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quinta-feira, dezembro 29, 2011

Blavatsky, René Guénon, a Teosofia e o "Tradicionalismo" - Uma Crítica


Contra Blavatsky: a Crítica de René Guénon à Teosofia
Richard Smoley

(Traduzido por C. Baptista a partir de:
http://www.theosophical.org/publications/quest-magazine/1696)

Originalmente impresso na Edição de inverno de 2010 da “Quest Magazine”.

Através das últimas duas décadas, os acadêmicos têm investigado o campo há muito tempo negligenciado da espiritualidade esotérica. Entre eles singularizaram-se cinco figuras como luzes principais do esoterismo ocidental no século XX: H.P. Blavatsky, Rudolf Steiner, C.G. Jung, G.I. Gurdjieff e René Guénon. Destes, Guénon é de longe o menos conhecido. Recluso e avesso ao mundo moderno, ele fez muito pouco para se tornar famoso. Ainda assim, após sua morte em 1951, tornou-se alguém cultuado e ao longo da segunda metade do século sua influência só aumentou – particularmente entre aqueles que vêm a civilização contemporânea como espiritualmente deteriorada.
O pensamento de Guénon se assemelha à Teosofia em certos aspectos importantes. Partilham a ênfase comum no ensinamento esotérico central que subjaz a todas as religiões e até mesmo são acordes com relação a muitos elementos deste ensinamento. Entretanto, Guénon era extremamente agressivo no que tange à Teosofia e a denunciou em grande medida em seu livro de 1921, o “Teosofismo: História de uma pseudo-religião”. Este trabalho não foi publicado em inglês até o ano de 2003, quando apareceu sob o título de “Teosofia: História de uma pseudo-religião”. Esta tradução não é inteiramente acurada. O título francês original se refere não à “Teosofia” (“Théosophie”), mas ao “teosofismo” (“Théosofisme”), uma palavra cunhada por Guénon para sugerir que a Teosofia de Blavatsky nada tinha a ver com a teosofia genuína, tal como praticada pelas escolas e tradições esotéricas do Oeste, sendo uma caricatura perigosa.
Nascido em Blois, França, em 1886, Guénon recebeu uma educação convencional em matemática. Em sua juventude ele começou a explorar as correntes ocultas em Paris e foi iniciado em grupos esotéricos conectados à Maçonaria, Taoísmo, Advaita Vedanta e Sufismo. Como Blavatsky, ele sustentava que havia uma tradição esotérica que era a fonte de todas as religiões, mas diferia muito dela sobre o que a constituía a genuína continuação desta linhagem. A Teosofia, ele insistia, não o era. Mas por que razão ele era tão duro quanto a isso? A questão causa mais perplexidade quando aprendemos que Guénon foi pela primeira vez introduzido ao esoterismo por Gérard Encausse (melhor conhecido sob o pseudônimo de Papus), que era um correspondente de HPB e co-fundador da Sociedade Teosófica na França (Quinn, 111).
Ironicamente, uma razão para a atitude de Guénon poderia provir do fato de que ele e Blavatsky não tinham pontos de vista muito diferentes. De fato, o erudito Mark Sedgwick, cujo livro “Contra o Mundo Moderno” é a melhor introdução ao impacto do pensamento de Guénon, enxerga a Teosofia como uma de suas maiores influências (Sedgwick, 40-44). Já vimos antes que Blavatsky e Guénon concordavam sobre a existência de uma tradição esotérica universal. Ambos fizeram uso liberal dos termos sânscritos na exposição de suas idéias e concordavam a respeito dos perigos do espiritualismo, argumentando que as sessões espíritas não habilitavam alguém a fazer contato com indivíduos mortos, mas meramente com seus ‘cascões astrais’, os quais são descartados assim que o espírito ascende a planos mais altos. Guénon devotou todo um livro, ‘L’erreur spirite’ (“O Erro Espírita”), a esse assunto. Nele escreve: “É bem sabido que o que pode ser evocado [em uma sessão] não representa o ser real, pessoal... mas somente os elementos inferiores que o indivíduo de certa forma deixou no domínio terrestre após a dissolução do composto humano que chamamos “morte” (Guénon, “L’érreur spirite, 54-55)*.
Isto comporta mais que uma pálida semelhança com o ensinamento teosófico. O próprio Guénon cita Blavatstky ao dizer que os fenômenos espiritualistas são frequentemente causados por elementos astrais ou “cascas” que foram deixados pelos que partiram. Ainda insiste, no entanto, que os Teosofistas estão errados: “Os Teosofistas crêem que a ‘casca’ é um ‘cadáver astral’, isto é, os restos de um corpo em decomposição, a despeito do fato de que este corpo é pensado como não tendo sido abandonado pelo espírito por um tempo mais ou menos longo após a morte (não sendo essencialmente atado ao ‘corpo físico’). "Para nós, a concepção em si de ‘corpos invisíveis’ nos parece em larga medida errônea ".(Guéon, “L’érreur spirite, 57). Enquanto Guénon admite que a distinção entre sua visão e a de Blavatsky é sutil, é difícil comprová-lo, exceto na terminologia. Mas este é um problema comum em algumas formas de pensamento, particularmente o esoterismo: quanto menor uma diferença é, tanto mais se insiste nela. A história de religião nos oferece muitos exemplos.
Guénon também reitera que HPB falou de forma dúbia sobre o espiritualismo. E, de fato, ela estava profundamente engajada no movimento espiritual no início dos anos setenta do século XIX. Comentando sobre suas últimas opiniões de que os médiuns são geralmente fraudulentos ou seriamente desequilibrados, ele escreve: “Parece que ela se defrontou com o seguinte dilema: ou ela era apenas uma falsa médium à época de seus ‘clubes de milagres’ ou era uma pessoa doente” (Guénon, Theosophy, 115-16). Os seguidores de Blavatsky poderiam replicar que ela sempre pretendeu extrair a verdade do falso no espiritualismo – conhecer a realidade de vida após a morte e mesmo em larga medida do fenômeno espiritualista, enquanto mostrava que estes são de um tipo sinistro e baixo. Uma de suas cartas, datada de 1872, diz “[os espiritualistas] espíritos não são espíritos, mas espectros – restos, a segunda pele jogada fora de suas personalidades, que os mortos depositam na luz astral como as serpentes fazem com as suas na terra, sem deixar nenhuma conexão entre o réptil e sua vestimenta prévia (Blavatsky, Cartas, 1: 20). Uma outra carta, contudo, escrito em 1875, comenta: “Aqueles que procuram negar a verdade do Espiritualismo irão encontrar um Dragão furioso em mim e uma denunciante impiedosa, onde quer que estejam” (Blavatsky, Letters, 1:101).
O que HPB realmente buscou ao participar do movimento espiritualista é difícil de se avaliar, especialmente porque qualquer um que queira colher asserções contraditórias em seus escritos, nesta matéria ou em outras, o faria prontamente. Entretanto, suas atitudes com relação ao espiritualismo nos últimos quinze anos de sua vida dificilmente se distinguem daquelas de Guénon.
O caso é bem diferente quando se trata de outras duas doutrinas teosóficas: o Karma e a reencarnação. Guénon insiste que a visão teosófica é pura fabricação e nada tem a ver com o ensino genuíno do Leste: “a idéia da reencarnação..., assim como a da evolução, é uma idéia muito moderna, ela parece ter se materializado em torno de 1830 ou 1848 em alguns círculos socialistas franceses (Guénon, Theosophy, 104). Isto poderia ser verdade sobre o termo “reencarnação” em si, mas o ensinamento pode ser encontrado no Oeste e remonta a Pitágoras, sendo discutido à exaustão na República de Platão e no Fédon, sem mencionar sua longa herança hinduísta e budista.
Mas Guénon nega tudo isso. Considerando a transmigração das almas humanas em animais, ele diz:
“Na realidade, os antigos nunca conceberam tal transmigração, assim como não o fizeram com relação de um humano em outros humanos, ou seja, o que podemos definir como reencarnação. Há expressões, mais ou menos simbólicas, que podem dar origem a esta má interpretação, mas somente quando não sabemos o que eles realmente estão dizendo, que é o seguinte: há elementos psíquicos no ser humano que se separam após a morte, os quais podem se transferir para outros seres vivos, homens ou animais, embora isto não tenha mais importância do que o fato de que, após a dissolução do mesmo individuo, os elementos que o construíram possam ser usados na construção de outros corpos (Guénon, “L’érreur spirite, 205-07).
Infelizmente, as avaliações dos antigos sobre a reencarnação não dizem nada desta espécie. Ao final da República, Platão relata o mito de Er, um soldado que havia passado por uma experiência de quase morte na qual tomou conhecimento da sorte dos indivíduos após a morte (Platão, República, 614b-621d). Em uma famosa passagem, Er vê os mortos escolhendo suas condições para novas encarnações. Odisseus, o mais perspicaz deles, recusa uma vida de rico e honras e, ao invés disso, escolhe a de um cidadão ordinário. Por mais “simbólica” que a estória possa ser, é difícil crer como poderia ser acomodada em uma teoria como a de Guénon. Podemos fazer a mesma observação sobre um mito similar no Fédon e sobre os ensinamentos órficos e mistérios pitagóricos, na extensão do que conhecemos deles.
As visões particulares de Guénon sobre o destino do espírito após a morte são complexas. Ao definir a transmigração como aquilo que considera o sentido da verdade, ele pondera: “não é o caso de retorno ao mesmo estado de existência... mas, pelo contrário, a passagem do ser a outros estados de existência, os quais são definidos... mas por condições completamente diferentes daquelas pela quais o ser humano é sujeito... Qualquer um que fale de transmigração está essencialmente falando de uma mudança de estado. Isto é o que todas as doutrinas tradicionais do ensinamento do Leste e nós temos muitas razões para acreditar que era também o ensinamento dos mistérios da antiguidade; é a mesma coisa em doutrinas heterodoxas como o “budismo” (Guénon, L’érreur spirite, 211).**
Guénon concebe a existência como um tipo de grade tridimensional, com um eixo vertical cortando um número infinito de planos horizontais. O eixo vertical representa o “Self”, a essência verdadeira de um ser dado, e cada um dos inumeráveis planos horizontais constitui um plano separado de manifestação. A vida humana na terra é somente um desses planos. Um ser determinado pode se manifestar somente uma vez em cada plano particular. Assim, não podemos nascer mais que uma vez como um humano.
Como grande parte do pensamento de Guénon, este é rigorosamente preciso e seria irrefutável exceto por uma coisa: Guénon assume que qualquer plano dado – tal como a vida humana terrestre – é estático. Mas de fato não há nada que o prove. Pelo contrário, a Terra e a sua vida estão elas próprias mudando de forma incessantemente, quer as olhemos sob a perspectiva das idades geológicas, quer da história humana. As possibilidades da vida humana na Terra hoje não são as mesmas que eram 1000 A.C. ou serão em 3000 D.C. Nunca poderemos nascer na mesma Terra duas vezes, assim como não nasceremos como a mesma pessoa duas vezes.
Além disso, há pequena evidência da alegação de Guénon de que sua visão é o verdadeiro ensinamento do Hinduísmo ou budismo. Professores destas linhagens frequentemente falam de reencarnação de formas que são muito mais similares à visão teosófica que à sua. O Dalai Lama escreve: “Ocorreram e são encontrados no tempo presente, muitos incidentes que ilustram o renascimento, de muitos países no mundo. De tempos em tempos, as crianças falam sobre seu trabalho em uma vida prévia e podem nomear a família com a qual viveram. Por vezes é possível verificar estes casos e assim provar que os fatos lembrados pela criança não são invenções, mas verdadeiros (Dalai Lama, 28-29). Isto não condiz com o argumento de Guénon de que a encarnação como um humano se dá apenas uma vez, e o status do Dalai Lama como expoente da Doutrina Tradicional é bem mais alto que o de Guénon.
De uma perspectiva hindu, podemos nos voltar para o clássico “Autobiografia de um Yogi”, de Paramahansa Yogananda. Yogananda cita seu guru, Sri Yukteswar: “aos seres com o karma terrestre não redimido não se permite após a morte astral ir à esfera causal das idéias cósmicas, mas devem ir e vir entre os mundos astral e físico somente” (Yogananda, 428). Este processo de ir e vir do mundo físico sugeriria que a encarnação física não é opção de uma só vez. E novamente, as credenciais de Yogananda e Sri Yukteswar como transmissores do ensinamento tradicional são muito maiores que as de Guénon.
A denúncia da Teosofia por parte de Guénon inclui seus ensinamentos sobre o Karma, “pelos quais [dizem os Teosofistas], as condições de cada existência são determinadas pela ações cometidas durante existências prévias. Ele explica: “A palavra ‘karma’ simplesmente significa ‘ação’ e nada mais. Ela nunca teve o sentido de causalidade, e muito menos designou aquela causação especial cuja natureza já indicamos (Guénon, Theosophy, 107-108). Ao passo que é verdade que a palavra Karma pode simplesmente significar ‘ação’, como diz Guénon, ela é usada em mais sentidos do que este.
