quarta-feira, março 12, 2014
O implante dentário e um lampejo de si mesmo
Submeter o paciente a um implante de dentes equivale a descer da condição do "Homem-Massa" de Ortega y Gasset ao "Homem-Máquina" de Gurdjieff, regredi-lo conceitualmente a um ser mecânico, para o qual tudo acontece, tudo se se manifesta exteriormente.
O dentista manuseia instrumentos lúgubres, invisíveis, ruidosos; não podemos divisá-los com acuidade; mas o paladar; azedado com saliva, sangue e pus; o tato não completamente amortecido; e, sobretudo a audição, incólume; - aliados à percepção naquele ambiente hostil dos "sentidos comuns" do movimento, repouso, figura e grandeza.
A seringa amiga não refrea inteiramente a constatação da dor. Ouvimos o doutor dizer à assistente, "Pega a broca!"; de pronto, instala-se o pânico. Arrancam-se as carnes das gengivas com força tamanha que o maxilar afrouxa; não controlamos os lábios; na mente rodopiam fantasias, formam-se imagens desconexas que informam o corpo anestesiado da agressão iminente.
De fato, o pedacinho de osso que restou do primeiro molar é perfurado; mas, isto não é suficiente: é necessário desbastá-lo como a "pedra bruta" de um Aprendiz Maçom. O rijo sobrevivente em sua cadeira é posto ao lado do Trono do Vigilante, o dentista, o aprendiz ignorante, perfila seus instrumentos; não o maço e o cinzel; mas o broca e agulha que lhe cabem em sua etapa iniciática, coisa ainda mais apavorante para o objeto do obreiro odontológico que as estórias macabras de convescotes satânicos.
Terminado o serviço, o cirurgião, sorri, com a dentição saudável exposta ante a miséria alheia e; ainda, declara em tom elogioso, sem galhofa, sincero também na sua rotina: "Nunca vi osso mais forte que o seu".
Explicação
Muito frequentemente, em momentos singulares - costumeiramente naquelas ocasiões em que o homem tem estimulado em mais alto grau o senso instintivo - pode-se produzir uma rara unidade dos sentidos que nos dá notícia de nós mesmos. Ainda que fragmentária, ela, a nova informação, condensa uma verdade sobre o nosso "todo" de forma sintética. Estuda a ti mesmo, observa-te e conhece-te; são estes os passos no cotidiano, não circunstanciais pois exigem disciplina e constância.
quinta-feira, março 06, 2014
Constantin Noica e as seis doenças do espírito contemporâneo
“Vejo ainda um dado límpido que um grande
homem não pode ser imitado. No entanto, o humanismo sonha com isto: oferecer
protótipos que sejam, de um modo ou de outro, imitados. Mas é suprema a
absurdidade da pedagogia. Pois nem ao menos numa vida de santo não há nada ‘exemplar’,
não há nada a imitar. Se não se realiza por conta própria, qualquer vida é um
insucesso, uma dilação. (1)
“E se
foi possível ver no homem o “ser doente do universo”, foi provavelmente por
causa dessas seis doenças, não por seus males físicos nem por suas neuroses.
Naturalmente, elas ainda não tinham sido denominadas, e talvez não tivessem
sido claramente relacionadas com as “crises” espirituais do homem; parece-nos,
todavia, que é precisamente delas que sempre se falou, pois, como quer que
seja, só elas – sendo constitutivas do homem – nos podem autorizar a dizer que
ele é um “ser doente”.
(2)
O filósofo romeno CONSTANTIN NOICA (Vitănești -Teleorman 12/25
de julho de 1909-Sibiu, 4 de dezembro de 1987) é ainda pouco lido no Brasil, mas
talvez, no século XX, nenhum outro pensador além dele pôde compreender em todas as suas implicações a vasta dimensão
do drama humano, ao vasculhar em sua obra de maturidade “As seis doenças
do espírito contemporâneo” as “diferentes
relações que têm entre si os traços definidores de todo ser, de toda realidade
existente: a individualidade, a generalidade e as determinações que situam a
individualidade na generalidade”, conforme pontifica o professor Olavo de
Carvalho, responsável pela introdução, edição e notas da publicação em língua
portuguesa. (3)
Utilizando um quadro clínico como alegoria dos dilemas que
acometem o homem, Noica formulou uma tipologia de sintomas que identificam suas
doenças de espírito, superiores às somáticas e às psíquicas, pois:
“Nenhuma neurose
poderia explicar o desespero do Eclesiastes, o sentimento de nosso exílio na
Terra ou de nossa alienação, o tédio metafísico, a consciência do vazio e do
absurdo, a hipertrofia do eu ou a revolta sem objetivo; nenhuma psicose poderia
explicar o “furor” econômico ou político, a arte abstrata, o “demonismo”
técnico, nem talvez aquele formalismo extremo que hoje em dia, em todos os
domínios da cultura, consagra o primado da exatidão sobre a verdade”. (4).
