando-se a mudança de nome promovida em Gênesis XLI pelo Faraó, que o batizou de "Doador da Vida" ou "Tsafnatpahaneah"; b) No Egito independente um homem como José jamais seria condecorado com tal cargo. Orgulhosos, os egípcios denominavam apenas a si "os homens" e desprezavam do fundo da alma os asiáticos. Segundo um papiro de Merikare, da X dinastia, citado por Mella, "Observa o miserável asiático (...) ele não vive num lugar fixo, suas pernas são feitas para andar no deserto. Sempre lutou, mas nunca conquistou nada (...) não pode vencer nem pode ser vencido; pode roubar uma pessoa numa estrada solitária, mas jamais combater contra uma cidade".

Pessoalmente, não creio em uma crença monoteísta no Deus Yaveh entre os "hapirus" (hebreus), antes da entrada no Egito. Entrementes, a existência de um personagem histórico a quem se pode conferir o epíteto de "José", aos olhos de hoje, é um fato. Nem que fosse tão somente uma vaga alusão à entrada daquele povo "asiático" no Egito e seu primeiro contato com uma nova, mais antiga e brilhante civilização. Se houve um José de carne e osso, não importa. Alguns detalhes de sua vida, descritos na Bíblia - como o episódio da mulher de Potifar - são ecos de antiqüíssimas narrativas egípcias, como a "História dos dois irmãos", encontrada no Papiro d'Orbiney (Museu Britânico, 10183), da XIX dinastia (Anúbis era casado e sua mulher tentou seduzir o irmão Bata, que a repudiou e foi acusado de assédio).

Naqueles tempos em que as estruturas milenares do Egito eram convulsionadas pela desordem e as migrações maciças de hordas ignaras de invasores asiáticos, uma centelha das modernas religiões monoteístas se acendeu. Ela viria a se tornar uma poderosa labareda alguns anos mais tarde, em outra ocasião de rotunda mudança social, cultural e política, quando o faraó Akhenaton, precedido por seus antepassados imediatos, procedia à maior reviravolta no mundo egípcio até então vista. A adoração a Aton, o Disco Solar e a fundação definitiva da primeira religião monoteísta histórica.

Notas:
(1) Autor de célebre tábua dos Reis e dinastias do Egito.
(2) Retenu era como os egípcios daqueles tempos denominavam uma Região do Oriente próximo atualmente formada por territórios de Israel, Líbano, Síria e parte do reino da Jordânia.
OBS: Foto da múmia do Faraó Amósis I

quarta-feira, novembro 16, 2005

O Preconceito Macedônico e Romano contra os Egípcios

Antes de continuar esta digressão histórica convém perguntar: como uma religião tão diferente dos ritos predominantes na sociedade pré-ocidental, greco-romana, influiu tão decididamente sobre seus monoteísmos dominantes, o judaísmo e o cristianismo. A religião ancestral de Tebas, Heliópolis, Carnac e Mênfis era motivo de repugnância por parte dos sofisticados habitantes helenizados de Alexandria, seus praticantes equiparados a suínos e, em Roma, a propagação do culto a Ísis e dos mistérios mais recônditos professados pelos sacerdotes da terra mãe, em alguns momentos históricos era uma preocupação de Estado.

Particularmente, debito o preconceito dos gregos de Alexandria e dos romanos ao olhar de uma cultura nova que já havia se esquecido da contribuição dos egípcios ao desenvolvimento da filosofia e das artes nos primórdios da civilização. Ademais, os primeiros descendiam de macedônios, pelos demais gregos julgados "barbaros". Os segundos jamais compreenderiam uma religião em profundidade, não haviam esquecido o culto aos deuses domésticos e Mitra, o Deus do fogo, não conquistara ainda o espírito das legiões. Talvez, como engenheiros e técnicos que eram, lhes fascinassem as maravilhas arquitetônicas daquele longínquo país ao qual os romanos mais ricos iam como turistas (1).

Quanta diferença com relação aos verdadeiros gregos, os nobres habitantes de Atenas, Esparta, Tebas e de toda a Grécia insular, ainda não contaminados pela ignorância oriental e a petulância selvagem dos macedônios. Estes, admiravam os egípcios. Foi lá que Thales mediu a altura das pirâmides. Foi de lá que trouxeram a geometria, cujos princípios se atribuiu depois à Pitágoras. Foi de lá que veio Herácles, do que se depreende da "História" de Heródoto.