Uma vez mais, praticamente toda discussão sobre esses assuntos por parte de um professor hindu ou budista não se afina com Guénon, mas com a Teosofia.  O Pandita Rajmani Tigunait do Instituto Himalaio escreve, Cada escola da Filosofia Hindu aceita a lei imutável do Karma, a qual estabelece que para cada efeito há uma coisa, e para cada ação há uma reação. Um homem executa suas ações e recebe remuneração por elas (Tigunait, 24). Como vimos acima, Sri Yukteswar também usa a palavra neste sentido.
Outras acusações de Guénon são igualmente errôneas. Em uma nota de pé de página observa: “Os Teosofistas reproduzem ... a confusão dos orientalistas não ‘iniciados”: o Lamaísmo nunca foi uma parte do Budismo” (Guénon, Theosophy, 130). Mas aqui é Guénon quem está reproduzindo a confusão dos “orientalistas” – os eruditos europeus do século XIX que foram os primeiros a tratar a religião do Leste de forma acadêmica. O termo “Lamaísmo” não existe ou tem qualquer equivalente em tibetano; de fato, é meramente um nome para o Budismo Tibetano que foi inventado pelos orientalistas. Ainda em 1835, o Professor Isaac Jacob Schmidt declarou: “Dificilmente seria necessário observar que o Lamaísmo é uma invenção puramente européia e não é conhecido na Ásia”. Mesmo nos tempos de Guénon o termo havia caído em descrédito (Lopez, 15). Apesar de tudo, desafiando a existência dos Mahatmas de HPB, Guénon insiste: “a própria palabra ‘Mahatma’ nunca teve o significado que ela lhe atribuiu, pois na verdade a palavra indica um princípio metafísico e não pode ser aplicada a seres humanos” (Guénon, Theosophy, 39). Esta opinião é refutada na prática por toda a Índia, a qual usa o termo para se referir ao venerado Mohandas Ghandi.
Tendo visto tudo isso, somos levados a perguntar o que provocou a investida de Guénon. Uma reposta pode se encontrar nesta afirmação: “Se a assim chamada Doutrina Teosófica for examinada como um todo, é a principio aparente que o ponto principal é a idéia de ‘evolução’. Mas esta idéia é totalmente estranha aos orientais, e mesmo no Oeste pertence a data muito recente” (Guénon, Theosophy, 97). Ele acrescenta que os Teosofistas vêem a reencarnação ‘como os meios pelos quais a evolução é efetivada, primeiramente para cada humano em particular e consequentemente para toda a humanidade e mesmo para o universo inteiro (Guénon, Theosophy, 104). Além disso, ele escreve: “Nós ... apresentamos a doutrina da evolução como constituindo o núcleo mesmo de toda a doutrina Teosófica” (Guénon, Theosophy, 293).
Aqui Guénon pisa em terreno mais firme. O conceito de uma humanidade em evolução em um universo em evolução é muito difícil de encontrar nos textos orientais tradicionais. Blavatsky parece ser consciente disso quando escreve: “Deverá vir o dia... quando a ‘Seleção Natural’ tal como ensinada por Darwin e Herbert Spencer formará somente uma parte, em sua última modificação, da nossa Doutrina da evolução do Leste, na qual Manu e Kapila serão esotericamente explicados (The Secret Doctrine, I, 600). Como a Teosofista Anna F. Lemkov observa, “Blavatsky integrou a idéia da evolução com a venerável idéia da hierarquia do Ser (Lemkov, 128).
Antes do tempo de Blavatsky, enquanto as doutrinas do Karma e reencarnação eram conhecidas no Leste e até certo ponto no Oeste, estas idéias não abarcavam a evolução (uma estonteante exceção aparece nas famosas linhas de Rumi: "Morri como mineral e tornei-me planta. Morri como planta e renasci animal. Morri como animal e tornei-me homem. Por que devo temer? Quando fui eu diminuído por morrer?". Isto é, não se deveria pensar que uma mônada individual pudesse progredir ou desenvolver-se meramente pela virtude de passar por infinitas encarnações; mas a reencarnação era vista como um giro incessante que se dá sem fim e do qual moksha ou liberação provê uma saída. Este é o fundamento da Roda da Vida na arte Budista, a qual mostra os seis Lokas ou reinos – o dos deuses, semi-deuses, humanos, animais, espíritos famintos e seres infernais – como um ciclo de servidão cujas cadeias são os Três Venenos do desejo, raiva e ignorância. Pelo mérito, um indivíduo pode ser alçado ao mundo dos deuses com sua abundância e prazeres, mas quando seu bom Karma é exaurido, cai novamente nos reinos do inferno e recomeça tudo novamente. Somente a iluminação pode quebrar o círculo. A carta da Roda da Fortuna no Tarô contém ensinamento similar.
A Teosofia, em contraste, freqüentemente retrata a evolução como mais ou menos automática. Passando por incontáveis encarnações através de raças, rondas e globos, eventualmente cada mônada irá atingir a divindade. O desenvolvimento esotérico é importante principalmente para acelerar este processo para aqueles que desejam se mover mais rapidamente – idealmente com o objetivo de prestar serviço ao próximo. Esta versão da evolução diverge da visão darwiniana tradicional, pois esta última não  tem direção ou propósito; sendo meramente um resultado cego e casual da adaptação às circunstâncias naturais.
Esta integração da evolução à doutrina esotérica pode ser a idéia mais seminal que a Teosofia introduziu na cultura mundial. Ela foi ecoada e amplificada por grande número de pensadores – Henri Bergson, Teilhard de Chardin, Alfred North Whitehead, Sri Aurobindo – os quais têm pouca ou nenhuma conexão com a Teosofia “per se”. Foi também apropriada pelo Movimento da Nova Era e seus sucessores: O Web Site “Reality Sandwich”, por exemplo, tem como “tag line” o seguinte dizer: “Consciência em evolução, pedaço a pedaço”.
Seja certa ou errada a visão teosófica, ela não parece ser danosa. Por que Guénon a odiou tão intensamente? Para Guénon, a tradição é o “nec plus ultra” da vida humana. Ele a concebe como uma hierarquia espiritual, com o conhecimento mais alto emanando de um centro espiritual hoje escondido em direção a toda a humanidade, por meio das tradições ortodoxas, entre as quais se incluem (com muitas reservas e qualificações) as grandes religiões mundiais assim como outra linhas como a Franco Maçonaria. Na era presente, a Kali Yuga, a idade da escuridão, esta transmissão do conhecimento tradicional – a “doutrina”, como ele frequentemente a estiliza –se tornou completamente bloqueada. Por ser o resultado de um longo ciclo cósmico, não há o que se possa fazer exceto esperar pelo seu fim e, neste meio tempo , encontrar refúgio em alguns dos últimos redutos da tradição genuína. Guénon seguiu seu próprio conselho. Em 1930 ele se mudou para o Cairo, onde se converteu ao Islã e viveu até sua morte em 1951.
Para Guénon, a idéia da evolução é perniciosa porque ela nega a verdade sobre a era presente. Nós não somos um arco ascendente em direção a maior consciência; estamos no nadir de um ciclo, no que ele chama de “reino da quantidade” (o título de seu livro mais famoso), e fingir que estamos em desenvolvimento é mais que ilusão, seria praticamente admitir a ação de sinistras forças contrainiciáticas (Guénon, Theosophy, 272n).
Outras acusações de Guénon contra a Teosofia são verdadeiras, mas muitos leitores hoje iriam hesitar em tomar seu lado nestes assuntos. Ele corretamente nota, por exemplo, que a Sociedade Teosófica na Índia lutou contra o sistema de castas, adicionando que “os europeus geralmente demonstram tanto hostilidade às castas porque são incapazes de compreender os profundos princípios em que se baseiam” (Guénon, Theosophy, 276). É verdade que os Vedas, as Leis de Manu e o Bhagavad Gita todos eles invalidam o sistema de castas pelo simples fato de que cada casta representa uma das partes do homem cósmico. Mas não há provavelmente muitos hoje em dia que iriam sustentar tal sistema, não importa quantos textos sagrados o endossem.
Há mais elementos na crítica de Guénon à Teosofia em que se pode fazer-lhe justiça, principalmente sua negação da boa fé de HPB e a existência dos Mestres. Tratar de tais assuntos – que têm sido explorados sob vários ângulos – está além do escopo deste artigo.
O que podemos dizer disso tudo? Para começar, Guénon merece seu lugar entre os esoteristas de proa no século XX. Seus escritos metafísicos – tais como “O Homem e seu Devir segundo o Vedanta”, os “Múltiplos Estados do Ser”, “O Simbolismo da Cruz” – são modelos de profundidade e lucidez no campo que é fértil em verborragia profusa e sem sentido. Mas de maneira curiosa, a maior força de Guénon também é sua maior fraqueza. Sua visão da metafísica “tradicional” é de clareza cartesiana e precisa (ainda que Guénon pudesse odiar a analogia). E assim é precisamente esta precisão cartesiana que constitui o principal problema com seu pensamento. Ele não pode acomodar qualquer coisa que não caiba em sua elegante estrutura geométrica, que não concebe a realidade ordinária tal como é, o que reflete a profunda e indiscriminada raiva de Guénon dirigida ao mundo moderno. Tudo na Kali Yuga é repreensível. Não há nada a fazer senão se esconder em um dos últimos refúgios da “tradição” até   despertar de uma nova era.
Esta não é uma visão esperançosa; mais que isso, baseia-se na completa e ulterior ruína do mundo que vemos ao nosso redor. Anos atrás um antigo tradicionalista (como são chamados os seguidores de Guénon) confessou-me que teve de abandonar tudo aquilo pois estava fazendo com que ficasse depressivo. Alguns tradicionalistas não ficavam satisfeitos com a posição mais passiva de Guénon e procuraram minar o que viam como o mal, o meio materialístico no Oeste Contemporâneo. Assim na Europa o tradicionalismo tem freqüentemente alimentado um impulso em direção a políticos de extrema direita. Um tradicionalista bem conhecido, o estudioso romeno de religiões comparadas, Mircea Eliade, apoiou a Legião Fascista do Arcanjo Miguel (a qual tentou sem sucesso influenciar em linhas tradicionalistas) no período anterior à II Guerra Mundial na Romênia (Sedgwick, 113-5); um outro, o nobre italiano Julius Evola, não apenas era associado ao Partido Fascista de Mussolini (o qual ele também tentou guindar em direção ao tradicionalismo, igualmente sem sucesso; o que mais tarde também tentaria fazer com o Partido Nazista Alemão) mas também foi ícone de elementos de extrema direita na Europa do pós-guerra, alguns deles terroristas (Sedgwick, 98-109; 179-87). Uma outra forma de tradicionalismo penetrou a Rússia durante e depois da Era Soviética, na qual se transmudou em um movimento de influência crescente chamado “Neo-Eurasianismo”, o qual sustenta que a Rússia deve dominar a massa de terra Eurasiana como um contrapeso à influência americana (Sedgwick, ch. 12).
O Tradicionalismo também forneceu combustível à reação contrária ao Ocidente no mundo Muçulmano. Enquanto o Tradicionalismo é uma filosofia extremamente obscura no Oeste, “no Irã e Turquia ocupa uma posição mais importante no discurso público que em qualquer outro lugar”, como Mark Sedgwick observa em seu blog (um web site moderado por Sedgwick, http://traditionalistblog.blogspot.com em que se pode mergulhar em informação sobre esses assuntos). No Irã pré-revolucionário, o acadêmico Tradicionalista, Seyyed Hossein Nasr era um protegido do Xá e sob seu patrocínio estabeleceu a Academia Imperial Iraniana de Filosofia como um bastião Tradicionalista. Alvo de ataques em seu país nativo, o Tradicionalismo de Nasr ajudou a inspirar a revolução islâmica de 1979, forçando-o a emigrar para os EUA, onde hoje é professor de estudos islâmicos na Universidade de Washington.
No mundo de fala inglesa, o Tradicionalismo tem sido mais benigno e menos politizado. Seu mais proeminente advogado nos EUA é Huston Smith, autor de “As Religiões do Mundo”, que publicou em 1976 a obra intitulada “A Verdade Esquecida: a Visão Comum das Religiões do Mundo”, contendo a exposição do pensamento de Guénon (incluindo um capítulo ecoando a crítica de Guénon à evolução chamada “Esperança, Sim; Progresso, não”). Na Inglaterra, o aderente mais proeminente desta escola é o Príncipe de Gales, que lançou a Academia de orientação Tradicionalista Temenos em 1990, concebida como um guarda-chuva para seus projetos culturais (Sedgwick, 214).
Também tem ocorrido alguma interpenetração recente entre o Tradicionalismo e a Teosofia: o livro escrito por William Quinn em 1997, “A Única Tradição”, tentou reconciliar os dois lados, enquanto a Sociedade Teosófica imprimiu pela Quest Books “A Unidade Transcendente das Religiões”, um importante trabalho de Frithjof Schuon, o discípulo mais influente de Guénon.
Guénon permanece desconhecido para o público mais amplo (o documentário de Bill Moyers em 1996 sobre Huston Smith não fez nenhuma referência à influência de Guénon) e, ainda que sua presença marcadamente permeie o mundo moderno, ele é desprezado. Atualmente, penso, devemos analisar Guénon com a clareza e discriminação aplicada a qualquer ensinamento esotérico – incluindo a Teosofia. Ele é alguém de brilho incomum, mas contrariamente ao seu auto-retrato, ele não é uma figura olímpica remota e serena. Tinha ojeriza ao mundo ao redor – que não temos dúvida, era tanto pessoal e psicológica quanto espiritual – e, segui-lo muito longe nesta direção,  provavelmente nos levará à confusão e à angústia.

