Gurdjieff

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domingo, agosto 03, 2008

Os Mistérios de Elêusis - Victor Magnien

Prezados amigos e leitores. A partir de hoje postarei, por partes, a tradução do magnífico livro de Victor Magnien - pouco conhecido e fora de circulação há décadas - sobre os mistérios de Eléusis. Obra de fôlego, reúne o melhor da produção acadêmica sobre o assunto e importantes excertos de autores da Alta antiguidade que versam sobre o tema. É de se lamentar que no pós-guerra o meio acadêmico tenha perdido o interesse por tais temas e estejamos rastejando no deserto árido que é a produção intelectual atual mas, fazer o que. Começo pelo capítulo IV que trata dos graus da iniciação, de particular interesse para o verdadeiro ocultista e buscador. Boa leitura e desculpas por eventuais lapsos na postagem de outras partes da obra.
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MAGNIEN, Victor. Les Mystéres d'Éleusis – leurs origines. - Le rituel de leurs initiations. Payot, Paris, Troisiéme Édition avec un Index.

Capítulo IV

Graus de Iniciação

Se a alma tem várias etapas a cumprir em seu retorno em direção à origem celeste e à origem divina, a iniciação, que representa esta ascensão, deve compreender vários degraus.
Cada degrau novo deve corresponder a uma dignidade superior. “Os mortos de maior envergadura obtêm os destinos mais altos”, declara Heraclito1 sob uma forma enigmática, o que significa que, sem dúvida, as iniciações mais altas tornam os mortos mais completos, isto é, se aproximam mais que as outras do destino final2.
Cada um após a morte obtém o grau correspondente àquele que possuía na vida:

“Assim cada um se acha no memento em que sai (do corpo) no mesmo nível que ocupava outrora; eis porquê não se deve fazer sair a alma quando ela ainda possuir possibilidades de prograsso”3.

Sobre os diversos graus possíveis das iniciações, os autores gregos não se exprimem jamais com a clareza e a vontade de dizer tudo: eles distinguem diversos graus, mais nunca todos os graus em seu conjunto – ao menos aqueles que falam das iniciações aos verdadeiros mistérios gregos – atribuindo frequentemente denominações diferentes a um mesmo grau.
Mas se buscarmos conciliar seus dados, completando-os uns aos outros, poderíamos aprender que existiam três graus para o conjunto dos iniciados:
iniciação aos pequenos mistérios, ou purificações;
iniciação aos grandes mistérios;
époptie.
Após esses se verificavam três graus essentiais para os dignitários capazes de iniciar, de dirigir e de comandar:
iniciação holoclére ou da coroa;
iniciação sacerdotal;
iniciação hierofântica ou real.

E, por fim, no topo:

A iniciação suprema que identifica ao Uno.

Théo de Smyrna1, comparando a filosofia e, notadamente, a filosofia de Platão aos mistérios, encontra cinco partes na filosofia e cinco partes nos mistérios:

'A filosofia, se assim podemos dizer, é uma iniciação à verdadeira téleté e uma transmissão dos verdadeiros mistérios. Há cinco partes na iniciação. A primeira é a purificação: com efeito, todos os homens não podem participar indistintitamente dos mistérios, pois há aqueles que são descartados tais como os que não têm as mãos puras ou a fala é incompreensível, para os outros deverá sim existir uma purificação. Após a purificação vem a transmissão da téleté. Em terceiro lugar vem o que chamamos “époptie”. Em quarto lugar vem o que é a perfeição da “époptie”, a “anadése” e a conquista da coroa, de tal sorte que possamos transmitir aos outros as télétés que recebemos, quando foi obtida a 'dadouquie' ou a “hierofantia” ou qualquer outro sacerdócio. A quinta é a felicidade que relacionada a tudo isto e que se refere à amizade com os desus e à vida com os deuses'
Assim, Théon de Smirna distingue:
1o – purificação;
2o – recepção da télété ou myesis;
3o – époptie;
4o – coroação, sacerdócio, dadouquia e hierofantia;
5o – felicidade suprema.

Se ele houve distinguido os diversos graus que são englobados na quarta parte: primeira ascensão às dignidades superiores, dadouquia, hierofantia ele teria descrito a divisão em sete.
Sinésius, no tratado intitulado “Dion”1, trouxe todo um desenvolvimento sobre a dificuldade que o homem encontra antes de alcançar a verdade e sobre as etapas que deve franquear; comparando estas etapas aos graus da iniciação.

'A verdade não é uma coisa que jaz abandonada, desprezada e que possamos caçar. Pelo contrário! Que a filosofia seja chamada nesse caso como aliada e que se prepare para suportar toda esta progressão, tão longa, recebendo o ensinamento e os preparativos para o ensinamento. Com efeito, é necessário antes de mais nada depurar o caráter selvagem, considerar as coisas pequenas antes daquelas que são grandes, fazer partido um coração antes de portar a tocha, portar a tocha antes de mostrar as coisas sagradas”.
Sinésius parece distinguir as iniciações assim:
1o – iniciação aos pequenos Mistérios, que se constitui nos preparativos para o ensinamento: 'que eles se preparem recebendo os preparativos para o ensinamento', que depurem o caráter selvagem: “ é necessário antes de mais nada depurar o caráter selvagem”.
2o – a iniciação aos grandes Mistérios que consiste em ver as coisas mais importantes;
3o – a époptie;
4o – o grau de 'choreute';
5o – a 'dadouquia' (no original 'dadouquie');
6o – a 'hierofantia'.
Faltaria apenas, caso fosse exata esta análise, a menção ao último grau que assimila a divindade, do qual Sinésio fala no seu tratado “Sobre a Providência'.
Para explicar a filosofia de Platão, Olimpiodoro descreveu os diversos graus de iniciação no texto seguinte;
'Nas cerimônias santas, havia antes de mais as lustrações públicas, seguidas das purificações mais secretas. Após isso vinham as reuniões com as iniciações propriamente ditas e, enfim, as épopties (ou époptai?). As virtudes morais e políticas correspondem às lustrações públicas, as virtudade purificadoras, que nos retiram do mundo exterior, às purificações secretas; as virtudes contemplativas, às reuniões; as mesmas virtudes, dirigidas à unidade, às iniciações, enfim, à intuição pura das idéias, à intuição mística. O fim dos mistérios era o de trazer as almas a seu princípio e (...) o número de graus da iniciação télestique alcança o número de quatro.

