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quinta-feira, maio 23, 2013

Felicidade e Qualidade de Vida

Felicidade e Qualidade de Vida



Sentidos da Felicidade

Pouquíssimas palavras são tão mal compreendidas quanto “felicidade”. Trocam-se os fins pelos meios e julga-se feliz aquele que satisfaz seus desejos mais imediatos, usufruindo do que imagina serem os “prazeres da vida”. Mas o alcance da felicidade vai muito além da compra de uma nova TV de plasma ou de um carro novo. Quantos de nós conhecemos em nosso círculo de parentes e amigos, pessoas bem sucedidas, financeiramente estáveis e inseridas em estruturas familiares ou em redes sociais que correspondem ao nosso estereótipo de felicidade? Mas serão elas realmente felizes? Ninguém sabe dizê-lo, pois a felicidade, antes de tudo é uma disposição interior de espírito. Em segundo lugar, há indícios de que este estado não está relacionado a fatores como posse, poder, atividade desenfreada (como a obsessão por exercícios físicos, aventuras, viagens sem fim e êxito nos negócios) ou qualquer fator exterior. Na sociedade contemporânea, o forte incentivo à competição e ao ganho monetário é outro empecilho de monta à conquista da verdadeira felicidade, e fonte primordial da angústia que afeta o homem.
Mesmo estes prosaicos filósofos da natureza, os economistas, têm se envolvido com o espinhoso desafio de contemplar a felicidade em seus modelos. Em 1972, um país da Ásia chamado Butão foi pioneiro ao calcular um índice de “Felicidade Interna Bruta” (FIB) que - ao contrário do “Produto Interno Bruto” - incorpora algumas dimensões do ser humano ignoradas solenemente nas medidas “físicas” do bem estar (1). Seu objetivo era criar um indicador adaptado à cultura do país, capaz de evidenciar que ele não era tão pobre quanto se pensava (pois o cômputo apenas da produção de bens e serviços não dava conta de toda a sua riqueza espiritual e cultural).
De fato, muito da percepção limitada que temos da felicidade decorre da ignorância de suas origens etimológicas. Nessa palavra o morfema “feliz” provém de “Fe”, uma raiz latina derivada do indo-europeu “Dhe” que, por sua vez quer dizer “mamar” ou “sugar”. Entre os antigos gregos, o vocábulo “eudaimonia” ou “que tem um poder divino (daimon) bem disposto (eu)” era o que mais se aproximava do que atualmente assinalamos como felicidade, sendo tida como um favor divino e relacionada à prosperidade. Como não pretendemos crer que nossos ancestrais nos séculos IV e V A.C. raciocinavam à maneira reducionista e grosseira dos contemporâneos, optamos por assumir que a primeira interpretação (da boa disposição do poder divino no homem) melhor traduz a acepção clássica de felicidade.
Ademais, no seio da Grécia havia vozes discordantes que relativizavam a segunda opinião, como Eurípedes que vaticinou em sua célebre “Medeia”: “Nenhum homem é feliz (eudaimon) (2). Se a prosperidade (olbos) vem até ele, ele pode ter mais sorte (eutyches) que outros homens, mas feliz, ele não é”. Na Roma do Império, por sua vez, “Felicîtas” (felicidade) era a personificação de uma antiga deusa, usualmente impressa em moedas e que celebrava a boa sorte e o sucesso. Não sem generosa dose de boa vontade, entendemos que aquela deidade simbolizava o fato de que adquirir um bom resultado (ou ter êxito) pressupõe um ponto de origem (o estado atual) e destino (o
estado futuro). Mas para triunfar é preciso percorrer um caminho até a meta. É preciso esforço para ser feliz. Mesmo sob pena de nos atermos quesito tão “materialista” (o êxito ou o sucesso), esta idéia do esforço nos parece uma das mais profícuas chaves dos mistérios da felicidad (3).

Com efeito, filósofos romanos como Sêneca sentenciavam que “(...) todos querem viver felizes, mas não têm a capacidade de ver perfeitamente o que torna a vida feliz. Realmente não é fácil atingir a felicidade, porque, se alguém desviado do reto caminho se precipita para alcançá-la, fica sempre mais afastado da realidade” (4). A felicidade, portanto, comportava mais que retenção de dinheiro ou o dar livre curso às paixões, a simples “alegria” ou o contentamento transitório e não permanente. Era uma inclinação do homem, pois “(...) uma alma reta nunca se transforma nem é odiosa a si mesma, em nada se afasta do melhor modo de viver; o prazer, porém, extingue-se justamente quanto mais deleita, o seu campo não é muito amplo e, por isso, logo sacia, causa tédio e definha depois do primeiro impulso”.

