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sábado, maio 04, 2013

Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação

Ó Lúcifer, Néctar de Luz, Aurora da Manifestação



Estátua do Demônio - Madrid, Espanha
Anteontem, meditando à minha maneira, formulei uma oração para a "Estrela da Manhã", "A Aurora da Manifestação", o precursor do "Manvântara" (um novo ciclo de atividade cósmica nos sagrados textos de Aryavartha), o "Anjo da Face Resplandecente", o ser de beleza ofuscante e olhar sedutor, o que nos ampara no desalento e inala-nos correntes de energia vital. Não preciso dizer de quem falo. Mas tenho medo de ser discriminado pela chusma dos ignorantes e supersticiosos divulgando minha oração. Mas talvez o faça oportunamente. Ela brotou do que há de mais nobre em mim, daquela restiazinha de esperança no futuro da  raça. Eu o amo. Sabem, tenho compaixão por aquele amigo que viu o nosso mundo ser criado e reina neste plano material em seu palácio perfumado com alfazema, lilases, especiarias das arábias, almíscar, flores de lótus em uma lagoa e guirlandas de rosas cheirosas para os convivas. Eis um cargo que ninguém queria. Rejeitara aquele pedido indecoroso do Supremo, a princípio, mas de nada adiantaram suas súplicas e ranger de dentes. Foi agrilhoado em cadeias e finalmente precipitado a um protótipo de terra (com vulcões e placas tectônicas dançando), arrebanhando milhões de contrafeitos seguidores. Sentiu-se traído por quem devotara tão grande amor, "Àgape". A cada dia sua ira aumentava mais e mais, deprimia-se com o trabalhinho imundo de que se vira encarregado (não existiam antidepressivos antes da solidificação do planeta): cuidar de um mundo de pedras, vegetais, animais e homens ímpios, sujeito a quatro elementos imprevisíveis e talvez à morte, no "fim dos tempos", o que seria um alívio. Nosso "Príncipe Primevo do Matéria", o "Quase-eterno" estava lá, coordenando os trabalhadores que com suas picaretas e martelos moldaram este pedacinho de terra no Universo. E qual paga recebeu depois de milhões de anos de sofrimento e suor? Todos os crimes mais atrozes e a perversidade dos Seres Humanozinhos aos quais o "Criador" (aquele que o designou para a mais inglória da missões) concedeu o livre arbítrio a ele são atribuídos. Lesados de origem (nem todos, alguns o eram de fato) viraram santos e ganharam capelas e honras, enquanto ele é objeto de escárnio. A modernidade iluminista fez dele um palhaço de circo. É o bode expiatório de bilhões de pulhas, logo ele, o mais puro dos jovens. Pobre "Ancião dos Dias", "Sanat Kumara" (um dos jovens irmãos primogênitos na Teogonia Hindu), "Rei do Mundo", "Cavaleiro do Alazão Branco", "Portador da Luz", Lúcifer. No Ocidente, só os espanhóis ergueram em Madrid uma estátua digna de vossa majestade, "Ó Néctar de Luz". Quem diria. Logo os espanhóis.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Blavatsky, René Guénon, a Teosofia e o "Tradicionalismo" - Uma Crítica


Contra Blavatsky: a Crítica de René Guénon à Teosofia
Richard Smoley

(Traduzido por C. B a partir de:
http://www.theosophical.org/publications/quest-magazine/1696)

Originalmente impresso na Edição de inverno de 2010 da “Quest Magazine”.