Referênciaa
Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky: Vol. 1, 1861–79. John Algeo, ed. Wheaton: Quest, 2003.
———. The Secret Doctrine. Two volumes. Wheaton: Quest, 1993 [1888].
The Dalai Lama XIV. The Opening of the Wisdom-Eye. 2nd ed. Wheaton: Quest, 1991.
Guénon, René. L’erreur spirite. 2nd ed. Paris: Éditions Traditionelles, 1952.
———. Symbolism of the Cross. Angus McNabb, trans. London: Luzac, 1958.
———. Theosophy: History of a Pseudo-Religion. Alvin Moore Jr. et al., trans. Hillsdale, N.Y.: Sophia Perennis, 2003.
Lemkow, Anna F. The Wholeness Principle: Dynamics of Unity within Science, Religion, and Society. 2nd ed. Wheaton: Quest, 1995.
Lopez, Donald S., Jr. Prisoners of Shangri-La: Tibetan Buddhism and the West. Chicago: University of Chicago Press, 1999.
Quinn, William W., Jr. The Only Tradition. Albany: State University of New York Press, 1997.
Sedgwick, Mark. Against the Modern World: Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century. Oxford: Oxford University Press, 2004.
Tigunait, Pandit Rajmani. Seven Systems of Hindu Philosophy. Honesdale, Pa.: Himalayan Institute, 1983.
Yoganananda, Paramhansa. Autobiography of a Yogi. 6th ed.
Los Angeles: Self Realization Fellowship, 1955.


terça-feira, dezembro 27, 2011

Aleksandr Dugin – Eurasianismo, a Ideologia da Nova Rússia e a "Civilização Ocidental"

Creomar Baptista

Aleksandr Dugin
No Brasil que alcançou o "sexto PIB do mundo" pouquíssimas pessoas conhecem sua própria história, muito menos a história universal ou a de um país como a Rússia, milenar e decisivo no jogo político internacional. Não falo simplesmente do seu passado remoto, muito menos de sua herança cultural herdada de Bizâncio. Sequer me refiro à URSS e, fazendo justiça ao acervo cultural do brasileiro médio, nem mesmo ao período recente de Yeltsin e Putin. Seria pedir demais, muito pedantismo "pequeno-burguês" de nossa parte. Bobagem conhecer a história ou se informar sobre acontecimentos de outros países.

Um traço "diretor" do caráter do brasileiro é a compulsão em se enxergar como discriminado e diminuído pelo "preconceito" europeu e americano, mas ele mesmo, como apedeuta e preguiçoso que é, esquiva-se de estudar e nem se esforça, - minimamente que seja - para compreender realidades externas ao seu torrão natal. Neste quesito fica atrás dos EUA, onde ao menos existe uma elite intelectual que por trás de uma massa de nulidades se aprofunda criticamente sobre os dilemas mundiais, o que não ocorre no Brasil onde o próprio Itamaraty se transformou em aparelho barato do governo de ocasião.  Mas, este artigo, pouco original e simplório, é direcionado ao restrito clubinho de compatriotas sequiosos de alcançar a verdade, para os quais nunca há limites para a obtenção de novas informações.


