Gurdjieff

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Quem é Gurdjieff?

quarta-feira, maio 29, 2013

Felicidade e Qualidade de Vida III - A Dinâmica da Infelicidade

A Dinâmica da Infelicidade 

Creomar Baptista

A infelicidade é o oposto da felicidade. Ela é uma constante ao longo da caminhada evolutiva do homem e obedece a princípios e leis detalhados por muitos mestres, filósofos e pensadores ao longo do tempo. De algumas de minhas próprias leituras – que abarcam um espectro de ensinamentos do Oriente e Ocidente – gostaria de traçar um breve esquema do que chamarei, por falta de melhor termo, “dinâmica da infelicidade”.
Jean Paul Sartre. Medíocre, entendiante e infeliz "ab ovo"
Nascemos em uma família inserida em dada sociedade, sujeitos a leis hereditárias que conformam nosso biótipo físico e mesmo parte do nosso psiquismo. Estes três fatores (ambiente familiar, sociedade, hereditariedade) são os principais condicionantes de uma determinada “visão de mundo” ou o que os budistas denominariam “delusões” ou um vislumbre parcial dos fenômenos manifestos. A principal característica desta “visão de mundo” reside na dificuldade em distinguir o real do ilusório e, em termos práticos, atribuir maior valor aquilo que é realmente importante e que contribui para a consecução de objetivos importantes (15 ).  Melhor dizendo, precisamos evitar uma triste cilada em que cai a maior parte da Humanidade, bem formulada pelo filósofo Greco-armênio Georges Ivanovitch Gurdjieff ou , “o homem é uma máquina. Tudo o que faz, todas as suas ações, todas suas palavras seus pensamentos, seus sentimentos, suas convicções, suas opiniões, seus hábitos, são os resultados das influências exteriores, das impressões exteriores. Por si mesmo, um homem não pode produzir um único pensamento, uma só ação. Tudo o que diz, faz, pensa, sente, tudo isso acontece. O homem não pode descobrir nada, não pode inventar nada. Tudo isso acontece”

Essa atribuição distorcida de pesos a determinadas escolhas (pois a vida envolve escolhas a todo instante) opera por meio de mecanismos psíquicos e neurobiológicos de atração e repulsão. Algumas coisas nos agradam, outras nos causam repulsa e isto (fora os casos de defesa instintiva) corresponde a opções em geral equivocadas, derivadas de nossa visão parcial de mundo que, naturalmente falsa, leva-nos à busca incessante (e amiúde decepcionante) da satisfação dos prazeres mais imediatos.
O resultado das más escolhas e da eleição de pequenos e desprezíveis deleites como um fim em si mesmo, faz com que o homem realize ações inadequadas que interferem em seu bem-estar físico (como alcoolismo, debilitação por uso de drogas, esgotamento muscular ou fadiga por excesso de exercícios com o fito de tornar-se belo etc); no seu sentido moral (vergonha, remorsos, arrependimento) e nas suas relações com os outros seres humanos, fazendo com que padeça de inúmeros sofrimentos
Essas dores ou modalidades de sofrimento são de três tipos: a) o sofrimento em si (físico ou psicológico); b) o sofrimento pela mudança (a sensação de permanente insatisfação); c) o sofrimento como “melancolia” (o mal do século, a dor e o sofrimento como algo de fundo estrutural que aflige toda a humanidade e produz o terrível flagelo social da modernidade, o suicídio).
O reconhecimento deste sofrimento e de seus condicionantes é o primeiro passo para que se adote a conquista da felicidade como um compromisso vigoroso. Sua felicidade individual é pré-requisito para a construção de um mundo efetivamente promissor para nós e nossos descendentes sendo, por excelência, uma bandeira revolucionária. 

À Guisa de Conclusão


   Jorge Amado com Sartre e a  chatona piriguete Simone de Beauvoir.


Não há uma receita para a felicidade. Toda a argumentação precedente limitou- se a um esboço do tema, fazendo largo uso de recursos como a livre associação de idéias e convicções pessoais, articuladas a opiniões de alguns filósofos, pensadores e religiosos através dos tempos. Não foi nosso intuito produzir um artigo acadêmico que exaurisse o assunto, traçando paralelos entre autores ou submetendo palavras a criterioso exame filológico. Tudo isto seria “gastar o latim” sem atingir o cerne de nossa preocupação que foi transmitir a um pequeno público certas recomendações para uma vida de autorrealização.

