Gurdjieff

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sexta-feira, dezembro 16, 2005

Panorama do Pensamento de Ouspensky - Parte II

COMENSURABILIDADE DOS FENÔMENOS


Aceitando que a lógica não pode, derivada como é da cognição temperada por formas perceptivas únicas, aquilatar a existência noumênica, não há razão para supor que os atributos lógicos de nosso mundo fenomênico têm qualquer outra que não uma relação parcial com o mundo real como ele deve existir separadamente da sensação. O fundamento da epistemologia deve ser baseado no entendimento e concordar com a lógica enraizada na experiência, e os resultados práticos da inferência lógica devem corresponder às nossas atuais expectativas do mundo. Entretanto, algumas vezes, mesmo as mais simples e mesmo óbvias ocorrências permanecem obscurecidas, e freqüentemente o que tomamos por conhecido é realmente algo vago e indefinido. Alguma coisa, mais freqüentemente do que o contrário, simplesmente rotulada por conveniência e que passa em silencia como se uma coisa agora nomeada fosse algo completamente revelado. Esta é indubitavelmente a razão por que muitas tentativas de explicar o mundo tão freqüentemente se encontram com a incredulidade e a confusão. Para Ouspensky, um exemplo deste tipo de pensamento é encontrado na teoria física da relatividade. Atualmente é comum para o homem médio ser familiar (ao menos em nome) à “teoria” e muitos iriam impensadamente afirmar a incontroversa desta idéia. Ao mesmo tempo o homem médio seria fortemente pressionado a formular a teoria de alguma maneira coerente e dotada de significado. E quando tenta discordar dos fundamentos da relatividade, logo é detido por sua natureza não lógico. Entretanto, usualmente não paramos de considerar se o ilógico não resultaria de um desentendimento fundamental das várias idéias usualmente tomadas como auto-evidentes e certas.
Ouspensky vê a origem da noção das propriedades contraditórias dos fenômenos observados como residentes na idéia de escala. Para citar um exemplo, nossa incompreensão primária em portanto, conseqüente falsa representação da lei natural tal como deriva da relatividade decorre da noção geralmente aceita da homogeneidade fenomenal. Isto é, temos tradicionalmente presumido a consistência dos fenômenos e feito com que isto se torne um axioma fundamental na formação da teoria. Esta convicção nunca foi mudada na medida em que nossa percepção envolve somente evento que foram comensurados com nossa faculdade cognitiva primária, i.e, nossos sentidos biológicos e a razão concomitante. Como resultado, a consistência entre a teoria e a experiência foi mantida.
Se considerarmos as várias tecnologias como extensões de nosso ser físico e psíquico, é provavelmente fácil entender como nossa confusão presente para formular teorias coerentes surgiu. Isto é, a vida atual não permite conflito entre o que percebemos e o que esperamos perceber. Isto, novamente, é fundamental para a lógica de nossas categorias perceptivas e, como observa Ouspensky, nada mais é que a experiência da concecutividade geral dos fenômenos. Ainda que trivial, não deixa ser valido repetir que se este não seria o caso da falta de qualquer fundamento para a ciência positiva. Agora, começando no final do século XIX, certos descobrimentos confundiram as relações lógicas usuais que até então estabeleceram os princípios da lei natural. Estas novas “descobertas” de maneira alguma poderiam ser explicadas com o material científico ou filosófico correspondente diretamente à amplificação de nossos sentidos pela tecnologia. Nossa percepção se tornou expandida de maneira sem precedentes e, teleologicamente falando, é verdade, uma maneira não antecipada por nossa biologia. Pela primeira vez experimentamos eventos que foram escondidos de nossos meios naturais de percepção.
Em nosso mundo cotidiano de todos existimos em um continuum tridimensional limitado pelo tempo. Estendendo por meio da tecnologia nossa percepção, nos tornamos cônscios de, por um lado, um mundo “mais alto” do espaço astronômico e, por outro lado, um mundo eletrônico “mais baixo”, existindo independentemente do reino do dia a dia disponível a nossa percepção direta conseqüente. E devido a que nossa lógica preexistente nunca foi adaptada para ou preparada para engajar-se nestes “novos mundos”, nos tornamos confundidos em nossa tentativa de interpretar logicamente fenômenos não-mensuráveis e suas propriedades inerentes. Assim, não estamos propensos a aceitar sinceramente a possibilidade de que nossa lógica dada não se aplicaria naturalmente a domínios não comensuráveis quando vistos segundo convenções da perspectiva tradicional.
Do ponto de vista do senso comum o mundo é único e o mesmo vale para todos os fenômenos (ou possíveis fenômenos). Contudo, se as relações espaço-temporais são categorias intrínsecas ao mecanismo da percepção e não “coisas” percebidas separadamente, então não há razão orgânica para presumir que os fenômenos que não podem ser percebidos (novamente, teleologicamente falando) devem necessariamente se conformar a nossas expectativas lógicas [6]. Isto se dá à medida que os limites de nossa percepção natural delineam uma vizinhança que permita relações lógicas consistentes dentro de sua própria escala, e se esta proporção for excedida nossa lógica não poderá interpretar os dados acuradamente. Logo, a razão é conseqüentemente forçada a construir novos modelos lógicos. Para Ouspensky, a teoria da relatividade é um exemplo deste tipo de lutas, sem deixar de ser uma tentativa de reconciliar, antes de tudo, intuições contraditórias como o fato de que todas as velocidades terrestres são relativas ao passo que a velocidade da luz permanece constante. Pararadoxo similar pode ser encontrado na Teoria dos “quanta”.

