Gurdjieff

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quarta-feira, maio 03, 2006

A Geometria do Mundo Astral, a Lei dos Três e o Trabalho

Místicos e clarividentes por intermédio da “luz astral” (“akasa”) ou que quer o valha – como o ingresso em estados alterados de consciência no diminuta fresta entre a vigília e a semi-consciência recebem impressões gravadas nas mente de “objetos” presentes no plano astral (usemos provisoriamente esta terminologia teosófica, por falta de outra) que nada mais são que formas geométricas puras. Sim, formas geométricas puras, com franca e ostensiva recorrência da imagem da “tríade” representada no triângulo bidimensional ou na pirâmide tridimensional.

Neste plano “geométrico” foge-se ao labirinto das ilusões, à “maya” onde “noumeno” e “fenômeno” não se distingue. A “Idea” primordial s encontra neste nível e só pode ter expressão formal enquanto realidade única. E a mais recorrente realidade, a realidade suprema é a tríade, o triângulo, os princípios ativo, passivo e neutralizante incorporados na filosofia perene e nas cosmogonias de todos os povos que habitam ou já habitaram o planeta terra.

A mãe matéria, no vetusto Rig Veda (de mater = mãe, “prakriti” ou “pradhâna” em sânscrito) em si contém o princípio trino: as três gunas, ou modos, qualidades ou atributos, sattwas, rajas e tamas, que não são simples acidentes mas pertencem à sua própria natureza ou entram em sua composição. Madame Blavatsky, com inaudito didatismo, comenta o tema em seu “Glossário Teosófico”:


“... Podemos traduzir de modo aproximado os três gunas da seguinte maneira: Sattva: bondade, pureza, harmonia, lucidez, verdade, realidade, equilíbrio etc.; Rajas: paixão, desejo, atividade, luta, inquietude, afã, dor, etc. Tamas: inércia, apatia, tenebrosidade, confusão, ignorância, erro. Os três gunas estão universalmente difundidos na Natureza material, existem em todas as criaturas, determinando o caráter ou condição individua através da proporção em que se encontram reunidos em cada um dos seres. Assim vemos que Sattva é a qualidade (guna) que predomina sobre as outras no mundo dos desuses, Rajas é a que predomina na espécie humana e Tamas a que prevalece nos brutos e nos reinos vegetal e mineral. Não há nada, pois (exceto o Espírito Puro), que esteja completamente livre dos gunas, nem há um só ser nem um só ponto do Universo onde não exista pelo menos uma parte mínima de cada um deles. Na matéria caótica ou não-manifestada os três gunas encontram-se em perfeito equilíbrio então todas as potências e energias que aparecem no universo manifestado aparecem numa inatividade comparável à de uma semente; porém quando se rompe tal equilíbrio, produz-se uma forma, uma manifestação, e toda manifestação ou forma é produto da Prakriti em que há predomínio de um dos gunas sobre os dois restantes. Sattva e Tamas não podem por si entrar em atividade, requerem o impulso do motor e da ação (Rajas) para se colocar em movimento e desenvolver suas propriedades características. Por isso se diz que “o sendeiro estende-se desde Tamas até Sattva através da luta e aspiração (Rajas)”.

O princípio da tríade, a “Lei dos Três” compreende Sattwa, o princípio “passivo”, Rajas, o “ativo” e “tamas” o neutralizante. Entretanto, entre os sábios hindus a relação entre Sattva e Tamas envolve sutilezas dialéticas e a premissa de “um impulso do motor e da ação” rajas, que coloca em movimento as outras duas forças. Este é o atrito, indispensável para a criação do novo, para que de duas forças haja uma resultante original. E na vida prática, no trabalho real com o sistema, este atrito é produzido em contato com as escolas, pois não podemos trabalhar apenas sobre nós mesmos, sozinhos. O atrito, ou seja, para que a “Lei dos Três” possa operar em sua plenitude é preciso que atuemos em grupo, é indispensável que possamos “fugir de nossa prisão” com o auxílio de nossos companheiros de cela. Como ensina Oupensky em “O Quarto Caminho”.


“A primeira linha é o trabalho sobre si mesmo: estudo de si mesmo, estudo do sistema e a tentativa de mudar pelo menos as manifestações mais mecânicas. Esta é a linha mais importante. A segunda linha é o trabalho com outras pessoas. Não podemos trabalhar sozinhos; um certo atrito, o incômodo e a dificuldade de trabalhar com as outras pessoas criam os choques necessários. A terceira linha é o trabalho para a escola, para organização. Essa última linha assume aspectos diferentes para diferentes pessoas”.