Através das últimas duas décadas, os acadêmicos têm investigado o campo há muito tempo negligenciado da espiritualidade esotérica. Entre eles singularizaram-se cinco figuras como luzes principais do esoterismo ocidental no século XX: H.P. Blavatsky, Rudolf Steiner, C.G. Jung, G.I. Gurdjieff e René Guénon. Destes, Guénon é de longe o menos conhecido. Recluso e avesso ao mundo moderno, ele fez muito pouco para se tornar famoso. Ainda assim, após sua morte em 1951, tornou-se alguém cultuado e ao longo da segunda metade do século sua influência só aumentou – particularmente entre aqueles que vêm a civilização contemporânea como espiritualmente deteriorada.
O pensamento de Guénon se assemelha à Teosofia em certos aspectos importantes. Partilham a ênfase comum no ensinamento esotérico central que subjaz a todas as religiões e até mesmo são acordes com relação a muitos elementos deste ensinamento. Entretanto, Guénon era extremamente agressivo no que tange à Teosofia e a denunciou em grande medida em seu livro de 1921, o “Teosofismo: História de uma pseudo-religião”. Este trabalho não foi publicado em inglês até o ano de 2003, quando apareceu sob o título de “Teosofia: História de uma pseudo-religião”. Esta tradução não é inteiramente acurada. O título francês original se refere não à “Teosofia” (“Théosophie”), mas ao “teosofismo” (“Théosofisme”), uma palavra cunhada por Guénon para sugerir que a Teosofia de Blavatsky nada tinha a ver com a teosofia genuína, tal como praticada pelas escolas e tradições esotéricas do Oeste, sendo uma caricatura perigosa.
Nascido em Blois, França, em 1886, Guénon recebeu uma educação convencional em matemática. Em sua juventude ele começou a explorar as correntes ocultas em Paris e foi iniciado em grupos esotéricos conectados à Maçonaria, Taoísmo, Advaita Vedanta e Sufismo. Como Blavatsky, ele sustentava que havia uma tradição esotérica que era a fonte de todas as religiões, mas diferia muito dela sobre o que a constituía a genuína continuação desta linhagem. A Teosofia, ele insistia, não o era. Mas por que razão ele era tão duro quanto a isso? A questão causa mais perplexidade quando aprendemos que Guénon foi pela primeira vez introduzido ao esoterismo por Gérard Encausse (melhor conhecido sob o pseudônimo de Papus), que era um correspondente de HPB e co-fundador da Sociedade Teosófica na França (Quinn, 111).
Ironicamente, uma razão para a atitude de Guénon poderia provir do fato de que ele e Blavatsky não tinham pontos de vista muito diferentes. De fato, o erudito Mark Sedgwick, cujo livro “Contra o Mundo Moderno” é a melhor introdução ao impacto do pensamento de Guénon, enxerga a Teosofia como uma de suas maiores influências (Sedgwick, 40-44). Já vimos antes que Blavatsky e Guénon concordavam sobre a existência de uma tradição esotérica universal. Ambos fizeram uso liberal dos termos sânscritos na exposição de suas idéias e concordavam a respeito dos perigos do espiritualismo, argumentando que as sessões espíritas não habilitavam alguém a fazer contato com indivíduos mortos, mas meramente com seus ‘cascões astrais’, os quais são descartados assim que o espírito ascende a planos mais altos. Guénon devotou todo um livro, ‘L’erreur spirite’ (“O Erro Espírita”), a esse assunto. Nele escreve: “É bem sabido que o que pode ser evocado [em uma sessão] não representa o ser real, pessoal... mas somente os elementos inferiores que o indivíduo de certa forma deixou no domínio terrestre após a dissolução do composto humano que chamamos “morte” (Guénon, “L’érreur spirite, 54-55)*.
Isto comporta mais que uma pálida semelhança com o ensinamento teosófico. O próprio Guénon cita Blavatstky ao dizer que os fenômenos espiritualistas são frequentemente causados por elementos astrais ou “cascas” que foram deixados pelos que partiram. Ainda insiste, no entanto, que os Teosofistas estão errados: “Os Teosofistas crêem que a ‘casca’ é um ‘cadáver astral’, isto é, os restos de um corpo em decomposição, a despeito do fato de que este corpo é pensado como não tendo sido abandonado pelo espírito por um tempo mais ou menos longo após a morte (não sendo essencialmente atado ao ‘corpo físico’). "Para nós, a concepção em si de ‘corpos invisíveis’ nos parece em larga medida errônea ".(Guéon, “L’érreur spirite, 57). Enquanto Guénon admite que a distinção entre sua visão e a de Blavatsky é sutil, é difícil comprová-lo, exceto na terminologia. Mas este é um problema comum em algumas formas de pensamento, particularmente o esoterismo: quanto menor uma diferença é, tanto mais se insiste nela. A história de religião nos oferece muitos exemplos.
Guénon também reitera que HPB falou de forma dúbia sobre o espiritualismo. E, de fato, ela estava profundamente engajada no movimento espiritual no início dos anos setenta do século XIX. Comentando sobre suas últimas opiniões de que os médiuns são geralmente fraudulentos ou seriamente desequilibrados, ele escreve: “Parece que ela se defrontou com o seguinte dilema: ou ela era apenas uma falsa médium à época de seus ‘clubes de milagres’ ou era uma pessoa doente” (Guénon, Theosophy, 115-16). Os seguidores de Blavatsky poderiam replicar que ela sempre pretendeu extrair a verdade do falso no espiritualismo – conhecer a realidade de vida após a morte e mesmo em larga medida do fenômeno espiritualista, enquanto mostrava que estes são de um tipo sinistro e baixo. Uma de suas cartas, datada de 1872, diz “[os espiritualistas] espíritos não são espíritos, mas espectros – restos, a segunda pele jogada fora de suas personalidades, que os mortos depositam na luz astral como as serpentes fazem com as suas na terra, sem deixar nenhuma conexão entre o réptil e sua vestimenta prévia (Blavatsky, Cartas, 1: 20). Uma outra carta, contudo, escrito em 1875, comenta: “Aqueles que procuram negar a verdade do Espiritualismo irão encontrar um Dragão furioso em mim e uma denunciante impiedosa, onde quer que estejam” (Blavatsky, Letters, 1:101).
O que HPB realmente buscou ao participar do movimento espiritualista é difícil de se avaliar, especialmente porque qualquer um que queira colher asserções contraditórias em seus escritos, nesta matéria ou em outras, o faria prontamente. Entretanto, suas atitudes com relação ao espiritualismo nos últimos quinze anos de sua vida dificilmente se distinguem daquelas de Guénon.
O caso é bem diferente quando se trata de outras duas doutrinas teosóficas: o Karma e a reencarnação. Guénon insiste que a visão teosófica é pura fabricação e nada tem a ver com o ensino genuíno do Leste: “a idéia da reencarnação..., assim como a da evolução, é uma idéia muito moderna, ela parece ter se materializado em torno de 1830 ou 1848 em alguns círculos socialistas franceses (Guénon, Theosophy, 104). Isto poderia ser verdade sobre o termo “reencarnação” em si, mas o ensinamento pode ser encontrado no Oeste e remonta a Pitágoras, sendo discutido à exaustão na República de Platão e no Fédon, sem mencionar sua longa herança hinduísta e budista.
Mas Guénon nega tudo isso. Considerando a transmigração das almas humanas em animais, ele diz:
“Na realidade, os antigos nunca conceberam tal transmigração, assim como não o fizeram com relação de um humano em outros humanos, ou seja, o que podemos definir como reencarnação. Há expressões, mais ou menos simbólicas, que podem dar origem a esta má interpretação, mas somente quando não sabemos o que eles realmente estão dizendo, que é o seguinte: há elementos psíquicos no ser humano que se separam após a morte, os quais podem se transferir para outros seres vivos, homens ou animais, embora isto não tenha mais importância do que o fato de que, após a dissolução do mesmo individuo, os elementos que o construíram possam ser usados na construção de outros corpos (Guénon, “L’érreur spirite, 205-07).
Infelizmente, as avaliações dos antigos sobre a reencarnação não dizem nada desta espécie. Ao final da República, Platão relata o mito de Er, um soldado que havia passado por uma experiência de quase morte na qual tomou conhecimento da sorte dos indivíduos após a morte (Platão, República, 614b-621d). Em uma famosa passagem, Er vê os mortos escolhendo suas condições para novas encarnações. Odisseus, o mais perspicaz deles, recusa uma vida de rico e honras e, ao invés disso, escolhe a de um cidadão ordinário. Por mais “simbólica” que a estória possa ser, é difícil crer como poderia ser acomodada em uma teoria como a de Guénon. Podemos fazer a mesma observação sobre um mito similar no Fédon e sobre os ensinamentos órficos e mistérios pitagóricos, na extensão do que conhecemos deles.
As visões particulares de Guénon sobre o destino do espírito após a morte são complexas. Ao definir a transmigração como aquilo que considera o sentido da verdade, ele pondera: “não é o caso de retorno ao mesmo estado de existência... mas, pelo contrário, a passagem do ser a outros estados de existência, os quais são definidos... mas por condições completamente diferentes daquelas pela quais o ser humano é sujeito... Qualquer um que fale de transmigração está essencialmente falando de uma mudança de estado. Isto é o que todas as doutrinas tradicionais do ensinamento do Leste e nós temos muitas razões para acreditar que era também o ensinamento dos mistérios da antiguidade; é a mesma coisa em doutrinas heterodoxas como o “budismo” (Guénon, L’érreur spirite, 211).**
Guénon concebe a existência como um tipo de grade tridimensional, com um eixo vertical cortando um número infinito de planos horizontais. O eixo vertical representa o “Self”, a essência verdadeira de um ser dado, e cada um dos inumeráveis planos horizontais constitui um plano separado de manifestação. A vida humana na terra é somente um desses planos. Um ser determinado pode se manifestar somente uma vez em cada plano particular. Assim, não podemos nascer mais que uma vez como um humano.
Como grande parte do pensamento de Guénon, este é rigorosamente preciso e seria irrefutável exceto por uma coisa: Guénon assume que qualquer plano dado – tal como a vida humana terrestre – é estático. Mas de fato não há nada que o prove. Pelo contrário, a Terra e a sua vida estão elas próprias mudando de forma incessantemente, quer as olhemos sob a perspectiva das idades geológicas, quer da história humana. As possibilidades da vida humana na Terra hoje não são as mesmas que eram 1000 A.C. ou serão em 3000 D.C. Nunca poderemos nascer na mesma Terra duas vezes, assim como não nasceremos como a mesma pessoa duas vezes.
Além disso, há pequena evidência da alegação de Guénon de que sua visão é o verdadeiro ensinamento do Hinduísmo ou budismo. Professores destas linhagens frequentemente falam de reencarnação de formas que são muito mais similares à visão teosófica que à sua. O Dalai Lama escreve: “Ocorreram e são encontrados no tempo presente, muitos incidentes que ilustram o renascimento, de muitos países no mundo. De tempos em tempos, as crianças falam sobre seu trabalho em uma vida prévia e podem nomear a família com a qual viveram. Por vezes é possível verificar estes casos e assim provar que os fatos lembrados pela criança não são invenções, mas verdadeiros (Dalai Lama, 28-29). Isto não condiz com o argumento de Guénon de que a encarnação como um humano se dá apenas uma vez, e o status do Dalai Lama como expoente da Doutrina Tradicional é bem mais alto que o de Guénon.
De uma perspectiva hindu, podemos nos voltar para o clássico “Autobiografia de um Yogi”, de Paramahansa Yogananda. Yogananda cita seu guru, Sri Yukteswar: “aos seres com o karma terrestre não redimido não se permite após a morte astral ir à esfera causal das idéias cósmicas, mas devem ir e vir entre os mundos astral e físico somente” (Yogananda, 428). Este processo de ir e vir do mundo físico sugeriria que a encarnação física não é opção de uma só vez. E novamente, as credenciais de Yogananda e Sri Yukteswar como transmissores do ensinamento tradicional são muito maiores que as de Guénon.
A denúncia da Teosofia por parte de Guénon inclui seus ensinamentos sobre o Karma, “pelos quais [dizem os Teosofistas], as condições de cada existência são determinadas pela ações cometidas durante existências prévias. Ele explica: “A palavra ‘karma’ simplesmente significa ‘ação’ e nada mais. Ela nunca teve o sentido de causalidade, e muito menos designou aquela causação especial cuja natureza já indicamos (Guénon, Theosophy, 107-108). Ao passo que é verdade que a palavra Karma pode simplesmente significar ‘ação’, como diz Guénon, ela é usada em mais sentidos do que este.
Uma vez mais, praticamente toda discussão sobre esses assuntos por parte de um professor hindu ou budista não se afina com Guénon, mas com a Teosofia.  O Pandita Rajmani Tigunait do Instituto Himalaio escreve, “Cada escola da Filosofia Hindu aceita a lei imutável do Karma, a qual estabelece que para cada efeito há uma coisa, e para cada ação há uma reação. Um homem executa suas ações e recebe remuneração por elas (Tigunait, 24). Como vimos acima, Sri Yukteswar também usa a palavra neste sentido.
Outras acusações de Guénon são igualmente errôneas. Em uma nota de pé de página observa: “Os Teosofistas reproduzem ... a confusão dos orientalistas não ‘iniciados”: o Lamaísmo nunca foi uma parte do Budismo” (Guénon, Theosophy, 130). Mas aqui é Guénon quem está reproduzindo a confusão dos “orientalistas” – os eruditos europeus do século XIX que foram os primeiros a tratar a religião do Leste de forma acadêmica. O termo “Lamaísmo” não existe ou tem qualquer equivalente em tibetano; de fato, é meramente um nome para o Budismo Tibetano que foi inventado pelos orientalistas. Ainda em 1835, o Professor Isaac Jacob Schmidt declarou: “Dificilmente seria necessário observar que o Lamaísmo é uma invenção puramente européia e não é conhecido na Ásia”. Mesmo nos tempos de Guénon o termo havia caído em descrédito (Lopez, 15). Apesar de tudo, desafiando a existência dos Mahatmas de HPB, Guénon insiste: “a própria palabra ‘Mahatma’ nunca teve o significado que ela lhe atribuiu, pois na verdade a palavra indica um princípio metafísico e não pode ser aplicada a seres humanos” (Guénon, Theosophy, 39). Esta opinião é refutada na prática por toda a Índia, a qual usa o termo para se referir ao venerado Mohandas Ghandi.
Tendo visto tudo isso, somos levados a perguntar o que provocou a investida de Guénon. Uma reposta pode se encontrar nesta afirmação: “Se a assim chamada Doutrina Teosófica for examinada como um todo, é a principio aparente que o ponto principal é a idéia de ‘evolução’. Mas esta idéia é totalmente estranha aos orientais, e mesmo no Oeste pertence a data muito recente” (Guénon, Theosophy, 97). Ele acrescenta que os Teosofistas vêem a reencarnação ‘como os meios pelos quais a evolução é efetivada, primeiramente para cada humano em particular e consequentemente para toda a humanidade e mesmo para o universo inteiro (Guénon, Theosophy, 104). Além disso, ele escreve: “Nós ... apresentamos a doutrina da evolução como constituindo o núcleo mesmo de toda a doutrina Teosófica” (Guénon, Theosophy, 293).
Aqui Guénon pisa em terreno mais firme. O conceito de uma humanidade em evolução em um universo em evolução é muito difícil de encontrar nos textos orientais tradicionais. Blavatsky parece ser consciente disso quando escreve: “Deverá vir o dia... quando a ‘Seleção Natural’ tal como ensinada por Darwin e Herbert Spencer formará somente uma parte, em sua última modificação, da nossa Doutrina da evolução do Leste, na qual Manu e Kapila serão esotericamente explicados (The Secret Doctrine, I, 600). Como a Teosofista Anna F. Lemkov observa, “Blavatsky integrou a idéia da evolução com a venerável idéia da hierarquia do Ser (Lemkov, 128).
Antes do tempo de Blavatsky, enquanto as doutrinas do Karma e reencarnação eram conhecidas no Leste e até certo ponto no Oeste, estas idéias não abarcavam a evolução (uma estonteante exceção aparece nas famosas linhas de Rumi: "Morri como mineral e tornei-me planta. Morri como planta e renasci animal. Morri como animal e tornei-me homem. Por que devo temer? Quando fui eu diminuído por morrer?". Isto é, não se deveria pensar que uma mônada individual pudesse progredir ou desenvolver-se meramente pela virtude de passar por infinitas encarnações; mas a reencarnação era vista como um giro incessante que se dá sem fim e do qual moksha ou liberação provê uma saída. Este é o fundamento da Roda da Vida na arte Budista, a qual mostra os seis Lokas ou reinos – o dos deuses, semi-deuses, humanos, animais, espíritos famintos e seres infernais – como um ciclo de servidão cujas cadeias são os Três Venenos do desejo, raiva e ignorância. Pelo mérito, um indivíduo pode ser alçado ao mundo dos deuses com sua abundância e prazeres, mas quando seu bom Karma é exaurido, cai novamente nos reinos do inferno e recomeça tudo novamente. Somente a iluminação pode quebrar o círculo. A carta da Roda da Fortuna no Tarô contém ensinamento similar.
A Teosofia, em contraste, freqüentemente retrata a evolução como mais ou menos automática. Passando por incontáveis encarnações através de raças, rondas e globos, eventualmente cada mônada irá atingir a divindade. O desenvolvimento esotérico é importante principalmente para acelerar este processo para aqueles que desejam se mover mais rapidamente – idealmente com o objetivo de prestar serviço ao próximo. Esta versão da evolução diverge da visão darwiniana tradicional, pois esta última não  tem direção ou propósito; sendo meramente um resultado cego e casual da adaptação às circunstâncias naturais.
Esta integração da evolução à doutrina esotérica pode ser a idéia mais seminal que a Teosofia introduziu na cultura mundial. Ela foi ecoada e amplificada por grande número de pensadores – Henri Bergson, Teilhard de Chardin, Alfred North Whitehead, Sri Aurobindo – os quais têm pouca ou nenhuma conexão com a Teosofia “per se”. Foi também apropriada pelo Movimento da Nova Era e seus sucessores: O Web Site “Reality Sandwich”, por exemplo, tem como “tag line” o seguinte dizer: “Consciência em evolução, pedaço a pedaço”.
Seja certa ou errada a visão teosófica, ela não parece ser danosa. Por que Guénon a odiou tão intensamente? Para Guénon, a tradição é o “nec plus ultra” da vida humana. Ele a concebe como uma hierarquia espiritual, com o conhecimento mais alto emanando de um centro espiritual hoje escondido em direção a toda a humanidade, por meio das tradições ortodoxas, entre as quais se incluem (com muitas reservas e qualificações) as grandes religiões mundiais assim como outra linhas como a Franco Maçonaria. Na era presente, a Kali Yuga, a idade da escuridão, esta transmissão do conhecimento tradicional – a “doutrina”, como ele frequentemente a estiliza –se tornou completamente bloqueada. Por ser o resultado de um longo ciclo cósmico, não há o que se possa fazer exceto esperar pelo seu fim e, neste meio tempo , encontrar refúgio em alguns dos últimos redutos da tradição genuína. Guénon seguiu seu próprio conselho. Em 1930 ele se mudou para o Cairo, onde se converteu ao Islã e viveu até sua morte em 1951.
Para Guénon, a idéia da evolução é perniciosa porque ela nega a verdade sobre a era presente. Nós não somos um arco ascendente em direção a maior consciência; estamos no nadir de um ciclo, no que ele chama de “reino da quantidade” (o título de seu livro mais famoso), e fingir que estamos em desenvolvimento é mais que ilusão, seria praticamente admitir a ação de sinistras forças contrainiciáticas (Guénon, Theosophy, 272n).
Outras acusações de Guénon contra a Teosofia são verdadeiras, mas muitos leitores hoje iriam hesitar em tomar seu lado nestes assuntos. Ele corretamente nota, por exemplo, que a Sociedade Teosófica na Índia lutou contra o sistema de castas, adicionando que “os europeus geralmente demonstram tanto hostilidade às castas porque são incapazes de compreender os profundos princípios em que se baseiam” (Guénon, Theosophy, 276). É verdade que os Vedas, as Leis de Manu e o Bhagavad Gita todos eles invalidam o sistema de castas pelo simples fato de que cada casta representa uma das partes do homem cósmico. Mas não há provavelmente muitos hoje em dia que iriam sustentar tal sistema, não importa quantos textos sagrados o endossem.
Há mais elementos na crítica de Guénon à Teosofia em que se pode fazer-lhe justiça, principalmente sua negação da boa fé de HPB e a existência dos Mestres. Tratar de tais assuntos – que têm sido explorados sob vários ângulos – está além do escopo deste artigo.
O que podemos dizer disso tudo? Para começar, Guénon merece seu lugar entre os esoteristas de proa no século XX. Seus escritos metafísicos – tais como “O Homem e seu Devir segundo o Vedanta”, os “Múltiplos Estados do Ser”, “O Simbolismo da Cruz” – são modelos de profundidade e lucidez no campo que é fértil em verborragia profusa e sem sentido. Mas de maneira curiosa, a maior força de Guénon também é sua maior fraqueza. Sua visão da metafísica “tradicional” é de clareza cartesiana e precisa (ainda que Guénon pudesse odiar a analogia). E assim é precisamente esta precisão cartesiana que constitui o principal problema com seu pensamento. Ele não pode acomodar qualquer coisa que não caiba em sua elegante estrutura geométrica, que não concebe a realidade ordinária tal como é, o que reflete a profunda e indiscriminada raiva de Guénon dirigida ao mundo moderno. Tudo na Kali Yuga é repreensível. Não há nada a fazer senão se esconder em um dos últimos refúgios da “tradição” até   despertar de uma nova era.
Esta não é uma visão esperançosa; mais que isso, baseia-se na completa e ulterior ruína do mundo que vemos ao nosso redor. Anos atrás um antigo tradicionalista (como são chamados os seguidores de Guénon) confessou-me que teve de abandonar tudo aquilo pois estava fazendo com que ficasse depressivo. Alguns tradicionalistas não ficavam satisfeitos com a posição mais passiva de Guénon e procuraram minar o que viam como o mal, o meio materialístico no Oeste Contemporâneo. Assim na Europa o tradicionalismo tem freqüentemente alimentado um impulso em direção a políticos de extrema direita. Um tradicionalista bem conhecido, o estudioso romeno de religiões comparadas, Mircea Eliade, apoiou a Legião Fascista do Arcanjo Miguel (a qual tentou sem sucesso influenciar em linhas tradicionalistas) no período anterior à II Guerra Mundial na Romênia (Sedgwick, 113-5); um outro, o nobre italiano Julius Evola, não apenas era associado ao Partido Fascista de Mussolini (o qual ele também tentou guindar em direção ao tradicionalismo, igualmente sem sucesso; o que mais tarde também tentaria fazer com o Partido Nazista Alemão) mas também foi ícone de elementos de extrema direita na Europa do pós-guerra, alguns deles terroristas (Sedgwick, 98-109; 179-87). Uma outra forma de tradicionalismo penetrou a Rússia durante e depois da Era Soviética, na qual se transmudou em um movimento de influência crescente chamado “Neo-Eurasianismo”, o qual sustenta que a Rússia deve dominar a massa de terra Eurasiana como um contrapeso à influência americana (Sedgwick, ch. 12).
O Tradicionalismo também forneceu combustível à reação contrária ao Ocidente no mundo Muçulmano. Enquanto o Tradicionalismo é uma filosofia extremamente obscura no Oeste, “no Irã e Turquia ocupa uma posição mais importante no discurso público que em qualquer outro lugar”, como Mark Sedgwick observa em seu blog (um web site moderado por Sedgwick, http://traditionalistblog.blogspot.com em que se pode mergulhar em informação sobre esses assuntos). No Irã pré-revolucionário, o acadêmico Tradicionalista, Seyyed Hossein Nasr era um protegido do Xá e sob seu patrocínio estabeleceu a Academia Imperial Iraniana de Filosofia como um bastião Tradicionalista. Alvo de ataques em seu país nativo, o Tradicionalismo de Nasr ajudou a inspirar a revolução islâmica de 1979, forçando-o a emigrar para os EUA, onde hoje é professor de estudos islâmicos na Universidade de Washington.
No mundo de fala inglesa, o Tradicionalismo tem sido mais benigno e menos politizado. Seu mais proeminente advogado nos EUA é Huston Smith, autor de “As Religiões do Mundo”, que publicou em 1976 a obra intitulada “A Verdade Esquecida: a Visão Comum das Religiões do Mundo”, contendo a exposição do pensamento de Guénon (incluindo um capítulo ecoando a crítica de Guénon à evolução chamada “Esperança, Sim; Progresso, não”). Na Inglaterra, o aderente mais proeminente desta escola é o Príncipe de Gales, que lançou a Academia de orientação Tradicionalista Temenos em 1990, concebida como um guarda-chuva para seus projetos culturais (Sedgwick, 214).
Também tem ocorrido alguma interpenetração recente entre o Tradicionalismo e a Teosofia: o livro escrito por William Quinn em 1997, “A Única Tradição”, tentou reconciliar os dois lados, enquanto a Sociedade Teosófica imprimiu pela Quest Books “A Unidade Transcendente das Religiões”, um importante trabalho de Frithjof Schuon, o discípulo mais influente de Guénon.
Guénon permanece desconhecido para o público mais amplo (o documentário de Bill Moyers em 1996 sobre Huston Smith não fez nenhuma referência à influência de Guénon) e, ainda que sua presença marcadamente permeie o mundo moderno, ele é desprezado. Atualmente, penso, devemos analisar Guénon com a clareza e discriminação aplicada a qualquer ensinamento esotérico – incluindo a Teosofia. Ele é alguém de brilho incomum, mas contrariamente ao seu auto-retrato, ele não é uma figura olímpica remota e serena. Tinha ojeriza ao mundo ao redor – que não temos dúvida, era tanto pessoal e psicológica quanto espiritual – e, segui-lo muito longe nesta direção,  provavelmente nos levará à confusão e à angústia.