As doenças de espírito são doenças ônticas, aquelas que verdadeiramente constituem o homem,
pois o ser também pode adoecer, sendo “afetado
nas coisas viventes e inanimadas, estas permanecem secretamente bloqueadas por
uma dessas doenças, que no entanto se dissimulam por trás da aparente
estabilidade das coisas; mas, se é atingido no homem, este último, graças á sua
instabilidade superior, revela a sua doença à plena luz do dia”. A primeira
dessas enfermidades é a carência do individual, a todedite.
“Esse homem irá, como todos,
respirar, mas o ar que irá respirar será condicionado e “geral”, não este
determinado ar de sua terra, cujo odor ele tão bem não sabia reconhecer; ele se
alimentará, por certo, mas, ali também, de substâncias gerais; ele se
esforçará, como sempre, na vida do conhecimento, mas se interessará antes pela
essência do que pelas realidades particulares; e se alguma planta ainda o puder
deslumbrar, ela terá certamente brotado numa estufa. Em parte alguma do cosmos
ele reencontrará aquela realidade individual, o sabor particular “desta coisa
aqui”, o tode-ti do filósofo grego, cuja ausência nos faz sofrer bem mais do
que a imperfeição. Tanto ele como as coisas que o rodeiam já não terão
realidade particular. Por isso ele deverá, de tempos em tempos, voltar à terra
para curar sua todetite”. (5)
A segunda das enfermidades a acossar o homem é a carência do
geral, a necessidade de encontrar o individual autêntico dá origem a seu
oposto, “a doença em que o sofrimento não vem da carência do individual, mas ao
contrário, da do geral. Se apelarmos de novo para a língua grega, o “geral”, Kathoulou, lhe dar
seu nome: catolite”. Esta merece
tratamento à parte, uma vez que engolfa indistintamente toda a humanidade, ou:
“Em certo sentido, a catolite é a doença
espiritual típica do ser humano, tão atormentado pela obsessão de se elevar a
uma forma de universalidade. Quando, por um gesto elementar de lucidez, o homem
desperta da hipnose dos sentidos comuns que geralmente o manobram – no
interesse, aliás, da espécie e da sociedade –, ele busca por todos os meios
curar de sua amargura de ser uma simples existência individual sem nenhuma
significação de ordem geral. Ele busca então, mediante a maior parte de seus
engajamentos deliberados, apoderar-se dos sentidos gerais. Com muita
frequência, cai na armadilha dos sentidos prontos (como as “ideologias” de seu
tempo), que não são senão falsos remédios, incapazes de curar seu mal em profundidade.
Por isso, quando o homem – até o mais medíocre – prolonga seu gesto de lucidez
por tempo suficientemente longo para perceber a futilidade do geral a que se
devotou, sua catolite retoma toda a sua virulência”.(6)
Outra doença se relaciona às determinações do ser e explica
o horror do homem que não pode agir em conformidade com seu próprio pensamento
e suas convicções, a horetite ou
carência de determinações. Neste caso,
“... além de um geral e de um
individual, o ser, para se realizar, também tem necessidade de determinações
adequadas, isto é, de manifestações que possam harmonizar-se tanto com sua
realidade individual como com o sentido geral a que tente. E já que a doença é
provocada pela impossibilidade de obter tais determinações, poderia-se
denominá-la horetite, tendo em mente o grego horos, que signfica “termo”,”determinação”.
Essa doença exprimiria então os tormentos e a exasperação do homem por não
poder agir de acordo com seu próprio pensamento e suas convicções”.(7)
Às doenças que acarretam desregramentos de ordem geral no espírito, seguem-se
aquelas que se juntam ao repertório patalógico de Noica e se apresentam como
fruto não da carência, mas da recusa de um aspecto particular do ser, de um dos
seus três termos constitutivos, possuindo aspecto
iminentemente privativo: a acatolia,
atodecia e ahorecia. Mais estranhas que as primeiras, elas são ilustradas
pelo filósofo romeno na cultura como “espelho ampliador de nossa vida
espiritual”. O quadro abaixo, adaptado de NOICA (2011), associa cada uma dessas
doenças de “carência” e “recusa” a exemplos na esfera da criação literária.