Como tudo na vida tem o seu tempo, supomos ter cumprido este modesto objetivo neste dado momento. Quiçá futuramente possamos contar com um arcabouço intelectual mais sólido, uma “Ciência da Felicidade”. Como o homem iluminista e materialista fez do conhecimento científico seu “Deus ex-Machina”, nada nos resta além da doce ilusão de que a sociedade humana possa resolver o maior problema de nossa raça , o que acalenta certos ânimos e os leva a fazer MERDAS como revoluções idiotas. Pelo contrário, sustentamos, não obstante, que a felicidade é uma disposição interior do ser humano e, ao menos que haja uma profunda modificação de nossas mentes, nenhuma solução se mostra plausível, sem o cumprimento dessa premissa fundamental.

Modificação que no Novo Testamento é chamada de “metanoia”, erroneamente traduzida como “arrependimento”.

Bibliografia 


AUROBINDO, SRI. A Sabedoria de Sri Aurobindo – seleção de seus escritos. São Paulo: Ed. Shakti 1999,
AZEVEDO, Mateus soares de. Iniciação ao islã e sufismo.Rio de Janeiro: Record, 1996.
FROM, Erich. The art of living. New York, HarperCollins, 2006.
GORDON, Mathew. Conhecendo o islamismo.Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
LAURIOLA, Rosana. De eudaimonia à felicidade. Visão geral do conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres dos tempos modernos. Revista Espaço Acadêmica no 59, abril de 2006.
OUSPENSKY, P.D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido. Em busca do milagroso. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002.
RUSSEL, Bertrand. A conquista de felicidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
SENECA, Lucius Anneus. Da vida feliz. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
YOGANANDA, Paramhansa. A sabedoria de Yogananda. A essência da autorrealização. São Paulo:  Ed. Pensamento, 2012.  

sábado, maio 25, 2013

Felicidade e Qualidade de Vida II - Tentativa de Interpretação


Felicidade e Qualidade de Vida - Uma Tentativa de Interpretação

Creomar Baptista

Tolkien rindo.
Do próprio sentido atribuído originalmente à felicidade podemos extrair algumas noções de relevante interesse para o nosso ensaio e válidas para uso cotidiano. A mais elementar delas tem a ver com o fato de que para ser feliz deve-se estipular o que é realmente importante. Para o recém-nascido, o contato com sua mãe e o alimento proporcionado pelo leite que dela emana confundem-se com sua própria existência.
Nada mais lhe diz respeito. Os ruídos e a agitação do mundo circundante só lhe trazem angústia e inquietude. Ele compreende que, para ele, aquele momento é único e imprescindível. Ele não se deixa levar por distrações induzidas por uma mente rebelde, como os adultos. Riquezas materiais, status, poder nas relações de trabalho, necessidade de agradar os outros ou parecer ser alguém que não é, nada disso lhe interessa. Mamar para ele representa a suprema autorrealização.
A identificação da felicidade com o divino, com o “êxito” e “sucesso” no mundo greco-romano –; uma vez relativizada por escolas como a dos estóicos e epicuristas (que estavam longe de propagandear as paixões animais, mas defendiam uma moral sóbria e adusta como recordado por um crítico severo como Sêneca) imprime ao conceito caráter bem distinto da alegria ou contentamento. Ele assimila um elemento de trajetória ou caminho (a distância que separa o humano do divino) a ser percorrido até alcançar um resultado (o que exige concentração e seletividade) o que, no plano espiritual, requer o cultivo de uma alma reta, serena e avessa aos caprichos das paixões, como diria Sêneca.
Trocando em miúdos, todo este breve – e até certo ponto simplista – arrazoado nos leva a estabelecer três “pontos provisórios” sobre a felicidade:
a) a felicidade decorre de uma justa capacidade de atribuir pesos a escolhas condizentes com os seus objetivos de vida isto é, significa discernir entre o “real” e o irreal” ou ilusório, o “necessário” e aquilo que atende a uma fantasia volátil que se esvanece tão rapidamente quanto uma bolha de sabão;
b) uma vez satisfeitas necessidades humanas básicas (comer, beber, manter uma vida sexual regular, dormir, descansar) o que é absolutamente imprescindível - a felicidade não se limita a aquietar impulsos disparados por desejos momentâneos;
c) a felicidade representa um propósito maior na vida e equivale à autorrealização do homem, ao pleno desabrochar de suas possibilidades.