Referênciaa
Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky: Vol. 1, 1861–79. John Algeo, ed. Wheaton: Quest, 2003.
———. The Secret Doctrine. Two volumes. Wheaton: Quest, 1993 [1888].
The Dalai Lama XIV. The Opening of the Wisdom-Eye. 2nd ed. Wheaton: Quest, 1991.
Guénon, René. L’erreur spirite. 2nd ed. Paris: Éditions Traditionelles, 1952.
———. Symbolism of the Cross. Angus McNabb, trans. London: Luzac, 1958.
———. Theosophy: History of a Pseudo-Religion. Alvin Moore Jr. et al., trans. Hillsdale, N.Y.: Sophia Perennis, 2003.
Lemkow, Anna F. The Wholeness Principle: Dynamics of Unity within Science, Religion, and Society. 2nd ed. Wheaton: Quest, 1995.
Lopez, Donald S., Jr. Prisoners of Shangri-La: Tibetan Buddhism and the West. Chicago: University of Chicago Press, 1999.
Quinn, William W., Jr. The Only Tradition. Albany: State University of New York Press, 1997.
Sedgwick, Mark. Against the Modern World: Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century. Oxford: Oxford University Press, 2004.
Tigunait, Pandit Rajmani. Seven Systems of Hindu Philosophy. Honesdale, Pa.: Himalayan Institute, 1983.
Yoganananda, Paramhansa. Autobiography of a Yogi. 6th ed.
Los Angeles: Self Realization Fellowship, 1955.