Olimpiodoro distingue então nesta passagem:

1o – As purificações públicas ou secretas;
2o – As iniciações, precedidas pelas reuniões;
3o – As épopties.
Isto é, ele distingue três graus (e não cinco graus como creram alguns historiadores modernos) e estes são graus acessíveis ao conjunto dos fiéis.
Entretanto Olimpiodoro não ignora os graus superiores da époptie, ele fala de Baco consagrado a Dionisos, do sacerdócio e da filosofia:
'O primeiro Baco, diz em primeiro lugar, é Dionisos possuido pela diovindade em sua marcha e em seu bramido... e aquele que foi consagrado a Dionisos, assimilado a ele, partipa assim de seu nome. Mais longo, ele observa que uns 'falam de sacerdócio, outros de filosofia”, mas que Platão, para conciliar os dois sistemas, tomou o termo de Bacos, comum ao sacerdócio e à filosodia, como meio de se distanciar da geração (o mundo da geração).
E porque quis explicar a frase de Sócrates 'muitos são narthécophores (isto é, portadores de tirsos), mas poucos Bacchoi', é evidente que ele fala de uma elite quando fala dos Bacchoi.
Podemos opor os mistagogos aos “mistes”, isto é, os dignatários aos fiéis.
“Mistagogo: aquele que conduz os mistérios (Léxico d'Hésychius)
“Eram conduzidos os mystes por bons mistagogos, que tinham uma boa experiência da télété (Himerius, Discurso XV, 674);
“O myste é o discípulo, o mistagogo o mestre” (Moschopoulos, Sched, p. 140, citado por Lobeck, Aglaophamus, p. 29).
O mistagogo é definido nos léxicos de Suidas e de Hesequius: o sacerdote, aquele que completa os Mistérios, aquele que conduz os mistériso, aquele que mostra os mistérios, aquele que ensina os mistérios, e até, segundo Hésychius, o Hierofante.
Platão faz a mesma distição no fundo quando louva os “homens e mulheres instruídos sobre as coisas divinas, sacerdotes e sacerdotisas que têm desejo de explicar que sabem' (Ménon, 81 b).
O cristão Théodoron distingue a turba, os sacerdotes e o hierofante:
Ele diz com efeito, se dirigindo aos helenos:
“Mesmos entre vocês, nem todos conhecem o logos hierofantico mas as turba numerosa contempla o que se faz, aqueles que chamamos os 'sacerdotes' oficiam as orgias e somente o hierofante conhece a razão do que se faz e o explica a quem quer (Graecor, affect. curatio, I, dans le Patr grecque de Migne, t. 83, p. 820-821).
Himérius distingue o miste, o épopta e o profeta:
“Não tendo imitado a lei mística que divide o tempo entre o épopta e o miste, mas tendo recebido o mesmo homem ao mesmo tempo como miste e como profeta dos discursos que se fazem junto a ti, tu lhe permitiu possuir de insaciavelmente às fontes que lá estavam”.
Um texto de Porfírio aponta três dignidades sucessivas, aquela da poeta, aquela do filósofo, aquele do hierofante:
“Como li, nas festas de Platão, um poema, o 'casamento sagrado', e como qualquer um, pois que disse muitas coisas misticamente e com entuasismo e em termos obscuros, afirmou que Porfirio estava delirando, ele (Plotino) disse para que todos entendessem: 'tu mostraste ao mesmo tempo o poeta, o filósofo e o hierofante' (Porfirio, Vida de Plotino, 15).
São três os graus aos quais se alçam sucessivamente os dignitários:

Quando Alcebíades parodiou os Mistérios, era provável que buscasse imitar a hierarquia real. Ou é dito que, nesta paródia, um certo Théodoros jugou o papel de arauto (cérix em grego), Polytion disse 'dadouque', Alcebiades disse “hierofante' e que os companheiros de Alcibiades receberam a iniciação sob o nome de 'mistes' (Plut., Vida de Alcibiades, 19). Os três personagens representa então, sob toda evidência, três graus de hierarquia superior: Arauto, Dadouque e Hierofante.
Seguindo Libanius, Alcebiades se tornou um verdadeiro Dionisos, igual ao Dionisos que aparece nos mistérios. Ou Dionisos reune nel as dignidades de 'Bacchant' ou 'Dadouque'.
“É um outro Dionisos que vem de Tebas à Àtica em um cortejo alegra. Ele atinge o Olimpo graças à sua raça e graças à sua boa administração, obtendo aquilo que se obteria de outra forma, diz-se, o deus dos mistérios, o deus que faz a bacante, que porta a tocha (dadoukoiota: transliteração própria do grego) e agita as chamas do alto do Anactoron (Libanius, Declamação, 12, 26, 27).
Podemos englobar na mesma denominação todos aqueles que são dignitários:
Com efeito, todos têm um caráter semelhante que é precisamente seu direito de dirigir os outros, uma insigna semelhante ou parecida que é uma coroa, eles pertencem às famílias mais nobres – e, enfim, (como veremos mais tarde), eles levam a cabo iniciações que têm algo de análogo.
Textos precisos atribuem a coroa, insignia do grau superior, aos dignatários religiosos, aos dignitários políticos e aos poetas...
A coroa de mirto marca o poder político. Em efeito, Hésychius explique assim a palavra grega “mirrhinôn”: aquilo que se prepara para ter um poder, esta palavra foi forjada, ao que parece, porque os arcontes tinham coroas de mirto.
E Pothyys, sobre a palavra “mirrhinos”: “De mirto é a coroa daqueles que comandam Atenas pois os arcontes se coroam de mirto”.Prezados amigos e leitores. A partir de hoje postarei, por partes, a tradução do magnífico livro de Victor Magnien - pouco conhecido e fora de circulação há décadas - sobre os mistérios de Eléusis. Obra de fôlego, reúne o melhor da produção acadêmica sobre o assunto e importantes excertos de autores da Alta antiguidade que versam sobre o tema. É de se lamentar que no pós-guerra o meio acadêmico tenha perdido o interesse por tais temas e estejamos rastejando no deserto árido que é a produção intelectual atual mas, fazer o que. Começo pelo capítulo IV que trata dos graus da iniciação, de particular interesse para o verdadeiro ocultista e buscador. Boa leitura e desculpas por eventuais lapsos na postagem de outras partes da obra.
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MAGNIEN, Victor. Les Mystéres d'Éleusis – leurs origines. - Le rituel de leurs initiations. Payot, Paris, Troisiéme Édition avec un Index.

Capítulo IV

Graus de Iniciação

Se a alma tem várias etapas a cumprir em seu retorno em direção à origem celeste e à origem divina, a iniciação, que representa esta ascensão, deve compreender vários degraus.
Cada degrau novo deve corresponder a uma dignidade superior. “Os mortos de maior envergadura obtêm os destinos mais altos”, declara Heraclito1 sob uma forma enigmática, o que significa que, sem dúvida, as iniciações mais altas tornam os mortos mais completos, isto é, se aproximam mais que as outras do destino final2.
Cada um após a morte obtém o grau correspondente àquele que possuía na vida:

“Assim cada um se acha no memento em que sai (do corpo) no mesmo nível que ocupava outrora; eis porquê não se deve fazer sair a alma quando ela ainda possuir possibilidades de prograsso”3.

Sobre os diversos graus possíveis das iniciações, os autores gregos não se exprimem jamais com a clareza e a vontade de dizer tudo: eles distinguem diversos graus, mais nunca todos os graus em seu conjunto – ao menos aqueles que falam das iniciações aos verdadeiros mistérios gregos – atribuindo frequentemente denominações diferentes a um mesmo grau.
Mas se buscarmos conciliar seus dados, completando-os uns aos outros, poderíamos aprender que existiam três graus para o conjunto dos iniciados:
iniciação aos pequenos mistérios, ou purificações;
iniciação aos grandes mistérios;
époptie.
Após esses se verificavam três graus essentiais para os dignitários capazes de iniciar, de dirigir e de comandar:
iniciação holoclére ou da coroa;
iniciação sacerdotal;
iniciação hierofântica ou real.

E, por fim, no topo:

A iniciação suprema que identifica ao Uno.

Théo de Smyrna1, comparando a filosofia e, notadamente, a filosofia de Platão aos mistérios, encontra cinco partes na filosofia e cinco partes nos mistérios:

'A filosofia, se assim podemos dizer, é uma iniciação à verdadeira téleté e uma transmissão dos verdadeiros mistérios. Há cinco partes na iniciação. A primeira é a purificação: com efeito, todos os homens não podem participar indistintitamente dos mistérios, pois há aqueles que são descartados tais como os que não têm as mãos puras ou a fala é incompreensível, para os outros deverá sim existir uma purificação. Após a purificação vem a transmissão da téleté. Em terceiro lugar vem o que chamamos “époptie”. Em quarto lugar vem o que é a perfeição da “époptie”, a “anadése” e a conquista da coroa, de tal sorte que possamos transmitir aos outros as télétés que recebemos, quando foi obtida a 'dadouquie' ou a “hierofantia” ou qualquer outro sacerdócio. A quinta é a felicidade que relacionada a tudo isto e que se refere à amizade com os desus e à vida com os deuses'
Assim, Théon de Smirna distingue:
1o – purificação;
2o – recepção da télété ou myesis;
3o – époptie;
4o – coroação, sacerdócio, dadouquia e hierofantia;
5o – felicidade suprema.

Se ele houve distinguido os diversos graus que são englobados na quarta parte: primeira ascensão às dignidades superiores, dadouquia, hierofantia ele teria descrito a divisão em sete.
Sinésius, no tratado intitulado “Dion”1, trouxe todo um desenvolvimento sobre a dificuldade que o homem encontra antes de alcançar a verdade e sobre as etapas que deve franquear; comparando estas etapas aos graus da iniciação.