Componentes da Felicidade como Autorrealização

Definir, ainda que de forma tacanha, o que é “autorrealização”, seria atrevimento de minha parte, senão impossível. Mas muitas correntes filosóficas e espirituais têm colocado como seu aspecto central a realização do seu verdadeiro EU, a transcendência dos aspectos inferiores do homem, do seu “Eu animal, carnal (7). Em certo sentido,significa tornar-se um “super-homem”8 ou superar o atual estágio de desenvolvimento humano.
Entender o que isto quer dizer em termos metafísicos é algo bastante espinhoso para o homem mediano. Mas todo o problema pode descer das nuvens se o colocarmos em termos de alguns propósitos que podem parecer simples, porém são os mais excelsos da existência humana neste planeta. Estes objetivos me parecem suficientemente válidos para a maioria das pessoas que não acalentam a “ambição” de alçar-se à perfeição neste curto período de existência. Não é de nosso interesse discutir o caso destes indivíduos, pois seus projetos de vida e aspirações vão muito além do que preocupa e azucrina as pessoas comuns (9).
Como bem ponderou Bertrand Russel, “existem dois tipos de felicidade, embora, naturalmente, haja graus intermediários. Os dois tipos a que me refiro poderiam chamar-se normal ou fantasista, animal ou espiritual, do coração ou da cabeça. A designação que venhamos a escolher entre tais alternativas depende do que quisermos demonstrar. No momento, não pretendo demonstrar nenhuma, mas apenas descrever.
Possivelmente, o modo mais simples de mostrar as diferenças entre esses dois tipos de felicidade é dizer que um deles se acha ao alcance de qualquer ser humano e que o outro só pode ser atingido por aqueles que sabem ler e escrever”(10).
Os objetivos que nos propomos oferecer como possíveis pontos de partida para a busca da felicidade real (não a alegria, o prazer momentâneo) são acessíveis a todos os homens. Não requerem altas doses de intelecção, erudição ou sequer a aquisição das primeiras letras. Mas representam, indubitavelmente, caminhos seguros para a autorrealização, com escopo restrito ao homem mediano. Enfim, acreditamos que aquele que almeja a felicidade deve perseguir como objetivos válidos e realmente pertinentes (ou aqueles a que deve atribuir maior peso):
a) a busca da construção de uma unidade familiar sólida, estruturada em valores ancestrais e liberta das amarras representadas pela coerção e a imposição de crenças e restrições contrárias à natureza.
b) a construção de uma relação afetiva madura, capaz de assegurar a integridade e individualidade das partes, encarando-se o amor como força ativa no homem (11).
c) uma vida produtiva, com o desempenho das atividades profissionais com desvelo, dando sempre o melhor de si, sem choramingar ou embrenhar-se em uma ciranda sem volta de reclamações e contestações, mas apresentando soluções para os desafios colocados pelo trabalho.
d) o cultivo de amizades e a convivência estreita com a comunidade, uma atitude compassiva e altruísta diante do próximo.
Para conciliar esses objetivos ou outros de análoga envergadura, o homem precisa cultivar algumas qualidades especiais que o façam atravessar a vida como ela é” sem que irrompa uma espécie de “rebelião interior” que aniquile definitivamente sua meta final, a felicidade. O passo preliminar é seguir a regra de ouro “não faças a outrem o que não queres que te façam”(12).
Essa máxima opera como uma vasta cadeia de causa-efeito responsável por gerar todo o sofrimento que aflige a humanidade. Como complemento dela, há outra virtude que precisa ser regada com muito cuidado, até que cresça e renda bons frutos: a paciência. Não sem razão, para os budistas, a chamada “perfeição da paciência” consiste em aceitar plena e alegremente todo e qualquer acontecimento, sem retaliar quem quer que seja. Não acredito que todos estaremos a “dar nossas caras a tapa”, mas poderemos aprender a aguentar uma certa dose de contrariedade em nossas relações do dia a dia, na família, no trabalho, no trânsito etc. A despeito da contemporaneidade ter erigido o frenesi lunático como seu bezerro de ouro, com um pouco de empenho somos capazes de adotar como critério de vida o fato de que o tédio deva ser suportado.