terça-feira, maio 24, 2011

Crítica à Krishnamurti. O “Não-Sistema” ou “Não-Pensamento” de Jiddu Krishnamurti – Uma Crença Perigosa sob a Capa de Autoconhecimento

“(...) pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade”.
Krishna jovem. Sempre elegante.
Ele foi chamado de o “Instrutor do Mundo” e veículo do Senhor Maytreia (ou Buda Vindouro) por seus mentores Charles W. Leadbeater e Annie Besant, respeitáveis lideranças da Sociedade Teosófica em Adyar, Índia. Responsável direto por uma organização com milhares de membros ao redor do mundo – A Ordem da Estrela do Oriente - e investido de atribuições condizentes com seu elevado posto e missão, Jiddhu Krisnamurti não só renunciou ao título de “Buda” como também frustrou as expectativas nele depositadas por uma enorme multidão de seguidores (que esperava ardentemente pela mensagem de um novo condutor espiritual).

Ao abrir mão de seu status de “guia” e devolver propriedades da ordem aos antigos donos, o menino a quem se atribui a redação de “Aos Pés do Mestre” (obra prima do ocultismo ditada por um Adepto a Krishnamurti) optou por um estilo de vida marcado pela transmissão ininterrupta de uma filosofia particular – se assim se pode dizer- baseada no autoconhecimento e no abandono dos condicionamentos como caminho preferencial para a autorrealização.

Há obras que difundem a visão de um Krishnamurti ingênuo e acostumado aos prazeres e facilidades de uma vida pequeno-burguesa, sempre acompanhado por belas damas em amáveis herdades, castelos e hotéis luxuosos da Europa Ocidental ou então desfrutando de aconchegante estadia em aprazíveis mansões da Califórnia.

Um verdadeiro Gentleman
Como um místico ou homem espiritual, desligado do mundo grosseiro da matéria, vemos por outro lado um Krishnamurti sempre cercado por autoridades do mundo politico, mestres religiosos afamados, autores mundialmente aclamados (Aldous Huxley, para citar um exemplo, foi seu amigo íntimo) e um punhado de supostos amigos como Rajagopal - seu editor por muitas décadas - que o manipulavam visando abocanhar os lucros da “Krishnamurti Foundation”. Em linhas gerais, este é o relato presente no “Babuíno de Madame Blavatsky”, um livro concebido como libelo contra a Nova Era, unilateral, injusto e insanamente mordaz para com todo pensamento esotérico dos séculos XIX e XX que o autor não se esforçou por compreender.