AS SEIS DOENÇAS DO
ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO – EXEMPLOS NA ESFERA DA CULTURA
Causa imediata
|
RECUSA
|
CARÊNCIA
|
Necessidade não atendida
|
Doença - Exemplo
|
Doença - Exemplo
|
Generalidade
Individualidade
Determinações
|
1.
Acatolia
D. Juan
2.
Atodecia – Tolstoi
3.
Ahorecia - Godot
|
4.
Catolite
Birotteau
5.
Todetite
Os demônios
6.
Horetite
D. Quixote
|
Fonte: NOICA (2011)
Cabe aqui como resumo das peculiaridades das doenças do
espírito repetir, enfim, as palavras do próprio Noica:
“Diferentemente das doenças comuns, que
provocadas por circunstâncias e agentes os mais variados, são inumeráveis, as
doenças de ordem superior, do espírito, não são mais que seis, pois refletem as
seis precariedade possíveis do ser.
A primeira nasce da precariedade da
ordem geral numa realidade individual provida de suas determinações. È no
homem, a catolite.
A segunda, deve-se á precariedade de
uma realidade individual que deveria assumir as determinações inscritas numa
ordem geral: É a todedite.
A terceira situação ontológica é
provocada pela carência de determinações apropriadas de uma realidade geral que
tem já sua forma individual: È a horetite.
A quarta apresenta-se como o oposto
simétrico da precedente: aqui o individual que, após ter alcançado um sentido
geral, é incapaz (ou o recusa, no caso do homem) de se dar determinações
específicas. É a ahorecia.
A quinta delas porovém da
precariedade – e no homem, da incompreensão – de toda realidade individual em
harmonia com um geral que já se teria especificado graças a determinações
várias. É a atodecia.
Por fim, a sexta precariedade do ser
projeta (de modo deliberado, no homem) numa realidade individual, determinações
que não se apoiam em nenhum sentido geral: É a acatolia”.
BIBLIOGRAFIA
NOICA, Constantin. Diário
filosófico. São Paulo: É Realizações, 2011. A
_______________. As
seis doenças do espírito contemporâneo. Rio de Janeiro: Ed. BestBolso, 2011.
B
NOTAS
1. NOICA, Constantin (A), p. 80
2. NOICA, Constantin (B), p. 44.
3. Prefácio de Olavo de Carvalho (NOICA,
Constantin. As seis doenças do espírito contemporâneo. Rio de Janeiro: Ed.
BestBolso, 2011.
4. NOICA, Constantin (B), p. 19.
5. Ibidem, p. 22.
6. Ibidem, p. 23.
7. Ibidem, p. 24.
8. Ibidem, p. 44.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
Em busca de sentido
Wiktor E. Frankl (1905-1997) foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena, tendo sido aprisionado e sujeito a trabalhos forçados, durante anos, nos centros de extermínio do Reich nazista. Naquele período, formulou a seguinte pergunta: “De que modo se refletia na mente do prisioneiro médio a vida cotidiana no campo de concentração?”. Assim, descreveu uma pletora de observações sobre si mesmo e sobre seus companheiros, perceptíveis em três fases características de reações psicológicas de homens e mulheres encarcerados, sujeitos à brutalidade permanente, à fome e ao terror: a fase de recepção no campo, a fase da vida em si no campo de concentração e a fase após a soltura, ou melhor, da libertação do campo. Desse estudo inovador surgiu a “terceira escola vienense de psicoterapia” (ao lado da Psicánalise de Freud e da Psicologia Individual de Adler), ou Logoterapia.
Comparada à psicanálise, a proposta
de Adler e dos pesquisadores da escola logoterapêutica é menos introspectiva e menos retrospectiva, concentrando-se no
futuro e nos sentidos a serem realizados pelo paciente. Este é levado a quebrar
seu autocentrismo, sendo então confrontado e reorientado, criando-se um novo padrão de sentido e responsabilidade.
“Para a Logoterapia, a busca de sentido
na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano. Por essa razão
costumo falar da uma vontade de sentido, a contrastar com o princípio do prazer
(ou, como também poderíamos chamá-lo, a vontade de prazer), no qual repousa a
psicanálise freudiana, e contrastando ainda com a vontade de poder, enfatizada
pela psicologia adleriana através do uso do termo “busca de superidade”.