As pinturas gregas anteriores à grande civilização erguida no século V a.c. têm muito de egípcio, assim como muito do Egito perdurou nos mistérios religiosos - entre eles, os de "Elêusis" - e nas filosofias pré-socráticas e neo-platônicas. Mas a Grécia clássica, ambiente democrático e propício ao questionamento, inovou na concepção do belo (o que se vê na perspectiva das gravuras e no realismo da escultura) e no abandono do sentido transcendental e místico da vida, abraçando os Deuses de Estado com paixão quase literária e indiferença religiosa.

(1) O próprio Heródoto fora como turista ao Egito e descrevera seus Deuses com nomes gregos.

Origens - Akhenaton


Ninguém aqui tem a pretensão de esgotar temas. Lançam-se problemas para a discussão e hipóteses. Aqui não se arroga cientificidade nem certezas. Decerto, o problema do Uno e do Trino é mais vetusto do que imagina a nossa vã filosofia. Investigá-lo tem por premissa uma "démarche" metodológica que nos leve de volta às origens das "religiões do deserto" no longínquo Egito dos Faraós e às primeiras tentativas de abolição do politeísmo na alta antiguidade.

A tese das "religiões do deserto" me agrada bastante. Quais são elas? Os três grandes monoteísmos, pela ordem, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, precedidos pelo culto à Aton prestigiado e engrandecido pelo Faraó Akhenaton. Segundo Christian Jacq ("Nefertiti e Akhenaton, o casal solar.Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2002):

"Aton não é uma divindade inédita na religião egípcia. Desde a época de Tutmés I que ele é considerado uma força criadora, uma força que não se reduz à forma exterior do Sol; mal o faraó morre e sua alma imortal voa par o céu e une-se ao disco solar, Aton, para brilhar eternamente. "Subiu ao céu", diz um texto referindo-se ao faraó Amenemhat I, e "uniu-se ao Disco, o corpo de Deus se comunicando com Aquele que criou".

Concebido como o corpo de Ré (1), durante o reinado de Tutmés IV Aton já era adorado, dentro dos limites de Tebas e mesmo nos arredores de Heliópolis e Mênfis. O avô (Tutmés IV) e o pai (Amenhotep III) de Akhenaton conheceram Aton. Posteriormente, desconfiado dos tebanos, o novo Faraó privilegiou Heliópolis e o culto ao disco solar e evidências comprovam que o grande sacerdote do culto a Aton usava o título de "grande vidente", consagrado ao sumo sacerdote de Heliópolis.

A nova religião, dedicada ao Deus Ùnico, era adotada quando um novo povo habitava o Egito. Durante séculos confundidos com os minóicos - cuja capital, Creta, foi magnificamente escavada por Sir Arthur Evans no século XIX - os chamados "homens do mar" que infestaram o Egito em determinado momento histórico hoje são considerados como sendo antigos guerreiros hititas. Por outro lado, os misteriosos "hapirus", nada mais são que os hebreus. O profeta fundador de sua religião, Moisés, era um egípcio, pois Moisés é uma corruptela dos muitos nomes "Kmoses" comuns ao país. Data daí o início do segundo grande monoteísmo histórico, o judaísmo, profundamente enraizado no misticismo egípcio e nas superstições obscuras daquele povo.
A massiva difusão do monoteísmo entre este povo inculto e nômade, os hapirus, ou hebreus, dá-se em duas fases históricas. Quando mesclados às hostes dos hicsos invadem o Egito - no período em que seu chefe, José, é nomeado intendente do Faraó - e quando Moisés os conduz rumo à Terra prometida.
Notas:
(1) O carro solar