Mais profunda e visceral ainda é a interpretação da felicidade entre as milenares escolas filosóficas e tradições espirituais hindus. Com todas as dificuldades em verter o idioma sânscrito para as línguas ocidentais, o que mais se aproxima da felicidade real e que pode ser experimentada pelo Ser humano é Sat-Chit-Ananda, a tríade existência, sabedoria e bem-aventurança. Ananda ou beatitude (a condição de fato feliz da existência) vem a ser a suprema autorrealização do homem e sua fusão no oceano do divino.

Na prática, por assim dizer, tal experiência tem a ver com aquelas raras circunstâncias em que o homem encontra o divino - não como algo externo a si mesmo - ; mas como uma realidade interna, entregando-se sem limites à contemplação do Todo, Uno ou, simplesmente, Deus. Este momento especial não é privilégio de um punhado de homens e mulheres abnegados. Pode ser experimentado por todos e muitas vezes não nos damos conta daqueles breves instantes em que a intuição nos impele a percepções mais refinadas do ambiente e de nossa relação conosco mesmos e o Universo (5).

Para certos grupos islâmicos como os sufis ou os praticantes Zen budistas um dos atalhos para a “iluminação” (um dos sinônimos de autorrealização) reside nos efeitos instantâneos de alguns acontecimentos fortuitos sobre o sujeito que os experiência. Uma abelha pousando sobre uma pequena flor a desabrochar, gotas de orvalho na relva ou o coaxar de um sapo são suficientes para provocar-lhe uma clara antevisão da beleza do mundo. È o mesmo que dizer - como o fazem certos místicos - que “conhecemos a Deus por seus sinais”(6) e a sintonia com a natureza é um caminho simples e comumente menosprezado para a felicidade suprema.

Outrossim, existem outros campos em que a sensibilidade pode ser apurada , abrindo-se mais uma porta para a autorrealização. Manifestações artísticas como a dança, a poesia, a música e outras também contribuem para assegurar-nos uma vida plena de significado, como bem lembrou uma amiga que, gentilmente, revisou meu texto original. E ela está coberta de razão. O homem que ao longo de seu extenso período de vida (pois entre milhares de espécies a nossa é uma das mais longevas) priva-se de arte é um indivíduo truncado, um pobre coitado cuja alma pode ter se atrofiado definitiva e irremediavelmente.

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*Agradeço a colaboração dos amigos Sylvio de Queiroz Mattoso, Fernanda Duayer Picardi e Nilson Galvão que, gentilmente, revisaram e apresentaram sugestões ao texto. Não suponham pela leitura do ensaio que eu mesmo tenha alcançado o estado de espírito sobre o qual me debruço aqui. Entre falar da felicidade e ser feliz há um longo e penoso caminho.

1 Como o PIB, que é simplesmente o somatório dos preços de todos os bens e serviços vendidos a preços de mercado em determinado período do tempo.
2 LAURIOLA, Rosana. De eudaimonia à felicidade. Visão geral do conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres dos tempos modernos. Revista Espaço Acadêmica no 59, abril de 2006.
3 O homem se fosse sábio ergueria templos ao esforço. Mas aonde quer que ele seja valorizado no mundo, jamais o é como uma das mais importantes forças cósmicas nos planos material ou espiritual, porém amesquinhado a tal ponto que se viu banido de toda reflexão filosófica de fôlego.
4 SENECA, Lucius Anneus. Da vida feliz. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
5 No sufismo ou mística islâmica este modo de ver as coisas é pronunciado. “O coração do sufismo "estánum hadith" (sentença) de Mohamed: ‘Adora a Deus como se o visses, pois mesmo que tu não O vejas, Ele na verdade sempre te vê’. Os fukará procuram assim agir sempre como se estivessem na presença de Deus. Aspiram à “libertação” em vida de todos os entraves colocados pelo lamento passional da alma (nafs) e das limitações e temores engendrados pelo mundo”. AZEVEDO (1996).

sexta-feira, abril 06, 2012

Ocultismo e Alquimia - Nem tanto ao Céu, nem tanto à Terra

Heinrich Khunrath, Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, 1602.