Outra narrativa dos fatos envolvendo esta notável personalidade do século XX pode ser encontrada na biografia escrita por Mary Lutyens e publicada no Brasil pela Editora Teosófica. Ao se assenhorar dos detalhes da vida do biografado, paulatinamente, o leitor sério não pode se equivocar sobre seu verdadeiro caráter e propósitos, condizentes com o que se espera de um homem digno e decente.

Filha de uma mulher que por muitos anos foi admiradora e amiga de Krishnamurti e tendo ela mesma intimidade tanto com o biografado como com os requisitos da vida espiritual e suas nuances, Lutyens estava habilitada para lançar luz sobre pontos outrora obscuros de K. enquanto homem sujeito às vicissitudes da vida ordinária. Apresenta um ser complexo, sujeito a processos espirituais que não podiam ser compreendidos pela maioria das pessoas e alguém que possuía em alto grau um denodado senso de deve a cumprir na sua passagem pela terra. Atendendo seja à sua própria vontade ou a de alguma misteriosa entidade que ele jamais nomina (às vezes fala da “coisa” em tom vago), é certo que Krishnamurti elaborou idéias originais e impressionou fortemente muitas pessoas com elas. Se estavam corretas, ou se atendiam àqueles que buscam respostas para os dilemas do espírito, só uma análise serena pode revelar.
De forma mais transcendental, fugindo do escopo mais limitado da ciência convencional, inúmeras testemunhas teriam visto e ouvido Krishnamurti ao longo de diferentes fases da vida sendo submetido a dois processos distintos, mas que podem sugerir o fato de seu corpo físico ter sido usado durante parte do tempo pelo que chamava de “morador interno”, aquele ser ignoto que poderia estar empregando-o como um veículo purificado e preparado para uma missão específica ao longo de sucessivas encarnações. Seus fins reais, entretanto, possuíam uma intencionalidade que escapava á compreensão do próprio K.

Um destes processos consistia em periódicos episódios de aguda dor - sobretudo ao longo da coluna espinhal – que para alguns podem remeter à tese da subida da “serpente”, Kundalini. Outro mais frequente ( verificado durante quase toda sua vida adulta ) consistia no que o próprio K. apelidava de “meditação”, um estado de plenitude e bem aventurança que experimentava, às noites, em seu leito. Há circunstâncias outras envolvidas na vida de K. que comprovam tanto sua clarividência e extrema intuição e sensibilidade assim como a presença generalizada de um sentimento de segurança e proteção que se estendia a todos que estavam diante dele. Além do sobrenatural envolvido em tais coisas, sobrepujando todos estes fatos (até certo ponto subjetivos e apoiados na observações de pessoas próximas) estava o claro testemunho fornecido pelas palestras públicas e escritos de um jovem não erudito e pouco versado nas disciplinas universitários, arredio aos estudos e com pouco treino em argumentação lógico-dialética, que, repentinamente, passou a falar com grande desenvoltura sobre espinhosos temas filosóficos.

Embora a vida de Krishnamurti em si seja intrigante e, em parte, maravilhosa, seus ensinamentos merecem ser analisados criticamente, sem a complacência daqueles que em público o declaram um mero “amigo”, um conselheiro (não alguém a que se deva seguir, uma vez que em seu próprio testamento ele exigiu isso) mas, em privado , idolatram-no como um guru do autoconhecimento. Estas interrogações sobre o pensamento de Krishnamurti são válidas na medida em que razoável parcela da literatura de autoajuda contemporânea (Osho, Eckhart Tolle, o “zen budismo” de revista e outros) parece enraizar-se no “leit motif” krishnamurtiano ao usar liberalmente expressões (pois K. jamais aceitaria o termo “conceitos”) como “condicionamentos”, “liberdade”, “viver o presente”, “a verdade é relativa”, “tempo psicológico e cronológico” e outras mais.

Tudo o que Krishnamurti disse ou escreveu carrega uma generosa dose de verdade. Fala diretamente à nossa intuição, parece correto a princípio. Mas somente a princípio. Em minha opinião diz algo, paradoxalmente, a dois extremos: o homem espiritual colocado em patamar mais elevado ou aquele que ainda sequer começou a galgar os degraus da verdadeira espiritualidade e se sente confortado com uma mensagem que faz com que as coisas pareçam ser mais simples do que são. O homem intermediário, aquele que tem algum conhecimento dos ensinamentos dos mestres espirituais, o homem que sofreu influencias de tipo superior e “cruzou” a estreita cerca entre o mundo profano e o ocultismo, este só pode encontrar em Krishnamurti um colega de jornada tão perdido quanto ele, não um amigo fiel. A voz sedutora do indiano lhe sussurra uma alternativa mais simples e menos penosa que o trabalho e a luta incessante contra si mesmo, algo muito nocivo ou mesmo mortal para o aspirante à vida superior.

Muitos de nós gostariamos de “tocar a orla” da iluminação com pouco esforço. Justamente esta promessa parece estar implícita em muitas das transcrições de palestras e escritos sobre K. Nestes viceja a proposição latente de que é possível dispensar guias, não abrir mão de qualquer coisa que seja e dedicar horas e que mais horas ao estudo ou à meditação é mera tolice. A própria meditação é apenas uma projeção do que está arraigado dentro de nós em nossa mente, uma enorme tolice. Também poderíamos descartar as opiniões que outros nutrem a nosso respeito ou mesmo relacionarmo-nos com eles. Amigos, pais, professores não importam. Não só qualquer dependência deles é nociva como podem nos inspirar padrões de comportamento tradicionais que irão nos impedir de descobrir nossos próprios caminhos.

Como regra, Mestres e gurus devem ser encarados com incredulidade. Krishnamurti os odiava, às vezes com razão como quando se entediou com a estúpida tagarelice de Maharish Mahesh Yogi em um vôo em direção à Índia. Na aprendizagem há apenas o processo de aprender, não há professores ou alunos. É mais difícil formar um bom professor que um bom aluno, pois o primeiro precisa, antes de mais nada, aprender a aprender e ouvir. O professor precisa ser ensinado.

Ora, isto vai de encontro a todo um precioso conjunto de instruções do Oriente e do Ocidente que defendem a importância de um instrutor qualificado, um Mestre que possa adequadamente orientar o discípulo ao longo de um percurso tortuoso, porém eivado de recompensas para os que ultrapassam a reta final. Não são “mestres” no sentido usualmente atribuído ao título no Ocidente, professores arrogantes empoleirados em suas cátedras caquéticas a arrotar uma pretensa erudição morta extraída dos livros. O instrutor de que fala a antiga tradição nada mais é que um homem e mulher que por si mesmo alcançou um estado superior de consciência, tornou-se um “Arhat”, um “Bodhisattwa”, um “Arya Bodhisattwa”, um “Buda”, um “Cristo”.

Por sua enorme compaixão e magnanimidade, os grandes conquistadores do mundo legaram à humanidade instruções precisas sobre a maneira como eles próprios obtiveram a vitória. Estas não são necessariamente idênticas, mas semelhantes, o que prova que os princípios e o método são inequívocos. Estas são as características dos ensinamentos dos verdadeiros instrutores. Eles não se dedicam apenas a descrever os estados que experimentam mas fornecem aos homens o método, o “algoritmo” para a resolução do grande problema humano. Por isso se diz do Senhor Buda, como exemplo, que ele fornece “instruções precisas e que não nos enganam”. Já o pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade.

Para Krishnamurti, nas vidas dos homens são impressas basicamente duas heranças. Uma de origem material, ou seja, sua posição social, bens e obrigações para a coletividade. Outra é uma herança de caráter “psicológico” e que forma sua personalidade, enraizada em concepções, tradições, sistemas de pensamento e crenças que lhe foram inculcadas desde que nasceu na família, na escola ou em outros ambientes sociais. Estas duas marcas são perenes e criam condicionamentos dos quais ele dificilmente se livre, a menos que cultive a atenção no seu quotidiano, certa capacidade de estudar a si mesmo mediante a observação cuidadosa e sistemática dos seus sentimentos, pensamentos e atos, investigando-os e descobrindo por si mesmo porque eles são o que são.

Nesta via, que é íntima, não cabe o conhecimento formal, livresco. Este se adquire pela leitura e áridos estudos na escola ou nas religiões. Estas prescrições das escrituras sagradas de todos os cultos são apenas registros das experiências de outros homens e mulheres. Eles não são a verdade. A verdade em si não existe, ela deve ser descoberta sempre, a qualquer momento, mediante o autoconhecimento. Mesmo o autoconhecer-se não tem fim, ou verdadeiro conhecimento não vem de fora mas de dentro. Os textos podem apenas lhe trazer informações de segunda mão, mas o que importa é sua própria vivência, a compreensão que se tem desta vivencia quando é anulado o “Eu observador”.

