Gurdjieff

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domingo, novembro 22, 2015

Monsieu Gurdjieff - Julius Evola

Monsieur Gurdjieff

Traduzido por CB , 22/11/2015 *

por Julius Evola (publicado pela primeira vez em Roma, 16 de abril de 1972; primeira publicação desta tradução francesa por Gérard Boulanger: A idade do ouro, primavera de 1987)



É raro que apareçam em nossa época – onde eles correm o risco de ser confundidos com certos mistificadores – personagens que nos façam tocar com o dedo, de maneira inquietante, isto a que foi reduzida, metafisicamente falando, a existência da grande maioria das pessoas.
A essa categoria pertence, sem qualquer sombra de dúvida, o “misterioso Senhor Gurdjieff”, a saber, George Ivanovitch Gurdjieff. A recordação de sua presença e da influência que exerceu é ainda viva, mesmo tendo morrido há muitos anos, como o testemunham as obras que lhe foram consagradas e mesmo os romances onde figura sob um outro nome. Louis Pauwels, o autor da Manhã dos Mágicos, pôde escrever um volume de mais de quinhentas páginas, objeto de duas edições sucessivas, no qual recolheu um grande número de documentos – artigos, cartas, lembranças, testemunhos – concernentes a ele. De fato, a influência de Gurdjieff se estendeu aos meios mais diversos: o filósofo Ouspensky (que a partir de sua doutrina, escreveu uma obra intitulada Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, assim como uma outra,  A Evolução Possível do Homem, da qual uma tradução italiana foi anunciada), os romancistas A. Huxley e A. Koestler, o arquiteto “funcionalista” Frank Lloyd Wright, J.B. Bennet, discípulo de Einstein, o doutor Wakey, um dos maiores cirurgiões nova-iorquinos, Georgette Leblanc, J. Sharp, fundador da revista The New Statement: todos tiveram com Gurdjieff contatos que deixaram traços.
Nosso personagem apareceu pela primeira vez em São Petersburgo, pouco antes da Revolução de outubro. Não sabemos grande coisa do que fez antes: ele mesmo se limitou a dizer que tinha viajado ao Oriente em busca de comunidades que depositavam os restos de um saber transcendente. Mas ao que parece, havia sido igualmente o principal agente tzarista no Tibete, que deixou para se abrigar no Cáucaso onde foi, quando criança, condiscípulo de Stalin. Na França, e em seguida em Paris, na Inglaterra e nos Estados Unidos, consagrou-se à organização de círculos que seguiam seus ensinamentos, círculos intitulados “grupos de trabalho”. Um editor francês que se retirou dos negócios lhe ofereceu em 1922 a possibilidade de fazer do chatêau d'Avon, próximo à Fontainebleau, sua “central” onde, em um primeiro momento, ele criou qualquer coisa como um exílio ou eremitério. Entre os boatos que circulam a respeito, alguns concernem ao domínio político. Gurdijieff havia tido contatos com Karl Haushofer, o fundador bem conhecido da “geopolítica”, que ocupou o primeiro plano no III Reich e, pretende-se mesmo que essas relações tenham presidido a escolha da cruz gamada como emblema do nacional-socialismo, cuja rotação se efetua, não em direção à direita, símbolo da sabedoria, mas à esquerda, símbolo do poder (como foi efetivamente o caso).
Que mensagem anunciou Gurdjieff? Uma mensagem ao menos desconcertante. Poucos homens “existem”, poucos têm uma alma “imortal”. Alguns dentre eles possuem o germe dela, que pode ser desenvolvido. Em regra geral, nós não possuímos um “Eu” de nascença: é necessário adquiri-lo. Aqueles que não o alcançam se dissolvem com sua morte. “Uma ínfima parte dentre eles chega a ter uma alma. ”
O homem na rua não é mais que uma simples máquina. Ele vive em estado de sono, como se hipnotizado. Ele crê agir, pensar, mas é “movido”. São os impulsos, os reflexos, as influências de toda ordem que atuam sobre ele. E não tem um “ser”. As maneiras de Gurdjieff não tinham nada de delicadas. “Você não pode compreender, você idiota completo, sua 'merdidade' ”, dizia ele em seu mau francês àqueles que dele se aproximavam. De Katharine Mansfield, morta durante sua estadia no eremitério d'Avon em busca da “via”, Gurdjieff declarou: “Eu não conheço”, querendo explicar por isto que a morte nada era, que ela não existia.