A Alquimia é tradicionalmente a ciência e a arte de transmutar metais inferiores e menos nobres em metais superiores ou produzir uma certa espécie de medicamento ou Elixir da Vida Eterna capaz de conferir estabilidade a quem o ingere desde o momento em que é ministrado. Nos relatos que sobreviveram à impiedosa censura dos contemporâneos e que nos dão conta do real quadro dos indivíduos que beberam o elixir, consta que perderam os dentes e cabelos, sua tez repentinamente mudou de cor, a pele foi deitada por terra como o que sói acontecer com as serpentes e ressurgiram joviais como a mitológica fênix rediviva.  Mas na Alquimia, as dimensões filosófico-espirituais e a operativa só através de grosseira e intolerável manobra - incompatível com o ritmo natural da terra e suas estações  - poderiam ser dissociadas. Nenhum soprador meia tigela acalentaria idéia tão vergonhosa, tão oposta ao espírito da Arte e de uma época em que Fé e Razão caminhavam juntas e a Filosofia não havia sido amputada pelo arbítrio de um imprudente do corpo da Ciência. Ao menos, esta é a opinião deste pobre articulista, um reles soprador que se entretém em noites insípidas com a árida interpretação de textos que nem com a ajuda dos grimórios mais poderosos e a invocação de legiões de gênios instrutores do além poderia corretamente entender.

Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Na leitura de certos escritores dos séculos XVIII e XIX que tanto maravilham, mesmerizam alguns estudiosos do oculto, formando a argamassa do edifício ritualístico de venerandas e róseas ordens que congregam milhares de adeptos nos dias de hoje - sobressai um manhoso "tour de force" para contornar os obstáculos ao perscrutador que queira aventurar-se nos meandros sinuosos do "Jardim Hermético": a redução de um vasto escopo de operações alquímicas, elementos, artefatos, utensílios, e conceitos próprios à arte a um pequeno oratório  (não o panteão da Arte) doméstico de fugazes princípios espirituais mínimos que mais tarde viriam a ser consagrados pela "Nova Era" (a "espiritualidade" vaga, "light", inoculada em velocidade acelerada desde os anos 60 no Ocidente).

Os escritos dos Adeptos da Arte se perdem no caudal da História, desde tempos longínquos. São atribuídos a civilizações ainda mais antigas que engendraram aquela que se ergueu no Egito dos Faraós, passando pelos reinos dos caldeus, assírios, medo-persas, gregos, romanos, os judeus expelidos de sua pátria e a multidão de operadores europeus que desde o domínio islâmico na Península Ibérica fomentaram uma verdadeira "febre alquímica" no continente. Mas estes mesmos textos, cristalinos ou obscuros, simples ou complexos, filosóficos ou voltados para aspectos práticos, quintessenciais ou descendo às minúcias a serem seguidas na lavagem de um cadinho ou retorta, variam na ênfase emprestada a determinados pontos, na sequência das operações, na descrição das "chaves da obra", no uso dos fogos, na escolha dos recipientes e meios, nas fases e fins da obra.

Isto quer dizer que não há nada que aponte em qualquer autor uma tendência inata a tratar a matéria prima como algo sutil e espiritual (um "Azoth" que corresponda à luz astral, por exemplo), os estágios da obra como uma gradual escalada extática (a absorção no UNO) e os elementos constituintes dos metais, o enxofre e o mercúrio (ou o sal) como algo não-material. O contrário também não se pode dizer, embora seja mais difícil crer que uma infindável e bem elaborada nomenclatura combinada  com descrições precisas de intervenções físicas através do manejo de ingredientes igualmente físicos e sobejamente conhecidos à época seja apenas uma forma velada de apresentar descobertas e discutir pequenos resultados entre um grupo de "cientistas" (ao modo popperiano moderno, um "colégico de acadêmicos" que comentam seus "papers" redigidos com método socialmente aceito e ratificado) que se conhecem entre sim e guardam o significado de um  cardápio de sacrossantos termos como um segredo que não confessariam jamais, sob pena de perjuro. A contribuição dos "sopradores" e "Artistas" como um Yazid, um Jabir Ibn Hayyan, o sublime Raimundo Lullius, um Arnold de Villanova e alguns alquimistas do século XVIII às modernas técnicas da ourivesaria, química, ao trabalho com os metais e à própria indústria, com a criação de ácidos, solventes e sais é um fato, não obstante a ignorância instalada intencionalmente no meio universitário e o deboche dos contemporâneos que, aparentemente, se precipitam com sede de Tântalo no abismo da sua própria estupidez.