Parte-se todo o tempo do princípio de que nada se pode aprender no mundo. Nada é integral, verdadeiro. Tudo se reduz a uma imensa rede de impressões captadas por um “Eu” egóico, um feixe de sentimentos, pensamentos, emoções que julga ser você porém não é o seu “Eu verdadeiro”. A mente atua como um experimentador, o “censor” que diz que aquilo é bom ou ruim desde que satisfaça ou não os seu desejo de prazer. Não se pode fazer nada a respeito disso, apenas deixarem os pensamentos flanarem e observá-los. Quanto mais atento o observador, tão mais rápido a mente irá se aquietar e você passará a perceber as coisas na sua integralidade. O bosque lá fora, os passarinhos crocitando no jardim, os gatinhos ronronando e os peixes na Lagoa cantarão hinos ao cosmos e o indíviduo (ou o não indivíduo) terá diante de si a verdadeira vida una.

Dizendo-se contrário a todos os sistemas de pensamento Krishnamurti lançou as bases do seu próprio. Nele não se reserva qualquer função ao esforço e ao gradual controle das faculdades inferiores do homem, o que deixa de ter qualquer importância. Não há qualquer hierarquia de seres no universo ou meta evolutiva, tudo se embaralha em um eterno processo de busca da autoconsciência rumo a uma vaga reintegração ao Todo. Nada impede, contudo, que o homem goze e saboreie os prazeres do “presente”, do “agora”. Não é preciso ter – como ele próprio salienta – compromissos com quaisquer causas terrestres. Estas causas apenas refletem um sentimento inato e egoísta de autogratificação. Nada de ser caridoso, nada de combater à guerra fratricida, nada de lutar em prol dos animais ou defender a natureza. Libertemo-nos de todo esse entulho imposto por nosso Ser “autocentrado” e sejamos atentos, observando tudo com esmero. Este é o “não-sistema filosófico” ou “não-pensamento” de Krishnamurti, a base ideal para uma era sem valores ou qualquer perspectiva de futuro como a nossa.

segunda-feira, abril 12, 2010

OCULTISMO Versus CIÊNCIAS OCULTAS

OCULTISMO Versus CIÊNCIAS OCULTAS
Excerto

IN: BLAVATSKY, H.P. Ocultismo prático e as origens do ritual na igreja e na maçonaria. Clássicos Pensamento. São Paulo: Pensamento, 2010.

“Esta última palavra certamente se presta a equívocos, traduzida que foi da palavra composta Gupta-Vydia, ‘conhecimento secreto’. Conhecimento de quê, entretanto? Algumas palavras sânscritas podem nos ajudar.
Há quatro nomes (entre muitos outros) para designar as várias espécies de conhecimentos ou ciências esotéricas ou mesmo exotéricos Puranas. São elas: (1) Yajna-Vidya, conhecimento das forças ocultas que podem ser despertadas na natureza a partir de certas cerimônias e ritos religiosos; (2) Mahavidya, ou ‘magnífico conhecimento’, a magia dos cabalistas e das seitas Tantrika, quase sempre feitiçaria da pior espécie; (3) Guhya-Vidya, conhecimento das forças místicas que habitam o som (éter), presentes, por conseguinte, nos mantras (preces e ladainhas cantadas), segundo o ritmo e a melodia usadas; em outras palavras, um espetáculo de magia baseado no conhecimento das forças da natureza e em sua correlação; e (4) ATMA-VIDYA, palavra cuja tradução é simplesmente ‘conhecimento da alma’, verdadeira Sabedoria segundo os orientalistas, mas cujo significado é muito mais amplo do que esse”.

Esta última é a única modalidade de ocultismo que os teosofistas, aqueles que se consiram admiradores da ‘Luz no Caminho’ ( (Light on the Path), que se querem sábios altruístas, deveriam se esforçar por obter. Tudo o mais não passa de um ramo ou outro das ‘ciências ocultas’, ou seja, métodos que visam ao conhecimento da essência última de tudo que existe no reino na natureza - como os minerais, as plantas, os animais, logo, dos fatos que dizem respeito ao domínio da natureza material, por mais que tal essência continue continue invisível à compreensão da ciência.

O candidato tem que escolher decididamente entre a vida mundana e a vida do ocultismo. É inútil e vão tentar juntar as duas coisas, pois ninguém pode servir a dois senhores e satisfazer a ambos. Ninguém pode ao mesmo tempo servir ao corpo e à alma superior ou cumprir com seus deveres familiares e universais sem privar uma coisa ou outra de seus direitos; assim também, o aspirante ou se dispõe a ouvir a ‘vozinha’ e deixar de ouvir o choro de seus pequenos, ou bem atende a estes e permanece surdo à v voz da humanidade. Para todo homem casão que busca o verdadeiro ocultismo prático e não a sua filosofia teórica, isso seria uma tarefa interminável e enlouquecedora. Pois ele estaria sempre hesitando entre a voz impessoal do divino amor da humanidade e a voz do amor pessoal, terrenal. E isso somente conduz ao fracasso numa ou noutra direção, ou até mesmo em ambas. Pior que isso: todo aquele que, tendo se comprometido com o OCULTISMO, rende-se às delícias do amor ou da cobiça humana, sentirá imediatamente as conseqüências - será irresistivelmente arrastado do estado divino impessoal para o plano inferior da matéria. A autogratificação sensual ou mesmo mental implica a perda imediata das faculdades de discernimento espiritual; a voz do MESTRE não mais poderá ser distinguida da voz das próprias paixões ou mesmo daquela de um Dugpa, nem o certo do errado, nem a moral sadia do mero casuísmo”.

“Uma vez equivocados e ainda assim persistentes no equivoco, muitos se recusam a reconhecer os seus erros, afundando-se cada vez mais no lamaçal. E muito embora seja a intenção que em principio determina se a magia é branca ou negra, nem por isso o resultado da feitiçaria mais involuntária deixará de produzir um mau karma. Já se disse muitas vezes que feitiçaria é qualquer espécie de influência maléfica a que se procura expor o outro, fazendo com que sofra e, por conseguinte, provocando o sofrimento também de outros. O karma é como uma pesada rocha a despencar nas águas calmas da vida, produzindo círculos cada vez mais amplos que se estendem, longamente, quase ad infinitum.
Assim produzidas, as causas exigem efeitos posteriores como evidenciam as justas leis da retribuição.
Tudo isso poderia ser evitado em grande parte se as pessoas simplesmente renunciassem ao exercício de práticas cuja natureza ou importância elas não compreendem. Não se pode exigir que alguém carregue um fardo mais pesado do que suas forças permitem”.

quinta-feira, junho 04, 2009

História Oculta da Humanidade - Idade Moderna (De John Dee à Aurora Dourada - Golden Dawn - ao Novo AEON)