 A via ordinária é a a de um indivíduo continuamente aspirado, ou “sugado”, ensinava Gurdjieff. “Eu não sou aspirado pelos meus pensamentos, pelas lembranças, meus desejos, minhas sensações. Pelo bife que eu como, pelo cigarro que eu fumo, o amor que eu faço, os bons tempos, a chuva, a árvore, este veículo que passa, este livro. “Trata-se de reagir. De “despertar”. Então nascerá um “Eu” que, até então, não existia. Então ele aprenderá a ser, a ser dentro de tudo que ele faz e daquilo que se ressente, em lugar de representar mais que a sombra de si mesmo. Gurdjieff chamava “pensamento real”, “sensação real”, etc., isto que se manifesta de acordo com certa dimensão existencial absolutamente nova que a maioria das pessoas não podem nem mesmo imaginar. E ele distinguiu igualmente em alguns a “essência” da “pessoa”. A essência constitui a qualidade autêntica, a pessoa, o “indivíduo social”, construída de todas as peças, e exterior; estes dois elementos não são coincidentes, encontramos aqueles nos quais a “pessoa” é desenvolvida enquanto sua “essência” é nula ou atrofiada – e vice-versa. No nosso mundo, o primeiro caso prevalece; aquele de homens e mulheres cuja “pessoa” é exacerbada ao ponto de ser desmesurada, mas a essência está em um estado infantil – quando não é totalmente ausente.
Não é lugar aqui para evocar os procedimentos indicados por Gurdjieff para “despertar”, para se ancorar na essência. O que quer que seja, o ponto de partida seria o reconhecimento prático, experimental, de sua própria “inexistência”, este estado quase sonambúlico que faz com que sejamos “sugados” pelas coisas, por nossos pensamentos e nossas emoções. É igualmente a isto que serve o “método da desordem”: revolver a máquina que somos para tomar consciência do vazio que ela esconde. Não é preciso se surpreender se alguns dos que seguiram Gurdjieff nesta via foram levados a crises extremamente graves, perturbando seu equilíbrio mental ao ponto de fugirem ou de se afastarem com terror de experiências semelhantes nas quais tiveram experiências algo aproximadas com a impressão de viver a morte. Quanto àqueles que resistiram à prova e persistiram no “trabalho sobre si” junto a Gurdjieff, estes falam de um incomparável sentimento de segurança e de um novo sentido dando à sua sua existência.
Parecia que Gurdjieff exercia sobre quem quer que dele se aproximasse, de maneira quase automática e sem que o desejasse, uma influência que podia exercer efeitos positivos ou deletérios, segundo o caso. É fora de dúvida que possuía algumas faculdades supranormais. Ouspensky conta que recorrendo a uma ciência aprendida no Oriente, da qual no Ocidente não conhecemos “sequer uma parte insignificante sob o nome de hipnotismo”, Gurdjieff podia, graças a certas experiências, separar a “essência” da “pessoa” em um indivíduo dado – fazendo aparecer eventualmente a criança ou o idiota que se escondia por trás de qualquer indivíduo evoluído ou cultivado ou, inversamente, uma “essência” muito diferenciada a despeito da existência de manifestações exteriores.
Entre os testemunhos recolhidos por Pawels, há um particularmente picante relativo ao poder, atribuído igualmente no Oriente a certos iogues (e evocado por um autor digno de fé como Sir John Woodroffe), de “lembrar a fêmea à fêmea”. Aquele que conta a anedota se encontrava em Nova Iorque, em um restaurante, em companhia de uma jovem escritora muito segura dela mesma à qual mostrou o “famoso Gurdjieff, sentado em uma mesa vizinha. A jovem o mirou com um olhar de superioridade fixo, mas pouco tempo depois, ela se tornou pálida e parecia estar ao ponto de desfalecer. Isto deixou surpreso seu companheiro, que não conhecia essa grande mestra dela mesma. Mais tarde, ela lhe confessou isto: “É ignóbil! Eu olhei este homem e ele me surpreendeu. Ele apenas me observou friamente e, naquele momento, senti-me intimamente com uma tal precisão que experimentei o orgasmo! ”.
Gurdjieff se contentava com poucas horas de sono. Chamavam-no “aquele que não dorme”. Ele alternava um modo de vida quase espartano com banquetes de uma opulência russo-oriental desaparecida há muito tempo. Em 1934, foi vítima de um acidente automobilístico muito grave: ficou três dias em coma mas retomou a consciência e parecia ter rejuvenescido, como se o choque físico, no lugar de lesar seu organismo, o tivesse galvanizado. Numerosas coisas deste gênero correm por sua conta, nós mesmos as ouvimos diretamente, pela voz de um de seus próximos que dirigiu no México “grupos de trabalho” evocadas bem alto. Que seja bem entendido, um processo de mitificação é inevitável em casos desse gênero, e não é fácil separar a realidade do imaginário. Gurdjieff não deixou quase nada escrito e o que publicou é de qualidade suficientemente medíocre, mas é extremamente frequente que aquele que é “alguém” não tenha nem as qualidades nem a preparação para ser escritor: ele dá um ensinamento direto e exerce sua influência. Como já dissemos, à parte a coleção de testemunhos publicados por Pawels sob o título Senhor Gurdjieff, coube a Ouspensky escrever seus ensinamentos.
Gurdjieff morreu com a idade de oitenta e dois anos, em plena posse de seus meios e dizendo ironicamente aos discípulos que o assistiam: “Eu os deixo numa bela enrascada! ”
Ainda hoje, ele não cessa de ser citado e, como já dissemos, aqui e na Inglaterra, na França, na Africa do Sul, os restos dos grupos que foram constituídos sob sua influência subsistem.

www.gurdjieff.org para conhecer um pouco mais sobre G. Gurdjieff.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Cap.1.REVOLUÇÃO CONTRARREVOLUÇÃO TRADIÇÃO (Parte II-Final)


Continuação (Cap.1. "Os Homens entre Ruínas. Julius Evola)