Através de um amigo que freqüenta os cursos do filósofo Olavo de Carvalho, tomei conhecimento há algum tempo da obra e ação política do russo Aleksandr Dugin. Para alguém que há mais de 20 anos estuda a história e economia soviética e escreveu há muitos anos atrás um análise sobre o que era a economia russa antes de 1917 (sem contar que minha monografia de graduação em economia em 1994 foi centrada na história recente da URSS e as reformas no início dos anos 90), embora um pouco afastado do tema, foi uma indicação oportuna, sobretudo pelo avanço no neo-comunismo russo de Guenady Zyuganov sobre Putin que se avizinha do ocaso esperado.

Expoente maior na atualidade do “Eurasianismo”, Aleksandr Dugin é alguém bastante próximo da linha dura comunista pós-soviética, de poderosos elementos das agências de (des) informação, membros da Duma (Parlamento) e do Executivo russo. Além disso, é quadro do Partido Político “Eurasia” é autor de “Fundamentos de Geopolítica”, um dos manuais empregados em cursos da Academia Militar Russa sob chancela do Alto Comando das Forças Armadas. Adicionalmente, participou recentemente de um debate com o pensador brasileiro radicado nos EUA, Olavo de Carvalho, que merece ser avaliado por todos que busquem melhor compreensão das implicações do "Eurasianismo".

Resta um paralelo indelicado com o Brasil. Enquanto nosso país adota um "modelo" de crescimento ancorado no mercado externo e exportações de commodities (o que nos torna uma economia baseada em um tipo de especialização produtiva escravizada pela nova "divisão internacional do trabalho", para usar termo emprestado de reconhecidos economistas marxólogos) de curto prazo e vulnerável a oscilações da economia internacional (ora, ao acusador cabe o ônus da prova, esta não é a tese cepalina?), a Rússia não só tem crescido como recuperado parte do seu capital humano, sendo capaz de modernizar seu setor militar-industrial. A "sonolenta" Rússia e os países da "ex-URSS", antigas repúblicas soviéticas, são mais diretamente responsáveis pela queda das potências centrais no "ranking" do PIB que a suposta ascenção de países do "futuro" como o Brasil.

Voltando ao tema principal, não tenho conhecimento de títulos subscritos por Dugin em língua portuguesa. Apenas traduções amadoras na internet e parcas referências biográficas. Em inglês o interessado, entretanto, pode fazer o download de alguns “papers” que abordam com metodologia de qualidade variável o conceito de “eurasianismo” e filigranas de seu pensamento, uma mescla assaz inventiva e inteligente da religiosidade e misticismo russos (a “alma” da Velha Rússia) e leituras de Karl Schmidt,  Karl Haushofer, Guido Von Lizt, René Guénon e uma pequena plêiade de autores que estão longe de pertencer ao “mainstream” de abobalhados e papagaios de pirata que vêm arruinando a academia ocidental.

Bem, nos comentários à biografia e idéias de Aleksandr Dugin do Sr. John Dunlop pudemos encontrar uma apreciação global do que é o “Eurasianismo” e suas implicações como fundamento ideológico do imperialismo pós-soviético. Não podemos crer “in totum” nem no Sr. Dunlop (um defensor aberto da 'sociedade atlanticista') nem no que atribui ao Sr. Dugin, assim como não poderíamos, ao que tudo indica, depositar fé irrestrita em um intelectual russo que prega a desinformação sistemática como técnica de enfraquecimento do Ocidente. È pois crucial à política preconizada por Dugin o conceito de “revolução conservadora” que restaure os valores heróicos de uma tradição renovada. Mas, enfim, o que é o “Eurasianismo”? O que faz dele uma doutrina importante na Rússia atual e como sua gradual penetração entre as elites daquele país (onde tem se tornado uma “moda de salão”) impacta de forma preocupante a sociedade ocidental.

Recorrendo à extensa literatura do século XX sobre geopolítica – e especialmente a escola alemã do entre-guerras de Karl Haushofer – Dugin coloca um conflito dualístico entre o “Atlanticismo” (países “do mar” e civilizações com os Estados Unidos e a Grã Bretanha) e “Eurasianismo” (estados baseados na terra e civilizações como a Eurásia-Rússia). Como Wayne Allensworth percebeu, uma vez que se penetra a linguagem aparentemente reacional e acadêmica em “Fundamentos de Geopolítica”, tornamo-nos cientes de que ‘A geopolítica de Dugin é mística e oculta em essência, o formato das civilizações mundiais e os vetores conflitantes do desenvolvimento histórico são retratados como formatados por forças espirituais invisíveis além da compreensão do Homem

A partir de abril de 2001, um Dugin antes anônimo tornou-se uma personalidade política famosa na Rússia com a fundação do Movimento Político e Social Eurásia, que passava a atender inúmeras expectativas políticas voltadas para a primazia do Estado sobre o indíviduo, através de uma fórmula que combinava autocracia, submissão ao regime e xenofobia. Seu foco não é o recurso a meios militares para que a Rússia passe a predominar na “Eurásia”, mas um programa de desestabilização dos potenciais inimigos através da desinformação patrocinada pelos agentes do regime russo e seus aliados. O objetivo final é reestabelecimento de um império pós-soviético, após a capitulação de Gorbachev diante do Oeste, que sucumbiu à estratégia dos “atlanticistas”, particularmente os Estados Unidos da América. Neste sentido, Dugin enxerga a Federação Russa de 1991 não como um Estado em sentido lado, mas como uma “formação transicional no amplo e dinâmico processo geopolítico global”.

No enredo escrito pelos teóricos da “Grande Eurásia”, os russos étnicos cumprem o papel de sustentáculos de uma civilização única, um povo messiânico e “portador de significância pan humana”. Este povo deve funcionar como o substrato étnico do novo império (o que não difere muito do que ocorrera na extinta URSS). Ignorar o povo russo como um “fenômenos civilizacional” equivaleria do fim da Rússia enquanto civilização. Os russos, diz Dugin, são em primeiro lugar ortodoxos, russos em segundo e apenas no terceiro lugar, pessoas.

O maior inimigo a atacar seria a “Anaconda Americana”, uma metáfora da pressão que os EUA e seus aliados exercem sobre sobre as zonas costeiras da Eurasia, reduzindo o papel da Rússia ao de uma potência regional tão somente. Atacá-la significaria negar em bloco a doutrina do “Atlanticismo”, repudiar o controle estratégico dos Estados Unidos e refutar firmamente a supremacial valores econômicos liberais e favoráveis ao mercado, criando-se uma “base civilizacional comum” que impulsionasse a união dos povos eurasianos.

A tática, segundo diz Dugin, consiste em “introduzir a desordem geopolítica na atividade americana interna, encorajando todos os tipos de separatismo e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes – extremistas, racistas e grupos sectários, de modo a desestabilizar processos políticos internos aos EUA. Isto só iria fazer sentido caso fosse combinado ao suporte às tendências isolacionistas na política americana”. Um aliado importante do projeto eurasiano seria a América Latina e propõe “a expansão eurasiana nas Américas Central e do Sul com o objetivo de libertá-las do controle do Norte. Como resultado destes esforços de desestabilização, os Estados Únicos e seu aliado mais próximo, a Grã Bretanha, iriam eventualmente ser forçados a deixar as orlas da Eurasia (e África) e ‘o edificio inteiro do Atlanticismo’ iria ao colapso”.

Algumas alianças são propostas por Dugin: 1) Um eixo Moscou-Berlim, em que a tarefa de Moscou seria retirar a Europa da OTAN (leia-se EUA), amparar a unificação européia e estreitar laços com a Europa Central sob a égide do “eixo fundamental externo”, gestando uma Europa unida e amigável, sob o princípio do inimigo comum, os Estados Unidos; 2) a formação de um “bloco franco-germânico, com raízes na Itália e Espanha, isolando ainda mais a Inglaterra; 3) o exercío de dominância política da Alemanha sobre Estados católicos e protestantes na Europa Central; 4) A junção da Finlândia e da República Autônoma da Karelia; 5) a inserção da Estônia na esfera de influência alemã; 6) a manutenção da existência da Ucrânia apenas como “mero cordão sanitário”; 7) a criação do Eixo Moscou-Japão e estreitamento de laços com a Índia; 8) a caracterização da China como um “factotum atlanticista” e maior ameaça ao Eurasianismo e as regiões do Tibete, Sinkiang, Mongolia e Manchuria, em seu conjunto, como um “cinto de segurança” para a Rússia e estabelecimento de uma legítima de influência para o país como “compensação geográfica, adstrita às Filipinas, Indonésia e Austrália; 9) a ideia da “aliança continental russo-islâmica” delineada no eixo Moscou-Teerã, fundada em uma estratégia antiatlanticista comum enraizada na “total incompatibilidade espiritual com a América; 10) o emprego estratégico de um tradicional aliado russo contra potencial agressão turca, a Armênia.

Misto de receituário político eficaz e desinformação de guerra, o arsenal geopolítico de Dugin precisa ser levado mais a sério. Parte de sua tática vem se concretizando, como o afastamento político e econômico da Grã-Bretanha do Continente capitaneado pela Alemanha e França, como se testemunhou mês passado nos desdobramentos das discussões acerca de um programa de estabilização na zona do Euro. Outras medidas podem ser abertamente diversionistas (ou não, não se pode trabalhar neste terreno mas no do cálculo de probabilidades) como a “ameaça” chinesa. Tudo depende do grau de importância e credibilidade que o analista ocidental, calçando as sandálias da humildade, possa atribuir aquilo que despreza por não compreender, ou estudar.