John Dee e Edward Kelley - auxílio á Rainha da Inglaterra e criação do "British Empire", o Grande Império Britânico. Derrota da forma como Felipe II encarava o catolicismo genuíno, maculada pela longa luta contra os árabes e libertação da Espanha e Portugal, infelizmente manifesta na criação de sua "invencível" armada - aniquilada pela evocação dos anjos enoquianos pelo Sr. John Dee que apelaram aos poderes das quatro torres - e criação das bases do futuro estado democrático na Europa e do moderno capitalismo.
Manifestos Rosa-Cruzes - Alemanha. Surgimento do luteranismo. Os príncipes se engalfinham pelo poder político, alguns aliados a Lutero, outros ao Papa. Em meio ao luto por milhões de vítimas inocentes ressurge a Rosa Cruz e Christian Rosenkreuz. Jacob Böehme e os rosa-cruzes e verdadeiros teósofos alemães reencarnam.
Vésperas da Revolução Francesa - Os Grandes Mestres do Mundo Oculto, a Hierarquia Oculta que governa o mundo determina a vinda à terra, especialmente a Europa, sob a forma do Conde de Saint Gérmain e o ser inferior a ele na luz, mas não em papel, Cagliostro. Preparação para os grandes eventos que se sucederam à revolução francesa, a ascensão de Bonaparte e sua inclinação ditada pelos mestres em direção ao hermetismo egípcio e a decifração de sua escrita, os hieroglifos. Surgimento do Adepto Champollion.
Inglaterra, sec. XIX - Auge da Revolução Industrial. Surgimento de movimentos satânicos e materialistas na Inglaterra e continente, em particular o socialismo fabiano e a social-democracia, além do anarquismo bakunista assassino - com a mediação exercida pelo grande Richard Wagner na Alemanha, como contraponto místico-cultural à barbárie que brotava naquele período. Nestes anos os mestres e adeptos ocultos preparam homens e mulheres que resgatariam as velhas tradições herméticas em uma nova ordem que viria a corrigir e apeiçoar a maçonaria teórica e operativa: a "Golden Dawn" ou "Aurora Dourada. Seus grandes expoentes são Wescott, Mathers e Waite.
Ainda no século XIX, Helena Petrovna Blavatsky, acionada pelos grandes Mestres ou Mahatmas do Ocidente e Oriente é instada a interpretar o Livro de Dzian - tentativa antes realizada por Eliphás Lévy ao ter acesso ao Sépher Dzeûnita. Este, cedendo aos caprichos da juventude perdeu suas faculdades ao tentar métodos equivocados de evocação que o mergulharam em profunda melancolia. (a célebre operação  dirigida ao suposto fantasma de Apolônio de Tyana). Publicação da Doutrina Secreta e Ìsis sem Véu, erigindo-se uma ponte para a união entre Ocidente e Oriente e fundação da moderna Índia através da Sociedade Teosófica em Adyar.
Século XX - A Luz infinita ganha manifestação no grande Mestre Gurdjieff (João em carne na ilha de Patmos) e seus discípulos. Frater Perdurabo (Therion) anuncia o advento do AEON de HORUS e se afirma a reencarnação de Edward Kelley (o que em si traduz a dualidade do período), aproximando-se o desfecho do ciclo histórico ditado pela hierarquia oculta do mundo.

domingo, julho 20, 2008

"Teosofia" e Teosofias

Alguns amigos e amigas insistem em reanimar o vetusto debate sobre a essência da Teosofia. A Teosofia ou “Sabedoria Divina”, “Brahma Vhydya” é muito anterior a Madame Blavatsky e à Sociedade Teosófica, o que em si não é novidade, sendo reiterado em inúmeras ocasiões pela mesma. O nome nos foi transmitido pelos filósofos alexandrinos, os ”philaletheus” ou “aquele que ama a verdade” e “(...) o nome Teosofia data do terceiro século da nossa era e foi introduzido por Amônio Saccas e seus discípulos, os quais iniciaram o Sistema Teosófico Eclético”. E continua: “O objetivo principal dos fundadores da Escola Teosófica Eclética era um dos três objetivos de sua sucessora moderna, a Sociedade Teosófica, ou seja, reconciliar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema de ética comum, baseado em verdades eternas”. E ainda: “A ‘Religião-Sabedoria’ era una na antiguidade; e a uniformidade da filosofia religiosa primitiva é comprovada pelas doutrinas idênticas ensinadas aos iniciados durante os MISTÉRIOS, uma instituição universalmente difundida em outros tempos. ‘Todos os alunos antigos indicam a existência de uma única Teosofia anterior a eles. A chave que desvendar um terá de desvendar todos os outros; de outra forma não poderá ser a chave verdadeira’”.
Não somente posterior aos divinos teósofos das luzes como Böehme, Eckartshausen, não propriamente uma superação dos alquimistas herméticos da idade média, não uma sucedânea dos cabalistas e magos franceses, a exemplo de Éliphas Lévy. A teosofia de Blavatstky e sua escola entesouram as mesmas e magníficas verdades de outras teosofias que, essencialmente, são aspectos de uma mesma sabedoria divina, que remonta ao princípio dos tempos. Claro que uma escola deste gênero não se limitaria à tradição oriental. Todo o esforço empreendido por HPB se voltava, naturalmente, para a promoção de uma síntese do conhecimento religioso – cabala, hermetismo, religiões tradicionais, sistemas do Oriente – embora o componente especificamente hindu tivesse função relevante neste edifício intelectual.
Todos somos potencialmente teósofos, desde que o emprego de nossos faculdades superiores possibilitem-nos beber do conhecimento divino que emana dos planos superiores. O teósofo “de gabinete”, compilador de informações livrescas ou aquele que aguarda eternamente a vinda de um “mestre” que venha lhe instruir sobre a “senda iniciática” não são os melhores modelos nesse aspecto. A filiação à Sociedade Teosófica ou a preferência pelas obras que nos foram legadas por HPB também não delimitam o ser “teósofo”. A própria Blavatsky sempre se declarou um humilde instrumento a serviço dos mestres e nunca reinvidicou para si mesma condição superior à de simples mortal.
Além do cerceamento da pesquisa teosófica ao âmbito da Sociedade Teosófica e de HPB (há quem seja visceralmente contra, inclusive, outros teósofos como Charles Leadbeater ou Annie Bésant) ocorre mormente a delimitação dos estudos aplicados ao cânone blavatskyano ou ao repertório seguido pela própria Blavatsky enquanto viva. Este procedimento metodológico excluiria de antemão como “temas não-teosóficos”, tudo aquilo que HPB deixara de abordar como o que manifestamente desprezava. Dito de outra forma, nada de abordar assuntos do século XX, culturas africanas e latino-americanas, xamanismo, wicca, Aleister Crowley, certas escolas ocultistas etc. Tudo isso não tem características “teosóficas” por não ter sido abordado por Blavatky ou não constar das publicações da S.T.
Bem, onde ficam objetivos como a promoção da “fraternidade universal”, o estudo dos “poderes latentes do homem” “and so on”. Perguntem a Madame Blavatsky! Mas cuidado, porque o espiritismo é “não-teosófico”...