'A verdade não é uma coisa que jaz abandonada, desprezada e que possamos caçar. Pelo contrário! Que a filosofia seja chamada nesse caso como aliada e que se prepare para suportar toda esta progressão, tão longa, recebendo o ensinamento e os preparativos para o ensinamento. Com efeito, é necessário antes de mais nada depurar o caráter selvagem, considerar as coisas pequenas antes daquelas que são grandes, fazer partido um coração antes de portar a tocha, portar a tocha antes de mostrar as coisas sagradas”.
Sinésius parece distinguir as iniciações assim:
1o – iniciação aos pequenos Mistérios, que se constitui nos preparativos para o ensinamento: 'que eles se preparem recebendo os preparativos para o ensinamento', que depurem o caráter selvagem: “ é necessário antes de mais nada depurar o caráter selvagem”.
2o – a iniciação aos grandes Mistérios que consiste em ver as coisas mais importantes;
3o – a époptie;
4o – o grau de 'choreute';
5o – a 'dadouquia' (no original 'dadouquie');
6o – a 'hierofantia'.
Faltaria apenas, caso fosse exata esta análise, a menção ao último grau que assimila a divindade, do qual Sinésio fala no seu tratado “Sobre a Providência'.
Para explicar a filosofia de Platão, Olimpiodoro descreveu os diversos graus de iniciação no texto seguinte;
'Nas cerimônias santas, havia antes de mais as lustrações públicas, seguidas das purificações mais secretas. Após isso vinham as reuniões com as iniciações propriamente ditas e, enfim, as épopties (ou époptai?). As virtudes morais e políticas correspondem às lustrações públicas, as virtudade purificadoras, que nos retiram do mundo exterior, às purificações secretas; as virtudes contemplativas, às reuniões; as mesmas virtudes, dirigidas à unidade, às iniciações, enfim, à intuição pura das idéias, à intuição mística. O fim dos mistérios era o de trazer as almas a seu princípio e (...) o número de graus da iniciação télestique alcança o número de quatro.

Olimpiodoro distingue então nesta passagem:

1o – As purificações públicas ou secretas;
2o – As iniciações, precedidas pelas reuniões;
3o – As épopties.
Isto é, ele distingue três graus (e não cinco graus como creram alguns historiadores modernos) e estes são graus acessíveis ao conjunto dos fiéis.
Entretanto Olimpiodoro não ignora os graus superiores da époptie, ele fala de Baco consagrado a Dionisos, do sacerdócio e da filosofia:
'O primeiro Baco, diz em primeiro lugar, é Dionisos possuido pela diovindade em sua marcha e em seu bramido... e aquele que foi consagrado a Dionisos, assimilado a ele, partipa assim de seu nome. Mais longo, ele observa que uns 'falam de sacerdócio, outros de filosofia”, mas que Platão, para conciliar os dois sistemas, tomou o termo de Bacos, comum ao sacerdócio e à filosodia, como meio de se distanciar da geração (o mundo da geração).
E porque quis explicar a frase de Sócrates 'muitos são narthécophores (isto é, portadores de tirsos), mas poucos Bacchoi', é evidente que ele fala de uma elite quando fala dos Bacchoi.
Podemos opor os mistagogos aos “mistes”, isto é, os dignatários aos fiéis.
“Mistagogo: aquele que conduz os mistérios (Léxico d'Hésychius)
“Eram conduzidos os mystes por bons mistagogos, que tinham uma boa experiência da télété (Himerius, Discurso XV, 674);
“O myste é o discípulo, o mistagogo o mestre” (Moschopoulos, Sched, p. 140, citado por Lobeck, Aglaophamus, p. 29).
O mistagogo é definido nos léxicos de Suidas e de Hesequius: o sacerdote, aquele que completa os Mistérios, aquele que conduz os mistériso, aquele que mostra os mistérios, aquele que ensina os mistérios, e até, segundo Hésychius, o Hierofante.
Platão faz a mesma distição no fundo quando louva os “homens e mulheres instruídos sobre as coisas divinas, sacerdotes e sacerdotisas que têm desejo de explicar que sabem' (Ménon, 81 b).
O cristão Théodoron distingue a turba, os sacerdotes e o hierofante:
Ele diz com efeito, se dirigindo aos helenos:
“Mesmos entre vocês, nem todos conhecem o logos hierofantico mas as turba numerosa contempla o que se faz, aqueles que chamamos os 'sacerdotes' oficiam as orgias e somente o hierofante conhece a razão do que se faz e o explica a quem quer (Graecor, affect. curatio, I, dans le Patr grecque de Migne, t. 83, p. 820-821).
Himérius distingue o miste, o épopta e o profeta:
“Não tendo imitado a lei mística que divide o tempo entre o épopta e o miste, mas tendo recebido o mesmo homem ao mesmo tempo como miste e como profeta dos discursos que se fazem junto a ti, tu lhe permitiu possuir de insaciavelmente às fontes que lá estavam”.
Um texto de Porfírio aponta três dignidades sucessivas, aquela da poeta, aquela do filósofo, aquele do hierofante:
“Como li, nas festas de Platão, um poema, o 'casamento sagrado', e como qualquer um, pois que disse muitas coisas misticamente e com entuasismo e em termos obscuros, afirmou que Porfirio estava delirando, ele (Plotino) disse para que todos entendessem: 'tu mostraste ao mesmo tempo o poeta, o filósofo e o hierofante' (Porfirio, Vida de Plotino, 15).
São três os graus aos quais se alçam sucessivamente os dignitários:

Quando Alcebíades parodiou os Mistérios, era provável que buscasse imitar a hierarquia real. Ou é dito que, nesta paródia, um certo Théodoros jugou o papel de arauto (cérix em grego), Polytion disse 'dadouque', Alcebiades disse “hierofante' e que os companheiros de Alcibiades receberam a iniciação sob o nome de 'mistes' (Plut., Vida de Alcibiades, 19). Os três personagens representa então, sob toda evidência, três graus de hierarquia superior: Arauto, Dadouque e Hierofante.
Seguindo Libanius, Alcebiades se tornou um verdadeiro Dionisos, igual ao Dionisos que aparece nos mistérios. Ou Dionisos reune nel as dignidades de 'Bacchant' ou 'Dadouque'.
“É um outro Dionisos que vem de Tebas à Àtica em um cortejo alegra. Ele atinge o Olimpo graças à sua raça e graças à sua boa administração, obtendo aquilo que se obteria de outra forma, diz-se, o deus dos mistérios, o deus que faz a bacante, que porta a tocha (dadoukoiota: transliteração própria do grego) e agita as chamas do alto do Anactoron (Libanius, Declamação, 12, 26, 27).
Podemos englobar na mesma denominação todos aqueles que são dignitários:
Com efeito, todos têm um caráter semelhante que é precisamente seu direito de dirigir os outros, uma insigna semelhante ou parecida que é uma coroa, eles pertencem às famílias mais nobres – e, enfim, (como veremos mais tarde), eles levam a cabo iniciações que têm algo de análogo.
Textos precisos atribuem a coroa, insignia do grau superior, aos dignatários religiosos, aos dignitários políticos e aos poetas...
A coroa de mirto marca o poder político. Em efeito, Hésychius explique assim a palavra grega “mirrhinôn”: aquilo que se prepara para ter um poder, esta palavra foi forjada, ao que parece, porque os arcontes tinham coroas de mirto.
E Pothyys, sobre a palavra “mirrhinos”: “De mirto é a coroa daqueles que comandam Atenas pois os arcontes se coroam de mirto”.
De acordo com Istros, a coroa de mirto é portada pelo hierofante, as hierofantides e os demais sacerdotes.

De acordo com Istros, a coroa de mirto é portada pelo hierofante, as hierofantides e os demais sacerdotes.

domingo, julho 20, 2008

Castelo Interior

Um grande castelo de ferro dotado de uma cruz em seu cimo exótico. O formato é abaulado, há uma grande cúpula no alto que ampara a cruz. A obra é levemente inclinada para a direita. Ao lado há duas peças de ferro, semelhantes a bobinas, entre as quais circunda uma energia qual eletricidade. Está situado em um parque isolado por cercas e a seu lado caminham as pessoas tranquilamente. Há um parque de diversões próximo chamado de "Parque Egípcio". Antes disso me encontro entre um grande amigo que desaparece e um rapaz com muletas o contesta acerbamente. Eu o ataco antes de partir em direção ao palácio feito de ferro. Tudo é um grande mistério.

"Teosofia" e Teosofias

Alguns amigos e amigas insistem em reanimar o vetusto debate sobre a essência da Teosofia. A Teosofia ou “Sabedoria Divina”, “Brahma Vhydya” é muito anterior a Madame Blavatsky e à Sociedade Teosófica, o que em si não é novidade, sendo reiterado em inúmeras ocasiões pela mesma. O nome nos foi transmitido pelos filósofos alexandrinos, os ”philaletheus” ou “aquele que ama a verdade” e “(...) o nome Teosofia data do terceiro século da nossa era e foi introduzido por Amônio Saccas e seus discípulos, os quais iniciaram o Sistema Teosófico Eclético”. E continua: “O objetivo principal dos fundadores da Escola Teosófica Eclética era um dos três objetivos de sua sucessora moderna, a Sociedade Teosófica, ou seja, reconciliar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema de ética comum, baseado em verdades eternas”. E ainda: “A ‘Religião-Sabedoria’ era una na antiguidade; e a uniformidade da filosofia religiosa primitiva é comprovada pelas doutrinas idênticas ensinadas aos iniciados durante os MISTÉRIOS, uma instituição universalmente difundida em outros tempos. ‘Todos os alunos antigos indicam a existência de uma única Teosofia anterior a eles. A chave que desvendar um terá de desvendar todos os outros; de outra forma não poderá ser a chave verdadeira’”.
Não somente posterior aos divinos teósofos das luzes como Böehme, Eckartshausen, não propriamente uma superação dos alquimistas herméticos da idade média, não uma sucedânea dos cabalistas e magos franceses, a exemplo de Éliphas Lévy. A teosofia de Blavatstky e sua escola entesouram as mesmas e magníficas verdades de outras teosofias que, essencialmente, são aspectos de uma mesma sabedoria divina, que remonta ao princípio dos tempos. Claro que uma escola deste gênero não se limitaria à tradição oriental. Todo o esforço empreendido por HPB se voltava, naturalmente, para a promoção de uma síntese do conhecimento religioso – cabala, hermetismo, religiões tradicionais, sistemas do Oriente – embora o componente especificamente hindu tivesse função relevante neste edifício intelectual.
Todos somos potencialmente teósofos, desde que o emprego de nossos faculdades superiores possibilitem-nos beber do conhecimento divino que emana dos planos superiores. O teósofo “de gabinete”, compilador de informações livrescas ou aquele que aguarda eternamente a vinda de um “mestre” que venha lhe instruir sobre a “senda iniciática” não são os melhores modelos nesse aspecto. A filiação à Sociedade Teosófica ou a preferência pelas obras que nos foram legadas por HPB também não delimitam o ser “teósofo”. A própria Blavatsky sempre se declarou um humilde instrumento a serviço dos mestres e nunca reinvidicou para si mesma condição superior à de simples mortal.
Além do cerceamento da pesquisa teosófica ao âmbito da Sociedade Teosófica e de HPB (há quem seja visceralmente contra, inclusive, outros teósofos como Charles Leadbeater ou Annie Bésant) ocorre mormente a delimitação dos estudos aplicados ao cânone blavatskyano ou ao repertório seguido pela própria Blavatsky enquanto viva. Este procedimento metodológico excluiria de antemão como “temas não-teosóficos”, tudo aquilo que HPB deixara de abordar como o que manifestamente desprezava. Dito de outra forma, nada de abordar assuntos do século XX, culturas africanas e latino-americanas, xamanismo, wicca, Aleister Crowley, certas escolas ocultistas etc. Tudo isso não tem características “teosóficas” por não ter sido abordado por Blavatky ou não constar das publicações da S.T.
Bem, onde ficam objetivos como a promoção da “fraternidade universal”, o estudo dos “poderes latentes do homem” “and so on”. Perguntem a Madame Blavatsky! Mas cuidado, porque o espiritismo é “não-teosófico”...

