Gurdjieff

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terça-feira, janeiro 24, 2012

A Nova Classe nos Dias de Hoje (América Latina) – Ensinamentos de Milovan Djilas

Milovan Djias. Preso em 1956 após apoiar a Revolução anticomunista Húngara
Nos anos 50 um importante burocrata comunista da antiga Iuguslávia do Marechal Tito refugiou-se no Ocidente: Milovan Djilas. O Camarada Djilas não era um aparelhista qualquer do Partido, mas um homem que circulava nas mais altas esferas de poder em seu país e no mundo comunista. Com boa formação clássica e “marxista-leninista”, ao radicar-se no Ocidente escreveu um livro indispensável ao estudioso do fenômeno no “comunismo real” (não o comunismo ideal, o Èden, a Avalon idílica dos nossos matreiros e burros esquerdistas contemporâneos).

Editado pela Fred and Praeger, New York (minha sétima edição é de 1957), “The New Class – an analysis of he communist system” ao lado de “Eles” ( estarrecedora descrição em forma de entrevistas conduzidas por Tereza Toranska que transcreve a crueza com que ex-comunistas polonoses reviam seu pesado) a “Nova Classe” tem a honrosa distinção de pertencer a um seleto rol de obras pioneiras no campo dos “estudos do comunismo”, ponto de partida para o estabelecimento de uma futura academia americana de sovietologia e comunismo que no passado ostentou exponentes como  Zbigniew Kazimierz Brzezinski, um dos mentores políticos de Jimmy Carter.

Por questão de método é aconselhável deixar de lado as entranhas totalitárias do “marxismo” ou “marxismo-leninismo”, aspectos da história da URSS e embates teóricos (muitas vezes com resultados “práticos” como o fuzilamente de um interculator “inapropriado” de "direita" ou "esquerda" os dois antípodas que desafiavam o poder absoluto de Stálin). Focalizamo-nos, portanto, no ponto nevrálgico da original avaliação de Djilas: as diferenças entre a revolução na Rússia e eventos similares, as características específicas da “Nova Classe” (que a singularizam como algo substancialmente diferente de todas as demais), suas relações com os meios de produção (o que, em conformidade com o próprio jargão marxista, permite sua classificação como 'classe'), sua relação com o Partido, o papel do “líder de classe” em seu estado embrionário (Na URSS, Joseph Stálin) e os dispositivos de que lança mão (a "Classe") para perpetuar-se no poder enquanto classe dominante.

Como salienta Djilas, “Esta nova classe, a burocracia, ou mais acuradamente, a burocracia política, tem todas as características das anteriores assim como novas características que lhe são próprias. Sua origem tem peculiaridades especiais também, ainda que na essência fosse similar à de outras classes”. pg. 38

Sem correr o risco de aplicar a conceituação e metodologia de Djilas a outras conformações comunistas ou socialistas pró-comunistas da atualidade (não falamos de Cuba ou Coréia do Norte, mas de países de orientação socialista como Venezuela, Brasil, Bolívia, Argentina, Equador e outros) é digna de nota a voracidade com que os militantes dos partidos de esquerda, ao agarrarem com unhas e dentes nacos do aparato estatal, nele se grudam e mudam suas percepções de vida, gostos, opções estéticas, narcotizando-se com a “euforia na infelicidade” (para usar uma frase de bom tom do frankfurtiano Marcuse).

Esta horda de militantes “pé de chinelo”, com formação precária e níveis de politização grotescos adquiridos na "luta" (sindicatos, cooperativas, partidos, ONGS) ao se alojarem em seus cargos de confiança, contratos especiais por regime administrativo, contratos de trabalho formais assinados com empresas terceirizadas e outros “meios flexíveis” para vincularem-se à grande vaca estatal, passam a ganhar vistosos salários – bem acima da média – dos quais extraem os fundos para ingressarem no mundo maravilhoso do consumo e da “elegância de classe média”.

Em todos os países da América Latina dominados pelo programa da esquerda – notadamente no Brasil, Venezuela e Bolívia – a Nova Classe se estabeleceu, a partir de um processo lento de “guerra ideológica de trincheiras” na sociedade civil. Finalizada esta fase, a classe em sua fase embrionária, passou a dedicar-se à disputa intestina contra seus concorrentes internos, ingressando na etapa das purgas (as exclusões, "autocríticas", expulsões e anulações de biografias, expedientes corriqueiros na ditadura stalinista), prelúdio de sua consolidação enquanto classe social consciente de sua missão como "vanguarda revolucionária" na "construção do socialismo". Este será o assunto de nossos próximos artigos.




quinta-feira, janeiro 19, 2012

A Jihad Cultural contra o Satanismo e seus Agentes

Os crimes em que participam os instintos e a Inteligência são crimes de homens. Mas os praticados por esta de certa forma se parecem com os perpetrados pelos Anjos Rebeldes. São crimes demoníacos".
P.S. 