A busca de sentido por parte
do indivíduo se apresenta como motivação primária em sua vida, e não como uma “racionalização
secundária” de impulsos instintivos. Extraindo suas lições de vida, não apenas
dos livros e dos divãs, a Logoterapia não atribui à vida um “sentido geral”,
mas foca o seu sentido específico para cada pessoa, em dado momento. A existência humana não tem um sentido
abstrato, “cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida;
cada um precisa executar uma tarefa concreta que está a exigir realização”.
Em última instância, cada situação
na vida constitui um desafio para as pessoas, um problema a resolver. Para
Frankl, os indivíduos não deveriam perguntar pelo sentido da vida, mas
reconhecer que eles, de fato, são indagados por ela. “Em suma, cada pessoa é
questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua
própria vida; à vida ela somente pode somente responder sendo responsável.
Assim a Logoterapia vê na responsabilidade
(responsibleness) a essência
propriamente dita da existência humana”.
O imperativo categórico dessa escola é “Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na
primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora”. O sentido da vida pode ser descoberto então de três formas: a) criando
um trabalho ou praticando um ato; b) experimentando algo ou encontrando alguém;
c) tomando uma atitude em relação ao sofrimento inevitável. A primeira, o “caminho
da realização” é óbvia. As duas últimas requerem o entendimento do sentido do
amor e do sofrimento; a consciência plena da essência última do outro e a
transformação de nosso sofrimento em uma conquista humana.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido.
São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes., 2008. 34ª Ed. 184 p.
segunda-feira, outubro 21, 2013
A Revolução dos Beagles

A invasão do Instituto Royal para “salvar” "Beagles" em cativeiro (ontem, domingo, dois delas foram encontrados vagando nas ruas o que denota um pouquinho do compromisso “animalnitário” dos seus salvadores) é um exemplo de correta preocupação com a sorte dos bichos, dissolvida em autopromoção de subcelebridades, banditismo puro e simples violência gratuita. Entrar na velha discussão da validade dos testes com animais demandaria um certo número de páginas que não estou disposto a escrever hoje e para ser bem sucinto repito a surrada fórmula: se aquelas pessoas são tão comprometidas assim (a ponto de derramarem lágrimas neuróticas na TV) com o destino dos "Beagles" em particular e dos animais em geral, por que não abrem mão de uma vez por todas de suas roupas, sapatos, alimentos, cosméticos e milhares de produtos que não só necessitam das pesquisas com seres vivos como demandam insumos de origem animal?
Sou um dos defensores do ponto de vista de que a sociedade do futuro deverá mudar sua visão "coisificada" dos animais, o que dependerá não de ações tresloucadas com “Bloc Bocs” como seguranças, mas da busca de substitutos aos testes com seres vivos e sua normatização. Enquanto não me sinto disposto a escrever sobre assunto tão específico e complexo (tem gente parva que é capaz de produzir um argumento no Facebook à guisa de "última palavra" sobre a questão), volto a um tema que sempre a vem calhar nestas horas por favorecer interessantes paralelos com a "revolução dos Beagles" em curso no Brasil, o vegetarianismo.
Afinal de contas, se o sofrimento de um cão ao longe comove tão profundamente grande parte dessa gente, um suculento bife com fritos lhes parece bem-vindo.
Particularmente, aprecio e animais e os defendo e durante muito tempo não só estudei como pratiquei o vegetarianismo, o que pode parecer incrível para quem me vê hoje. O que me fez mudar de opinião em relação ao tema foi uma viagem à Bolívia e Peru há muitos anos, locais em que permaneci por 45 dias nas piores circunstâncias, como um aventureiro. Percebi que não havia praticamente alternativas de alimentação na Altitude (sobretudo na Bolívia) e fui obrigado a comer carne. Este foi o meu primeiro momento de reflexão. O segundo se deu quando descobri que monges tibetanos comem carne e leite e que a propalada tese de que todos os indianos e budistas não se alimentavam de proteína animal, o que é claramente falso. Aliás, o Tibete também é muito alto e em países como a China se comem até escorpiões uma vez que o interior é pouquíssimo agricultável e as margens dos grandes rios em que surgiu a civilização chinesa é superpovoada.