"Last, but not least", a pergunta que não quer calar é: será que a sociedade ocidental atlanticista do Oeste, moralmente podre e com valores em frangalhos poderá resistir ao assédio e à guerra de fricção movida por povos (não falo do russo, mas em especial os países islâmicos, o budismo e as tradições hinduístas sob a égida do "eurasianismo") que rejeitam sua programação política desenhada por pequenos grupos de interesses que querem, a todo custo, fazer prevalecer seus próprios "direitos" às custas de toda uma população?

domingo, dezembro 25, 2011

A Arriscada Condição de Cristão em Bagdá

Bem, às vésperas do natal encontro esta matéria no UOL, tradução do "Le Monde." Tomei a liberdade de reproduzi-la não só pelo interesse intrínseco mas por envolver o destino de uma pequena comunidade naquele país, que luta a duras penas para sobreviver. No Iraque era Saddam Hussein, por incrível que pareça e por motivos políticos que não vale a pena discutir, que mantinha a liberdade religiosa. Com a saída dos americanos, os cristãos estão sendo perseguidos e correm o risco de ser extintos no país. Esta é uma das mais antigas comunidades cristãs da Terra. Eles são tão tradicionais no Iraque que pertencem à uma comunidade que poucos de nós conhem no Ocidente, os "Aissores", descendentes diretos dos antigos Assírios. Isto me impressiona mais ainda porque há anos atrás, no livro "Encontros com Homens Notáveis", Gurdjieff falava precisamente sobre os "aissores", que são os mesmíssimos assírios da Alta Antiguidade e compunham um grupo já perseguido desde então (e oprimido por alguns séculos)  que tendia a migrar. Os "yezidas" ou "adoradores de diabo" (assim chamados por mera intolerância e preconceito) eram também conhecidos dele e são mencionados neste artigo.
24/12/2011 -
A difícil e arriscada condição de cristão em Bagdá
Le Monde
Christophe Ayad, enviado especial a Bagdá
  • Militares observam carro queimado em ataque com bombas realizado na região central de Bagdá
    Militares observam carro queimado em ataque com bombas realizado na região central de Bagdá
Este ano, o Natal será comemorado secretamente no Iraque, em respeito ao luto xiita em andamento, mas sobretudo por medo de atentados. Retrato de uma comunidade que tem ficado cada vez menor.
Aos poucos, o Natal também está desaparecendo do Iraque. Pelo segundo ano consecutivo, os cristãos de Bagdá não comemorarão realmente o aniversário do nascimento de Cristo. Nada de guirlandas nas janelas, nada de luzinhas nas igrejas, nada de festas em casas noturnas ou em hotéis. Haverá, sim, uma missa no sábado (24), mas não à meia-noite, por razões de segurança, e depois cada um voltará para sua casa.
No ano passado, a comunidade estava de luto após o ataque, no dia 31 de outubro de 2010, à igreja Sayedat al-Najat (Nossa Senhora do Perpétuo Socorro), que havia traumatizado os fiéis: os jihadistas do Exército Islâmico no Iraque tomaram reféns, e depois o exército realizou um ataque; 46 fiéis e dois padres morreram nessa chacina, e 60 pessoas ficaram feridas.
Este ano, é por outra razão: em respeito à comunidade xiita, que está em pleno mês de Moharram, que marca o luto de Hussein, o imame mais reverenciado, o Natal será comemorado discretamente. A decisão foi tomada pela administração encarregada da gestão dos bens das igrejas cristãs (‘awqaf), um órgão semipúblico. Em voz baixa, os cristãos de Bagdá ressaltam que esse órgão não está habilitado a tomar esse tipo de decisão. “O chefe dos ‘awqaf cristãos estava sendo pressionado por histórias de corrupção”, observa um membro do clero que prefere não se identificar. “Ele tomou essa decisão para ser bem visto pelo primeiro-ministro [xiita], Nouri al-Maliki”.
“De qualquer forma”, suspira o padre Saad Hanna, da igreja caldeia de São José, “não há clima para festa”. Na quinta-feira (22), quinze atentados simultâneos resultaram em mais de 60 mortos e 200 feridos em Bagdá, lembrando a capital dos piores momentos da guerra civil, em 2006-2007. “Toda essa violência dizimou nossa comunidade desde 2003. Muita gente foi embora. Nós éramos em 750 mil a 800 mil, e agora somente 450 mil.”
Em Bagdá, havia 350 mil cristãos, e agora não passam de 100 mil. “Nós somos um alvo fácil para os gângsteres e os terroristas”, explica o padre Saad Hanna. “Não há nenhuma tribo ou milícia para nos defender. Os americanos nos deixaram em paz, então os fundamentalistas das duas alas nos tomaram como representantes do Ocidente ímpio.”
O padre Saad Hanna, 40, fala com conhecimento de causa. Ele foi sequestrado de sua paróquia de Doura, no dia 15 de agosto de 2006, “provavelmente por um grupo extremista sunita”, e solto 28 dias depois. No dia seguinte, o papa Bento 16 pronunciava seu polêmico discurso de Regensburg sobre o islamismo. “Não acredito na sorte, mas sim na providência”, diz o eclesiástico, em um eufemismo. Pouco depois, ele deixava o Iraque para estudar filosofia em Roma, durante dois anos. Restaram dez padres em Bagdá, e 24 tomaram o caminho do exílio, nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa.
Quando voltou para o Iraque em 2008, como a igreja onde ele oficiava em Doura havia sido incendiada, o padre Saad Hanna foi parar na São José, no bairro chique de Kerrada, no centro de Bagdá. Não longe da sede da comissão anticorrupção, alvo na manhã de quinta-feira (23) do atentado mais sangrento do dia (23 mortos). Tampouco longe da catedral assíria de Sayedat al-Najat, hoje cercada por altos muros antibombas e vigiada por soldados. Ademais, é impossível entrar ali, ninguém quer receber jornalistas estrangeiros. Provavelmente por medo de uma declaração mal colocada, em um país onde os cristãos mal se sentem tolerados. Uma em cada duas sacadas das mansões dos arredores é decorada com bandeiras pretas em homenagem a Hussein, o líder dos xiitas. Enquanto os sinais visíveis do cristianismo, protegido sob a ditadura de Saddam Hussein, estão se apagando, o xiismo militante se encontra em plena expansão religiosa e política.
“O problema não vem do governo”, corrige o padre Saad Hanna, sério e sorridente. Desde o ataque de Sayadat al-Najat, sua igreja é vigiada como uma fortificação. As autoridades enviaram 600 homens a mais para os locais de culto cristãos em Bagdá. “É a sociedade que está doente. Sob Saddam Hussein, ninguém podia fazer nada. Desde que ele saiu, todos estão correndo atrás de sua identidade. Todos estão transmitindo a seus filhos seus medos, seus preconceitos, seu ódio pelo outro”. Ele apresenta como prova o fato de que professores se recusaram a mudar os exames de fim de semestre programados para o dia 25 de dezembro...
Na rua principal de Kerrada, um vendedor de flores vende alguns pinheiros de plástico e guirlandas luminosas para o Natal. Duas clientes passam fazendo compras. Uma muçulmana sem véu diz: “É uma pena que os cristãos não decorem mais as ruas. Sinto falta disso, então decidi decorar meu apartamento pelo menos para o Ano Novo”. Depois a cristã, de cabelos escondidos por um lenço, diz, constrangida: “Não faz mal, comemoramos no ano que vem. Devemos respeitar o luto de Moharram.” A muçulmana: “Mas nem os sunitas estão celebrando o Moharram! Por que vocês o fariam?”
As três lojas de bebidas alcóolicas da rua fecharam: duas explodiram, e a terceira preferiu fechar de vez. Abou Sandy, também cristão, proprietário do restaurante Al-Nour, um dos mais famosos de Kerrada, perdeu dois terços de sua família, que foram para o exterior: “Todos os dias meus dois filhos me perguntam: ‘Quando vamos embora?’ Mas tenho esse restaurante, é toda minha vida. Dez funcionários trabalham aqui. O que vai ser deles se eu for embora? Se todo mundo for embora, acabaremos como os judeus do Iraque. Vamos desaparecer.”
Yonadam Kanna se recusa a se render a esse pessimismo. Deputado, presidente do Movimento Democrático Assírio, o único partido político cristão representado no Parlamento, é um homem enérgico de otimismo um pouco forçado e de humor bastante negro. “Sim, as pessoas vão embora, mas é normal em tempos de guerra. Os cristãos voltarão quando tudo estiver melhor. Veja o que aconteceu no Líbano!” O Movimento Democrático Assírio, que tem cinco deputados e um ministro (do Meio Ambiente), está instalado em uma antiga sede dos fedayins de Saddam Hussein, um braço temido da inteligência ligado ao filho mais velho do ex-ditador iraquiano, Uday.
Para ele, o ataque contra a igreja de Sayedat al-Najat parece um “genocídio”. Mas o que mais o desencorajou foi a reação dos países europeus: “A França e a Alemanha lançaram um apelo para que os cristãos emigrassem do Iraque. Foi uma correria até os consulados. O que querem os europeus? Que a gente suma do Iraque? Quer nos lançar contra os muçulmanos, que têm a maior dificuldade em conseguir vistos? E de quê vão viver nossos compatriotas na Europa, dos impostos dos outros? Naquele dia, Koucher [então ministro das Relações Exteriores] deveria ter pensado melhor antes de falar.” Desde então, o ritmo do êxodo diminuiu, segundo Yonadam Kanna, “apesar de cristãos continuarem a ser ameaçados pela máfia imobiliária, que quer forçá-los a partir para comprar suas casas por uma bagatela.”
No Parlamento, o deputado assírio lutou para conseguir medidas de urgência. Entre outras coisas, ele arrancou a promessa de que os cristãos não seriam mais discriminados quando se candidatassem a cargos no Exército ou na polícia. Em compensação, seu pedido pela criação de uma polícia privada para proteger as populações dos vilarejos cristãos da região de Mossoul não foi atendido. Assim como seu pedido pela restituição de 8 mil donums (800 hectares) confiscados por Saddam Hussein a vilarejos cristãos. Quando se trata de armas ou de dinheiro, a solicitude do Estado iraquiano acaba rápido.
Yonadam Kanna está certo disso: no novo Iraque, a segurança dos cristãos depende da obtenção de uma província só deles, a ser dividida com outras minorias religiosas perseguidas, os yazidi (originada do zoroastrismo), os shabak (majoritariamente xiita), os turcomanos. Tanto que o Curdistão, refúgio preferido dos cristãos, acaba de sofrer uma onda de violência anticristã no início de dezembro. “Bastariam dois distritos e meio, 3 mil quilômetros quadrados no total. Poderíamos administrar nossa segurança, nossos impostos”. Há um único problema, mas é dos grandes: esse território se encontra na província de Nínive, predominantemente árabe e sunita, e ela mesma está pedindo a autonomia para um governo central já mais do que reticente.
Tradução: Lana Lim

sábado, dezembro 24, 2011

Natal. Onde dois ou Mais estiverem reunidos, EU estarei

George Gurdjieff

Há muitos anos o Sr. Gurdjieff passava seu Natal sozinho. Minto, acompanhado de seu cão "Philos" e um amigo. Nesta cerimônia especial, comprou uma garrafa de boa vodka e alguns quitutes, preparando um carneiro à moda do Cáucaso. Brindaram e comeram todos, silenciosamente, no humilde quartinho.