Pazuzu - Demônio Assírio

Entendamos neste artigo a palavra árabe “Jihad” como um esforço determinado, mais exatamente uma “jihad menor”, dissociada em certa medida da guerra espiritual interna. Apelamos para a batalha cultural em que todos os indivíduos intelectualmente honestos e de bons costumes, independentemente de gênero, credo e raça devem engajar-se em defesa de um punhado de valores éticos caros à humanidade. Isto é importante no contexto atual em que as pessoas parecem ter se esquecido ou escamoteiam o significado de “ethos”, a morada do homem, a natureza. Por extensão, o que vai de encontro à natureza não é “ético” mas “patológico”, responsável pelo sofrimento do homem quando se distancia da verdade. Dizia Sêneca, o estóico: “solemus dicere, summum bonun esse secundum naturam vivere” (“costumamos dizer, o maior bem é viver segundo a natureza”).

Esta mesma natureza é criação do Absoluto em seu tríplice aspecto, moldando-a e vivificando-a enquanto matéria, ensinamento que um profundo trecho do Credo católico carrega como vestígio da tradição milenar (“et in Spiritum Sanctum, Dominum et Vivificantem). Contra os princípios que devem guiar o ser humano como coroamento da criação, insurgem-se há tempos as hordas esparsas dos agentes da Hierarquia Negra, promovendo uma obra que, de forma acessível ao homem comum, podemos denominar “satanismo”. Uma das formas de entendê-la dentre as dezenas de acepções que as “diabologias” aplicadas (ao estilo Giovanni Papini) nos apresentam e aquela que, a nosso ver, melhor se aplica aos fins que colimamos alcançar, alia a prática do satanismo (como prática mais “elevada” do mal) ao crime com o concurso da inteligência. Em sentido mais moderno, Gurdjieff descrevia o fenômeno em termos de atuação dos “Hanasmussem” (principalmente artistas, “intelectuais”, políticos, jornalistas, “lideranças sociais”, os modernos “ongueiros”, os “blogueiros progressistas” etc) homens que alcançaram a cristalização dos corpos superiores graças a processos internos invertidos. Mas este é um caso ainda mais tenebroso.

Quando o indivíduo simplesmente comete um erro, subjugado pelo instituto e as paixões rasteiras, ele é simples pecador. Quando o faz com amparo intelectivo, está sob influência e mando das legiões de demônios de baixa patente e seus comandantes. Quando através do abuso delirante da inteligência, ele próprio planeja e orquestra toda uma intrincada trama para corroer os fundamentos da sociedade humana, torna-se um serviçal do Mal Absoluto, um satanista. Cabe restringir ainda os limites da expressão “sociedade humana”, empregada genericamente como um conjunto de indivíduos organizados em família, voltados para a produção econômica e detentores de valores de um elenco mínimo de valores com caráter universal.

Um autor execrado no Brasil moderno, famoso político nos anos 30, em sua fase cristã, estabeleceu bases interessantes para que aquilatemos o que chama de “pecado da inteligência”:

Eis porque – além dos pecados e crimes em que a Inteligência participa dos desvios ou exagerações dos impulsos instintivos, - existem os pecados e crimes exclusivamente da Inteligência, aqueles em que os instintos quase ou nada interferem.

São os mais hediondos, os mais cruéis, os mais terríveis como agentes destruidores das harmonias do mundo moral”.

E emenda:

Os crimes em que participam os instintos e a Inteligência são crimes de homens. Mas os praticados por esta de certa forma se parecem com os perpetrados pelos Anjos Rebeldes. São crimes demoníacos. A sua origem mais profunda é o orgulho. As suas atitudes prediletas são bem conhecidas: é a dúvida deliberadamente alimentada, estimulada e até sistematizada; é o ceticismo sardônico; é a complicação, a sutilização dos conceitos mais simples das realidades mais evidentes; é a negação, que em última análise constitui a plena maturidade da dúvida, do ceticismo e da sutileza intelectual; é a rebeldia, filha primogênita da negação; é o sofisma, a desenvolver a sua anti-lógica na sustentação da rebeldia, é o ódio a toda ordem contra cuja inexpugnabilidade se levanta a impotência de todas as ordens ideais engendradas por elocubrações estéreis; é finalmente, o desespero catastrófico no qual se consome o Espírito já então desamparado de luz e inspiração da Graça”.

'Sim, somos pecadores' – dizia um príncipe ibérico a um sutil reformador gaulês – 'pecamos muitas vezes pelas fraquezas do nosso corpo; mas vós, que vos dizeis puros e nos acusais de prevaricadores, pecais pelo orgulho de vossa inteligência; o vosso pecado é exclusivamente da alma. Nossos pecados são de homens, os vossos são de anjos rebeldes”.


Estes cujos pecados “são de anjos rebeldes”, no plano físico (pois a batalha nos planos sutis é se dá em maior intensidade e amplitude) são aqueles que na refrega contemporânea (ou “pós-moderna”) em torno de “bandeiras” e reinvidicações de presumidos “direitos” arvoram-se arrogantemente contra as verdadeiras aspirações e valores estabelecidos desde tempos imemoriais. Em uníssono choramingam sua condição de “minorias” (quando na verdade contam com apoio ostensivo do sistema financeiro, do governo e da mídia, nos quais estão infiltrados há décadas). Sua organização política e aparato de financiamento compõe-se de uma rede de organizações governamentais que recebem além de recursos dos países do primeiro mundo, muito dinheiro de convênios além de transferências diretas de programas governamentais de “inclusão” e “eliminação das desigualdades sociais”.