O aperfeiçoamento de materiais como o vidro e mesmo o requinte dos atuais lápis de cor deve-se à aplicação de alguns "filósofos" (principalmente alemães) que consumiam suas vistas diante da forja, o Athanor, por meses, anos ou décadas, no mais das vezes sem resultados palpáveis. Do seu trabalho não se originava a grande "obra", os metais imperfeitos convertidos no mais puro deles, o ouro com seu mercúrio translúcido e enxofre fixo, mas subprodutos - encarados como a borra imprestável - que, até os dias de hoje fazem a riqueza de países como Alemanha, a Suiça e parte da Europa Central, em especial a Bohêmia. Sem falar na Espagíria, que teve em Teophrastus Bombastus Von Hohenheim, vulgo Paracelsus, seu expoente de proa. Mesmo na atualidade, fração não desprezível da indústria farmacêutica alemã utiliza com proveito receitas de manipulação de plantas que são a base de remédios cuja composição data da longínqua e "ignara" Idade Média, periodo a que os próceres do iluminismo e sua guilhotina arremeteram a caluniosa pecha de "idade das trevas", como se os horrores covardemente perpetrados pelas facções dos revolucionários franceses e seus coevos bochelviques e outros não fossem apenas um tímido reflexo das atitudes viris e algo belas de um Átila ou Gêngis Khan.

Mas esta é apenas uma suposição. Há provas em demasia de que o que se fabricava era ouro, ou o "aurum potabile" a medicina universal. No Oriente é lugar comum o ensinamento de que a busca persistente da verdade, acompanhada por passos da "Yoga" (união) preliminar (a pureza dos atos mentais, físicos, verbais) em fases intermediárias é caracterizada pelo desenvolvimento de poderes psíquicos ("sidhis", em sânscrito) que equivalem à notável capacidade de alterar as propriedades da matérias (ou três qualidades da matéria, ou "gunas",  em sânscrito, "satwa, rajas e tamas", os princípios ativo, negativo e neutro que regem a organização do mundo). Uma vez dotado deste poder, para o alquimista/iniciado a modelagem plástica da matéria é mero entretenimento. Não deixa de ser oportuno mencionar que tais artifícios não são desejáveis por si sós. Cegam o aspirante à vida espiritual e dificultam posteriores progressos ao embriagá-lo com a recém conquistada habilidade de dominar a matéria, afastando-o do real objetivo da senda, a conquista do seu EU superior.

Outra possibilidade, menos nobre porém plausível - sustentada por alguns dos seus biógrafos atuais - é aquela de que os velhos operários da Antiga Ciência, com métodos hoje ignorados, houvessem descoberto técnicas que para os padrões modernos só pudessem ser aplicadas com a fabricação de aceleradores de partículas sofisticados, caros e mantidos em enormes galpões nas Universidades ou centros tecnológicos de grandes corporações. Esta é a hipótese que costumo chamar de "modernosa", frágil e inferior, posto que o ouro alquímico não se compara ao produto da abrasiva agressão ao metal perpetrada por um ansioso desconhecedor da Natureza.

Um terceiro caminho argumentativo que permeia diversos autores assinala que a alquimia, uma arte em seu primórdios associada a tintureiros de Alexandria e da Síria (que cheiravam mal com suas roupas manchadas pela gosma dos mexilhões dos quais era extraída a coloração das roupas que pintavam) ganhou, com o passar do tempo, foro privilegiado em matéria de buscar fazer com que o "vil metal" obtivesse a cor exterior do ouro, o que alguns malandros lograram fazer ao longo da história da humanidade com a gradual sofisticação da técnica de "folhear" a matéria impura ou aplicar-lhe corretivos que momentanemante pudessem iludir um incauto comprador. Particularmente tendo a discordar desta torpe motivação, embora não a exclua de um rol de possibilidades que na singular conjugação de fatores que poderíamos considerar candidatos - ao menos razoáveis - pelo despontar desta estranha ciência como área autônoma do conhecimento há, ao menos, uns 2000 anos.