O Natal é talvez a mais importante data do ano. A representação simbólica da possibilidade de tornar-se um "Ser Solar" como o Grande Mestre. Unamo-nos, brindemos e partilhemos o pão. Jesus disse: Onde quer que dois ou mais estiverem reunidos, lá EU estarei.

Feliz Natal!

O Grande Culpado de Viktor Suvorov - Excertos (Mobilização da Guerra, Desinformação sobre a Guerra na Finlândia, o Nono Exército no Cáucaso)

Mobilização da Economia

“Em 1939, a Alemanha entrou na Segunda Guerra Mundial com 57 submarinos. Garantiram-nos que a União Soviética não tinha intenção de entrar na guerra; mas em setembro de 1939, ela tinha 165 submarinos, compatíveis com o melhor padrão mundial. Alguns dos projetos de submarino foram desenvolvidos na Alemanha nazista, por encomenda soviética feita à Companhia Deschimag AG Wesser”. pg. 151. “O resultado é quem, em 22 de junho de 1941, a União Soviética tinha 218 submarinos ativos e 91 nos estaleiros”.

“Vasos de guerra de superfície também foram construídos ou comprados no exterior”. Entretanto:

“Alguns podem questionar por que os duzentos submarinos de Stálin e toda a sua marinha não puderam oferecer a resistência esperada da mais poderosa frota submersa do mundo. A resposta é simples: tratava-se de uma frota de ataque, um instrumento criado para a guerra ofensiva. Seria muito difícil, quase impossível mesmo, utilizá-la para sua defesa. ‘No decurso da guerra, a frota precisou resolver problemas que absolutamente não haviam sido previstos durante sua construção. Em vez de coordenar as ações com operações ofensivas das forças de chão, agindo perto das praias, como ditava a doutrina militar, a frota foi forçada a defender as bases navais da terra e do mar e evacuar as tropas, populações e bens das cidades costeiras’. Pg. 159.

“(...) para a defesa, são necessários navios diferentes, com características completamente distintas: caça-submarino, barcos de escolta, detectores de minas e navios-oficina. Pg. 159

“Não apenas o sistema de base da marinha soviética estava voltado para a guerra ofensiva, pois seus soldados haviam sido treinados para atacar, como também o armamento dos navios fora projetado exclusivamente para a guerra de agressão. Os navios soviéticos, embora equipados com poderosa artilharia, minas e torpedos, tinham equipamento aéreo bastante precário. Não foram construídos com sistemas defensivos fortes, porque os generais soviéticos haviam planejado iniciar a guerra com um fulminante ataque aéreo surpresa sobre as bases aéreas inimigas, cuja aviação havia sido liquidada. Contrariando tais planos, a guerra acabou assumindo caráter defensivo, pois o exército soviético e sua frota naval não foram os primeiros a atacar. O inimigo ganhou a a superioridade do ar, enquanto as tropas e os navios soviéticos na dispunham de boas defesas antiaéreas”.

Quanto ao Comissariado (Narkomat) de armas e munições:

“Se Stálin tivesse planejado uma guerra eminentemente defensiva, se tivesse planejado defender suas fronteiras, as novas fábricas deveriam se situar além do Rio Volga. Ali, elas estariam totalmente seguras; os tanques e os aviões inimigos não conseguiriam avançar muito no território soviético. Se Stálin não tivesse certeza de sua força; se – como nos disseram – ele tivesse medo de Hitler e dúvidas sobre a capacidade do Exército Vermelho de defender as fronteiras; se ele acreditasse em uma possível retirada, nesse caso, as novas fábricas deveriam ser construídas não além do Volga, mas bem no fundo das terras soviéticas, nos Montes Urais. Nessa região, havia matérias-primas, indústria autossuficiente e energia elétrica; as fábricas ficariam completamente a salvo. Se o inimigo tomasse grandes territórios, nossa base industrial permaneceria intacta – e Hitler sabedoria do que é capaz um urso ferido”.

Entretanto, nenhuma dessas opções foi sequer discutida; não havia necessidade. O Exército Vermelho não tinha planos de recuar, assim como não os tinha de defender as fronteiras do país. Pg. 161.


A Guerra de Inverno – Finlândia

Em 13 de março de 1940 a Guerra entre a Finlândia e URSS chegou ao fim, após penoso rompimento da linha Mannerheim. Ao contrário do que se pensa,

“Os peritos militares do Ocidente deviam reconhecer a assombrosa capacidade bélica do Exército Vermelho e a falácia das próprias hipóteses. Das atividades na Finlândia, pode-se chegar a uma única conclusão lógica: nada era impossível para o Exército Vermelho. Se ele fora capaz de avançar em tais condições, avançaria em qualquer condição, pois não poderia haver nada pior que atacar a Finlândia no inverno. Se o Exército Vermelho cruzou a linha Mannerheim, estava pronto para esmagar a Europa e quem mais estivesse no caminho”.

“O Exército Vermelho realizou uma operação única e sem precedentes na Finlândia. Desempenhou um papel incomparável e jamais repetido por qualquer exército da história; mas por alguma razão, Hitler concluiu que ele se saíra mal”. Pg. 179


Recursos estratégicos da Alemanha – falta de níquel e ferro


Pg. 236: Hitler se dá conta dos fatos


“Hitler e Stálin entendiam perfeitamente o significado da frase ‘o petróleo é o sangue da guerra’. O coronel A. Jodl declarou que Hitler afirmara em uma discussão com Guderian: ‘Você quer invadir sem petróleo? Pois bem, vamos ver qual será o resultado’. Já em 1927, Stálin considerava seriamente os problemas da eminente Segunda Guerra Mundial. Em 3 de dezembro desse mesmo ano, ele dissera: ‘É impossível lutar sem petróleo, e quem estiver com a vantagem, em termos de petróleo, terá a melhor chance de vencer a guerra iminente. Em junho de 1940, quando ninguém ameaçava a União Soviética, dezenas de vasos de guerra fluviais soviéticos apareceram no delta do Danúbio. Esse movimento não tinha nenhum valor defensivo, mas era uma ameaça às desprotegidas rotas de petróleo romenas e, consequentente, uma ameaça fatal à Alemanha”. Pg. 236.

Em Julho de 1940, Hitler consultou exaustivamente seus generais e concluiu que não seria fácil defender a Romênia: as rotas de fornecimento estendiam-se às montanhas, passando por elas. Se um grande número de tropas alemãs fosse transferida para defender a Romênia, a Polônia Ocidental e a Alemanha Oriental, incluindo Berlim, ficariam expostas ao ataque soviético. Se muitas tropas ficassem concentradas na Romênia e tentassem mantê-la a qualquer preço, de nada adiantaria. O território talvez fosse defendido, mas os campos de petróleo seriam queimados com bombas e artilharia.

Nesse mesmo mês, Hitler, pela primeira vez, declarou que a União Soviética poderia ser perigosa, especialmente se as tropas alemãs deixassem o continente, rumo às ilhas britânicas e à África. Em 13 de novembro de 1940, em uma conversa com Molotov, Hitler indicou a necessidade de reter um grande número de tropas alemãs na Romênia, sugerindo, claro, que o exército soviético seria uma ameaça ao petróleo romeno. Molotov fez ouvidos de mercador. Depois da partida de Molotov, em dezembro, Hitler começou a criar uma diretriz para preparar a operação Barbarossa”. Pg. 236

Em junho de 1940, quando o exército alemão estava lutando na França, Jukov, sob as ordens de Stalin e sem consultar os aliados alemães, posicionou vasos de guerra fluviais no delta do Danúbio. Hitler solicitou ao chefe de governo soviético que retirasse a ameaça soviética do coração do petróleo alemão. Stálin e Molotov não o atenderam.

Duas semanas após a invasão de Hitler no território soviético, em 7 de julho de 1941, Stálin enviou um telegrama ao comandante da linha de frente sul, general I. V. Tulénev. No telegrama, Stálin exigiu que a União Soviética retivesse a Bessarábia a qualquer custo, ‘tendo em mente que necessitamos do território bessarábio como um trampolim para organizar nossa invasão’. Hitler já havia realizado seu ataque repentino, mas Stálin ainda não pensava em defesa; sua maior preocupação era organizar uma invasão a partir da Bessarábia para atacar os campos de petróleo romenos”. Pg. 236.

A invasão soviética na Bessarábia e a concentração de poderosas forças agressoras ali, incluindo o corpo de paraquedistas e a flotilha do Danúbio, forçaram Hitler a estudar a situação estratégica de uma perspectiva diferente, a fim de tomar medidas preventivas. No entanto, já era muito tarde. Mesmo o ataque-surpresa da Werhmacht Heer sobre a União Soviética não salvaria Hitler e seu império”.

Divisões de Montanha nas Estepes da Ucrânia

O 9º Exército, (...) Em 1941 era o mais poderoso do mundo. Tinha seis corpos de batalha, incluindo dois mecanizados (em 22 de junho de 1941, contava com 799 tanques) e um corpo de cavalaria. No total, em 21 de junho de 1941, o 9º exército somava 17 divisões, incluindo duas de aviação, quatro de tanques, duas motorizadas de rifles, duas de cavalaria, seis de rifles e uma de montanha, também de rifles. As divisões de rifles, motorizadas de rifles e de cavalaria, também tinham tanques. Em 1º de junho de 1941, a região militar de Odessa, cujas divisões e corpos de batalha tornaram-se parte do 9º exército tinha 1.114 tanques.