Foucault - Sado-masoquista pró-Pedofilia 

Estes grupelhos se multiplicam aos borbotões e suas artimanhas não se dão de forma caótica e desordenada – como se acredita estruturar-se o inferno - mas pertencem a um plano elaborado por seus Senhores nesta etapa da Idade de Ferro, a Kali Yuga (aquilo que desde o século XVIII assume os contornos originalmente delineados pelo iluminismo), tendo como diretriz a exacerbação do individualismo via “experiências- limite” (termo emprestado do filósofo-pedófilo Michel Foucault) que representam a inclinação à autogratificação levada ao seu ponto mais baixo. O horror de algumas destas "experiências-limite" tem tido destaque até mesmo na imprensa internacional dominada pelos "yuppies" das "vanguardas culturais" (a linha de frente dos exércitos culturais satânicos), como o caso do canibal homossexual alemão Armin Meiwess que cortou pedaços de seu parceiro, temperando-os com indiscutível requinte culinário (salgou o filé, acrescentou-lhe pimenta, alhos e noz moscada, comendo-o com croquetes 'princesa, couve de Bruxelas e molho de pimentão verde).

Meiwess, o canibal Alemão. Ele e sua "comidinha" são exemplos das teorias de Michel Foucault

O controle total mídia mundial no Ocidente (com algumas zonas por enquanto “liberadas” na Europa Oriental, Rússia, Oriente Médio, Extremo Oriente e Àfrica) abre as comportas para o abuso de clichês e a manipulação aberta da informação com enunciados maliciosamente distorcidos e truques semânticos. Entre as técnicas preferidas do Demônio em seu trabalho, a confusão das mentes de homens entorpecidos e maquinais é a mais frequente. O homem, “órfão” de suas crenças primitivas e de uma estrutura familiar que lhe transmita alguma sabedoria intergeracional, faz-se vítima indefesa da enganação midiática e dos demais aparelhos ideológicos que compreendem a escola, as universidades, as mídias, as organizações políticas, os órgãos do Executivo, Judiciário e Legislativo, amplamente controlados pelo séquito do Mal.

Assim, arada pelos renascentistas e sua casca de humanismo antigo, revolvida pelo ancinho do iluminismo, adubada pelos comunismos e social-democratismos do século XX a TERRA estava pronta, nos anos Setenta do Século XX, para abrigar as sementes geneticamente modificadas da revolução/liberação sexual, do neo-anarquismo, do pós-modernismo (em suas manifestações na música, pintura, escultura, literatura), um processo que alcançou o clímax com a massificação da Rede Mundial de Computadores, um caudal informacional que, a princípio, espicaçou a curiosidade dos ideólogos da esquerda (o braço político de Satã).

Um típico "intelectual orgânico" de esquerda a serviço da Hierarquia das Trevas

Com efeito, visando confundir ainda mais o público, principalmente os jovens, a “esquerda” (o exército político do Governo Oculto do Mundo e do Mal Aboluto) tenta impingir a falácia de que os meios de comunicação são controlados por uma “elite” (justamente em um século cuja ausência de uma verdadeira "elite" é a tônica dominante) quando, muito pelo contrário, eles são tribunas livres para articulistas e propagandistas diretos ou indiretos das ideologias nefastas que visam esfacelar esta moral mínima a que nos referimos. Basta que o observador leia os principais jornais on line, portais da internet (como o Yahoo, a AOL, o UOL no Brasil, o Terra, o IG) para verificar o enfoque pró-esquerda onipresente, atribuindo a pecha ora de conservador, ora de facista, ora de extrema-direita a qualquer opinião que colida ou coloque em cheque, ainda que timidamente, o bloco ideológico totalitário (a este respeito, peço que leiam os artigos do Prof. Olavo de Carvalho, um brilhante expositor e crítico da estratégia gramsciana de dominação”).

Para o desespero dos ideólogos esquerdistas (e satanistas, por decorrência lógica) a Internet tem propiciado – até que seja calada pelas mordaças personificadas nas leis propostas de controle da mídia, como já se dá na Argentina e se intenta implantar no Brasil – um campo fértil para crítica conservadora e tradicionalista sã bem como para os que combatem o moderno satanismo, o programa articulado no plano físico pelos “intelectuais progressistas” (orgânicos) e no plano espiritual por sua contraparte diabólica. Na antiga URSS foram sete décadas de espera até que a grande mentira de todos os tempos fosse desmascarada. No Leste Europeu, quase cinco décadas. Em Cuba, Coréia do Norte e algumas poucas ditaduras prevalecentes, a verdade ainda há de triunfar. Na América Latina, sob o disfarce da "democracia liberal", com abnegação e união de todas as forças avessas ao Reino da Escuridão, também a verdade se estabelecerá. Existe sim uma luz no fim do túnel. È preciso apenas engajar-se na guerra cultural e assumir virilmente as consequências desta opção.




quarta-feira, janeiro 11, 2012

O Traço Principal de Caráter segundo as Escolas Esotéricas - Thomas De Hartmann


Thomas De Hartmann


Um interessante trecho do livro do músico e discípulo de Gurdjieff, Thomas De Hartmann, "Nossa Vida com Gurdjieff":