Ocorrendo ou não fraudes, supondo "poderes" adquiridos para o deleite de um aspirante despreparado ou o desenvolvimento de técnicas apropriadas, os testemunhos da transmutação de metais menos pobres utilizando o pó de projeção (ou não) em prata ou ouro se repetem na literatura, embaraçando até mesmo os críticos mais veementes dos alquimistas, alcunhados de parasitas e supersticiosos remanescentes daquele sombrio intervalo que antecedeu o "Século das Luzes". Não se trata de um polêmico Cagliostro entre maçons egípcios exibindo sua maestria conquistada entre os Hospitalários em Malta, mas as evidências de um Nicolas Flamel, do Bom Trevisano, os resultados de um Sendivogius ou um Seton. Mas de que se trata, enfim, esta ciência tão vilipendiada por alguns, perseguida por outros, alçada ao altar excelso do trabalho sobre o metal imperfeito do Ser por outros?

A Alquimia é mais um ramo das Ciências Antigas cujas chaves o Iluminismo quase sepultou em caratér definitivo. Quase,  porque algumas insuflações de persistentes adeptos atuais a mantêm viva, inconsciente, prostrada no leito mas cheia de esperanças de recobrar a lucidez. Estes poucos abnegados fazem jus à máxima de Heinrich Kunrath, inscrita em um de seus mais famosos painéis e que bem expressa o labor do alquimista: ORA, LEGE, LEGE, RELEGE, LABORA ET INVENIES

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Kundalini Shakti na Kryia Yoga

No livro Kryia Yoga escrito pelo guru Paramahansa Hariharananda (Lótus do Saber, 2006) entre elucidações do método e do processo "científico de aperfeiçoamento espiritual" dado pela kryia (que aparentemtente "acelera" o progresso do homem) há considerações sobre a verdadeira natureza da energia "kundalini" que se avizinham do que Gurdjieff apelidava de órgão de Kundabuffer.

Vejam o que diz o autor:

"No corpo físico, o centro da alma é o infinito reino dos céus. Esse reino é a morada do Pai Todo-Poderoso que não possui forma. O corpo físico, porém, é também o reino da ilusão,da desilusão e do erro (e. e, maya). Por essa razão, a união de maya com o condutor de maya também recebe o nome de yoga. A união desses dois é yoga. A respeito da yoga, as escrituras antigas declaram (Kularnava Tantra):

Parasati atma mithuna
Samyogananda isvara
Ya aste mithunam tat
Paresyat strinisebakah


Muitos afirmam usufruir os prazeres da sexualidade por serem adeptos do tantrismo e que isso é mithuna (ligação, união), uma prática por meio da qual se pode alcançar a realização de Deus (yoga). O simples prazer físico, porém, não é o prazer verdadeiro. Está escrito: parashakti atma mithuna. Parashakti é o poder do Pai Todo-Poderoso que permanece oculto no interior do corpo, na fontanela. Esse poder está além dos cinco elementos básicos densos (pancha mahabhuta), ou seja, akash(vácuo) no centro cervical, vayu (ar) no centro cardíaco, agni (fogo) no centro umbilical; jala (água) no centro sexual e prithivi (terra) no centro do cóccix. A cada respiração acontece uma união, uma junção. Essa é o verdadeiro prazer sexual. Isso é atma mithuna e significa sexo com o self.


“O reino dos céus está sempre dentro de você, assim como reino de satanás. O reino dos céus recebe o nome de as e o reino da ilusão, da desilusão e do erro (maya) é denominado ham. O corpo físico é maya. No Guru Gita, o Senhor Shiva declara a Parvati:

Pindam kundalini saktim
Hamsa iti udahrtan
Rupam bindum iti jneyam
Rupatitam niranjanan


O significado desse verso é: o corpo inteiro é pinta (corpo). Nosso corpo físico vive repleto de ilusão, engano e erro (maya) que é kundalini shakti. Ao contraio da errônea concepção popular, a kundalini não é uma serpente enrodilhada e inerte encerrada no centro do cóccix. A kundalini shakti é maya, algo muito difícil de evitar."

segunda-feira, agosto 24, 2009

A Famosa “Serpente Kundalini” e o Papel do Sexo em Gurdjieff segundo P.D. Ouspensky e os “Fragmentos (...)”

A Famosa “Serpente Kundalini” e o Papel do Sexo em Gurdjieff segundo P.D. Ouspensky e os “Fragmentos (...)”