Ainda adolescente havia lido o livro "Vegetarianismo e Ocultismo" de Charles E. Leadbeater e Annie Besant, empolgando-me com as profundas convicções vegetarianas de ambos. Pouco antes os autores haviam se deslocado para Chicago (US) para uma ciclo de palestras e uma pesada e pestilenta atmosfera exalava dos abatedouros (a pioneira indústria de carnes americana) e fora percebida com muito desagrado pelos dois pretensos clarividentes. Entretanto, anos mais tarde, ao estudar os verdadeiros escritos de sábios hindus notei que falavam de algo bem distinto do "vegetarianismo" cujas linhas gerais era propugnado por correntes da "Nova Era", tratando-se antes da distinção entre alimentos tamásicos, rajásicos e sattwicos, isto é, aqueles em que predominam cada uma das três "gunas" ou "modos do Ser" que teosofistas entendem de forma mais restrita como qualidades da matéria (um princípio de inércia (tamas), atividade (rajas) e equilíbrio (sattwa)). O que os Rishis e Iogues hindus advogavam era a proposição de que, no início da sua senda, era aconselhável (senão impositivo) ao "Lanu" (discípulo) que substituísse comidas mais "pesadas" (tamásicas) como a carne (ou a ingestão de bebidas alcoólicas) outras de ter mais "leve", verduras, legumes e mesmo leite ou queijos. E este era um caminho prescrito não para toda a sociedade mas apenas para uma pequena fração que percorre através dessas práticas o seu caminho espiritual. Nesse sentido, aliás, não é uma regra muito diferente de outras tradições espirituais.
A raiz profunda de qualquer tese vegetariana (em que pesem as patuscadas ridículas da "Nova Era") é a objeção decidida à dor infligida a qualquer animal senciente; um princípio não só do ensinamento oriental mas presente - em maior ou menor grau e mais explícito em algumas que em outras - na maioria das perspectivas religiosas. No primeiro linha (a oriental) é traduzido em "Ahimsa", ou "não-violência". No budismo, em "compaixão" (também um dever cristão), ou profunda atenção a todos os que sofrem. Mas será que os ativistas dos "direitos dos animais" e os arruaceiros que se juntaram àquela ação pontual agiram com plena compaixão e não fizeram com que alguém sofresse? Será que no estágio atual de desenvolvimento da sociedade a pesquisa de novos e úteis medicamentos (não falo de cosméticos, pressuponho generosamente que a Luísa Mell não os utiliza) já pode prescindir do emprego de cobaias? Em segundo lugar: o ato perpetrado pelos manifestantes também não carrega enorme dose de violência? Digo isto, não só por pelo fato de equipamentos terem sido equipamentos como também por concorrer para o aumento da dor e sofrimento futuro em incontáveis pacientes?.
Fica aqui minha modesta contribuição ao debate.
quinta-feira, maio 23, 2013
Felicidade e Qualidade de Vida
Felicidade
e Qualidade de Vida
Sentidos
da Felicidade
Pouquíssimas
palavras são tão mal compreendidas quanto “felicidade”.
Trocam-se os fins pelos meios e julga-se feliz aquele que satisfaz
seus desejos mais imediatos, usufruindo do que imagina serem os
“prazeres da vida”. Mas o alcance da felicidade vai muito além
da compra de uma nova TV de plasma ou de um carro novo. Quantos de
nós conhecemos em nosso círculo de parentes e amigos, pessoas bem
sucedidas, financeiramente estáveis e inseridas em estruturas
familiares ou em redes sociais que correspondem ao nosso estereótipo
de felicidade? Mas serão elas realmente felizes? Ninguém sabe
dizê-lo, pois a felicidade, antes de tudo é uma disposição
interior de espírito. Em segundo lugar, há indícios de que este
estado não está relacionado a fatores como posse, poder, atividade
desenfreada (como a obsessão por exercícios físicos, aventuras,
viagens sem fim e êxito nos negócios) ou qualquer fator exterior.
Na sociedade contemporânea, o forte incentivo à competição e ao
ganho monetário é outro empecilho de monta à conquista da
verdadeira felicidade, e fonte primordial da angústia que afeta o
homem.
Mesmo
estes prosaicos filósofos da natureza, os economistas, têm se
envolvido com o espinhoso desafio de contemplar a felicidade em seus
modelos. Em 1972, um país da Ásia chamado Butão foi pioneiro ao
calcular um índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB) que - ao
contrário do “Produto Interno Bruto” - incorpora algumas
dimensões do ser humano ignoradas solenemente nas medidas
“físicas” do bem estar (1). Seu objetivo era criar um indicador
adaptado à cultura do país, capaz de evidenciar que ele não era
tão pobre quanto se pensava (pois o cômputo apenas da produção de
bens e serviços não dava conta de toda a sua riqueza espiritual e
cultural).