“Nas escolas esotéricas, certos homens de alto nível de compreensão estudam, em sua totalidade, a natureza do homem.
Seus alunos querem desenvolver o próprio Ser. Falam sincera e abertamente de sua busca interior, de sua meta, como alcançá-la e como aproximar-se dela, e dos traços de caráter que lhe obstruem o caminho. Para ir ao encontro de uma confissão assim, deve-se tomar uma decisão importante, aceitar ver seus defeitos reais e falar deles. Gurdjieff ensinava ser absolutamente essencial conhecer o traço principal de seu caráter, aquele em torno do qual (como de um eixo) giram todas as nossas estúpidas e cômicas fraquezas. Desde os primeiros dias, Gurdjieff nos falava desse traço principal. Vê-lo e estar plenamente consciente dele é às vezes muito doloroso, algumas vezes impossível de suportar. Nas escolas esotéricas, como já disse, só se releva a um aluno sua fraqueza principal com muitas precauções, para evitar que se crie um estado de desespero capaz de pôr fim a sua vida. Um vínculo espiritual com um mestre pode evitar essa tragédia.
As Sagradas Escrituras falam do momento da descoberta do defeito principal quando dizem que, ao ser esbofeteado na face direita, você deve oferecer a face esquerda. O sofrimento que esse descoberta provoca assemelha-se à ofensa de uma bofetada. Um homem deve achar em si mesmo força para evitar esse sofrimento, mas ter a coragem de oferecer a outra face, quer dizer, ouvir e aceitar ainda mais a verdade sobre si mesmo”

terça-feira, janeiro 10, 2012

John Holman. O Retorno da Filosofia Perene - A Doutrina Secreta para os Dias de Hoje


A safra literária recente que atende aos anseios do buscador sincero não é generosa no Brasil. Acostumado a receber material de má qualidade e segunda mão, o brasileiro é presa de um mercado editorial canhestro que lucra com publicações de auto-ajuda ou esoterismo à la “Nova Era”. Há honrosas exceções, como a Madras Editora, a Editora Teosófica e a Pensamento, que teimam em oferecer ao leitor material de melhor qualidade. É o caso do livro “O Retorno da Filosofia Perene - A doutrina secreta para os dias de Hoje”, publicado pela Pensamento em 2011.
 Se no Brasil há décadas circula volumoso manancial de informação teosófica (na linha de Blavatsky e seus seguidores), o estudante de língua portuguesa dificilmente encontrará em vernáculo algo pertencente ao campo da “Filosofia Perene”, um ramo de estudos das tradições religiosas que remonta aos trabalhos pioneiros do francês Réné Guénon. Entre o que podemos conceber como um texto introdutório ao assunto (ou um pequeno, ou quase, manual para o semi-leigo), a obra de John Holman é única, o que é auspicioso para quem deseja superar a espiritualidade superficial e os clichês impostos pela mídia e uma indústria editorial que atendem aos interesses escusos daqueles que delimitam o que deve ou não ser lido.

Prova inconteste de que há uma conspiração de silêncio em torno do Tradicionalismo e da Filosofia Perene é a completa ausência nas livrarias, nomeadamente nesta terra de ninguém, o Brasil, de autores como Réné Guénon, Frithjof Schuon, Julius Evola como tantos outros. Miséria semelhante atinge gigantes da envergadura de Helena Petrovna Blavatsky – cujas obras escolhidas não existem em português; Mario Roso de Luna (o genial polígrafo espanhol) isto, sem falar, em escritos que coloquem em cheque mentiras históricas e falsos enredos políticos cuidadosamente inoculadas por grupos de pressão nas mentes brasileiras.

Voltando a Holman, seu objetivo é apresentar um panorama da visão de mundo esotérica ocidental, com foco em seus “aspectos psico-espirituais e cosmológicos”, com altas doses de sincretismo. O primeiro ponto que incomoda o observador perspicaz é o fato do título não corresponder ao peso dado a diversas questões, sua priorização e ordem de exposição. Discute-se, “en passant”, escolas e autores que detêm parentesco direto, ou não, com a “filosofia perene”, ao invés de, simplesmente concentrar-se em seus principais expoentes, o que, por si, pagaria preço de venda do livro e agradaria a este pouco exigente leitor. Se nos esquecermos deste não tão desprezível senão, podemos saltar todas as páginas dedicadas à teosofia (à moda de HPB e da Sociedade Teosófica), neoplatonismo, cabala e passos da iniciação, entre outras, atendo-nos, por conseguinte à porção escrita que obedece estritamente ao escopo sugerido na capa.

Isto significa procedermos a um recorte compreendo o intervalo entre as páginas 16 e 54, que contêm rudimentos do ensinamento “perene” úteis ao neófito, na falta do original. Tais prolegômenos compreendem a adequada colocação histórica do problema, marcos “metodológicos” para  a análise “acadêmica” dos problemas colocados pelo esoterismo ocidental e noções de tradição, tradicionalismo e seus elementos principais. Além disso, com certo proveito para o estudante, a revisão de elementos-chave da contribuição de René Guénon nos soa proveitosa, ainda que a tradução, aqui e ali, se mostre sinuosa.