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Cérebro de Porco Provoca Doença

Mais um argumento contundente em favor do vegetarianismo.


The New York Times
05/02/2008Cérebro de porco é suspeito de provocar doença misteriosa em abatedouros dos EUA

Denise GradyEm Austin, Minnesota

Se você passou a padecer de uma estranha doença, a resposta para a enfermidade pode estar nesta cidade de 23 mil habitantes nas pradarias do sudeste de Minnesota. A Clínica Mayo, famosa por diagnosticar doenças exóticas, é a proprietária do centro médico local e compartilha alguns dos seus profissionais com ele. A própria Mayo fica apenas 64 quilômetros a leste, em Rochester. E, quando se trata de investigar misteriosos surtos patológicos, Minnesota conta com um dos mais fortes departamentos de saúde e com os laboratórios mais bem equipados do país.E a doença com a qual os médicos do Centro Médico de Austin se depararam no outono passado era de fato estranha. Três pacientes apresentavam o mesmo conjunto incomum de sintomas: fadiga, dor, fraqueza, dormência e formigamento nas pernas e nos pés.Os pacientes tinham algo mais em comum: todos trabalhavam na Quality Pork Processors, uma indústria local de processamento de carnes. A desordem parecia envolver danos aos nervos, mas os médicos não tinham nenhuma idéia sobre o que a causava.Na fábrica, enfermeiras no departamento médico também começaram a notar o mesmo padrão sinistro. Os três trabalhadores reclamaram junto a elas sentirem "as pernas pesadas", e as enfermeiras os orientaram a procurar médicos. Elas também descobriram um quarto caso, e temeram que mais trabalhadores adoecessem, e que uma doença séria pudesse estar disseminando-se pela fábrica. "Pensamos em conjunto e achamos que algo andava errado", conta Carole Bower, a chefe do departamento.A maior empregadora de Austin é a Hormel Foods, fabricante do apresuntado Spam, e produtora de bacon e de outras carnes processadas (Austin possui até um museu do apresuntado Spam).