Muitos dos candidatos à senda iniciática e os neófitos em ocultismo exalam suspiros ansiosos diante da simples menção da palavra “sexo”. O pronunciar do mantra “Kundalini” exerce efeito vibracional da mesma magnitude ou maior, sem dúvida ampliado quando conjugado ao vocábulo sânscrito “Tantra” ou junto ao supra sumo dos gurus orientais, a “Yoga”.

Isso resulta em “Kundalini Yoga” ou “Tantra Yoga”. Seria engraçado notar outras associações que só a risível mecanicidade dos homens explicaria mas não é outro nosso propósito que anotar o pensamento de P. D. Ouspensky contido em “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido – Em busca do Milagroso”, esta obra notável que, em que pesem as diferenças com o estilo argumentativo e a didática do mestre conserva em linhas magistrais o essencial de seu pensamento apresentado nas conferências a que compareceu P.D.O.

A visão de G (como chamaremos à moda usual de Georges Illitch Gurdjieff) começa a ser esboçada quando fala do repertório definido de pais que o homem representa habitualmente e como “(...) o estudo dos papéis que cada um representa é uma parte indispensável do conhecimento de si. O repertório de cada homem é extremamente limitado’. Esses papéis, como observa, exercem uma função prodigiosa nas relações entre homem e mulher (pg. 290) e demonstram como o tipo real, a essência, é escondida nestas mesmas relações pois elas se travam com base em uma espécie de “coincidência de gostos”, por assim dizer, correlacionada à personalidade (aparência e não à essência) do casal. “(...) o homem 'mecânico' não pode amar. Nele, isto ama ou isto não ama”.

A grosso modo, o “sistema” de Gurdjieff é fundamentada no pressuposto de que o homem é uma máquina e para estudá-lo é antes necessário compreender a mecânica que a psicologia em sentido estrito. Para o homem “tudo acontece” e ele dificilmente escapa ao conjunto de “leis da mecanicidade” por esforço próprio o que, não obstante, pode ser feito por um esforço consciente em grupo capaz de produzir “choques artificiais” adicionais que garantam a cristalização de algo mais sutil em si mesmo.

Poucos compreendem, entretanto, a importância que desempenha o sexo no conjunto do sistema porque via de regra se resumem os “centros do homem” aos centros instintivo, motor, emocional e mental. O “centro sexual” cumpre um papel que é ignorado por muitos adeptos do “Quarto Caminho” (ou a escola introduzida por G. Gurdjieff no Ocidente) ou é entendido como a contrapartida conceitual da famosa “kundalini” hindu, ao qual difere em número, gênero e grau.

“Kundalini” para Gurdjieff em nada se aparenta à “serpente ígnea” que se aloja no chackra situado na base da coluna e o “despertar de kundalini” não se relaciona em absoluto ao acréscimo de faculdades desconhecidas ou poderes (“sidhis”) transcendentes. Na realidade:

“(...) é a potência da imaginação, a potência da fantasia, que usurpa o lugar de uma função real” (...). “Kundalini é uma força introduzida nos homens para mantê-los em seu estado atual”. Despertar para o homem significa ser “deshipnotizado”.

Kundalini é algo que foi colocado no homem “por fora” e serve para mantê-los escravizados, sujeitos ás leis mecânicos e reféns das influências planetárias, transformando-se em “alimento para a lua” de acordo com a utilidade quer forças de ordem cósmica reservaram à terra na economia da universo. Sem “Kundalini” o homem não é mais hipnotizado, não age como na velha fábula em que o cordeiro pensa que é um Leão.

Kundalini, posteriormente tratada nos “Contos de Belzebu a seu Neto” nada mais é que o estranho órgão “kundabuffer” que faz com que os homens e mulheres neste pequeno planeta, estes insólitos seres “tricerebrados” ajam de maneira tão estranha diante dos olhos do estupefato neto do velho e sábio Belzebu.