Guénon e sua mesa de trabalho no Cairo
O que é “philosophia perennis”? A cunhagem do termo tem sido geralmente atribuída a Gottfried Wilhelm Leibnitz em uma tentativa de analisar a “verdade e a falsidade de todas as filosofias antigas e modernas” o que lhe levaria a extrair “o ouro da escória, o diamante de sua mina, a luz das sombras”. Ele próprio sacou o termo da obra “De Perenni Philosophia (1540)” do teólogo do Século XVI Agostinho Steuco, bibliotecário do Vaticano. Para este, a “filosofia perene” tinha a ver como uma “verdade absoluta originalmente revelada”, uma “prisca teologia”, a “iluminação que emana da “Mens Divina”. Outros, fazem-na remontar a Marco Túlio Cícero, que já se referia a uma religião-Sabedoria original e universal, “Theosofia” (tal como empregada por Amônio Saccas e continuadores modernos como Helena Petrovna Blavatstky e, em tempos recentíssimos, Aldous Huxley).

Traçada a origem do termo, há que conferir-lhe correto tratamento metodológico. Afinal, nas últimas décadas do século XX o esoterismo penetrou, nem tão “a forceps” nas universidades, ainda que como “(...) uma linha de pensamento histórica, algo que poderíamos chamar de tradição ‘subterrânea’ do pensamento ocidental (...) . Para tratar este “pensamento subterrâneo”, a “(...) abordagem geralmente promovida (quando não prescrita) é a ‘agnóstico-empírica’. Como “abordagem agnóstico-empírica” se quer dizer que, o “(...) o que é observável para todos nós (com algum esforço e com a mente humana comum) são as concepções dos esoteristas, não de que essas concepções são ou podem ser (da Realidade Divina). Essas concepções, à medida que as formos abordando, serão apresentadas de maneira ‘neutra’ (isto é, sem que haja manifestação de uma opinião acerca de sua veracidade), e este estudioso do esoterismo ocidental não é – que fique claro desde já – operacionalmente um esoterista, mas sim (...) um ‘esoterólogo’.”.

Trocando em miúdos, um esotórologo é alguém que admite de forma “neutra” as concepções dos praticantes de esoterismo, abstraindo-se seus fatores divinos, cuja percepção atina ao esoterista, a (...) a pessoa cuja experiência decorre de trilhar o Caminho com tudo que isso implica, inclusive o desejo de renascimento espiritual, em primeiro lugar”. O enfoque “agnóstico-empírico”, sem bem entendi, pode ter suas lacunas preenchida  por um esforço “etnometodológico” ou “gnóstico”. Assim, “Se desejarmos realmente entender o esoterismo, a única abordagem é a de um ‘insider’, ou seja, de alguém que conhece alguma coisa por dentro”, o que não descarta uma abordagem empírico-histórica usada por esoteristas-historiadores como G.R.S. Mead e Manly P. Hall, mas o mais importante a reter é que a “(...) a prática teúrgica antes da atividade erudita. Podemos ter tanto esooteristas quando esoterólogos, porém o que tem importância crucial é que não precisamos ser esoterólogos para ser esoteristas”.

O autor ao menos é realista acerca das limitações do seu próprio procedimento como esoterólogo, ao reconhecer que “(...) o estudo de textos como atividade de apoio apenas, com isso, implicando que, por mais que possa revelar acerca de um domínio empírico que chamamos de 'pensamento esotérico ocidental', a pesquisa acadêmica comum sempre continuará, por sua natureza limitada (sendo não procedimental), girando em órbita do verdadeiro material”.

Após seus comentários às novas metodologias empregadas para a compreensão do esoterismo, são repassadas antigas tradições que formaram sua matriz no Ocidente (o gnosticismo, o neoplatonismo e o hermetismo), até as leituras de René Guénon no Século XX, o fundador, por assim dizer, da escola “tradicionalista” da “Sophia Perennis”, espécie de conhecimento superior ao qual se poderia acessar por meio da “intuição intelectual”. Para Guénon, esta “Sabedoria Primordial” expressava-se em símbolos comuns às principais religiões do mundo, tendo como instrumento “par excellence” a literatura sapiente de cada um deles. Para descobrir seu significado, é preciso recorrer à gnose, o que permite que se fale um cristianismo esotérico, hinduísmo esotérico ou simples praticantes do esoterismo que sustentam sua própria religião.
Guénon e Schuon. Cairo

Não se trata apenas de uma “tradição esotérica ocidental” segundo Guénon, mas de uma “Tradição” que se origina no passado e tem continuidade no futuro, no Sempreterno. Desse modo, “(...) nossa cultura ocidental moderna (pós-medieval) não é Tradicional e, poderíamos inclusive reconhecer, é até antitradicional, diferindo de praticamente todas as demais culturas anteriores do planeta. Portanto, a modernidade assistiu a 'degeneração' (...)) da civilização humana numa era de Trevas, onde a luz da Tradição se extinguiu ou, na melhor das hipóteses, só brilha debilmente”.
Mas o que difere o “tradicional” do “antitradicional”? Resumidamente, princípios como:

a) Quantidade e Qualidade, o homem olhando “horizontalmente para fora”, a “(...) dimensão quantitativa, empírica, que se opõe à dimensão metafísica (quantidade como raciocínio discursivo e a qualidade se correlacionaria ao conhecimento);

b) o Absoluto, o Uno, Involução e Evolução: o Absoluto por trás do Uno, que se relaciona a um princípio por trás da natureza logóica, Uno este ao qual “do terceiro aspecto como o princípio da Matéria, o segundo aspecto como princípio da Consciência e o primeiro aspecto como o princípio do Espírito”;