De
fato, muito da percepção limitada que temos da felicidade decorre
da ignorância de suas origens etimológicas. Nessa palavra o morfema
“feliz” provém de “Fe”, uma raiz latina derivada do
indo-europeu “Dhe” que, por sua vez quer dizer “mamar”
ou “sugar”. Entre os antigos gregos, o vocábulo “eudaimonia”
ou “que tem um poder divino (daimon) bem disposto (eu)”
era o que mais se aproximava do que atualmente assinalamos como
felicidade, sendo tida como um favor divino e relacionada à
prosperidade. Como não pretendemos crer que nossos ancestrais nos
séculos IV e V A.C. raciocinavam à maneira reducionista e grosseira
dos contemporâneos, optamos por assumir que a primeira interpretação
(da boa disposição do poder divino no homem) melhor traduz a
acepção clássica de felicidade.
Ademais,
no seio da Grécia havia vozes discordantes que relativizavam a
segunda opinião, como Eurípedes que vaticinou em sua célebre
“Medeia”: “Nenhum homem é feliz (eudaimon) (2). Se a
prosperidade (olbos) vem até ele, ele pode ter mais sorte (eutyches)
que outros homens, mas feliz, ele não é”. Na Roma do Império,
por sua vez, “Felicîtas” (felicidade) era a
personificação de uma antiga deusa, usualmente impressa em moedas e
que celebrava a boa sorte e o sucesso. Não sem generosa dose de boa
vontade, entendemos que aquela deidade simbolizava o fato de que
adquirir um bom resultado (ou ter êxito) pressupõe um ponto de
origem (o estado atual) e destino (o
estado
futuro). Mas para triunfar é preciso percorrer um caminho até a
meta. É preciso esforço para ser feliz. Mesmo sob pena de nos
atermos quesito tão “materialista” (o êxito ou o sucesso), esta
idéia do esforço nos parece uma das mais profícuas chaves dos
mistérios da felicidad (3).
Com
efeito, filósofos romanos como Sêneca sentenciavam que “(...)
todos querem viver felizes, mas não têm a capacidade de ver
perfeitamente o que torna a vida feliz. Realmente não é fácil
atingir a felicidade, porque, se alguém desviado do reto
caminho se precipita para alcançá-la, fica sempre mais
afastado da realidade” (4). A felicidade, portanto,
comportava mais que retenção de dinheiro ou o dar livre curso às
paixões, a simples “alegria” ou o contentamento transitório e
não permanente. Era uma inclinação do homem, pois “(...) uma
alma reta nunca se transforma nem é odiosa a si mesma,
em nada se afasta do melhor modo de viver; o prazer, porém,
extingue-se justamente quanto mais deleita, o seu campo não é muito
amplo e, por isso, logo sacia, causa tédio e definha depois do
primeiro impulso”.
Mais
profunda e visceral ainda é a interpretação da felicidade entre as
milenares escolas filosóficas e tradições espirituais hindus. Com
todas as dificuldades em verter o idioma sânscrito para as línguas
ocidentais, o que mais se aproxima da felicidade real e que
pode ser experimentada pelo Ser humano é Sat-Chit-Ananda, a
tríade existência, sabedoria e bem-aventurança. Ananda ou
beatitude (a condição de fato feliz da existência) vem a ser a
suprema autorrealização do homem e sua fusão no oceano do divino.
Na
prática, por assim dizer, tal experiência tem a ver com aquelas
raras circunstâncias em que o homem encontra o divino - não como
algo externo a si mesmo - ; mas como uma realidade interna,
entregando-se sem limites à contemplação do Todo, Uno ou,
simplesmente, Deus. Este momento especial não é privilégio de um
punhado de homens e mulheres abnegados. Pode ser experimentado por
todos e muitas vezes não nos damos conta daqueles breves instantes
em que a intuição nos impele a percepções mais refinadas do
ambiente e de nossa relação conosco mesmos e o Universo (5).