A fim de assegurar esta continuidade enquanto se aferra rapidamente aos princípios subjacentes, é necessário eventualmente jogar fora tudo o que necessite ser descartado, ao invés de enrijecer-se, entrar em pânico ou confusamente procurar novas ideias quando a crise ocorre e os tempos mudam: isso é de fato é essência do espírito conservador. Por esta razão, o espírito conservador e o tradicional são a mesma e única coisa. De acordo com o seu verdadeiro e vital sentido, a Tradição não é nem conformidade servil ao que foi, nem uma lenta perpetuação do passado no presente. A tradição, em sua essência, é algo simultaneamente meta-histórico e dinâmico, é uma força ordenadora global, a serviço de princípios consagrados por uma legitimidade superior (podemos chamá-los mesmo de “princípios de cima”). Esta força age através das gerações, em continuidade com o espírito e inspiração através das instituições, lei e ordens sociais que podem até mesmo exibir uma marcante variedade e diversidade. Um engano análogo que já condenei consiste na identificação ou confusão de várias formulações de um passado mais ou menos com a tradição em si. 
Metodologicamente, na busca por pontos de referência, uma dada forma histórica deve ser considerada exclusivamente como a exemplificação e uma aplicação mais ou menos fiel de certos princípios. Este é um procedimento perfeitamente legítimo, comparável ao que nas matemáticas denominamos a transformação de a diferencial em uma integral. Neste caso não há anacronismo ou regressão; nada se tornou um ídolo, ou  se converteu em absoluto, aquilo não era ainda isso, desde que esta é a natureza dos princípios.

De outro modo, seria como acusar de anacronismo aqueles que defendem certas virtudes peculiares da alma meramente porque as últimas foram inspiradas por certas pessoas no passado, nas quais estas virtudes eram exibidas em elevado grau. Como o próprio Hegel disse: “Trata-se de reconhecer no surgimento das coisas temporais e transitórias, tanto a substância, que é imanente, quanto o eterno, que é atual”.

Com isto em mente, podemos ver as premissas derradeiras de duas atitudes opostas. O axioma do conservador revolucionário ou mentalidade do reacionário revolucionário é o de que os valores supremos e princípios fundacionais de qualquer instituição normal e segura não são passíveis de mudanças e para que se tenha algo que se adéque a estes valores, por exemplo, o verdadeiro Estado, o imperium, a auctoritas (autoridade), hierarquia, justiça, classes funcionais e a primazia do elemento político sobre os elementos social e econômico. No domínio destes valores não há “história’ e pensar sobre eles em termos históricos é absurdo. Tais valores e princípios têm tido caráter essencialmente normativo. Na ordem pública e política eles têm a mesma dignidade como na vida privada, e é típico de valores e princípios de absoluta moralidade, pois são princípios imperativos requerendo um reconhecimento direto, intrínseco (é a capacidade de tal reconhecimento que difere existencialmente uma certa categoria de seres de outras. Estes princípios não são comprometidos pelo fato de que em várias instâncias um individuo, a exceção da fraqueza ou devido a outras razões, foi incapaz de compreendê-los ou mesmo implementá-los parcialmente em um ponto em sua vida e não em outro, à medida que tal indivíduo não os abandona no seu interior, ele as compreenderá mesmo em uma situação abjeta ou de desespero. As ideias às quais me refiro têm a mesma natureza. Vico as chamou “as leis naturais de uma república eterna que varia no tempo e em lugares diferentes”. Mesmo onde esses princípios são objetivados em uma realidade histórica; eles não são totalmente condicionados por ele; mas sempre apontam para um plano metafísico mais elevado.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

JULIUS EVOLA - HOMENS ENTRE RUÍNAS - Reflexões do Pós-guerra de um Tradicionalista Radical


HOMENS ENTRE RUÍNAS - Reflexões do Pós-guerra de um Tradicionalista Radical
Julius Evola
Tradução: CB

Cap. 1. REVOLUÇÃO - CONTRAREVOLUÇÃO - TRADIÇÃO (Parte I)


Recentemente, várias forças têm tentado estabelecer uma defesa e resistência no domínio sociopolítico contra formas extremas sob as quais a desordem de nossa época se manifesta. É necessário admitir que se tratam de esforços inúteis, mesmo a título de propósitos meramente demonstrativos, a menos que as diversas raízes da doença sejam atacadas. Estas raízes, à medida que a dimensão histórica é concebida, devem ser reconhecidas na subversão introduzida na Europa em 1789 e 1848. A doença deve ser reconhecida em todas as suas formas e graus, assim, a principal tarefa será estabelecer se há ainda há homens dispostos a rejeitar todas as ideologias, movimentos políticos e partidos que, direta ou indiretamente, derivam dessas ideias revolucionárias (isto é, tudo o que vai do liberalismo e a democracia ao marxismo e comunismo). Como uma contrapartida positiva, a estes homens deveria ser dada orientação e fundamentos sólidos, consistindo de uma ampla visão da vida e uma doutrina robusta do Estado.