Vista aérea da Quality Pork Processors, em Austin, MinnesotaA Quality Pork Processors, que é adjacente à área da Hormel, abate e esquarteja 19 mil porcos por dia, e remete a maior parte dos animais abatidos para a Hormel. O complexo, que emite nuvens de fumaça e um odor característico, é fácil de ser localizado a partir de qualquer parte da cidade.A Quality Pork é a segunda maior empregadora da cidade, com 1.300 funcionários. A maioria destes trabalha em turnos de oito horas junto a uma esteira transportadora - basicamente, uma "unidade de desmontagem" -, retalhando uma parte específica de cada carcaça. O salário inicial desses trabalhadores é de US$ 11 a US$ 12 por hora. O trabalho é duro e cansativo, mas a fábrica é excepcionalmente limpa e os benefícios são bons, afirma Richard Morgan, presidente do sindicato local. Muitos dos trabalhadores são imigrantes latinos. A proprietária da Quality Pork não permite que jornalistas entrem na fábrica.Um homem a quem os médicos chamam de "caso original" - o primeiro paciente que eles descobriram - adoeceu em dezembro de 2006, e ficou hospitalizado na Clínica Mayo durante cerca de duas semanas. O seu trabalho na Quality Pork consistia em extrair os cérebros das cabeças dos suínos."Ele estava bastante enfermo e altamente afetado neurologicamente, apresentando fraqueza significativa nas pernas e perda das funções na parte inferior do corpo", diz Daniel H. Lachance, um neurologista da Clínica Mayo.Exames revelaram que a medula espinhal do homem estava bastante inflamada. A causa parecia ser uma reação autoimune: o seu sistema imunológico estava atacando equivocadamente os seus próprios nervos, como se estes fossem corpos estranhos ou germes. Os médicos não foram capazes de descobrir por que isso aconteceu, mas o tratamento padrão para a inflamação - uma droga esteróide - pareceu ajudar (o paciente não quis conceder entrevistas).Lachance afirma que as doenças neurológicas às vezes desafiam a compreensão, e este parece ser um caso de tal tipo. À época, não ocorreu a ninguém que o problema pudesse estar relacionado à ocupação do paciente. Por volta da primavera, o funcionário retornou ao trabalho. Mas, dentro de semanas, adoeceu novamente. Mais uma vez, ele recuperou-se após alguns meses e voltou ao trabalho - apenas para adoecer de novo.Àquela altura, novembro de 2007, começaram a surgir outros casos. No final, havia 12 - seis homens e seis mulheres, distribuídos por uma faixa etária de 21 a 51 anos. Os médicos e o proprietário da indústria, percebendo que estavam lidando com um surto patológico, já haviam feito contato com o Departamento de Saúde de Minnesota, que, por sua vez, buscou ajuda federal junto ao Centro para Controle e Prevenção de Doenças.Embora o surto parecesse ser pequeno, a investigação adquiriu um caráter de urgência porque a doença era séria, e as autoridades de saúde temiam que isso pudesse indicar um novo risco para outros funcionários da indústria de processamento de carnes."É importante identificar o que é isso, já que parece ser uma nova síndrome, e não sabemos de fato quantas pessoas podem ter sido afetadas nos Estados Unidos ou mesmo no mundo", diz Jennifer McQuiston, uma veterinária do centro.No início de novembro, Aaron DeVries, médico epidemiologista do departamento de saúde, visitou a fábrica e vasculhou os seus registros médicos. A doença não tinha semelhança com o mal da vaca louca ou com a triquinose, a famosa infecção causada por um parasita devido à ingestão de carne de porco crua ou mal cozida. E ela tampouco era transmitida de uma pessoa a outra - os familiares dos trabalhadores doentes não foram afetados -, nem representava qualquer ameaça para as pessoas que comiam carne de porco.Uma pesquisa com os trabalhadores confirmou aquilo de que as enfermeiras da fábrica haviam suspeitado: aqueles que adoeceram trabalhavam na "mesa das cabeças", onde os trabalhadores cortam a carne de cabeças de porcos - ou próximo daquela unidade. Em 28 de novembro, a chefe de DeVries, Ruth Lynfield, a diretora de epidemiologia do Estado, visitou a fábrica. Ela e a proprietária, Kelly Wadding, examinaram com atenção especial a mesa das cabeças. Lynfield ficou especialmente assustada com um procedimento chamado "explosão de cérebros".Quando cada cabeça chegava ao final da mesa, um funcionário inseria uma mangueira de metal no forâmen magnum, a abertura do crânio através da qual passa a medula espinhal. A seguir, explosões de ar submetido a intensa compressão transformavam o cérebro em uma pasta que era ejetada pelo mesmo orifício no crânio, freqüentemente fazendo com que fragmentos de tecido cerebral se espalhassem por todos os lados e respingassem no operador da mangueira. Essa pasta de cérebros era aglutinada, acondicionada em recipientes de 4,5 kg e vendida como alimento - em sua maior parte para a China e a Coréia, onde os cozinheiros a fritam segundo a moda oriental conhecida como "stir frying", e também para certas partes da América Latina nas quais as pessoas gostam de comer os cérebros com ovos mexidos.A pessoa responsável pela explosão dos cérebros ficava separada dos outros trabalhadores por um escudo de plexiglass que tinha espaço suficiente na parte inferior para permitir que as cabeças entrassem trazidas pela esteira de transporte. Tal espaço era também suficiente para que tecido cerebral atingisse funcionários que trabalham por perto."Foi possível ver a transformação de tecido cerebral em aerossol", diz Lynfield.Os trabalhadores usavam capacetes, luvas, jalecos de laboratório e óculos de proteção, mas muitos tinham os braços expostos, e nenhum usava máscaras ou protetores faciais para impedir a ingestão ou a inalação do aerossol de tecido cerebral. Lynfield perguntou a Wadding: "Kelly, o que você acha que está acontecendo?"A dona da fábrica observou o quadro por algum tempo e disse: "Vamos parar de coletar cérebros". Naquele dia a Quality Pork interrompeu aquela operação e ordenou que todos os trabalhadores da mesa das cabeças usassem protetores faciais. Epidemiologistas contataram 25 abatedouros de porcos nos Estados Unidos, e descobriram que apenas dois outros usavam ar comprimido para a extração de cérebros. Um deles, uma fábrica da Hormel em Nebraska, não registrou nenhum caso. Mas o outro, o Indiana Packers, em Delphi, Indiana, relatou vários possíveis casos que estão sendo investigados. Essas duas outras fábricas, assim como a Quality Pork, deixaram de usar ar comprimido para explodir