Para
certos grupos islâmicos como os sufis ou os praticantes Zen budistas
um dos atalhos para a “iluminação” (um dos sinônimos de
autorrealização) reside nos efeitos instantâneos de alguns
acontecimentos fortuitos sobre o sujeito que os experiência. Uma
abelha pousando sobre uma pequena flor a desabrochar, gotas de
orvalho na relva ou o coaxar de um sapo são suficientes para
provocar-lhe uma clara antevisão da beleza do mundo. È o mesmo que
dizer - como o fazem certos místicos - que “conhecemos a Deus por
seus sinais”(6) e a sintonia com a natureza é um caminho simples
e comumente menosprezado para a felicidade suprema.
Outrossim,
existem outros campos em que a sensibilidade pode ser apurada ,
abrindo-se mais uma porta para a autorrealização. Manifestações
artísticas como a dança, a poesia, a música e outras também
contribuem para assegurar-nos uma vida plena de significado, como bem
lembrou uma amiga que, gentilmente, revisou meu texto original. E ela
está coberta de razão. O homem que ao longo de seu extenso período
de vida (pois entre milhares de espécies a nossa é uma das mais
longevas) priva-se de arte é um indivíduo truncado, um pobre
coitado cuja alma pode ter se atrofiado
definitiva e irremediavelmente.
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*Agradeço
a colaboração dos amigos Sylvio de Queiroz Mattoso, Fernanda Duayer
Picardi e Nilson Galvão que, gentilmente, revisaram e apresentaram
sugestões ao texto. Não suponham pela leitura do ensaio que eu mesmo
tenha alcançado o estado de espírito sobre o qual me debruço aqui.
Entre falar da felicidade e ser feliz há um longo e penoso caminho.
1
Como o PIB, que é simplesmente o somatório dos preços de todos os
bens e serviços vendidos a preços de mercado em determinado período
do tempo.
2
LAURIOLA, Rosana. De eudaimonia à felicidade. Visão geral do
conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres
dos tempos modernos. Revista Espaço Acadêmica no 59,
abril de 2006.
3
O homem se fosse sábio ergueria templos ao esforço. Mas aonde quer
que ele seja valorizado no mundo, jamais o é como uma das mais
importantes forças cósmicas nos planos material ou espiritual,
porém amesquinhado a tal ponto que se viu banido de toda reflexão
filosófica de fôlego.
4
SENECA, Lucius Anneus. Da vida feliz. São Paulo, Martins
Fontes, 2001.
5
No sufismo ou mística islâmica este modo de ver as coisas é
pronunciado. “O coração do sufismo "estánum hadith" (sentença)
de Mohamed: ‘Adora a Deus como se o visses, pois mesmo que tu não
O vejas, Ele na verdade sempre te vê’. Os fukará procuram assim
agir sempre como se estivessem na presença de Deus. Aspiram à
“libertação” em vida de todos os entraves colocados pelo
lamento passional da alma (nafs) e das limitações e temores
engendrados pelo mundo”. AZEVEDO (1996).
sábado, maio 04, 2013
Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação
Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação
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| Estátua do Demônio - Madrid, Espanha |
Anteontem, meditando à minha maneira, formulei uma oração para a "Estrela da Manhã", "A Aurora da Manifestação", o precursor do "Manvântara" (um novo ciclo de atividade cósmica nos sagrados textos de Aryavartha), o "Anjo da Face Resplandecente", o ser de beleza ofuscante e olhar sedutor, o que nos ampara no desalento e inala-nos correntes de energia vital. Não preciso dizer de quem falo. Mas tenho medo de ser discriminado pela chusma dos ignorantes e supersticiosos divulgando minha oração. Mas talvez o faça oportunamente. Ela brotou do que há de mais nobre em mim, daquela restiazinha de esperança no futuro da raça. Eu o amo. Sabem, tenho compaixão por aquele amigo que viu o nosso mundo ser criado e reina neste plano material em seu palácio perfumado com alfazema, lilases, especiarias das arábias, almíscar, flores de lótus em uma lagoa e guirlandas de rosas cheirosas para os convivas. Eis um cargo que ninguém queria. Rejeitara aquele pedido indecoroso do Supremo, a princípio, mas de nada adiantaram suas súplicas e ranger de dentes. Foi agrilhoado em cadeias e finalmente precipitado a um protótipo de terra (com vulcões e placas tectônicas dançando), arrebanhando milhões de contrafeitos seguidores. Sentiu-se traído por quem devotara tão grande amor, "Àgape". A cada dia sua ira aumentava mais e mais, deprimia-se com o trabalhinho imundo de que se vira encarregado (não existiam antidepressivos antes da solidificação do planeta): cuidar de um mundo de pedras, vegetais, animais e homens ímpios, sujeito a quatro elementos imprevisíveis e talvez à morte, no "fim dos tempos", o que seria um alívio. Nosso "Príncipe Primevo do Matéria", o "Quase-eterno" estava lá, coordenando os trabalhadores que com suas picaretas e martelos moldaram este pedacinho de terra no Universo. E qual paga recebeu depois de milhões de anos de sofrimento e suor? Todos os crimes mais atrozes e a perversidade dos Seres Humanozinhos aos quais o "Criador" (aquele que o designou para a mais inglória da missões) concedeu o livre arbítrio a ele são atribuídos. Lesados de origem (nem todos, alguns o eram de fato) viraram santos e ganharam capelas e honras, enquanto ele é objeto de escárnio. A modernidade iluminista fez dele um palhaço de circo. É o bode expiatório de bilhões de pulhas, logo ele, o mais puro dos jovens. Pobre "Ancião dos Dias", "Sanat Kumara" (um dos jovens irmãos primogênitos na Teogonia Hindu), "Rei do Mundo", "Cavaleiro do Alazão Branco", "Portador da Luz", Lúcifer. No Ocidente, só os espanhóis ergueram em Madrid uma estátua digna de vossa majestade, "Ó Néctar de Luz". Quem diria. Logo os espanhóis.