Estritamente falando, a palavra correta deveria ser “contrarrevolução”, contudo, as origens revolucionárias são agora remotas e quase esquecidas. A subversão há muito tomou raízes, a ponto de se tornar óbvio e natural na maioria das instituições existentes. Assim, para todos os propósitos práticos, a fórmula da “contrarrevolução” faria sentido somente se as pessoas fossem aptas a ver claramente os últimos estágios que a subversão mundial está tentando encobrir através do comunismo revolucionário. Por outro lado, outra palavra de ordem seria melhor, “reação”. Adotá-la e chamar alguém de “reacionário” é um teste de coragem. Há bastante tempo já, os movimentos de esquerda fizeram do termo “reação” sinônimo de todos os tipos de iniquidade e vergonha e uma oportunidade para estigmatizar todos aqueles que não fossem úteis à sua causa, ou não vão junto à corrente (que se segundo eles é o “fluxo da história”). Enquanto é muito natural para a Esquerda empregar esta tática, acho antinatural o senso de angústia a que o termo frequentemente induz as pessoas, o que devo à sua falta de coragem política, intelectual e mesmo física; esta falta de coragem que atinge até mesmo os representantes da assim chamada Direita ou “nacional-conservadores” que, tão logo sejam “reacionários”, desculpam-se e tentam mostrar que não merecem este título.
O que se espera que a Esquerda faça? Enquanto os ativistas da esquerda estão “agindo” e levando a cabo o processo da subversão mundial, é possível supor que um conservador se refreie de reagir e olhe, festeje-os e mesmo os ajude ao longo de seu caminho? Falando historicamente é deplorável que a “reação” tenha sido ausente, inadequada ou incompleta, carente de pessoas, meios e doutrinas adequadas, justamente no momento em que a doença estava em seu estado embrionário e suscetível de ser eliminada por cauterização imediata de seus pontos de infecção. Fosse este o caso, as nações europeias teriam sido poupadas de incontáveis calamidades. O que é necessário, antes e mais nada, é um novo 'front' radical, com limites claros entre amigos e inimigos. Se o “jogo” ainda não terminou, o futuro pertence àqueles que partilham de ideias híbridas e fragmentadas predominantes em grupos que nem mesmo pertencem à Esquerda, mas sobretudo aos que têm a coragem de esposar o radicalismo – sobretudo, o radicalismo das “negações absolutas” ou “afirmações majestáticas”, para usar expressões caras a Donoso Cortes. Naturalmente, o termo “reação” possui intrinsecamente uma conotação ligeiramente negativa: aqueles que reagem não têm a iniciativa da ação, apenas reagem de uma forma polêmica ou defensiva; quando confrontados com algo que já havia sido afirmado ou feito. Deste modo, é necessário especificar que a reação não consiste em deter os movimentos do oponente sem ter algo positivo para se lhe opor. Essa percepção errônea poderia ser eliminada associando-se a formula da “reação” com aquela da “revolução conservadora”, uma fórmula na qual um elemento dinâmico é evidente. Neste contexto, “revolução” não mais significa a derrota violenta de uma ordem legitimamente estabelecida, mas antes uma ação que visa eliminar uma nova desordem emergente; restabelecendo um estado de normalidade. Joseph de Maistre observa que o que se precisa é mais que uma “contrarevolução” em um sentido polêmico e estrito, é o “oposto à revolução”, em outras palavras uma ação positiva inspirada pelas origens. É curioso como os termos mudam: antes de tudo, “revolução”, de acordo com seu significado latino original (“revolvere”) referia-se a um momento que levava novamente ao ponto inicial. Portanto, a “força revolucionária” da renovação que deve ser empregada contra a situação existente deve derivar das origens.
Contudo, se alguém quiser abraçar a ideia do “conservadorismo” (isto é, da “revolução conservadora”), é necessário proceder com cautela. Considerando a interpretação imposta pela Esquerda, o termo “conservador” é tão intimidador quando o termo “reacionário”. Obviamente, é necessário em primeiro lugar estabelecer exatamente de maneira tão exata quanto possível o que deve ser “preservado”, hoje há muito pouco que o mereça, especialmente na medida em que as estruturas sociais e instituições políticas são consideradas. No caso da Itália, isto é verdadeiro sem exceção, em menor grau é válido para a Inglaterra e França, e menos ainda para as nações da Europa Central, nas quais os vestígios das tradições superiores continuam a existir mesmo no plano da vida cotidiana. De fato, a fórmula “revolução conservadora” foi escolhida por intelectuais germânicos imediatamente após a I Guerra Mundial, mesmo com as recentes referências históricas. Na medida em que tudo o mais é considerado, temos de levar em conta a realidade da situação que é um alvo fácil para as polêmicas da esquerda, para as quais os conservadores não são campeões de ideias mas defensores de uma classe particular (os capitalistas), os quais se organizam politicamente a fim de ser perpetuar, para seu proveito próprio, o que alegadamente é um regime meramente de privilégios e injustiças sociais. Assim se tornou muito fácil colocar juntos conservadores, “reacionários”, capitalistas e burgueses, criando um alvo falso, para ser usar um termo militar usado nos destacamentos de artilharia. Como se não bastasse, a mesma tática foi empregada no tempo em que era representada pelo liberalismo e pelo constitucionalismo. A eficácia desta tática era devida ao fato de que os conservadores de ontem (não como os contemporâneos, pois os antigos eram de um calibre inegavelmente maior) limitam-se a defender suas posições sócio-políticas e os interesses materiais de uma dada classe ou uma dada casta, em lugar de se dedicarem a uma defesa franca de um direito mais elevado, dignidade e a um legado impessoal de valores, ideias e princípios. Isto de fato é sua fraqueza fundamental e mais deplorável.

