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segunda-feira, agosto 14, 2006

A Alquimia da Felicidade Perfeita - Notas

‘Arabî, Ibn. A alquimia da felicidade perfeita. São Paulo, Ed. Landy, 2002.

Observação: traduzido por Roberto Ahamad Cattani

“2. A Alquimia representa a ciência que tem por objeto as proporções e as medidas atribuídas a tudo o que comporta a proporção entre os corpos físicos e os conceitos metafísicos, na ordem sensível e na ordem inteligível. Seu poder soberano reside nas transmutações, quero dizer, nas mudanças de estado por influxo da ‘Fonte Única’ (al-‘Ayn-Al-wâhida). A alquimia é uma ciência natural, espiritual, divina. Nós a declaramos, de fato, uma ciência divina, pelo fato de que ela traz a harmonia estável, motiva o descanso epifânico e a íntima solidariedade (entre os seres): e pelo fato de que ela manifesta os Nomes divinos por influxo do ‘denominado divino’ (al-Mosammâ al-Wâhid), segundo a grande diversidade de seus conceitos metafísicos.
Dísticos

“3. Encontra-se o Objeto (da Busca), encolhido entre uma dobra escondida e um fluxo alastrado. Da mesma forma que o ‘como’ (kayf) e o ‘quanto’ (kamm) revelam proporções. Em virtude disso, nossos veículos corporais erram em busca dos vestígios de sua simplicidade primária. Este extravio realça um mistério inviolado. A revelação do ser é portadora de sentenças que ela legifera, e a justa sentença situa-se entre uma interdição e uma prescrição”.
A Ciência do Elixir e suas duas vias de aplicação
“4. A alquimia é a ‘Ciência do Elixir” (“ilm bîl-lksîr) que comporta duas vias de aplicação. Quero dizer que sua ação pode consistir: tanto em produzir uma essência ab origine, como o ‘Ouro Mineral’ (Dhahab ma’dinî), quanto em eliminar um mal e uma moléstia, como faz o “Ouro da Obra” (Dhahab sina-i), que está ligado ao Ouro Mineral, assim como a constituição do outro mundo e aquela deste mundo estão ligadas na aspiração de ambos ao justo equilíbrio”.

O Arquétipo Único” dos Minerais e as vicissitudes de sua formação

“5. Aprenda então que todos os minerais remetem a um ‘arquétipo único’ (Al wâhid). Este arquétipo exige ser religado ao Grau de Perfeição representado pela “aureidade” (dhahabîya). Entretanto, esse Arquétipo ainda é um objeto natural, proveniente do influxo de certos Nomes divinos, cujo impacto pode manifestar-se de várias formas, ele pode ser afetado durante a progressão, por males e enfermidades, provocados pela oposição de períodos e das naturezas (elementais) inerentes às localidades que atravessa – como a natureza quente do verão, a natureza fria do inverno, a secura do outono, a umidade da primavera – e devidos à própria jazida da mina, a seu calor e frieza”.

A Conjunção Alquímica do enxofre e do mercúrio e a concepção do Mineral

“6. Resumindo, muitos são os males (que afligem o Arquétipo mineral). Quando um desses males predomina sobre o Arquétipo durante certos períodos, ele propaga-se e dinfunde-se de fase em fase e leva o Arquétipo a emergir da condição de um ciclo para introduzi-lo na condição de outro ciclo. Esse fator poderoso implanta-se então no Arquétipo mineral, no qual produz a aparição de uma ‘forma’ destinada a conduzir sua substância a uma realização completa. Essa forma geradora é denominada “enxofre” (kibrît), ou ainda “mercúrio” (zîbaq). São os genitores do que, depois de sua conjunção e do seu acasalamento, aparece na forma de minerais (ou metais, ma’âdin), por causa de alguns males que atingiram o filho (que eles conceberam). Enxofre e mercúrio então se unem e se acasalam para engendrar uma substância nobre, de perfeita constituição, chamada Ouro.
7. Graças a esse Ouro, os pais são enobrecidos, pois esse é o grau (de Perfeição) ao qual eles ambos aspirava quanto à sua própria substância – embora com as restrições de que esse Arquétipo é um ‘pneuma’ no domínio das coisas divinas e um vapor (bukhâr) na Natureza, e de que os pais (ou genitores) são um objeto concreto e uma realidade natural. É por isso que especificamos claramente que esse produto é aquele ao qual os dois aspiravam ‘quanto à sua substância’, e não quanto à sua forma específica. Porque a condição apropriada para a substância material relaciona-se às formas. Então, quando o mal que atingiu o Arquétipo no seio da mina foi embora e transformou-se em enxofre e mercúrio, sabemos que ambos tinham o poder de agir. Se os pais não padeceram nenhum mal suscetível de afastá-los do princípio do ‘equilíbrio das naturezas’, desviando assim o Arquétipo do seu caminho normal, bem, a criança que eles geraram constitui o produto no qual as suas respectivas essências transmudaram. A sua conjunção se perfará no Grau da Pefeição, ou seja: o Ouro que todos cobiçavam desde a origem.
A gênese do mineral e suas analogias com o ser humano
“8. Quando os genitores conjungiram-se e acasalaram-se no seio da mina, conforme a natureza intrínseca desse mineral específico, e contanto que ele esteja em condição de receber o influxo natural do tempo apropriado (no mento da sua concepção), eis o mineral encaminhado numa ‘via reta’, em tudo semelhante ‘à natureza primordial que Deus empregou para constituir os seres humanos’, pois, mais tarde, são os pais da criança que (desviando-a da sua natureza primordial) farão dela um judeu, um cristão, um masdeísta.
Da mesma forma (para os minerais), se é só o componente do pai (o enxofre) que se acumula no filho por uma incidência de ordem mineral em virtude de um acidente no tempo, neste caso uma das propriedade elementares predominará sobre suas homólogas. Ela crescerá e se desenvolverá às custas das outras e estas irão enfraquecendo sob o impacto da propriedade elementar que se tornará exclusivamente preponderante no seio da substância. E isto por causa do que a essência desta propriedade lhe traz, essência que cria o obstáculo à via do justo equilíbrio, estrada de peregrinação, graças à qual emergirás (do mundo terrestre) em direção à cidade maravilhosa (al-Madînat al-fâdila), que é inteiramente de ouro e perfeito. Aquele que a alcança, em verdade, nunca mais deverá submeter-se às transmutações transitórias em formas de ser deficientes. Então, quando essa propriedade elementar predomina (sobre as outras) no seio da substância, a sua fonte fundamental fica corrompida, e é então a forma do ferro que aparece, ou aquela do cobre, do estanho, do chumbo, ou ainda da prata, dependendo do elemento preponderante. Com isso, podes entender a palavra de Deus enunciando ‘harmoniosamente formado e disforme’ (Alcorão. 22.5). Isto é: de constituição perfeita, só pode tratar-se do Ouro, de constituição imperfeita, são os demais metais.