A Trindade

Um dogma tão antigo quanto o da santíssima trindade faz pensar, qual os cabalistas hebreus e os membros das antigas fraternidades esotéricas: por que este número é tão mágico e se repete em uma infinidade de fenômenos e circunstâncias? O uno e o trino, da figura histórica do neoplatônico Plotino ao mito alexandrino de Hermes Trimegistus e à santíssima trindade cristã, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, as reflexões sobre o caráter intrínseco do assunto multiplicam-se sob a capa do misticismo supersticioso ou da filosofia mais abstrusa.
A origem da idéia da trindade é mais antiga. Encontramo-la entre os babilônios e os povos do Crescente Fértil, vemo-la na mitologia egípcia sob a forma de Seth-Hórus-Osíris e a notamos aflorando no panteão dos Deuses Gregos e Romanos. Sempre a fusão, a idéia do múltiplo a conviver na unidade. Hermes Trimegistus, o Deus grego Hermes e o egípcio Thot, Hermes o "Três Vezes Grande".
Mas o fato é que a questão se coloca. Homem e mulher dão seus frutos, da mistura de dois elementos surge um terceiro. A dualidade precede a unidade, o uno é anterior ao ser. Mas a resposta para este mistério só se pode obter através da iluminação e de revelação, em um instante de arrebatamento profundo face à força do criador dos céus e da terra. Pelo caminho da razão não chegaríamos à verdade (se é que a razão conduz a ela) mas sim através do contato com o divino ser da natureza.
Eis que a um pobre mortal, em uma radiosa manhã de domingo, foi concedida a benção de conhecer tal mistério. Ao contemplar as maravilhas do céu seu espírito estremeceu e aquele doce torpor dos homens e mulheres transladados ao divino percorreu-lhe o corpo. Tudo fora desvendado em um átimo de segundo, toda a essência transcendental que buscava. O Espírito Santo se lhe afigurava como o sopro do altíssimo sobre todos os homens, que os vivificava. O Pai, como a causa inicial do mundo e o filho como a alma que habita na carne. A distinção suprema entre alma e espírito se estabelecera.

Onças e Lobos


Onze bezerrinhos mortos em Ribeirão de Santo Antônio, distrito de Coronel Pacheco, Minas Gerais. Os suspeitos? Duas onças, a mãe e seu filhote. Como sou um provinciano intratável (apesar de ter saído de Minas faz uma década) fiquei impressionado ao ler que os felinos vieram de São João Nepomuceno, cidade vizinha a Bicas e Juiz de Fora, onde morei quando criança e adolescente.

Existem onças ainda por aquelas bandas? Esta notícia me alegra e traz reminiscências do passado. No meu imaginário o que restava da Mata Atlântica no Brasil estava fadado à desoladora ausência da vida animal mais agressiva. Tudo o que me recordo de um bicho do mato tem a ver com a visita a Sete Lagoas, Minas, com meu pai, quando ainda era um garoto. Ele tinha amigos de infância que ia visitar ocasionalmente e me levou consigo. Sete Lagoas, dizia, à época em que morou lá , nos anos 20, era um lugar em que as pessoas não saíam de casa à noite, receosas das matilhas de lobos que perambulavam pela cidade.

Eu nunca havia visto um lobo, exceto na televisão. Quando fui apresentado a um, a coisa não foi nada agradável. Ao contrário do passado, agora os homens é que atemorizavam os lobos. Fomos a uma praça onde um miserável animal, recém capturado por um caçador, jazia quase desfalecido, a boca ensangüentada e deformada, por uma armadilha que lhe rasgara as carnes. Era assustador e a cena me encheu de profunda comoção. Queria sair dali, mas as pessoas em volta, curiosas, entretinham-se com os detalhes envolvendo a proeza.

Naquele dia, fitando os olhos tristes daquele animal, percebi em toda a sua extensão a maldade humana. Nenhum animal, exceto os da nossa raça, caçoa de uma pobre vítima ao invés de devorá-la. Anos mais tarde eu aprenderia esta dura lição, caçado e imolado na fogueira vã que é a vida entre nossos semelhantes.

Whitman, o Filósofo da Religião

I celebrate myself, and sing myself,
And What I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.
I loafe and invite my soul,
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass.

My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air,
Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same,
I, now, thirthy-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.

Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy
”(*)

Walt Whitman

Walt Whitman! Um único verso deste grande homem vale mais que toda a numerosa obra dos Sartres, Simones de Beauvoir, Kierkegaards, pós-modernistas franceses, escolásticos de Frankfurt e todo o séqüito de basbaques que fizeram a miséria do século XX. Whitman contém o germe da sabedoria em seu texto, é um panteísta, imbuído do Deus-Natureza, “pois cada átomo que pertence a mim, igualmente pertence a ti”.

Nos seus poemas desfilam homens, mulheres, crianças, flores, instrumentos de trabalho, soldados, armas, navios, objetos em geral, todas as coisas nas quais está imbuído o seu espírito. É imortal, a natureza externa sempre existirá e ele faz parte dela, feliz, garimpando beleza no que é aparentemente prosaico. No mundo utópico de Whitman o homem que ele singulariza retorna a um idílico estado anterior à queda, vive com os animais em paz e sorve o fio da vida sem que a morte o aborreça.