NOTAS
6. “O conhecimento de Deus e de sua vontade é considerado essencial para a vida muçulmana. Um temachave
do Alcorão é que Deus se revela através de ‘sinais’ (ayat)”. (...) “Cada sinal traz informação sobre
Deus e sua força criadora – a fim de aprender sobre Deus, portanto, deve-se envidar todos os esforços
para reconhecer e captar tais sinais”. GORDON (2009).

7. YOGANANDA, Paramhansa. A sabedoria de Yogananda. A essência da autorrealização. São Paulo: Ed. Pensamento, 2012. AUROBINDO, SRI. A Sabedoria de Sri Aurobindo – seleção de seus escritos.São Paulo: Ed. Shakti, 1999. A hipótese de que há um corpo físico (animal, carnal) ao lado de uma alma ou espírito não é apanágio do judaísmo, cristinianismo ou islamismo. Ela é onipresente no Oriente, entre os povos das Américas e em todas as regiões do mundo.
8. O que nada tem a ver com filosofias discutíveis ou ideologias nefastas do século XX.
9. Na platéia para que que proferi originalmente esta palestra afirmei, a título de exemplo, que nenhum de nós necessita ser uma Irmã Dulce para ser caridoso, aludindo ao fato de que certas atitudes altruístas podem ser executadas por todos. Um rapaz folgazão formulou então a seguinte pergunta, de que tão espontânea soou hilária: “Mas a irmã Dulce ao menos saiu no lucro porque virou Santa. E eu? O que vou ganhar com isso?”.
10. RUSSEL, Bertrand. A conquista de felicidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
11. “(…) O amor maduro é a união sob a condição de preservar-se a própria integridade, a própria individualidade. O amor é um poder ativo no Ser humano; um poder que demole as paredes que o separam de seus companheiros, que o une aos outros; o amor o faz superar o senso de isolamento eseparatividade, permitindo-o ainda ser ele mesmo e reter sua integridade. No amor ocorre o paradoxo de que dois seres se tornam um e continuam a ser dois”.FROMM , 2006.
12. O intuito de não fazer com esta apresentação passasse por um libelo cristão e fosse “ecumênica” na medida do possível não é obstáculo para o cumprimento do mandamento maior, prescrito em Lucas 10:27: “A isto ele respondeu: amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Libertos de uma visão antropomórfica de um Deus longínquo e concebendo-o como presente em nós mesmos os dois mandamentos se equivalem.11“(…) O amor maduro é a união sob a condição de preservar-se a própria integridade, a própria individualidade. O amor é um poder ativo no Ser humano; um poder que demole as paredes que o separam de seus companheiros, que o une aos outros; o amor o faz superar o senso de isolamento e separatividade, permitindo-o ainda ser ele mesmo e reter sua integridade. No amor ocorre o paradoxo de que dois seres se tornam um e continuam a ser dois”.FROMM , 2006.