sábado, novembro 17, 2007

Blavatsky sobre o Karma


A evolução espiritual do homem Imortal Interno constitui a doutrina fundamental das ciências ocultas. Para reconhecer esta evolução, o estudante deve crer: a) na vida Universal Una e independente da matéria; b) nas Inteligências individuais que animam as distintas manifestações deste princípio.
A Vida Una está estreitamente relacionada com a Lei Única, que governa o mundo do SER: KARMA.
No sentido esotérico, está é simples e literalmente "ação", ou melhor, "uma causa que produz zeu efeito". Esotericamente, é coisa distinta em seus efeitos morais de maior alcance. È a Lei de Retribuição Infalível.
É um princípio impessoal, ainda que sempre presente e ativo. Não podemos chamá-lo Providência, pois é inflexível.
Os ciclos são também subservientes aos efeitos produzidos por esta atividade.
O Átomo Cósmico Ùnico se converte em sete Àtomos no plano da matéria, e cada um é transformado num centro de energia; esse mesmo Átomo se torna sete raios no plano do Espírito; e as sete Forças criadoras da Natureza irradiando da Essência-Raiz... seguem umas o caminho da Direita e outros o da Esquerda, separadas até o fim do Kalpa, e contudo em estreito amplexo. O que os une? - KARMA.
Os Átomos emanados do Ponto Central emanam, por sua vez, novos centros de energia, os quais sob o poderoso alento de FOHAT, começam sua obra de dentro para fora e multiplicam outros centros menores. Estes no curso da involução e da evolução, formam por sua vez, as raízes das causas de desenvolventes de novos efeitos, desde os mundos e globos portadores de homens até os gêneros, espécies e classe dos Sete Reinos, dos quais só conhecemos quatro.
Os Dhyan Choans e todos os Seres Invisíveis, os Sete Centros e suas Emanações Diretas sãoo reflexo da luz única. Mas os homens estão muito afastados deles, pois todo o Cosmos visível se compõe de "seres produzidos por si mesmos", as criaturas do karma.Todas as coisas saíram do Akasha, obedecendo a uma Lei de Movimento inerente nele e,depois de certa existência, se dissipam. Os principais acontecimentos da vida de cada um estão sempre de acordo com a constelação sob a qual nasce, ou com as características do seu Protótipo no céu, tanto melhor para o mortal cuja Personalidade foi escolhida por sua Deidade Pessoal (Sétimo Princípio), como sua habitação terrestre.
A cada esforço de vontade para a purificação e união com o Deus próprio, se interrompe um dos Raios inferiores, e a entidade espiritual do homem é atraída, cadavez mais alto, para o Raio que substituiu o primeiro, até que, de Rai o em Raio, o Homem Interno é absorvido no raio único e mais elevado do Sol-Pai. O nosso destino está escrito nas estrelas.
O homem é um agente livre durante sua estada na terra.
Ele não pode escapar ao seu destino dominante, porém pode escolher entre dois caminhos que o conduzem naquela direção, e pode chegar ao pináculo da degraça - se tal foi decrtado - seja com a nívea roupa do mártir, ou com as manchadas vestes de um voluntário dos processos iníquos, porque há condições internas e condições externas que afetam a determinação de nossa vontade sobre nossas ações e em nosso poder está seguir qualquer dos dois caminhos. O destino é guiado pela voz celeste do invisível Protótipo exterior a nós, ou por nosso mais íntimo astral ou Homem Interno que, frequentemente, é o gênio do mal da entidade encarnada, o homem.
Ambos guiam o homem externo, mas um tem de prevalecer, e desde o princípio mesmo da invísivel querela, a implacável Lei da Compensação intervém e segue seu curso acompanhando, fielmente, as flutuações da luta.
Quando está tecido o último fio, o homem está, aparentemente, envolvido nas malhas que ele teceu, e se encontra sob o império do destinho que ele mesmo formou, e o destino leva-o como uma pluma no torvelinho; isto é o Karma. A natureza sempre atua com propósitos determinados.
Há uma lei de progresso ascendente por ciclos; as volições, interesses e atividades constituem os instrumentos e os meios do Espírito do Mundo para alcançar seu objeto, trazendo-o à consciência e conhecendo-o, e este fim não é outro que se encontrar a si mesmo, vir a si mesmo e contemplar-se a si mesmo em atualidade concreta.
Há uma predestinação na vida geológica de nosso globo, assim como na história passada e futura das raças e nações, estreitamente relacionada com o Karma e os Ciclos. Estes Ciclos, rodas dentro de rodas, não afetam de uma só vez e ao mesmo toda a humanidade.
O Grande Ciclo abarca o progresso da Humanidade desde a aparição do homem primordial de forma etérea. Ele circula através dos ciclos internos da evolução progressiva do homem, desde a etérea até a semi-etérea e puramente física; baixa a redenção do homem de seu vestido de pele e matéria, depois do que continua o seu curso para baixo, e depois para cima, para recolher-se na culminação de uma Ronda, quando a Serpente Manvantárca engole sua causa e passaram Sete Ciclos Menores. Porém, dentro destes há outros Ciclos Menores de Raças e Nações, independentes uns dos outros.Somos nós, nações e indivíduos, que pomos Karma em ação e o impelimos em sua direção. O único decreto de Karma, eterno e imutável, é a harmonia absoluta no mundo da matéria como é no mundo do espírito.
Nâo há desgraça ou incidente em nossas vidas cujas causas não possam ser encontradas em nossas próprias obras, nesta ou noutra vida.
Karma Nemesis não é mais que o efeito espiritual dinâmico de causas produzidas e de forças postas em atividade por nossas próprias ações.
É uma Lei de Dinâmica oculta que assim se enuncia: "uma quantidade dada de energia, desenvolvida no plano espiritual ou no astral, produz resultados muito maiores que a mesma quantidade desenvolvida no plano físico objetivo da existência. A supressão de uma só causa má suprimiria não um só, mas muitos maus efeitos. O homem é o seu próprio Salvador e o seu próprio destrutor.

domingo, março 11, 2007

Cristo versus Jesus

Estas são observações que fiz na Comunidade "Teosofia e Esoterismo" do Orkut, em resposta a uma indagação sobre a existência, ou não, do Jesus histórico.

"Chréstés" é aquele que serve a um oráculo ou um Deus, tanto que o primeiro escritor cristão, Justino mártir, designava "chrétianos" a seus correligionários. "Chrestos" para os pagãos - também na Alexandria Helênica - era um iniciado posto à prova, um candidato a hierofante. Quando alcançava a sua meta e havia sido UNGIDO (isto é, friccionado com óleo como todos os iniciados) seu nome era transformado em "Christos", o "purificado", segundo a linguagem dos "mistes", mais esotérica. Era aquele que já havia percorrido o caminho ou a senda. È claro que muita coisa foi apagada dos anéis do passado e das chamadas escrituras porque a ninguém interessava dar conhecimento que o HOMEM, Jesus, era um INICIADO (inclusive muitos termos empregados pelos apóstolos eram comuns aos mistérios gregos) que alcançou o ESTADO DE CRISTO. Sobre esse tema, aliás, já debatemos muito nesta lista
Por acaso eu estava com o volume V da "Doutrina Secreta" nas mãos hoje e sua pergunta pareceu-me até proverbial. Na Seção XXXII H.P.B. retomar uma digressão já apresentada em "Ísis sem Véu" sobre as diferenças entre "Chrestos" e "Christos". "Em 1877, quem escreve estas linhas, apoiando-se nas opiniões de eminentes eruditos, atreveu-se a afirmar que há grande diferença entre os termos Chrestos e Christos, diferença que encerra profunda significação esotérica. Porque, enquando Christos quer dizer "viver" e "nascer para uma vida nova", Chrestos, na linguagem da iniciação, significa a morte da natureza inferior ou pessoal do homem; o que dá a explicação do título bramânico de "duas vezes nascido". E finalmente afirmou que:
"muito tempo antes do Cristianismo havia crestãos, e entre eles os essênios".
Citando LEPSIUS, diz: "A palavra Nofre significa Chrestos (o bom), e que 'Onofre' um dos nomes de Osíris, equivale a 'manifestação da bondade de Deus. Sobre isto diz Mackenzie: 'Naqueles primeiros tempos não era universal o culto de Cristo, isto é, não se havia ainda introduzido a Cristolatria; mas desde muitos séculos antes já existia o culto de Chrestos (o Bom Princípio), que até sobreviveu à difusão do Cristianismo, do que fazem prova monomentos existentes até hoje... E há um epitáfio cristão com os seguintes dizeres:
"Jacinte Darisaion Desmosie Pros Kreste Xaire"
Por fim, desconheço qualquer "deus solar" denominado Crestus em Alexandria. Sei que a mescla de cultural de Alexandria gerou um Júpiter-Amon ou um Serapis, mas nenhum "Crestus" (não será Creso, o famoso rei grego?). Bem, de qualquer forma Jesus é citado por Flávio Josepho (na "História dos Hebreus, obra completa publicada em 1990 pela CPAD no Brasil) e estudado por Mead (como disse a Aláya), Ernest Rénan e tantos outros. Também não faria sentido "criar" um "Deus" Jesus, pois até o terceiro século D.C. os cristãos eram ainda um pavor para muitos romanos e outros povos (os romanos estavam mais interessados em perseguir o culto de Ìsis e outras coisas). Quanto à Igreja Católica, ela é uma criaçâo recentíssima. Leia os "Crimes dos Papas" do Sr. Maurice Lachatre para se inteirar da estória de terror desta instituição, que só surgiu após muitas lutas do Bispo de Roma com outras igrejas do Oriente.
Agora vai uma opinião particular. Quem já leu com cuidado o Novo Testamento - não falo dos apócrifos, mas do convencional - nota que o discurso de Jesus nada tem de pitagórico, isto é, os elementos fundamentais da filosofia pitagórica - tal como nos chegou - não estão presentes ali. Nem mesmo os elementos do neo-platonismo (ambos acreditavam em formas diferentes de reeencarnação, o prínpio das emanações do segundo, hábitos alimentares etc). Bem, mas se tomarmos a posição de discípulos como Paulo, aí sim se nota a onipresença da filosofia helênica mas, nem assim, da sua faceta neo-pitagórica (pelo que já li, até Paulo foi acusado de ser Apolônio de Tiana também, será que Apolônio era Jesus e Paulo, ao mesmo tempo, ou esperou o primeiro morrer?). Na minha humilde opinião eu vejo mais no Adepto Paulo uma profunda ligação com o estoicismo e até algumas nuances de epicurismo (que estava longe de ser um mero "culto ao prazer"). Tanto que há muitos anos atrás, ao ler o catecismo romano (coordenado pelo impagável Ratzinger...) o que me chamou atenção foi o fato de suas "virtudes capitais" serem quase as mesmas preconizadas por Sêneca e Cícero.
Então a Igreja Católica romana era mais romana que católica? O próprio grego do novo testamento era o "koiné", uma versão simplificada (como o inglês moderno) e que podia ser facilmente difundida pelo mundo helênico, daí, talvez, o sucesso "mercadológico" do cristianismo primitivo, combinado com elementos d da primeira filosofia de "auto-ajuda" que se tem notícia na história, o estoicismo-epicurismo... Mas estas são impressões próprias...