cérebros.Mas por que a exposição a cérebros de suínos provocou a doença? E por que isso ocorreu só agora, se o sistema de ar comprimido é usado em Minnesota desde 1998?No início as autoridades de saúde acharam que talvez os porcos tivessem alguma nova infecção que fosse transmitida às pessoas através do tecido cerebral. Às vezes infecções podem desencadear uma resposta imunológica descontrolada em humanos, como a doença que atingiu os trabalhadores. Mas, até o momento, inúmeros exames para a detecção de vírus, bactérias e parasitas não detectaram sinais de infecção.Como resultado, Lynfield diz que os investigadores começaram a se inclinar para uma teoria aparentemente bizarra: a de que a exposição ao cérebro suíno em si poderia ter desencadeado uma intensa reação do sistema imunológico, algo semelhante a uma gigantesca e descontrolada reação alérgica. Algumas pessoas podem ser mais susceptíveis do que outras, talvez devido a características genéticas ou a exposições a tecido animal ocorridas no passado. O tecido cerebral transformado em aerossol pode ter sido inalado ou ingerido, ou ainda pode ter penetrado no organismo pelas membranas mucosas do nariz ou da boca ou através de fissuras na pele. "Isso é algo que ninguém antecipou, e sobre o qual ninguém pensou", diz Michael Osterholm, um médico epidemiologista que está trabalhando como consultor para a Hormel e a Quality Pork. Osterholm, professor de saúde pública da Universidade de Minnesota e ex-diretor de epidemiologia do Estado, diz que o governo nunca criou diretrizes relativas a esse tipo de exposição no local de trabalho.Mas isso ainda não explicaria por que o problema surgiu repentinamente agora. Os investigadores estão tentando descobrir se algo mudou recentemente - o nível de pressão de ar das mangueiras, por exemplo - e também se no passado ocorreram outros casos que simplesmente não foram detectados. "Não há dúvida que as respostas ainda não apareceram", afirma Osterholm. "Mas faz sentido, sob o ponto de vista biológico, que o que ocorria aqui era uma inalação de material cerebral dos porcos, provocando uma reação imunológica". Segundo ele, o que pode estar ocorrendo é uma "imitação imunológica", o que significa que o sistema imunológico cria anticorpos para combater uma substância estranha - algo presente nos cérebros de porcos -, mas os anticorpos também atacam o tecido nervoso do indivíduo porque este tecido é bastante similar a certas moléculas dos cérebros suínos."Essa é a bela e a fera do sistema imunológico", diz Osterholm. "Ele é muito eficiente em combater objetos estranhos, mas sempre que há uma semelhança acentuada com os nossos tecidos ele também se volta contra nós".Anatomicamente, os porcos parecem-se muito com os humanos. Mas não se sabe até que ponto existe uma equivalência bioquímica entre o cérebro do porco e o tecido nervoso humano.Para descobrir isso, o departamento de saúde de Minnesota pediu a ajuda do médico Ian Lipkin, da Universidade Columbia, um especialista no papel do sistema imunológico nas doenças neurológicas. Lipkin começou a testar plasma sangüíneo dos pacientes de Minnesota para buscar sinais de uma reação imunológica a componentes do cérebro do porco. E ele também deseja estudar o gene do porco para a mielina, para determinar até que ponto ele é similar ao gene da mielina humana."É um problema interessante", diz Lipkin. "Creio que podemos resolvê-lo".Susan Kruse, que mora em Austin, ficou chocada com as notícias sobre o surto no início de dezembro passado. Kruse, 37, trabalhou na Quality Pork durante 15 anos. Mas no ano passado ela ficou muito doente para trabalhar. Ela não fazia idéia de que outras pessoas da fábrica também pudessem estar doentes. E ela também não sabe se a sua doença está de fato relacionada ao emprego.O seu último trabalho na fábrica foi raspar a carne localizada entre as vértebras dos porcos. Três pessoas por turno faziam essa tarefa, e juntas elas processavam 9.500 cabeças em oito ou nove horas. Kruse ficava perto da pessoa que usava o ar comprimido para a explosão dos cérebros. Em várias ocasiões os respingos de massa cerebral a atingiram, especialmente quando estagiários estavam aprendendo a usar a mangueira. "Eu sempre tinha pedaços de cérebro nos braços", conta ela.Ela nunca teve problemas de saúde até novembro de 2006, quando começou a sentir dores nas pernas. Em fevereiro de 2007, Kruse não conseguia mais ficar de pé pelo tempo exigido para o desempenho daquela função. Ela necessitou de um andador para se locomover e foi tratada na Clínica Mayo. "Eu não tinha forças para nada que costumava fazer", conta Kruse. "Sentia que minhas energias estavam sendo drenadas".O seu sistema imunológico saiu de controle e atacou os seus nervos, especialmente em duas partes: nos pontos nos quais os nervos emergem da medula espinhal e nas extremidades. A mesma coisa, em graus de intensidade diversos, estava acontecendo com os outros pacientes. Kruse e o primeiro paciente - o homem que extraía os cérebros - provavelmente apresentaram os problemas mais sérios, de acordo com Lachance. Os esteróides em nada ajudaram Kruse, de forma que os médicos passaram a tratá-la a cada duas semanas com IVIG, imunoglobina intravenosa, um produto do sangue que contém anticorpos. "É como golpear a doença na cabeça com uma marreta", explica Lachance. "A substância subjuga o sistema imunológico e neutraliza o que quer que esteja provocando o problema".De acordo com Kruse, os tratamentos parecem ajudar. Ela sente-se mais forte após cada aplicação, mas os efeitos são desgastantes. Os médicos acreditam que ela necessitará da terapia pelo menos até setembro.A maioria dos trabalhadores está se recuperando, e alguns retornaram ao emprego, mas outros, inclusive o primeiro a ficar doente, ainda estão incapacitados para o trabalho. Até o momento, não foram registrados novos casos. ""Não posso afirmar que alguém tenha voltado completamente ao normal", diz Lachance. "Acredito que demorará vários meses para que possamos entender de verdade o ciclo dessa doença".Lynfield espera descobrir a causa. Mas ela diz: "Não sei se teremos uma resposta definitiva. Suspeito que seremos capazes de descartar algumas hipóteses, e que poderemos determinar se é provável que a doença seja causada por uma resposta autoimune. Creio que aprendemos muito, mas pode levar algum tempo até a conclusão desse processo de aprendizado. Trata-se de uma grande história de detetive". Tradução: UOL

sábado, fevereiro 02, 2008