Ainda por cima, estava para receber reforços de outro corpo mecanizado, o 27º, além dos melhores tanques do mundo, o T-34, além de ter oficiais excepcionais. pg.240-241


No entanto, onde estava localizado tamanho exército? Nesse ponto, uma espantosa descoberta nos aguardava: o 9º Exército não estava localizado perto da fronteira alemã. Na primeira metade de junho de 1941, a União Soviética estava organizado o mais poderoso exército do mundo na fronteira romena”. Pg. 241.

Além disso, os dois exércitos montanheses do Cáucaso só tinham valor para atacar.


O Grande Culpado de Viktor Suvorov - Excertos (Lançadores Múltiplos de Foguetes Katyusha, Aviões em Massa, Tropas Aerotransportados, Bombardeiros)

"Tubos de Stálin"

Uso de lançadores múltiplos de foguetes no verão de 1941, os “tubos de Stálin” ou “Katiúcha”, equipando o Exército Vermelho em 1941 com um sistema de artilharia lança-foguetes, o BM 9-36.

O "órgão de Stálin". Os tubos que produziam a música mais aterradora da II Guerra Mundial
Produção em Massa do Ivánov (Su-2) a partir de 1936

Criado por um grupo de projetistas chefiado por Pavel Ossipovitch Sukhói. “O Su-2 tinha muitos usos: podia ser bombardeiro leve, avião tático de reconhecimento e avião de ataque. O projeto era extremamente simples e racional” e adequava-se à produção em larga escala.

Entretanto, em 22 de junho de 1941 o exército alemão atacou o EV, justo quando o Su-2 era entregue (pg.74).


Ivanov SU-2
A Tática Soviética de Ataques Rápidos e Mortíferos
Tática soviética lembra a utilizada em Pearl Harbor com o “Nakajima B 5-N que era uma bombardeiro leve”. Era também caso do Ju-87 alemão, um avião monomotor mais semelhante a um caça que um bombardeiiro, com velocidade baixa, mas ambos, em grupos de aviões (como chacais) investiam de forma fulminante em ‘sonolentas’ base aéreas. Eram aviões de ataque surpresa.
"Os Pilotos treinados capazes de levar aos céus 100.000 a 150.000 aviões Su-2, ao “céu limpo”, os quais não eram necessários em guerra defensiva".Pg. 84
"Antes da guerra, e durante ela, a União Soviética projetou aviões notáveis e, ao mesmo tempo, muito simples. Mas a grande realização das forças aéreas soviéticas não foi a criação de aeronaves que destruíam os aviões inimigos no ara, mas de outras, que destruíam aviões inimigos e quaisquer alvos no chão.

O Il-2 foi o grande feito soviético em tecnologia da avião durante a 2ª guerra mundial. Bases aéreas eram seu alvo predileto”. Pg. 84.

“Pois, então, por que a força aérea soviética perdeu a superioridade aérea logo no primeiro dia, no estágio preliminar da guerra? Por que os alemães adquiriram vantagem no ar, considerando que sua força aérea perdia para a soviética, tanto em quantidade como em qualidade de aviões? A resposta é simples: a maioria dos pilotos soviético, incluindo os de caça, não aprendeu a combater em batalhas aéreas. A aviação soviética estava orientada para conduzir uma operação grandiosa, repentina e agressiva, em que a força aérea soviética, em uma só investida, esmagaria os aviões inimigos no chão e ganharia o domínio do ar”. Pg. 89.

Tropas de Assalto soviéticos aerotransportadas a sua missão

“A União Soviético foi a primeira nação do mundo a realizar ataques com tropas de assalto aerotransportadas. Essas tropas foram criadas em 1930, antes de Hitler subir ao poder na Alemanha. Apena duas outras nações desenvolveram táticas semelhantes antes da Segunda Guerra Mundial: A Alemanha, em 1936, e a Itália. No início da guerra, Hitler tinha 4.000 paraquestistas. A Itália havia treinado 700”. pg.133

Stálin liderou o desenvolvimento de assaltos aerotransportados. ‘No fim de 1933, o Exército Vermelho tinha um brigada de assalto aéreo, quatro unidades móveis de paraquedistas, vinte e nove batalhões distintos e várias companhias, que somavam cerca de dez mil homens’.

No início da guerra, a União Soviética tinha mais de um milhão de paraquedistas treinados, de acordo com o jornal oficial do Partido Comunista, Pravda, em 18 de agosto de 1940. pg. 91

Em 12 de junho de 1941, o Exército Vermelho criou o Comando das Tropas de Assalto Aéreo (...), além dos corpos de assalto aéreo, brigadas e regimentos, havia um número significativo de batalhões de paraquedistas, como unidades incluídas na infantaria soviética regular.(...) paralelamente às formações de paraquedistas, várias divisões regulares de rifles também se preparavam para serem transportadas por ar – na época, um passo essencial na redistribuição das tropas. Em 21 de junho de 1941, na véspera do ataque de Hitler à União Soviética, o exército soviético treinou em operações ofensivas aerotransportadas; uma prova de quão longe se achavam da estratégia defensiva”.

Ações coordenadas na tomada de Stalingrado

“Os generais soviéticos sonhavam não só em despejar uma multidão de paraquedistas na Europa Ocidental, mas também centenas, se possível milhares, de tanques. Os projetistas buscaram avidamente o modo mais simples e barato de realizar esse sonho. Oleg Antônov, que mais tarde criaria o maior avião cargueiro militar do mundo, sugeriu acrescentar asas e empenagem (o conjunto da cauda) a um tanque comum, usando o corpo deste como fuselagem do híbrido. Tal sistema recebeu o nome de KT – Kriláti Tank (tanque de asas). As engrenagens do volante eram ligadas ao canhão do tanque. A tripulação podia dirigir o vôo da cabine do tanque, girando a torre e o canhão”.

“(...) o tanque alado de Oleg Antônov não ficou pronto no início da guerra; e como a guerra não começou do modo que Stálin planejara, essa invenção tornou-s tão inútil quando os milhões de paraquedas cuidadosamente dobrados, esperando o ataque contra a Alemanha e a Romênia”. Pg. 95.

“A União Soviética entrou na Segunda Guerra Mundial com o maior número de pilotos de planadores do mundo. Só em 1939, 30.000 pessoas treinavam simultaneamente para pilotar planadores”. “Em janeiro de 1940, por decisão do Comitê Central (ou seja, sob as ordens de Stálin), criou-se o Comissariado do Povo (que os russos abreviam para Nakomat) da Indústria de Aviação, um grupo integrado no Ministério da Aeronáutica, para a produção de planadores-cargueiros-militares”.

O Maior Cargueiro do Mundo - o PS-84 (réplica do Douglas DC-3 americano)

“O melhor avião cargueiro do mundo, no início da Segunda Guerra Mundial, era o lendário Douglas DC-3 americano. Essa aeronave bateu o recorde da durabilidade; 55 anos de uso. Foi um avião extraordinário em sua época.

Pois o Douglas DC-3, embora com nome diferente (PS-84), formava o núcleo da aviação militar de transporte. Pg. 96

“Antes da guerra, a União Soviética havia comprado vinte aviões Douglas dos Estados Unidos, e, em 1939, seis aeronaves idênticas foram fabricadas em solo soviético. Em 1940, 51 aviões foram fabricados; em 1941, 237. Ao longo da guerra, 2.419 modelos DC-3, ou os soviéticos PS-84/Li-2 saíram das fábricas soviéticas”.

“Além do DC-3, a União Soviética tinha centenas de bombardeiros estratégicos TB-3, que também podiam ser utilizados como cargueiros . Todos os ataques de paraquedistas dos anos 1930 foram feitos com o TB-3. havia aviões suficientes para transportar milhares de paraquedistas e armas pesadas, incluindo tanques, carros, blindados e artilharia”.

A Ordem de Campo de 1939 - A URSS queria dominar os Ares

O mais importante documento a orientar as ações do Exército Vermelho em guerra foi a Ordem de Campo (PU – Polevói Ustáv). Na época, estava em vigência Ordem de Campo de 1939 – PU-39. Ela dizia claramente que para realizar uam ‘penetração profunda’ e um ataque em massa de corpos de assalto aéreo, a força aérea soviética precisava dominar o céu. Essa ordem de campo, bem como as instruções sobre batalhas aéreas e ‘instruções sobre o uso independente da aviação’ previam a execução, no inicio da guerra, de uma operação estratégica maciça, que esmagaria a força aérea inimiga”.

Stálin criara tantas tropas de assalto aéreo que seria possível utilizá-las em um único cenário: ataque aéreo e invasão maciça. O Exército Vermelho deveria iniciar a guerra de maneira repentina e traiçoeira, com um ataque aéreo contra as bases aéreas inimigas. Milhares de paraquedistas cairiam do céu para tomar e controlas as bases principais e pontos estratégicos. Qualquer outra ação não seria viável. Só que foi Hitler quem realizou o ataque antecipado. A estratégia comunista de dar o primeiro golpe foi abortada. Os cuidadosos planos de Stálin de montar um assalto aéreo maciço tornaram-se irrelevantes na corrida desesperada para se adaptar a uma guerra defensiva”. Pg. 97

sexta-feira, dezembro 23, 2011

O Grande Culpado de Viktor Suvorov - Excertos (Tanques)

Antes de mais nada, apresentemos uma síntese da avaliação elaborada pelo autor do “estado da arte” das armas soviéticas entre as décadas de 1930 e 1940. Comecemos pelas divisões de tanques.
Tanques e Divisões de Tanques
“Em 1933, o Exército Vermelho adotou o tanque T-28. Uma variação do modelo foi projetada em 1937 – o T-28PKh (Podvódni Khód – tanque de “travessia submersa”). Os testes mostraram que, se necessário, todas as séries de tanques T-28 poderiam ser convertidas em tanques de travessia submersa, a profundidade de até 4,5 metros em uma extensão de um quilômetro, com a velocidade da correnteza de até um metro por segundo. Na década de 1930, não havia um único tanque alemão, inglês, americano, francês ou japonês capaz de competir com o T-28, em termos de artilharia, blindagem e força do motor”. Pg. 51.