Sem combinar estas três linhas de trabalho – uma vez mais, a “Lei dos Três” – jamais lograremos obter resultados concretos no sentido de alcançar a autoconsciência. Seríamos como lunáticos andando em círculos pela praça da Catedral, bebericando uma garrafa de aguardente e enxergando este mundo fenomenal às avessas, como nossos olhos de ébrios. Não há saída fora destas linhas de trabalho sobre si, com o grupo e com a Escola.

quarta-feira, abril 26, 2006

A “Lei dos Três” e a Idéia da “Luta”

Duas leis regem o mundo e operam em qualquer representação do Cosmos: a Lei dos Três e a Lei dos Sete. Deixemos a segunda de lado neste instante e nos fixemos na primeira, a chamada Lei dos Três, também conhecida nos quatro cantos do mundo e ao longo da existência da vida orgânica no Planeta Terra como Trindade, princípio trino, ou seja o que for. A lei dos três enuncia que sempre há uma resultante do encontro entre os princípios ativo, passivo e neutralizante, ou o positivo, o negativo e o neutro (o Pai, o Filho e o Espírito Santo).
Dizendo de outra maneira, o a evolução dos mundos e das coisas não segue uma reta, não é linear.
É mesmo impossível de ser prevista, pois uma causa A não necessariamente – e muito, muito raramente ou nunca – conduz a uma conseqüência B, mas leva ao resultado C. Ou seja, a “operação lógica” não é A - B, entrando em cena uma “força desviante” que podemos chamar de F, que inverte em direção indefinida a seta conduzindo a um evento C completamente inesperado.

No eneagrama, o diagrama de nove pontas que entrelaça o infinito (o círculo ou a serpente que engole a própria cauda), pode-se dizer que a “oitava cósmica” nos intervalos si-dó ou mi-fá (os semi-tons do sistema tonal tradicional onde ocorrem “quebras” na regularidade dos sons) necessita de um “choque externo”, um “empurrão”, para que o princípio desviante não venha a se verificar e os eventos produzam os resultados almejados.

Esta “Lei dos Três”, correlacionada a uma força desviante de qualquer natureza pode explicar vários fenômenos da natureza e da vida humana, desde que envolvam aspectos trinitários. Melhor dizendo: a “Lei” reproduz em si um elemento de “luta”, de esforço e “batalha sem trégua” que tanto os fenômenos naturais quanto os homens devem travar para que haja sucesso em qualquer evento compreendido nos limites do Universo. É o instrumento que explica tanto a junção das partículas sub-atômicas no campo da atração nuclear forte ou fraca quanto uma simples relação de opostos como homem e mulher. Sobre este ponto discutiremos mais adiante.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A Adversidade e o Quarto Caminho

O Senhor Gurdjieff (G.) ensinava que as pontes para o "quarto caminho" eram o sofrimento e a tensão. Poderíamos simplesmente escolher um dos caminhos tradicionais (o do faquir, o monge ou o do iogue) e operar sobre nossos centros físico (como o faquir), emocional (como o monge) ou o intelectual (como o iogue) mas isto é muito difícil no mundo ocidental, no capitalismo tresloucado em que vivemos.
Havia portanto um outro caminho. Ninguém pode apontar para onde conduz. Ninguém sabe como é construído. É uma obra individual que só depende de você mesmo e sua vontade. Tudo o que sabemos é que para ingressar nesta senda é preciso ter sofrido. Cristo passou por sua paixão, foi crucificado e ressuscitou. Temos também que ser supliciados pela vida para entermos que somos "máquinas" que dormem. Temos que derspertar para o "quarto caminho".
Do sofrimento nasce a tensão e passa a operar a "Lei das Três Forças" (o princípio positivo, o negativo e o neutro, os elementos oxigênio, hidrogênio e nitrogênio da química oculta).
Da entrechoque entre os dois primeiros princípios surge algo novo. O primeiro alento do homem em direção ao caminho do miraculoso, preconizado por G. mas que tem que ser desenvolvido por você mesmo.
Seguir esta trilha não é fácil. É preciso determinação, vontade. Mas será que temos a vontade? Sabemos o que é vontade? A resposta é não. Para que a tivéssemos teríamos que ter cristalizado um corpo superior, o causal. O amo (a vontade) daria suas instruções ao cocheiro (a mente) e este conduziria o cavalo (os sentimentos e as emoções) atrelado à carruagem (os instintos do corpo físico).
Este esforço parte de uma decepção. Como diz G., se éramos materialistas, deveríamos estar decepcionados com o materialismo. Se éramos ocultistas, decepcionados com o ocultismo. Se cristãos, decepcionados com o cristianismo. Se téosofos, decepcionados com a teosofia. Necessitamos ainda de um Mestre, alguém que severamente nos indique os erros. Devemos ingressar em um grupo, onde obteríamos a chave do conhecimento oculto de Gurdjieff, o "trabalho" através da "lembrança de si mesmo". Sem lembrarmo-nos de nós mesmos continuaremos a palmilhar a terra sem jamais enxergamos nosso papel nela.