PONTO CHAVE:
“As transmutações são um absurdo”; a alquimia da visão e a função da faculdade “imaginal”.
69. Se és perspicaz, estás agora iniciado na ciência que diz respeito às ‘formas dos existentes que vês’. Concordarás que esta ciência é de primeira, já que não poderias ficar sem ela, mesmo menosprezando-a . Parece-te evidente que as transmutações são um absurdo. Deus fita através de alguns dos seus servidores, e estes percebem a vara como uma serpente, embora seja mesmo uma vara. É um ato de percepção divina, que para nós é ‘imaginal’ (Khayâli). O mesmo acontece com todos os existentes (visíveis). Olhe, isto é uma pedra inerte, insensível, incapaz de falar, sem vida. Não dirias: eis um vegetal, eis um animal dotado de sensação e de percepção, eis um homem dotado de razão. Pois é teu olhar que te informa sobre tudo isso.
70. Suponha que outro individuo se ponha a observar contigo. Ele vê e escuta as saudações das pedras, dos vegetais e dos animais. Pois as duas experiências são verdadeiras, e a faculdade que empregas para negar o que o outro sustenta é a mesma faculdade que ele está usando. Cada um dos dois ampara-se numa prova idêntica, e mesmo assim as suas conclusões são diferem. Em nome de Deus! O bastão de Moisés sempre fora uma serpente sem cessar de ser um cajado, tudo isso simultaneamente no mesmo objeto? De fato, a visão de cada um dos homens não pode perceber o que é o objeto em si. Já constatamos este fato, e dessa forma tomamos consciência do que representa a visão de uma individualidade concreta. É a visão de um ou do outro, a partir de uma essência única, imanente à primeira manifestação e a nenhuma outra, imanente à segunda manifestação e à nenhuma outra”.

A alternância das relações de identidade

71. Diga então: Deus! Diga: o mundo! Diga: sou eu! És tu! É ele! É tudo isso junto no âmbito dos pronomes pessoais. Isto se prolonga indefinidamente sem interrupção. Zayd afirma, no fundo de ti mesmo é ele! E é Omar! E ele diz de ti: és tu! Tu dizes de ti: sou eu! Então sou idêntico a ti (o olho de ti mesmo), e sou idêntico a ele (o olho dele mesmo); e todavia não sou que me identifico a ti, ou a ele. De forma que os relacionamentos de identidade alternam, indefinidamente. São mares transbordantes, sem fundo nem margem. A sublimidade do meu Senhor está escondida nessas ‘partículas de ouro’, e se chegardes a conhecer o que eu entendi, saboreareis a deleitação da eternidade, experimentareis o temor que não dá descanso à pessoa. O próprio desmoronamento da montanha foi a prova da sua solidez, e o fato de que Moisés retomou a consciência é a prova de que ele havia desmaiado (ver. 7. 143).
NOTA DO TRADUTOR: De fato, Ibn’Arabî é taxativo nesse ponto a cada vez que menciona, a faculdade dos sentidos (quwwat al-hiss) não é outra coisa que a faculdade ‘imagética’ (quwwat Khayâliya), que permite o místico visionário perceber a linguagem e as saudações dos objetos e das criaturas que vê como inertes. Há uma simples transformação da faculdade sensível na faculdade de percepção imaginativa. Estas mesma faculdade em Deus é designada como ‘ato de percepção divina’ (supra, & 69). Não são as formas percebidas que mudaram, é o órgão de percepção que se modificou. Da mesma forma que Moisés vê de repente seu cajado como uma serpente, e da mesma forma a coluna de ouro continua sendo uma coluna de mármores, quanto à substância primitiva.

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