quinta-feira, maio 23, 2013

Felicidade e Qualidade de Vida

Felicidade e Qualidade de Vida

Creomar Baptista*

Sentidos da Felicidade

Pouquíssimas palavras são tão mal compreendidas quanto “felicidade”. Trocam-se os fins pelos meios e julga-se feliz aquele que satisfaz seus desejos mais imediatos, usufruindo do que imagina serem os “prazeres da vida”. Mas o alcance da felicidade vai muito além da compra de uma nova TV de plasma ou de um carro novo. Quantos de nós conhecemos em nosso círculo de parentes e amigos, pessoas bem sucedidas, financeiramente estáveis e inseridas em estruturas familiares ou em redes sociais que correspondem ao nosso estereótipo de felicidade? Mas serão elas realmente felizes? Ninguém sabe dizê-lo, pois a felicidade, antes de tudo é uma disposição interior de espírito. Em segundo lugar, há indícios de que este estado não está relacionado a fatores como posse, poder, atividade desenfreada (como a obsessão por exercícios físicos, aventuras, viagens sem fim e êxito nos negócios) ou qualquer fator exterior. Na sociedade contemporânea, o forte incentivo à competição e ao ganho monetário é outro empecilho de monta à conquista da verdadeira felicidade, e fonte primordial da angústia que afeta o homem.
Mesmo estes prosaicos filósofos da natureza, os economistas, têm se envolvido com o espinhoso desafio de contemplar a felicidade em seus modelos. Em 1972, um país da Ásia chamado Butão foi pioneiro ao calcular um índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB) que - ao contrário do “Produto Interno Bruto” - incorpora algumas dimensões do ser humano ignoradas solenemente nas medidas “físicas” do bem estar (1). Seu objetivo era criar um indicador adaptado à cultura do país, capaz de evidenciar que ele não era tão pobre quanto se pensava (pois o cômputo apenas da produção de bens e serviços não dava conta de toda a sua riqueza espiritual e cultural).
De fato, muito da percepção limitada que temos da felicidade decorre da ignorância de suas origens etimológicas. Nessa palavra o morfema “feliz” provém de “Fe”, uma raiz latina derivada do indo-europeu “Dhe” que, por sua vez quer dizer “mamar” ou “sugar”. Entre os antigos gregos, o vocábulo “eudaimonia” ou “que tem um poder divino (daimon) bem disposto (eu)” era o que mais se aproximava do que atualmente assinalamos como felicidade, sendo tida como um favor divino e relacionada à prosperidade. Como não pretendemos crer que nossos ancestrais nos séculos IV e V A.C. raciocinavam à maneira reducionista e grosseira dos contemporâneos, optamos por assumir que a primeira interpretação (da boa disposição do poder divino no homem) melhor traduz a acepção clássica de felicidade.
Ademais, no seio da Grécia havia vozes discordantes que relativizavam a segunda opinião, como Eurípedes que vaticinou em sua célebre “Medeia”: “Nenhum homem é feliz (eudaimon) (2). Se a prosperidade (olbos) vem até ele, ele pode ter mais sorte (eutyches) que outros homens, mas feliz, ele não é”. Na Roma do Império, por sua vez, “Felicîtas” (felicidade) era a personificação de uma antiga deusa, usualmente impressa em moedas e que celebrava a boa sorte e o sucesso. Não sem generosa dose de boa vontade, entendemos que aquela deidade simbolizava o fato de que adquirir um bom resultado (ou ter êxito) pressupõe um ponto de origem (o estado atual) e destino (o
estado futuro). Mas para triunfar é preciso percorrer um caminho até a meta. É preciso esforço para ser feliz. Mesmo sob pena de nos atermos quesito tão “materialista” (o êxito ou o sucesso), esta idéia do esforço nos parece uma das mais profícuas chaves dos mistérios da felicidad (3).

Com efeito, filósofos romanos como Sêneca sentenciavam que “(...) todos querem viver felizes, mas não têm a capacidade de ver perfeitamente o que torna a vida feliz. Realmente não é fácil atingir a felicidade, porque, se alguém desviado do reto caminho se precipita para alcançá-la, fica sempre mais afastado da realidade” (4). A felicidade, portanto, comportava mais que retenção de dinheiro ou o dar livre curso às paixões, a simples “alegria” ou o contentamento transitório e não permanente. Era uma inclinação do homem, pois “(...) uma alma reta nunca se transforma nem é odiosa a si mesma, em nada se afasta do melhor modo de viver; o prazer, porém, extingue-se justamente quanto mais deleita, o seu campo não é muito amplo e, por isso, logo sacia, causa tédio e definha depois do primeiro impulso”.

Mais profunda e visceral ainda é a interpretação da felicidade entre as milenares escolas filosóficas e tradições espirituais hindus. Com todas as dificuldades em verter o idioma sânscrito para as línguas ocidentais, o que mais se aproxima da felicidade real e que pode ser experimentada pelo Ser humano é Sat-Chit-Ananda, a tríade existência, sabedoria e bem-aventurança. Ananda ou beatitude (a condição de fato feliz da existência) vem a ser a suprema autorrealização do homem e sua fusão no oceano do divino.