Como afirmava o velho caucasiano em suas conversas com os mais seletos discípulos,

“Ao mesmo tempo, o sexo desempenha um papel enorme na manutenção da mecanicidade da vida. Tudo o que as pessoas fazem está em ligação com o sexo; a política, a religião, a arte, o teatro, a música, tudo é sexo”. (...) Essa é a principal fonte de energia de toda a mecanicidade. Todos os sonos, todas as hipnoses dela decorrem. Tentem compreender o que quero dizer. A mecanicidade é particularmente perigosa quanto as pessoas não a querem tomar pelo que é e tentam explicá-la por outra coisa. Quando o sexo é claramente consciente de si mesmo, quando não se esconde por trás de pretextos, não se trata mais de mecanicidade de que falo. Ao contrário, o sexo é claramente consciente de si mesmo, quando não ser esconde por trás de pretextos, não se trata mais da mecanicidade de que falo.Ao contrário, o sexo, que existe por si mesmo e não depende de mais nada já é uma grande realização. Mas o mal reside nessa perpétua mentira de si mesmo”.

O sexo é a principal fonte da escravidão humana e o laço que o ata em caráter quase irrevogável à mecanicidade, impedindo-o de ser algo mais que uma simples e previsível máquina. Contudo, há algo de positivo nele, desde que exploradas suas possibilidades enquanto fator de “transmutação” do homem.

“Lembram-se do que foi dito a respeito das quarenta e oito leis? Não podem ser modificadas, mas é possível libertar-se de grande número delas. Quero dizer, há uma possibilidade de mudar. O estado de coisas para s
i mesmo pode escapar à lei geral. Aí, como em qualquer outra parte, a lei geral não pode ser mudada, tanto mais que a lei de que falo, isto é, o poder do sexo sobre as pessoas, oferece possibilidades muito diversas. O sexo é a principal fonte de nossa escravidão, mas também nossa principal possibilidade de libertação
”.

Neste ponto ingressa-se no campo da alquimia enquanto ciência das transmutações e estudo da unidade da matéria. O sexo se torna ingrediente indispensável no processo que conduz ou ao nascimento de um novo corpo físico à base da união dos princípios masculino ou feminino ou à constituição de um corpo astral sem “bodas alquímicas”, sem o “sol e lua” como se pode dizer (Gurdjieff e Ouspensky não usavam essa notação alquímica.

O processo de Criação de um Novo Corpo Físico depende da forma como são manipuladas substâncias sutis, em especial a mais fina e rara que pode ser produzida pela fábrica humana (o corpo humano de três andares), o hidrogênio si 12. Por assim dizer:

“O novo ‘nascimento’ de que falamos, depende da energia sexual tanto quanto o nascimento físico e a propagação das espécies”. “(...) o hidrogênio si 12 é o hidrogênio que representa o produto final da transformação do alimento no organismo humano. É a matéria a partir da qual o sexo trabalha e produz. É a ‘semente’ ou o ‘fruto’. “(...) si 12 pode passar ao dó da oitava seguinte com o auxílio de um ‘choque adicional’. Mas esse ‘choque’ pode ser de dupla natureza e duas oitavas diferentes podem começar, uma fora do organismo que produziu si, outra no próprio organismo. A união dos si 12 masculino e feminino – e tudo que a acompanha – constitui o ‘choque’ da primeira espécie e a nova oitava começada com a sua ajuda desenvolveu-se independentemente, como um novo organismo ou uma nova vida’.
“Essa é a maneira normal e natural de utilizar a energia de si 12. entretanto, no mesmo organismo há outra possibilidade. É a possibilidade de criar uma vida nova dentro do organismo onde si 12 foi elaborado, mas desta vez sem a união dos princípios masculino e feminino
”.

Gurdjieff deixa claro que a energia sexual só pode ser gasta de duas maneiras legítimas, a vida sexual normal e a transmutação. “(...)Neste domínio, qualquer invenção é das mais perigosas”. Isso pode ser entendido como uma admoestação que visa coibir as chamadas práticas da “mão esquerda” (não entendidas, diga-se de passagem, à moda piegas de vários autores ocultistas, principalmente “teósofos” mas como um conjunto de ações que deturpam o caminho e aumentam a mecanicidade do homem).

O sexo, em si, se normal e bem utilizado é bom e saudável. O grande mal, o mais pernicioso é o “abuso do sexo” Como Gurdjieff entende a expressão “abuso do sexo”?

“Ela designa o mau trabalho dos centros em suas relações com o centro sexual ou, noutros termos, a ação do sexo exercendo-se através dos outros centros e a ação dos outros centros exercendo-se através do centro sexual, ou para ser mais preciso, o funcionamento do centro sexual com o auxílio da energia tomada dos outros centros e o funcionamento dos outros centros com o auxílio da energia tomada do centro sexual”.