Hoje nós afundamos em um nível ainda mais baixo, portanto a “ideia conservadora” a ser defendida não deve apenas ter conexão com a classe que substituiu a aristocracia derrubada e unicamente tem o caráter de uma mera classe econômica (isto é, a “burguesia capitalista”) – mas também deve ser resolutamente oposta a isso. O que necessita ser “preservado” e defendido de uma maneira revolucionária é a visão geral de vida e do Estado que baseada em valores superiores e interesses, transcendendo definitivamente o plano econômico, de modo que tudo possa ser definido em termos de classes econômicas. Com relação a estes valores, o que se refere a orientações concretas, instituições positivas e situações históricas é somente uma conseqüência, não é o elemento primário mas o secundário. Se as coisas foram colocadas desta maneira, recusando-se a colocar os pés no campo onde a esquerda treina sua mira em um “alvo falso”, esta polêmica poderia se tornar totalmente inefetiva.

Outrossim, o que é preciso não é artificial e coercitivamente perpetuar formas particulares atadas ao passado que tenham exaurido suas possibilidades vitais estando distantes do tempo atual. Para o conservador revolucionário autêntico, o que realmente conta não é ser fiel às formas do passado e instituições, mas sobretudo aos princípios pelos quais estas fórmulas e instituições foram expressões foram particulares adequadas para cada período específico de tempo em uma área geográfica específica. E assim como estas expressões particulares devem ser vistas como variáveis e efêmeras em si mesmas; uma vez que são conectadas a circunstâncias históricas que não se repetem com freqüência, os princípios que os animam têm um valor que não é afetado por tais contingências, pois gozam de atualidade perene. Novas formas, correspondendo na essência a estas mais velhas, são capazes de emergir delas como de uma semente, assim, mesmo que eventualmente substituam estas velhas formas (em uma “maneira revolucionária”) o que permanece é uma certa continuidade entre os fatores históricos, sociais, econômicos e culturais cambiantes.

Julius Evola - Homens entre Ruínas



Julius Evola


Filho de um representante da pequena nobreza rural, o poeta, escritor, filósofo, pintor e tradicionalista italiano, Barão Julius Cesare Andrea Evola (Roma, 19 de maio de 1989 - 11 de junho de 1947) ofertou ao mundo uma obra vasta como o oceano, produto de uma mente clareada pelo estudo dos maiores clássicos do Oriente e do Ocidente, balizado por sólido anteparo histórico e um compromisso inequívoco com a verdade e a beleza da vida. Ao longo de sua trajetória neste mundo foi visto com maus olhos pela "direita" italiana (fascistas, apoiadores de ocasião e falastrões de meia tigela que farfalham nestes meios), pelos teóricos nazistas (cuja teoria da "superioridade racial ariana" refutou, substituindo-a pela "tradição") e, naturalmente, converteu-se em alvo dos esquadrões de vigilantes ideológicos comunistas e socialistas por cujas vistas sequer passou uma página de sua opulenta produção.

Apresento-lhes na postagem seguinte um curto trecho de "Homens entre as Ruínas", obra de maturidade do grande intelectual italiano que me encontro traduzindo e, com a graça do Senhor, espero disponibilizar gratuitamente aos leitores em breve, como já o fiz com relação a outros autores. Ela acomoda com bastante cuidado termos que são "ideologizados" e que perderam seu significado prístino após uma longa série de adulterações das matilhas que desde o Iluminismo, as Trevas travestidas de verdadeira Luz Divina; abalroam conceitos e lhes enxertam sentidos os mais espúrios que se possa imaginar, a exemplo da própria palavra "revolução" que aos ouvidos da contemporaneidade soa qual tal os macabros e satânicos objetivos de um desprezível Robespierre lhe emprestara.



quinta-feira, agosto 03, 2006

Dharma e Sharia

Sobre a questão do "Dharma, Murilo Nunes de Azevedo foi feliz em destacar sua funcionalidade e relação próxima com a ordem cósmica (Rta) na religião védica (em "O pensamento do extremo oriente. Pensamento.São Paulo, 1993"). Leia-se o seguinte excerto:
“O hindúísmo, baseado nos vedas, é a mais antiga religião do mundo que ainda se mantém viva. É como um vasto oceano que contém profundidades tão insodáveis que nem um gigante pode alcançar e poças onde as crianças podem brincar. Quanto mais a estudamos, mais nos sentimos iluminados pela beleza de seus conceitos. Sua idéia básica é a da Lei. Essa lei, que nos Vedas é apresentada como Rta, viria adquirir posteriormente a características de Dharma. Como afirma um texto védico: “O dharma é aquilo que mantém unidos as pessoas e o Universo”. Aplica-se desde o cosmo até a nossa vida diária – uma vida que poderá tornar-se feliz, tranqüila e benéfica para todas as criaturas. As relações humanas, que hoje tanto são estudadas, podem ser perfeitas quando baseadas na Lei Suprema do Dharma. O verdadeiro ariano é aquele que vive a vida de acordo com a Lei".
Com relação à especificidade do islamismo - e sua diferença do cristianismo, ao qual se revela superior dada a existência de regras a serem observadas, em "Introdução ao Islã" se lê
“A Sharia, ou Lei, é a dimensão exterior. Outra idéia-chave do Islã é a totalidade das prescrições, consideradas de origem divina, ao homem. Baseia-se essencialmente no Corão, mas também nos ditos (hadiths) e práticas (sunnah) do Profeta, no consenso da comunidade (ijma) e finalmente no raciocínio analógico, se necessário.