PSICOLOGIA E A ERA ESOTÉRICA

“Tertium Organum” é primeiramente um estudo de psicologia, ainda que seu objeto esteja distanciado daquilo que consideramos tipicamente como tal. O tema do livro não é a psicologia da vida cotidiana, mas a psicologia dos “noumeno”. Isto é, a psicologia de percepção de dimensões mais altas, ou a psicologia de uma mente mais elevada. Pelo fato de que a razão do espaço geométrico mais elevado é chamada “metageometria”, talvez seja melhor chamar o estudo de uma “metapsicologia” da consciência mais elevada, contudo conhecemos o assunto mais familiarmente como misticismo.
Uma análise dos fundamentos psicológicos de nossa atual epistemologia encontra seu ponto de partida na lógica padrão atribuída a Aristóteles e que flui dele. Como mencionado anteriormente, as convenções lógicas tradicionais carregam consigo o peso de descrever a forma de um mundo tridimensional no tempo, ao passo que a psicologia é idealizada por uma “mente racional”. Isto é, um meio de pensar e se comportar consistente com as leis existentes no mundo cotidiano. Também, uma forma de pensar que permite uma explicação dos fenômenos compatível com as nossas experiências coletivas de vida. De fato, explicações que não levam em conta o mundo sensual são consideradas fantásticas e, hoje em dia, ao menos por parte de certas escolas filosóficas, indignas de reconhecimento. No ponto extremo, idéias não racionais são consideradas patológicas, indicativas de certas desordens psicológicas.
Ao lado do racional existem crenças não racionais amplamente divulgadas e encorajadas por cada classe de associações humanas, das mais primitivas às maiores civilizações. Começando com uma tradição oral mais tarde codificada, algumas destas crenças levaram à consolidação das maiores religiões. No oeste várias divisões da fé cristã tornaram-se proeminentes. A significação psicológica do papel que o pensamento religioso joga na vida do homem não pode ser subestimada. Contrariamente à linha positivista moderna, baseada em uma psico-epistemologia essencialmente materialista que entende os problemas metafísicos como colocados de maneira errônea no debate, a maior parte da humanidade não conheceu nem vagamente ou explicitamente que certas questões não podem ser aproximadas muito menos resolvidas utilizando-se o material intelectual disponível. Para estes o pensamento religioso majoritário é suficiente para suavizar s ansiedade de não saber usar o que a principio parecem ser respostas simplistas para questões complexas. Muitas criticas psicológicas modernas tem corretamente entendido os efeitos pacificadores de tais bobagens e simplesmente, se tomadas literalmente, absurdas explicações religiosas [8]. Contudo em suas tentativas de criticismo têm freqüentemente se esquecido não somente da guinada rumo à atividade religiosa que tem sido incorretamente interpretada como um frivolidade ingênua, mas também negado a idéia oculta ou esotérica contida no germe da religiosidade externa ou exoterica. E é na variedade de pensamentos religiosos que Ouspensky encontra a chave para a aproximação do mundo noumênico.
No decorrer de sua vida Ouspensky acreditou que a mente pode operar em diferentes níveis qualitativos, contudo em nossa existência do dia tipicamente experimentamos ou reconhecemos meramente diferenças quantitativas no interior do mesmo nível mental. Níveis mentais diversos são diretamente associados a diferentes níveis de ser e não relacionados a nossas noções de gênio ou idiotia, os quais são apenas intervalos em um continuum nos limites da mente normal do cotidiano. Níveis distintos e separados de mente se manifestam como diferenças fundamentais na evolução da consciência humana. Isto é, uma mente mais elevada representa o desenvolvimento em uma pessoa singular de um modo de entendimento inteiramente novo e diferente. Como uma diferença qualitativa no conhecimento e entendimento não há garantia de que todos os homens possam compreender estas distinções e a aquisição de conhecimento esotérico não é um processo democrático, e permanece como uma grande questão como alguém pode se tornar associado a idéias esotéricas e como se pode reconhecer uma mente mais elevada.