c) Sempreternidade e Tempo: “Aquele que está por trás de nosso sistema cósmico pensa, todas as coisas da nossa realidade sensível se manifestam”. Neste ponto, é fundamental ter em conta que “eternidade significa duração infinita, referindo-se ao tempo “exotérico”. Sempreternidade, outro conceito decisivo, refere-se ao 'sempre agora' (Coomaraswamy a chamava de 'agora sempre') ou o momento esotérico dentro de cada momento do tempo exotérico. Portanto, o Eu supremo do homem, o espírito, reside em Deus e, portanto, o tempo esotérico. Em termos mais amplos pode-se então distinguir três tipos de tempo: 1) o tempo que o personagem mede; 2) o sempreterno e o 3) o “tempo da consciência”. Assim “(...) a evolução da consciência se processa em seu próprio ritmo. “A Sempreternidade é ainda mais fundamental. O homem identifica-se primeiro com o círculo (e com o tempo do personagem); em seguida com a linha (tempo da Consciência) e, por fim, com o ponto (Sempreternidade)”.

d) Hierarquia e Gnoseologia: A realidade se divide em níveis, a existência evolui à medida que os níveis se tornam mais altos. Em cada nível “há seres superiores e inferiores a nós, o que nos colocar em nosso verdadeiro lugar no universal”.
Deuses como graus de percepção.  O próprio conceito da filosofia envolve mais que o simples estudo.

d) Visão Tradicionalista da História e do Doutrinarismo: Nossa “consciência de dimensão quantitativa” pode ter crescido ao longo do tempo, mas até a Idade Média, a dimensão qualitativa continuou a ser 'reconhecida' no Ocidente (por meio de uma Grande “Cadeia de Existência”).

Em sua “Unidade Transcendente das Religiões”, Frithjof Schuon também se refere a alguns trações inerentes à filosofia perene que são: : 1) Os estágios sucessivos da realidade; 2) A realidade não é objetiva (ela é 'experiência de Deus'), 3) A experiência de Deus  - o Intelecto divino – está 'por trás' da experiência consciente de todas as criaturas, o que nos permite dizer que ela está em todas as criaturas; 4) a dualidade do exoterista verifica-se entre ele como criatura e Deus como Existência – portanto, entre dois aspectos dele mesmo. O esoterista reconhece a realidade dessa dualidade. 6)  O absoluto é a razão da existência, não há o que perguntar; 7)  a Existência é inescapável e, no que diz respeito a isso, podemos dizer que não temos livre arbítrio. Porém isso aplica somente a nossa condição humana, não à nossa divindade.

 
Para os tradicionalistas, na visão de René Guénon, a “(...) a mentalidade moderna é simplesmente o produto de uma vasta sugestão coletiva, a saber, a de que este mundo do homem e da matéria é a única realidade, e para Evola [um autor tradicionalista com idéias próprias mas que também se referencia em Guénon], esse mudança foi uma 'decisão metafísica' que tomamos (portanto na qual não podemos voltar atrás) com nosso livre-arbítrio”. Entretanto, sublinha que “(...) 'tradicionalismo' denota apenas uma tendência, que não implica nenhum conhecimento efetivo das verdades tradicionais”.

Não falta ao expoente maior do “Sophia Perennis” uma periodização das Eras (Krta, Treta, Dvapara e Kali Yugas)  – assim como o fizeram todas as Tradições do passado, da Índia, à Grécia e Roma. Esta classificação pode ser explicada nos termos do esquema de Giambattista Vico, que propõe uma Idade dos Deuses, dos Heróis e uma dos Homens, em que, na primeira, os deuses falam diretamente aos mortais por meio de seus sacerdotes (iniciadores) e, na última a humanidade passa a ser governada por homens comuns, com uma linguagem comum.

Aprofundando sua análise, no livro “O Reino da Quantidade e os Sinais do Tempo”, que veio à lume em 1953,  Guénon aponta o rumo antitradicionalista tomada pela humanidade a partir do Renascimento, desembocado no materialismo e correntes assemelhadas que se 'insinuaram-se na mentalidade geral e, finalmente, conseguiram estabilizar essa atitude sem recorrer a nenhuma formulação teórica'. Ou seja, o home mecanizou a tudo e a si mesmo, 'caindo pouco a pouco em unidades numéricas, parodiando a unidade mas perdido na uniformidade e na indistinção da 'massa'.

Porém, à humanidade ainda cabe algum alento. Pode ser que estejamos no fundo do poço, mas o caráter cíclico das eras - ensina o Mestre da Tradição - assegura-nos que à frente teremos uma nova Idade de Ouro, na qual a Filosofia Perene será abraçada por todos.

domingo, janeiro 08, 2012

O Big Brother Brasil - Satanismo para as Massas



" O BBB é satanismo em baixa escala, satanismo modulado para contaminar a esfera psíquica não do cerebral pernóstico mas do elemento que come um churrasco na laje e toma sua cervejinha gelada. È Belzebu (não o Belzebu magnífico de Gurdjieff mas o pobre diabo comedor de moscas), não uma manifestação do princípio superior do Mal, Lúcifer. Mas este Belzebu é um servo submisso de Lúcifer, que dissemina fragmentos da sua sábia cupidez ás massas. È Caronte, o barqueiro de Plutão. "


Está para ser lançada a nova edição do Big Brother Brasil. A euforia em torno dos seus participantes, a bisbilhoteira incursão em suas “vidas” (se é que se pode chamar de "vida" tais percursos erráticos e nulos) é o ponto central da tagaralice cotidiana insuflada pela imprensa. Mas o que é o Big Brother? Apenas um inocente “jogo” televisivo para entreter donas de casa e moças desocupadas? Uma sofisticada armação das elites para aumentar a grau de “alienação das massas” e perpetuar sua opressão sobre elas? Ou será que o Big Brother – não só em seu formato brasileiro – representa um componente decisivo na estratégia de longo prazo conduzida por alguns grupos de pressão na sociedade brasileira e que obedece a propósitos malévolos (para não dizer, satânicos).