A Sharia diz como o muçulmano deve viver tanto em sua vida privada como social. É um guia para as ações e engloba toda faceta da vida humana, dando um significado religioso a todos os atos. Diz como o muçulmano deve se comportar, como fazer negócios (a usura, aliás é proibida), como portar-se à mesa etc.
O cristianismo, por não possuir uma Shariah, uma lei revelada para o domínio social – e tendo recusado a lei judaica, encarada como uma ‘letra que mata’, como diz o Evangelho, em nome do ‘espírito que vivifica’ – é visto pelos muçulmanos como uma ‘tariqah’, isto é, uma via exclusivamente contemplativa, sem a correspondente lei revelada. Quando o cristianismo sai da clandestinada e se torna uma religião das massas e do próprio Estado, contudo, viu-se obrigado a incorporar uma lei, a romana, ‘exoterizando’ uma via originalmente esotérica.
Do mesmo modo que o Sufismo, a Shariah está baseada no Corão e na Sunnah (os costumes, os ditos, a ‘prática’) do Profeta; a lei, contudo, interessa-se apenas pela vida ativa, e não pela vida contemplativa. Se o Sufismo visa ao amor e o conhecimento do divino, e à santificação ainda nesta vida, a Shariah visa à salvação póstuma da alma mediante o cumprimento de determinadas ações. A lei islâmica diz o que pode e que não pode ser feito pelo fiel para ganhar a salvação; já o sufismo enfatiza antes as práticas contemplativas, como as litanias, a khalwah (retiro espiritual) e a invocação (dhikir), como meios seguros para chegar a Deus, aqui e agora”.

Ação, devoção e conhecimento, são universalmetne tidos, como os três modos principais da vida espiritual. Na Índia recebem o nome de Karma, Bhakti e jnana. No sufismo são conhecidos como makhâfa (temor), mahabah (amor) e marifah (conhecimento) (...)".

terça-feira, agosto 01, 2006

O Dharma e o Islamismo - Religião Superior

Não distou deste padrão a longa noite da Idade Média na qual mergulhou a humanidade, ou o que soçobrou da “débâcle” do império romano. Ao lado de uma Bizâncio bárbara e decadente, as dezenas de pequenos reinos e feudos só contavam com uma nesga de cavalheirismo fútil e um sistema de relações entre as classes sociais antes marcado pelo medo que por apego genuíno e um conjunto de princípios morais. A Igreja, submergida na dissolução dos mosteiros e nos crimes horrendos dos papas no Palácio de São Pedro estava longe de impor quaisquer regras válidas de moral e o Ocidente quase sucumbiu, pouco após a primeira metade do primeiro milênio, aos golpes rudes e certeiros da nova fé que avassalava o Ocidente e Oriente, o Islã.

A nova religião sacudia um mundo de hipocrisia, padres corruptos e reis assassinos, que exerciam o poder por meio da perfídia e da espada. Oferecia idéias simples e, ao contrário do cristianismo apodrecido – e próximo ao hinduismo – concebia um esoterismo ou misticismo – mais apropriadamante desenvolvido na tradição sufi – junto a um exoterismo espelhado nas práticas cotidianas do islã, como a oração voltada para Meca, o jejum e as leituras públicas do islã. O “exoterismo” da crença muçulmana fundava-se na “sharia”, a Lei Islâmica a que todos deveriam obedecer, o “esoterismo” na “haqiqa” e em técnicas de meditação empregadas sob escolas de mistérios.

A “sharia” ou o “dharma hindu na fé muçulmana” trazia ao mundo, finalmente, uma fonte pulsante e monumental de responsabilidade e temor a Deus e aos homens. A submissão covarde e pouco viril ao désposta feudal era substituída pela observação criteriosa de uma coleção de preceitos religiosos que versavam desde a higiene e a alimentação ao trato com esposas, filhos e amigos. Não havia conhecimento de Deus ou esoterismo sem exoterismo, sem a diária observância da “sharia”. A “sharia”, inclusive e devidamente modificada por influências locais – estabelecia normas de convívio e tipificava as relações entre classes e grupos da sociedade. Embora em menor escala que o “código de Manu”, os comentadores tradicionais do “alcorão” e senhores muçulmanos da Lei lograram impor a fração significativa do globo um sistema de regras que trazia novamente à baila a ética e resgatava princípios de convivência.