Na prática, por assim dizer, tal experiência tem a ver com aquelas raras circunstâncias em que o homem encontra o divino - não como algo externo a si mesmo - ; mas como uma realidade interna, entregando-se sem limites à contemplação do Todo, Uno ou, simplesmente, Deus. Este momento especial não é privilégio de um punhado de homens e mulheres abnegados. Pode ser experimentado por todos e muitas vezes não nos damos conta daqueles breves instantes em que a intuição nos impele a percepções mais refinadas do ambiente e de nossa relação conosco mesmos e o Universo (5).

Para certos grupos islâmicos como os sufis ou os praticantes Zen budistas um dos atalhos para a “iluminação” (um dos sinônimos de autorrealização) reside nos efeitos instantâneos de alguns acontecimentos fortuitos sobre o sujeito que os experiência. Uma abelha pousando sobre uma pequena flor a desabrochar, gotas de orvalho na relva ou o coaxar de um sapo são suficientes para provocar-lhe uma clara antevisão da beleza do mundo. È o mesmo que dizer - como o fazem certos místicos - que “conhecemos a Deus por seus sinais”(6) e a sintonia com a natureza é um caminho simples e comumente menosprezado para a felicidade suprema.

Outrossim, existem outros campos em que a sensibilidade pode ser apurada , abrindo-se mais uma porta para a autorrealização. Manifestações artísticas como a dança, a poesia, a música e outras também contribuem para assegurar-nos uma vida plena de significado, como bem lembrou uma amiga que, gentilmente, revisou meu texto original. E ela está coberta de razão. O homem que ao longo de seu extenso período de vida (pois entre milhares de espécies a nossa é uma das mais longevas) priva-se de arte é um indivíduo truncado, um pobre coitado cuja alma pode ter se atrofiado definitiva e irremediavelmente.

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*Agradeço a colaboração dos amigos Sylvio de Queiroz Mattoso, Fernanda Duayer Picardi e Nilson Galvão que, gentilmente, revisaram e apresentaram sugestões ao texto. Não suponham pela leitura do ensaio que eu mesmo tenha alcançado o estado de espírito sobre o qual me debruço aqui. Entre falar da felicidade e ser feliz há um longo e penoso caminho.

1 Como o PIB, que é simplesmente o somatório dos preços de todos os bens e serviços vendidos a preços de mercado em determinado período do tempo.
2 LAURIOLA, Rosana. De eudaimonia à felicidade. Visão geral do conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres dos tempos modernos. Revista Espaço Acadêmica no 59, abril de 2006.
3 O homem se fosse sábio ergueria templos ao esforço. Mas aonde quer que ele seja valorizado no mundo, jamais o é como uma das mais importantes forças cósmicas nos planos material ou espiritual, porém amesquinhado a tal ponto que se viu banido de toda reflexão filosófica de fôlego.
4 SENECA, Lucius Anneus. Da vida feliz. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
5 No sufismo ou mística islâmica este modo de ver as coisas é pronunciado. “O coração do sufismo "estánum hadith" (sentença) de Mohamed: ‘Adora a Deus como se o visses, pois mesmo que tu não O vejas, Ele na verdade sempre te vê’. Os fukará procuram assim agir sempre como se estivessem na presença de Deus. Aspiram à “libertação” em vida de todos os entraves colocados pelo lamento passional da alma (nafs) e das limitações e temores engendrados pelo mundo”. AZEVEDO (1996).

quinta-feira, maio 09, 2013

O que é "Gospel"?