Tendo a concordar com a última asserção. Por suas características o Big Brother é lixo midiático deletério. Se afasta da arte ao promover o baixo e o rasteiro. Deseduca ao subverter valores e costumes aceitos. Promove o banditismo e amoralismo ao convidar meliantes manifestos, marginais declarados e a escória da sociedade – se é que ainda possamos partir de critérios mínimos de discriminação do que é “socialmente bom” ou “ético”. Neste sentido, os detratores do programa e aqueles que o condenam como instrumento “alienante” estariam cobertos de razão, a princípio. Mas a análise da mensagem que traz o BBB prova antes que seu núcleo é precisamente a plataforma anti-axiológica e satânica que vem sendo implementada há alguns séculos – com maior velocidade nas últimas décadas, diga-se de passagem – por uma pequena fração da sociedade que atua como braço político e propangadista de fraternidade negra (para usar termo que agrida menos a sensibilidade do leitor).

O BBB é satanismo em baixa escala, satanismo modulado para contaminar a esfera psíquica não do cerebral pernóstico mas do elemento que come um churrasco na laje e toma sua cervejinha gelada. È Belzebu (não o Belzebu magnífico de Gurdjieff mas o pobre diabo comedor de moscas), não uma manifestação do princípio superior do Mal, Lúcifer. Mas este Belzebu é um servo submisso de Lúcifer, que dissemina fragmentos da sua sábia cupidez ás massas. È Caronte, o barqueiro de Plutão.

O “programa de ação afirmativa” que o BBB simboliza impregna há muito tempo os estratos mais elevados da classe média alta nas grandes cidades. Para o homem comum, mais religioso e simples, sua mensagem não deve chegar por meio da literatura e do intelecto, mas ser incutida sub-repticiamente com o concurso de técnicas que os meios de comunicação vêm desenvolvendo há décadas. Estes meios de comunicação são controlados fundamentalmente pelos mesmíssimos indivíduos, hoje à frente dos principais “organismos da sociedade civil” e sua contraparte institucional, os partidos políticos (pois no Brasil não há distinção entre eles). Por algum motivo que escapa à nossa compreensão, esta gente possui propósitos de natureza dupla, visível e invisível. Mais diretamente e óbvia é a tentativa de solapar toda a herança espiritual da sociedade, contrariando sistematicamente todo o divino e lançando a natureza humana em um abismo sem fundo. “Daimon est Deus Inversus”, diziam alguns cabalistas. Sobre seu lado oculto, pouco se poderia afirmar com certeza, a não ser que se entrelaçam a intricados planos de um Ser muito velho e seus aliados.

O individualismo extremado, o egoísmo, a exacerbação das paixões animais, a incontinência sexual (e o abuso antinatural da função sexual através da confusão dos centros, o que gera faunos monstruosos) a descrença no homem, a impiedade e a ausência crassa de quaiquer laivos de compaixão e a instabilidade mental. Se seus produtores mesclam aos elementos distintivos das novas “tribos urbanas” (tropas de elite de cada um dos vícios que enumeramos), eles o fazem por esperteza. No programa aqueles que deixam pegadas mais fortes nas mentes dos telespectadores são justamente o “professor gente boa e inteligente” que quer subverter princípios milenares à guisa de um opaco libertarismo, a “transexual” transfigurada ao se reencontrar seu verdadeiro “Eu”, o lutador estúpido e “autêntico” (hoje em dia o status de estúpido equivale a autenticidade) capaz de destruir todo aquele que lhe seja um obstáculo. O modus operandi dos personagens – implícito nas regras do jogo – é a calúnia, a intriga, a difamação, o emprego desmedido da mentira. A traição e a falsidade dão o mote principal ao enredo que é sempre o mesmo. O mais “esperto” e mentiroso vence, desde que seja dissimulado o suficiente para que o público assim não o enxergue ou, ao menos, não em patamar tão elevado.

Tudo o que o que o BBB preconiza é condenável por todas as tradições espirituais do mundo. A astúcia diabólica de quem o financia, o sadismo metódico daqueles que o dirigem,  a cretinice vulgar dos seus participantes (pobres diabretes lúbricos) só não salta aos olhos de quem não quer ver. E certamente agrada muitos de seus pseudo-críticos, que apenas desejam se manter no seu pedastal de “esquerda culta”, afastando-se daquele que tem sido seu maior e mais eficaz aliado na implementação da “revolução moral” que mina a sociedade brasileira e mundial.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Paul Johnson. Sócrates - Um Homem para nossos Tempos ("Socrates - A man for our times")



Socrates - A Man for our Times
O livro “Socrates – A Man for our Times” (“Sócrates – um Homem para nossos Tempos”) do historiador Paulo Johnson, lançado pela Penguin Books em 2011 (e ainda sem edição brasileira) é trabalho de alto nível e que instiga o leitor a vôos mais altos. Não faltaram críticos como David Mikics acusando Johnson de simplificar excessivamente seu retratado ou vestir-lhe como um “conservador” dos nossos tempos, mas a despeito do que se diga do livro ele tem ao meu ver três méritos notáveis: isola o que poderia ser o verdadeiro Sócrates, cujas opiniões e abordagem são bem distintas do “boneco articulado” criado por seu discípulo Platão, aponta sua condição de simples cidadão ateniense e escrutinador da natureza interna dos homens, de todas as classes sociais e esclarece com maestria inúmeros pontos obscuros da trajetória do filósofo entre sua condenação e a morte por ingestão da taça de cicuta.