É a “sharia” islâmica que até hoje garante a superioridade moral do indivíduo islâmico em comparação com os cristãos, que cultivam toda sorte de vícios e despudor. Esta enorme excelência ética de homens e mulheres das nações islâmicas traduz-se em seu padrão de vida mais elevado e na felicidade que aparentemente grassa em seus lares, em que filhos ainda respeitam pais e onde ainda tem prioridade à obediência, a ordem e o respeito.
Enquanto um grande percentual do orçamento mensal de um pai de família ocidental é dispendido em bebidas alcoólicas ou fumo, havendo um pequeno saldo para sustento dos filhos, o mesmo não ocorre nas nações islâmicas, onde a simples proibição do consumo de álcool é responsável pela manutenção de um “excedente” que pode resultar na compra de alimentos e outros itens de consumo da família.

O muçulmano mais integrado à sociedade e temente aos rigores da “sharia” inclina-se bem menos à violência doméstica ou a atos criminosos que possam resultar em dano para seu semelhante, o que lhe acarretaria terrível danação nesta vida e no além túmulo.

Regras e o "Dharma" - II


No mundo ocidental nunca houve algo que se equiparasse totalmente ao “dharma” hindu. Talvez a “Paidéia”, o ideal helênico de vida que realçava a importância da educação e a prática da virtude ou a profunda ética latente no mundo romano que repousava nas virtudes preconizadas pelo estoicismo e o epicurismo, religiões da natureza externa e interna. Mas ainda que mesmo a Roma dos césares e a Grécia heróica pudessem ter suas castas e sub-castas e como rebentos também de uma ancestralidade no todo hindo-européia pudessem exibir suas regras de conduta, estas jamais chegaram ao grau de detalhamento de um “Código de Manu” e impregnaram com tamanho vigor a produção religiosa e a cultura destes povos.

Toda a mitologia grega, sua vasta produção literária e teatral, o testemunho de seus grandes historiadores, sua filosofia desde os tempos os áureos, tudo o que nos restou daquela magnífica civilização atesta a elevada estatura emprestada aos princípios éticos e às regras de conduta naqueles tempos. São a hospitalidade e caridade – deveres imorredouros entre os antigos gregos - que emprestam às velhas lendas do Olimpo suas cores mais vivazes, Os deuses gostavam de se disfarças de velhos e testar a receptividade e amabilidade dos humanos para com eles, seu “dharma”, se é que assim se pode dizer.
Acalentando a virtude no cotidiano, o romano dos primeiros dias da “cidade sagrada” moldava sua vida em conformidade com os mais elevados e puros princípios éticos. A honra e a lealdade eram virtudes máximas. A fortaleza de alma, a temperança e a caridade corporificavam a “tríade” moral inscrita no coração do verdadeiro cidadão, ulteriormente apropriada pelo próprio catecismo católico.
Para o autêntico habitante de Roma ou o homem afinado com seu tempo, bastava um prato com alimentação frugal, ou pouco de água, pão e vinho para saciar sua sede e fome. Móveis rústicos, uma cama simples, hábitos viris como o exercício físico e a prática do jogo de bola eram suficientes para preservar-lhe a disposição guerreira. Muito da resignação romana face à morte e o apego à ética em vida resta em antigas lápides funerárias.
“Homo es: resiste et tumulum contempla meum.iuenis tetendi ut haberem quod uterer.iniuriam feci nulli, officia feci pluribus.bene vive, propera, hoc est veniundum tibi”.

Este padrão comportamental também era um “dharma”, no sentido que se lhe dá de conjunto de “regras de conduta”. Ao longo dos séculos a prevalência desta ética – fortemente ligada ao período glorioso da civilização romana – foi a principal responsável pela conservação das instituições e dos princípios que governavam aquela gente. Apenas com o cristianismo e seu simulacro da doutrina fundada pelo Senhor Cristo sobreviria a degradação daqueles ânimos e o desgaste de tamanha têmpera, capaz de resistir atrevidamente ás arremetidas dos bárbaros e ao cadinho contaminado pelas superstições orientais.
Se Roma foi grande enquanto perdurou seu código de obrigações mútuas e valores morais, na a “Magna Grécia” não foram muito diferentes os acontecimentos. Séculos se passaram de esplendor até que em meados dos anos III. D.C. a outrora grandiosa civilização helênica sucumbia ante a voracidade dos primitivos seguidores de qualquer coisa, exceto a pregação do Cristo.
Essa gente lançou por terra os Deuses do Panteão Olímpico sem trocá-los por nada consistente ou honrado, e o que pouco que restara da venerável virtude grega nos trouxeram os monges copistas ao reproduzirem algumas relíquias do passado. Nada de bom, honrado ou que incutisse a mínima noção de “regras de comportamento” ou ética permaneceu erguido na Bizâncio Cristã, onde os imperadores eram friamente assassinados e as intrigas palacianas não poupavam sequer os laços de sangue entre filhos e pais.

segunda-feira, julho 31, 2006

Regras e o "Dharma" - I

A idéia do “dharma” é bem anterior ao budismo e está arraigada nas tradições milenares da Índia, é o pilar sobre o qual se assenta o sistema de castas de Manu, discrimina os compromissos entre as castras e no seu interior e a “profissão” de fé, o “código de comportamento” para todas as sub-castas, calculadas atualmente em mais de 3.000, as quais se desdobram da original divisão quíntupla em Brâmanes (sacerdotes), Shatrias (guerreiros), Vaishias (comerciantes), sudras (artesãos) e os parias ou intocáveis.