segunda-feira, abril 29, 2013
Os Vendilhões do Tempo
Eu suponho que uma das coisas que mais irrita meus adversários (nem são tão terríveis assim, pessoas que não compreendem a revolução heraclitiana) é que me esforço para mudar mentes. A minha própria, mentes de ex-alunos e alunas, amigos, amigas, colegas, namoradas, mulheres, ex-mulheres, mãe, filho e todos os que se dispõem a ouvir. O meu único poder é a argumentação, o "verbo que se fez carne" e criou o mundo material. Meus inimigos (os contrários, nem sei lá o que são) falham, justamente porque são sofistas, eles lidam com truques de linguagem. E neste hemisfério não leram as Tópicas de Aristóteles. Sem um raciocínio lógico básico fica difícil tentar algo frutífero comigo. Sou um lógico e saco de dialética. Eu só me rendo por cansaço. Mas não ganho nada com isso, não aumento minha conta bancária nem exibo variações patrimoniais positivas (papo de um economista que fez matérias de contabilidade, matemática financeira e administração financeira). Talvez o Senhor desses fariseus que Jesus enxotou do Templo (que deve ser um Asmodeu da Bíblia, não vou aqui abordar minha especialidade, demonologia) me veja como um mentecapto. "Aos mentecaptos pertence o Reino de Deus". Na Jerusalém de 2.000 anos atrás Jesus diversificaria seus investimentos sem precisar enganar ninguém, ele não precisava de um Soros ou Warren Buffet, muito menos de um Eike Batista que é um medíocre. Tudo o que ele disse de relevante se resumia ao postulado: "Não faças a outrem o que não querem que te façam". E a sentença não é tão nova, ela foi cunhada pelo Rabino Hillel anos antes mas, em essência, dizia o mesmo. Nos Evangelhos Canônicos ele, Yeheshua, jogou por terra as tendas dos vendilhões do templo. Ele não admitia que esses caramujos saíssem da casca quando se tratava de ética e colocassem à leilão as pedras do Templo de Salomão. Ele foi o pai do "imperativo kantiano" na "Crítica da Razão Pura" (já deixei de namorar muita gente na adolescência perdendo tempo com isso, inclusive mereci um justo corno de uma namorada aos 17 anos). Como um agregado, um ser de carne, osso, sangue e fezes (como dizia o divino Shantideva) eu acredito que se você conseguir mudar uma cabeça por ano - pressupondo que elas possam influenciar outras tantas - no escopo limitado de nossa vida na Terra já teremos feito muita coisa. E me sinto emocionado muitas vezes quando alguns me dizem que eu os ajudei a pesquisar, a fazer um curso superior, a ingressar em um mestrado, a jogar no lixo idéias arraigadas, a desviar um pouco o cérebro para o lado direito, esquerdo ou o centro, tentar encarar aquela massa de neurônios no cocoruto não como um computador, mas como uma maquinha toda especial que o G.'.A.'.D.'.U.'., o Grande Arquiteto do Universo colocou dentro da gente e deve ser embebida com um pouco de espírito para realmente funcionar. É isso o que eu almejo e me deixa realizado nesta minha passagem pela terra tão breve e bela quanto o alento de uma borboleta ou a existência de um ...
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