Tanque T-28

“Em 19 de dezembro de 1939, o Exército Vermelho alistou em suas fileiras o T-34. a seguir, algumas avaliações alemãs de seu desempenho. O marechal de campo Von Kleist disse: ‘O T-34 era o melhor do mundo’. O general Von Mellentin concordou: ‘Não tínhamos nada que se igualasse ao T-34’. O marechal de campo Rundstedt pensava o mesmo. O coronel-general Guderian recorda: ‘Um grande número de tanques T-34 foi utilizado na batalha [Guderian referia-se às hostilidades de outubro de 1941, perto de Mtsensk, a Nordeste de Orel], causando perdas significativas de nossos tanques. A superioridade que antes tínhamos em tanques agora estava perdida, e passara para o adversário. Portanto, desapareceu a perspectiva de sucesso rápido e contínuo”. Nossos canhões antitanques, de 50 a 37mm, eram totalmente inúteis diante do T-34”.

T-34

O General Westphal admitiu: “A chegada das armas soviéticas, que ultrapassaram as alemãs em qualidade, foi uma surpresa bastante desagradável. Uma delas era o tanque T-34, contra o qual as armas alemãs antitanques foram impotentes.

O general de infantaria Blumentritt concordava com os colegas: ‘Em 1941, o T-34 era o mais poderoso de todos os tanques [...] Nas vizinhanças de Verei, o T-34, sem qualquer hesitação, penetrou nas posições da Divisão da 7ª Infantaria, atingiu a artilharia e literalmente esmagou os canhões. É possível imaginar o impacto que isso teve no moral da infantaria. E assim começou a ‘tanquefobia’”.


“No fim de 1937 os alemães começaram a produzir o PZ-IVA, “o mais poderoso tanque alemão da primeira metade da Segunda Guerra Mundial, com blindagem de 15 mm”. Entretanto ele superava os tanques soviéticos T-28 em apenas um parâmetros (...)”

Tanque KV

“Entretanto, “em junho de 1941, o Exército vermelho sofreu uma derrota esmagadora, pois os T-34 eram insuficientes, apenas 967”.

“Os alemães não conseguiram projetar um bom tanque para produção em massa. Assim, até quase o fim da guerra, a Alemanha teve de fabricar modelos obsoletos para auxiliar os modelos Tiger e Panther e compensar as perdas sofridas em batalha”. Pg. 57.

Tiger Alemão em Túnis

“O Panther e o T-34 nem sequer deviam ser comparados. Seria como comparar boxeadores de pesos diferentes”. Pg. 57.

“Quanto aos tanques pesados, “os trabalhos de criação de tanques pesados na União Soviética começaram em 1930. Em 1933, o primeiro tanque soviético, o T-35, foi fabricado em série e passou a ser parte do exército. Era um gigante de cinco torres; pesava 45 toneladas e era operado por onze homens”. Pg.58.


O gigante soviético, o T-35


“Em 1939, os testes de três novos tanques pesados soviéticos – KV1, SMK e T-100 – foram realizados em condições de combate”, na guerra da Finlândia”. Pg. 59

“O KV-1 e o KV-2 pesavam, respectivamente, 47 e 52 toneladas. O KV foi o primeiro tanque do mundo dotado de blindagem antiprojétil: tinha armadura frontal de 75 mm, que podia ser reforçada”. Pg. 58. O KV2 tinha armas ainda mais poderosas, como o obus de 152 mm”. Pg. 59.

“É impossível, mesmo em teoria, comparar o KV-1 e o KV-2 com os melhores tanques alemães, o Pz-III e o PZ-IV: o KV era pesado, enquanto o exército alemão não tinha tanques dessa classe de peso em 1941”.



“O KV foi o mais poderoso tanque do mundo durante toda a primeira metade da Segunda Guerra Mundial, até a batalha de Stalingrado. Nenhum outro país tinha algo comparável nessa classe de peso. O projeto do KV tinha espaço para aperfeiçoamentos, o que lhe permitia passar por vários estágios de desenvolvimento, do KV-1 ao KV-13. Mais tarde, transformou-se no IS-1 e depois no IS-2, o mais poderoso tanque da Segunda Guerra Mundial”.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

O Grande Culpado de Viktor Suvorov - Parte III (Ataque à URSS, Manobras na Romênia em Ploiesti, Superioridade de Equipamentos)



Soldados Alemães na URRS, 1941.

Mas Stálin superou Hitler até mesmo no domínio das técnicas da Blitzkrieg. Assunto considerado tabu, o êxito do Führer na Polônia é controverso, tanto em função dos limites para o avanço da máquina de guerra alemã no interior do país, quanto com relação à efetiva destruição do governo polonês, que continuou a operar com foro no exterior. A Polônia também não foi esmagada totalmente pois após a queda outro governo foi reconhecido em Londres, por vários países e pela Liga das Nações, formando-se secretamente governos regionais

“(...) nem tudo corria tão bem na Polônia como a propaganda de Goebbels mostrava e conforme descrito por alguns modernos seguidores de Hitler. Por algum motivo, não é comum falar nisso; mas Blitzkrieg alemã na Polônia falhou. Em 15 de setembro de 1939, duas semanas após o inicio da segunda guerra mundial, as atividades da força aérea alemã caíram substancialmente; o exército alemã estava quase sem combustível. Esse era o nível de conhecimento de Hitler e seus generais sobre a arte da moderna guerra”.

“O resultado da blitzkrieg na Polônia foi que Hitler conseguiu uma fronteira comum com a ‘neutra’ União Soviética”.


Generais alemães como Von Rundstedt e Halder - em anotações de diários conservadas e analisadas por especialistas, anos depois - concordavam em julgar impossível a derrota da URRS. Mas por que Adolf Hitler - a quem Stálin e Zukhov atribuíam, acertadamente, certo grau de racionalidade - teria assinado a Diretriz estratégica de ataque à URSS? Por que diante da crassa impossibilidade por parte da Alemanha de manter uma guerra em duas frentes (lembremo-nos que se Hitler - mesmo usando a França como base de apoio - não foi capaz destruir a indústria britânica como planejado, então como poderia aniquilar o poderio do complexo militar-industrial soviético?) o Führer insistiu em enviar suas divisões ao Leste, mesmo sem preparo prévio (sim, não houve mobilização) e repetir uma "blitzkrieg" por definição insustentável uma vez que o conceito de "guerra relâmpago", literalmente, não se aplicaria ao contexto de um país colossal como a URSS, com invernos rigorosos e longos, inúmeros obstáculos geográficos (como o Cáucaso e a Sibéria) e um efetivo mobilizável de homens que poderia chegar a 34 milhões de homens (20% de sua população total).
Uma das principais razões para a suposta “precipitação” do Líder alemão e seu alto comando seria sua percepção dos objetivos explícitos das manobras soviéticas na fronteira com a Romênia. Por volta de junho e julho de 1940 já havia se tornado claro para os analistas alemães e o Führer em pessoa que os soviéticos tinham planos de comprometer o abastecimento das suas divisões de recursos estratégicos, em especial o petróleo. A esta altura, convém transcrever “in totum” alguns parágrafos do autor:
Hitler e Stálin entendiam perfeitamente o significado da frase ‘o petróleo é o sangue da guerra’. O coronel A. Jodl declarou que Hitler afirmara em uma discussão com Guderian: ‘Você quer invadir sem petróleo? Pois bem, vamos ver qual será o resultado’. Já em 1927, Stálin considerava seriamente os problemas da eminente Segunda Guerra Mundial. Em 3 de dezembro desse mesmo ano, ele dissera: ‘É impossível lutar sem petróleo, e quem estiver com a vantagem, em termos de petróleo, terá a melhor chance de vencer a guerra iminente. Em junho de 1940, quando ninguém ameaçava a União Soviética, dezenas de vasos de guerra fluviais soviéticos apareceram no delta do Danúbio. Esse movimento não tinha nenhum valor defensivo, mas era uma ameaça às desprotegidas rotas de petróleo romenas e, consequentente, uma ameaça fatal à Alemanha”. Pg. 236.

Tanque T-34

“Em Julho de 1940, Hitler consultou exaustivamente seus generais e concluiu que não seria fácil defender a Romênia: as rotas de fornecimento estendiam-se às montanhas, passando por elas. Se um grande número de tropas alemãs fosse transferida para defender a Romênia, a Polônia Ocidental e a Alemanha Oriental, incluindo Berlim, ficariam expostas ao ataque soviético. Se muitas tropas ficassem concentradas na Romênia e tentassem mantê-la a qualquer preço, de nada adiantaria. O território talvez fosse defendido, mas os campos de petróleo seriam queimados com bombas e artilharia.
Nesse mesmo mês, Hitler, pela primeira vez, declarou que a União Soviética poderia ser perigosa, especialmente se as tropas alemãs deixassem o continente, rumo às ilhas britânicas e à África. Em 13 de novembro de 1940, em uma conversa com Molotov, Hitler indicou a necessidade de reter um grande número de tropas alemãs na Romênia, sugerindo, claro, que o exército soviético seria uma ameaça ao petróleo romeno. Molotov fez ouvidos de mercador. Depois da partida de Molotov, em dezembro, Hitler começou a criar uma diretriz para preparar a operação Barbarossa”. Pg. 236

Em junho de 1940, quando o exército alemão estava lutando na França, Jukov, sob as ordens de Stalin e sem consultar os aliados alemães, posicionou vasos de guerra fluviais no delta do Danúbio. Hitler solicitou ao chefe de governo soviético que retirasse a ameaça soviética do coração do petróleo alemão. Stálin e Molotov não o atenderam.

Duas semanas após a invasão de Hitler no território soviético, em 7 de julho de 1941, Stálin enviou um telegrama ao comandante da linha de frente sul, general I. V. Tulénev. No telegrama, Stálin exigiu que a União Soviética retivesse a Bessarábia a qualquer custo, ‘tendo em mente que necessitamos do território bessarábio como um trampolim para organizar nossa invasão’. Hitler já havia realizado seu ataque repentino, mas Stálin ainda não pensava em defesa; sua maior preocupação era organizar uma invasão a partir da Bessarábia para atacar os campos de petróleo romenos”. Pg. 236.