Sócrates sempre estava de bom humor. Andava com as pernas arqueadas, para os padrões da Hélade era feio como um sátiro e, volta e meia, via-se identificado com horrendo e mitológico Sileno, ostentando na velhice uma  pança significativa. Não dava atenção à vestimenta ou a aquisição de bens materiais, preferindo um bom pedaço de pelo para confeccionar sapatos a um lote para erigir sua moradia. Bom soldado, sua coragem em batalha fora exaltada por Alcebíades. Lutava descalço e sem qualquer proteção sob o rigor do inverno ático, com aspecto tão duro que amendrotava os combatentes inimigos. Pai de família e admirador da sabedoria feminina (celebrou o espírito e amou a companhia intelectuais e filósofas notáveis como Diotima e Aspásia), Sócrates era um cidadão ateniense exemplar. Amava sua cidade, na qual era louvado por amigos, políticos e homens simples de diferentes ocupações. Outros o odiavam e caricaturavam, entre eles alguns professores e catedráticos muito parecidos com os sacripantas dos atuais departamentos universitários (os sofistas) e autores como Aristófanes (que o pintara como um sátiro maléfico e astuto em “As Nuvens). É claro que dada a inclinação da massa medíocre à manipulação mentirosa - que tal como hoje, em menor escala, também surtia seu efeito danoso - não era pequeno o número de seus detratores e algozes. 

Não conhecemos com exatidão o que Sócrates realmente disse. O que nos chegou veio através de Platão, que projetara a si mesmo em seus diálogos, parindo um “golem”, um “boneco articulado” que alguns analistas apelidaram de “PlatSoc”. Não era o Sócrates de carne e osso que falava amíude, mas a criatura com os cordões puxados pelo ventríloquo platão, salvo em raríssimas oportunidades como na “Apologia”, um registro “verbatim” do que dissera a seus interlocutores como defesa em seu próprio o julgamento.

Este Sócrates cuja vida fora tão misteriosa quanto a morte, nada escreveu. Não criou academias ou liceus, como Platão e Aristóteles. Nada afirmou de peremptório e jamais sustentou apego a crenças  sobre o além túmulo angariadas nos cultos de mistérios, como Platão. Não há um “sistema socrático”, mas apenas o dever, inspirado por seu “daimon” pessoal de examinar os homens e “partejar” a verdade que se encontra em seu interior empregando o “elenchos”, técnica semelhante à que os juízes empregam nos tribunais para extrair a verdade. O objeto de Sócrates era a virtude, nada mais que isso. Seu ensinamento condenava o relativismo moral tão ao gosto dos atenienses e que servia de matéria-prima a alguns sofistas, aos quais era maliciosamente associado (ou por pura ignorância, como era o caso de Aristófanes).

Sua obra era a construção de homens e mulheres bons, virtuosos. Nada mais que isso. Nesta tarefa, para a qual recebeu a paga que todo o mundo conhece, foi mestre de ilustres cidadãos atenienses como Critias e Alcibíades, que implicados, respectivamente, no violento governo dos “Trinta Tiranos” e na ardilosa manobra que conduzira a cidade à guerra da Sicília (o maior dos desastres  militares atenienses) representaram sua ruína. O que Johnson especula – na falta de indicações mais precisas – é que no clima de revolta e dor que se seguira à mortandade de supostos inimigos do Estado (durante a tirania), Meletos lançara a acusação infundada de impiedade (isto é, não adorar os deuses que o Estado adora) e corrupção da juventude como forma de encontrar, na pessoa de Sócrates, um bode expiatório para seus próprios erros. Mercê de sua fidelidade às próprias ideias e à fina ironia com que conduziu sua defesa (que irritara sobremodo o júri) – o filósofo recebeu sua pena, escolhendo a morte por cicuta em lugar de abandonar sua querida cidade.

Sem comparar Sócrates a Jesus (ou Platão a Paulo), a obra mais uma vez cala fundo no coração deste leitor. O que se depreende da vida e morte daquele que se atingira a glória de ser o maior filósofo do Ocidente é que todos aqueles que cultivam princípios e os partilham, ao invés de submeter-se à mesquinhez dos tiranetes de plantão, convertem-se em sérios candidatos ao cadafalso pelo inexpiável crime de não adorar os deuses da cidade (ou os voláteis princípios ideológicos de ocasião impostos por pequenos grupos de pressão e interesses políticos miúdos) e “corromper a juventude” (proclamando-lhe os princípios necessários ao enfrentamento das manobras conduzidas pelas mesmas minorias que controlam o aparato social).

Ofereçamos um galo a Asclépio!