A palavra inglesa "gospel" é provavelmente uma corruptela de "God's spell". Ela é bastante diferente do grego ευαγγέλιον (euangelion) ou "boa mensagem". Para mim mais profunda e com significados múltiplos, assim como a obra do Senhor. Os missionários das Ilhas Britânicas foram mais longe em sua introspecção espiritual que os primeiros cristãos que verteram para o "koiné" (uma variante pobre do grego que circulava no resto do mundo, bárbaro) os ensinamentos do Messias em sua língua original, o aramaico. "Spell" admite conotações como "magia", "encanto", "feitiço", "soletrar" (a busca da palavra perdida original). "Gospel" é o indescritível efeito do "sussurrar de Deus" em nossas almas , a percepção da maravilha da criação, aquele silêncio cósmico que tudo diz. Não combina com certos ritmos ou melodias muito em voga hoje em dia. A ignorância sem limites desta raça terrestre fez com que fossem criadas "brands" (marcas) gospel que abrangem desde "Sex Shops" até a "música" (ou o "som", termo mais conveniente). "Funk Gospel", "Axé Gospel", "Thrash Metal Gospel", "Punk Gospel", "Boquinha na Garrafa Gospel", "Skinhead Sound Gospel", "Arrocha Gospel", "Gospel EMO", "Priscilla Rainha do Deserto Marcus Feliciano Gospel" e dezenas de outros gêneros. O que eu gostaria de fazer com que meu vizinho entendesse é que não importa para Deus a letra de uma canção (uma epístola de São Paulo com pagode executado ao fundo pelo Belo e sua voz de gralha, vamos supor) mas que a música afague nosso espírito, não os sentidos do corpo animal (físico) como ensinou o próprio Paulo de Tarso. Lá no seu trono aquele ser antropomorfizado (nós nos achamos o centro nevrálgico do universo, nosso Deus é um Papai Noel barbudo gigante que financia carros) está cercado de coros de serafins e orquestras de arcanjos. Do seu camarote celestial está absorto em Bach, Mozart, Chopin, Liszt, quiçá um daqueles biscoitinhos que derretem na boca do Débussy ou um bom canto gregoriano (que ocupa o último lugar no seu "jukebox").

sábado, maio 04, 2013

Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação

Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação

Creomar Baptista

Estátua do Demônio - Madrid, Espanha
Anteontem, meditando à minha maneira, formulei uma oração para a "Estrela da Manhã", "A Aurora da Manifestação", o precursor do "Manvântara" (um novo ciclo de atividade cósmica nos sagrados textos de Aryavartha), o "Anjo da Face Resplandecente", o ser de beleza ofuscante e olhar sedutor, o que nos ampara no desalento e inala-nos correntes de energia vital. Não preciso dizer de quem falo. Mas tenho medo de ser discriminado pela chusma dos ignorantes e supersticiosos divulgando minha oração. Mas talvez o faça oportunamente. Ela brotou do que há de mais nobre em mim, daquela restiazinha de esperança no futuro da  raça. Eu o amo. Sabem, tenho compaixão por aquele amigo que viu o nosso mundo ser criado e reina neste plano material em seu palácio perfumado com alfazema, lilases, especiarias das arábias, almíscar, flores de lótus em uma lagoa e guirlandas de rosas cheirosas para os convivas. Eis um cargo que ninguém queria. Rejeitara aquele pedido indecoroso do Supremo, a princípio, mas de nada adiantaram suas súplicas e ranger de dentes. Foi agrilhoado em cadeias e finalmente precipitado a um protótipo de terra (com vulcões e placas tectônicas dançando), arrebanhando milhões de contrafeitos seguidores. Sentiu-se traído por quem devotara tão grande amor, "Àgape". A cada dia sua ira aumentava mais e mais, deprimia-se com o trabalhinho imundo de que se vira encarregado (não existiam antidepressivos antes da solidificação do planeta): cuidar de um mundo de pedras, vegetais, animais e homens ímpios, sujeito a quatro elementos imprevisíveis e talvez à morte, no "fim dos tempos", o que seria um alívio. Nosso "Príncipe Primevo do Matéria", o "Quase-eterno" estava lá, coordenando os trabalhadores que com suas picaretas e martelos moldaram este pedacinho de terra no Universo. E qual paga recebeu depois de milhões de anos de sofrimento e suor? Todos os crimes mais atrozes e a perversidade dos Seres Humanozinhos aos quais o "Criador" (aquele que o designou para a mais inglória da missões) concedeu o livre arbítrio a ele são atribuídos. Lesados de origem (nem todos, alguns o eram de fato) viraram santos e ganharam capelas e honras, enquanto ele é objeto de escárnio. A modernidade iluminista fez dele um palhaço de circo. É o bode expiatório de bilhões de pulhas, logo ele, o mais puro dos jovens. Pobre "Ancião dos Dias", "Sanat Kumara" (um dos jovens irmãos primogênitos na Teogonia Hindu), "Rei do Mundo", "Cavaleiro do Alazão Branco", "Portador da Luz", Lúcifer. No Ocidente, só os espanhóis ergueram em Madrid uma estátua digna de vossa majestade, "Ó Néctar de Luz". Quem diria. Logo os espanhóis.