I think I could turn and live with animals, they are so placid and self contain’d,
I stand and look at them long and long
”.
"Eu penso que poderia mudar e viver com os animais, eles são tão plácidos e contidos,
Eu me levanto e os olho longa, longamente".

A inspiração é nitidamente religiosa. O poeta transborda de amor por tudo que o cerca. O estilo tem algo de bíblico, com repetições de frases e efeitos melódicos que lembra as admoestações dos visionários do velho testamento. "Again the long roll of drummers, again the attacking cannon, mortars, again to my listening ears the cannon responsive" ("Mais uma vez o longo rufar dos tambores, mais uma vez o ataque dos canhões dos morteiros, mais uma vez aos meus ouvidos atentos soa a resposta dos nossos canhões").
A poesia de Whitman é uma filosofia da religião. Ao lê-lo não consigo dissociá-lo do não-dualismo hindu em que o Deus cultuado pelo homem não é aquele bondoso velhinho lá no céu, mas está dentro de si próprio. È o Deus que como ensina Swami Vivekananda é inerente à natureza, não está apenas no firmamento, está também na terra e em todos nós. Whitman é o profeta deste mundo alojado em nossas vísceras, cuja descoberta – através de sua leitura, à beira da praia – aproximou-me um pouco mais do sentido da existência.
(*) "Celebro a mim mesmo, e canto a mim mesmo,
E o que eu pensar também vais pensar,
Pois cada átomo que pertence a mim igualmente pertence a ti;
Eu vadio e convido minha alma,
Me deito e vago tranqüilo observando um talo da relva de verão.
Minha língua, cada átomo do meu sangue, formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo, e seus pais o mesmo,
Eu, agora com trinta e sete anos de idade em perfeito estado de saúde, começo,
Com a esperança de não párar até a morte.
Crenças e escolas ficam em suspenso,
Recolhendo-se por enquanto na suficiência de serem o que são, mas nunca esquecidas,
Aceito pensar para o bem ou para o mal, permito que se fale em qualquer ocasião,
A natureza sem entrave com sua energia original".

Grosseiro Individualismo

O triunfo do individualismo mais grosseiro. Outro dia um cidadão acionava o órgão competente da Prefeitura contra uma Igreja. O "barulho" do sino o incomodava. Tocar um sino reúne um misto de talento e perseverança, afinal, trata-se de um instrumento musical. Mas este ao que parece não era um destes sinos tradicionais, como aquele que o corcunda de Notre Dame repicava aos trancos e barrancos.

Era um pequeno aparelhinho eletrônico com um amplificador e alto-falantes que, com certeza, nem possuía tanta potência assim. Duvido que a paróquia pudesse elevá-lo à altura de um monte de decibéis, ao ponto de atazanar o sono da figura. E mesmo que o fosse, não era hora de um brasileiro de bem, estar se levantando para o trabalho? Aí está o busílis da questão. Os tempos são outros, ninguém se ocupa de nada que não seja a própria vidinha e, ocasionalmente, da família.

Tamanho é o desrespeito por quaisquer valores que uma Igreja milenar, a Católica Apostólica Romana, é alçada ao mesmo nível do botequim da esquina freqüentado por arruaceiros contumazes. E o mais significativo em todo o episódio é que envolve (já consigo ouvir as vozes roucas dos pileques e tragadas de cigarros da esquerda se levantando contra mim ) a Igreja Católica. Ao acatar a denúncia do indivíduo em lugar de dar-lhe um chute no traseiro, a autoridade sancionou o ato sacrílego.

Um reles funcionário de quinto escalão engrossa as hostes deste movimento internacional contra a plataforma ética ocidental, destrói os fundamentos da civilização incorporados inocentemente num sino que ressoa há milênios. Ainda há pouco um oficial da PM causou escândalo ao entrar no Centro Espírita sem ser convidado. Foi exonerado. Qualquer leve objeção às práticas dos "Baha-is" ou dos muçulmanos fundamentalistas é tida como enxovalhar a liberdade de expressão. Mas o pequeno sino não pode bater na capela sem que os rigores da lei recaiam sobre o pobre pároco.