Lembranças acromáticas (“relics”) são nossa ligação, ainda que indiretamente, com uma mente mais ampla. Simplesmente, é tarefa de certos artefatos conceber idéias que não podem ser relacionadas na língua discursiva ordinária devido à parcimônia ou limitação da fala em transmitir um pensamento elevado. Assim como a metageometria é limitada nos meios em que pode conceber a idéia de um espaço dimensional mais amplo usando analogias de espaço, o esoterismo é limitado em sua capacidade enunciar a ciência da mente mais elevada. Ouspensky acreditava que as idéias esotéricas não necessariamente comunicadas de forma simbólica dentro da estrutura tradicional da arte, ciência e religião mas delas não se pode aproximar sem preparação especial. Falando de maneira geral, a filosofia moderna (ao menos a filosofia que tem sido proeminente nas instituições do século XX) nega a possibilidade do conhecimento que ultrapassa o conhecimento ordiário e requerer não somente material especialmente preparado mas treinamento antes que possa ser usada. Assim a filosofia moderna (de fato, o pensamento positivo) tem corretamente entendido sua posição mesmo que isto em última análise signifique abandonar o que tradicionalmente foi descrito sob a rubrica de filosofia [9]. Ainda assim, se alguém quiser tomar seriamente a filosofia como um meio de satisfazer o desejo do homem para apreender o inexplicável, deve abandonar a linha do positivismo representado por certas escolas modernas e olhar para outro lado. Para Ouspensky, abraçar tanto a idéia esotérica quanto o método psicológico como um canal para o entendimento satisfaz esta condição.
Ouspensky ensinou que através de toda a história certos artefatos criados “por homens de mente mais alta” e aqueles com habilidade para traduzir e decifrar os significados dos autores podem, eles mesmos, ao menos atingir a possibilidade de alcançar uma mente mais elevada. Exemplos em arte dados por Ouspensky incluem a Esfinge de Gizé, certas catedrais góticas [10], textos “religiosos” selecionados como os Evangelhos e os Upanishads (mesmo que a interpretação de cada um destes trabalhos de arte esotérica deva necessariamente transcender as interpretações arqueológicas usuais no caso dos Evangelhos, mesmo as usuais interpretações da Igreja). Por exemplo, Ouspensky rejeita a visão cristã dogmática dos Evangelhos como textos religiosos, considerando-se, em vez disso, principalmente argumentos psicológicos cujo propósito cujo propósito nunca foi criar e, conseqüentemente, suportar, uma processo burocrático de persuasão escatológica. E, para Ouspensky, no caso dos Evangelhos, foi sua usurpação por homens de mente ordinária que levou à criação e popularização da Cristandade e concomitantemente suas doutrinas simplistas e menos do que inspiradas.
Um entendimento estritamente pedante ou teórico da mente mais elevada não é mais que uma aproximação do conhecimento maior do mundo real ou noumenico, mas não oferece conhecimento legitimo. Uma aproximação autêntica não pode ser obtida por meio da apreensão intelectual ou estético devido ao caráter de nossa condição presente. Como afirmado anteriormente, um entendimento do esoterismo necessita de mudança qualitativa no ser e não simplesmente uma familiaridade com novos conceitos filtrados através das ilusões de nossa mente. Este é talvez o aspecto mais difícil de entender no pensamento de Ouspensky.
Usualmente nos aproximados de um sujeito não-conhecido com a atitude de embora sejamos atualmente desconhecidos um do outro podemos, através do esforço prolongado de nossas faculdades convencionais, vir a conhecer o desconhecido. Quanto a nosso sujeito presente, Ouspensky nos diz que não é este o caso. Antes de podermos entender o mundo “noumênico” do “espaço mais elevado” devemos desenvolver dentro de nós mesmos, os fundamentos de uma mente mais elevada. Naturalmente, a questão óbvia é: como proceder? [11]

Um comentário:

Eloy Bida disse...

Excelente.
Não temos garantia nenhuma em que nível de compreensão estamos e mesmo tendo contato com um nível maior de consciência não poderemos compreender totalmente.