Esta expressão é usada em muitas filosofias e religiões indianas, surgindo primeiramente nos Vedas como Dharman. No hinduismo, Yama, o Deus da Morte, é também conhecido como “Dharma”, trabalhando segundo as leis do Karma e moralidade, reguladas por princípios divinos. É familiar aos hindus, aliás, a personificação do Dharma em Ram, um dos avatares de Vishnu. Dharma também pode dizer respeito à religião hindu e no budismo aos ensinamentos do Senhor Buda, embora muitas vezes seque equivalente a “fenômeno”, uma unidade básica de existência.

O “dharma” ou “obrigação” é o núcleo do modo hindu de pensar; enfatizando a responsabilidade pessoal. A palavra vem do sânscrito “dhri”, ou seja “sustentar”. É o “dharma” que sustenta a ordem cósmica (Rita) do Universo. O “dharma” se alia à doutrina do Sansara, o ciclo de nascimentos e renascimentos e ao “karma”, a idéia de que cada ação tomamos causa outras no futuro e estas dependem daquelas que foram tomadas no passado. A vida em cada um nasce pode ser relacionada á dos outros quanto à posição social (as “três cores” ou castas), ocupação (jati), estágio de vida ou maturidade e para cada um destes itens são prescritos deveres e obrigações.

Assume-se que esta vida é uma conseqüência necessária de vidas passadas e ações passadas, seguindo-se que se deve executar os deveres prescritos para sua vida irrestritamente. Assim, a organização social e as funções e obrigações de cada grupo social são justificados não por sua eficácia em si, mas pela consciência de que sua própria vida e obrigações de que se incumbem os homens são manifestações no mundo de uma ordem moral primeva do Universo.

A doutrina do Buda também se assenta em “três jóias”, entre elas a do “dharma”. Budha, a iluminação, Dharma, o preceito e Sangha, a união com outras pessoas que também buscam o caminho. Dharma em sentido lato significa um conjunto de regras, princípios, normas, a “religião externa” que regula os atos individuais, atrelando-os a determinada ética, a ética do Budha. No “Mahayanauttarantrashastra”, “A Continuidade Imutável da Verdadeira Natureza” lemos dos versos nove a 12 uma didática apresentação do significado do “Dharma”.

“9. (...) Eu me prostro ao sol do Darma
Que não é nem existência nem não-existência
Nem uma combinação de existência e não-existência
Nem algo além de existência e não-existência;
O inexaminável, além de toda definição verbal, auto-cognoscente, pacífico,
Impoluto, brilhante com a luz de jnana, que destrói completamente
Avidez, Aversão ou Torpor em relação aos objetos mentais.
10. O Darma é aquilo que está imbuído
Das características intrínsecas das duas verdades:
Aquilo que é aquilo que prozuz liberdade do cativeiro.
Inconcebível, não-dual e isento de conceitos,
Pureza, claridade e remédio.
11. ‘Liberdade de cativeiro’ se aplica à verdade da cessação
É a verdade do caminho. Cada uma com três qualidades, respectivamente:
12. É inconcebível (por não ser examinada através do pensamento,
é indizível e conhecimento restrito aos plenamente realizados).
É uno e isento de conceitos, paz.
É pureza, claridade e sanidade, sendo estas três como o sol
”.

Iluminados, os Budas passam a ensinar o “Dharma”, caminho que leva a iluminação dos demais seres que é o segundo ponto “vajra” (diamantino). Como explica Khenchen Thrangu Rimpochê:

“A palavra ‘Dharma’ pode ter dois significados diferentes: qualquer afirmação verdadeira, como dizer que o céu é azul; ou o corpo de ensinamentos passados pelo Buda Sakiamuni aos seus discípulos. Este último, o Darma, inclui as palavras efetivamente pronunciadas pelo Buda (sutras) e os textos explanatórios (shastras), que foram escritos para explicar os sutras. Estes se dividem nos chamados ‘três cestos’ ou ‘triptaka’: ensinamentos Vinaya, destinados a libertar-nos do apego; Sutra, destinados a libertar-nos da agressão; e abhidarma, destinados a libertar-nos da ignorância. Estes três cestos contêm oitentar e quatro mil diferentes aspectos do Darma transmitido diretamente pelo Buda Sakiamuni e explicados por seus discípulos. O propósito é eliminar os oitenta e quatro mil tipos de emoções perturbadoras latentes na mente.
A palavra Dharma é mais freqüentemente usada para designar ‘ensinamento’. No Uttaratantra, contudo, Darma se refere à realização ou consumação das qualidades. Este uso da palavra se refere àquilo que tem capacidade de eliminar todas as impurezas e produzir a plena frutificação de jnana (a mais alta e pura forma de conhecimento e inteligência). O Darma da realização é o resultado direto da prática do está no corpo dos ensinamentos, como, por exemplo, a realização de todas as qualidades descritas. O Darma dos ensinamentos explícitos é apenas uma ferramente indireta usada para adquirir as qualidades iluminadas, enquanto que todas as qualidades de pureza podem ser diretamente atingidas através do Darma de realização
”. (que tem dois aspectos, a verdade da cessação e a do caminho).