Abuso do sexo é qualquer situação que produz o mal funcionamento dos centros, sua desarmonia e desorganização. O centro sexual rouba energia dos demais centros (o motor, o emocional e o mental) e estes se alimentam, por seu turno, das energias do centro sexual. Nesse caso o homem se descontrola e tende a se tornar um ser horrendo e desprezível. O sexo como parte neutralizante do centro motor deixa de operar e seu centro, o centro sexual, passa a se “alimentar” de coisas mais impuras e grosseiras.

”(...) O centro sexual trabalha com o hidrogênio 12, disse ele desta vez. Isto é, deveria trabalhar com ele. O hidrogênio 12 é si 12 mas o fatoé que raramente trabalha com o seu hidrogênio próprio. As anomalias no trabalho do centro sexual exigem estudo especial”.

Além de tomar para si “hidrogênios inferiores”, o centro sexual começa adquirir caraterísticas que não são próprias dele, é contaminado por atributos dos demais centros e, em especial, do centro emocional. Como demonstra G.; no centro sexual, no centro emocional superior e no intelectual superior não há duas partes.

“Tudo o que se relaciona com o sexo deveria ser, quer agradável, quer indiferente. Os sentimentos e as sensações desagradáveis provêm todos do centro emocional ou do centro instintivo”.
“Mas em conseqüência do mau trabalho dos centros, acontece freqüentemente que o centro sexual entra em contato com a parte negativa do centro emocional ou do centro instintivo. A partir daí, certos estímulos particulares ou mesmo quaisquer estímulos do centro sexual, podem evocar sentimentos desagradáveis, sensações desagradáveis”.

O sexo é importantíssimo por fim pois é o mais rápido dos centros por trabalhar com o hidrogênio 12.

“(...) Isto significa que ele é mais forte e mais rápido que todos os outros centros. De fato, o sexo governa todos os outros centros (pq. 292)”.

“(...) Quando a energia do sexo é saqueada pelos outros centros, é esbanjada num trabalho inútil, nada resta para ele mesmo e deve, a partir de então, roubar a energia dos outros centros, que é de qualidade bem inferior à sua e bem mais grosseira”.
“Mas quando o centro sexual trabalha com energia que não é a sua, isto é, com os hidrogênios relativamente inferiores, 48 e 24, suas impressões tornam-se muito mais grosseiras e ele cessa de ter no organismo o papel que poderia desempenhar. Ao mesmo tempo sua união com o centro intelectual e a utilização de sua energia pelo centro intelectual provocam um excesso de imaginação de ordem sexual e, por acréscimo, uma tendência a satisfazer-se com essa imaginação. Sua união com o centro emocional cria a sentimentalidade, ou, ao contrário, a inveja, a crueldade”.

As mais grandiosas obras em todos os terrenos são frutos inegáveis da ação do centro sexual. Essa energia se reconhece “(...) por um ‘sabor’ particular, por um certo ardor, por uma veemência ‘desnecessários”. O maior desafio do homem que trabalha sobre si mesmo no espírito do quarto caminho e compreender (e antes SER para COMPREENDER) como utilizá-la da forma correta e não fazer mal uso do sexo tornando-se um infra-sexual conforme ensina Ouspensky em “Um Novo Modelo do Universo”. Um demônio vil, asqueroso e perverso aguilhoado pela torpe sujeição aos mais abjetos prazeres que satisfaçam sua mecanicidade.

terça-feira, abril 28, 2009

Swami Yogananda

Membro da Ordem dos Swamis, Yogananda legou à posteridade um livro genial. Difícil não se entreter em sua leitura, impossível não derramar lágrimas copiosas ao folheá-lo. O contato com a "Autobiografia de um Iogue" é uma experiência única, mágica, comovente e inspiradora pela humildade e desapego do seu autor e os mestres que o orientaram. Desde a praticidade tremendamente humana do pai à poderosa e terna presença de Sri Yukteswar, o discípulo e amigo do Santo Lahiri Mahaiasa, o livro é uma clara demonstração de que podemos combinar o deleite místico-espiritual à vida atribulada do cotidiano. De um "Babaji" iluminado a um Lahiri Mahaisa que mesmo em seu plano de elevadíssima consciência e visão cósmica mantinha uma família e recebia os proventos de humilde funcionário de uma ferrovia.
Que estupor nos envolve ao contemplarmos com nossos próprios olhos o desfile dos numerosos santos (sadhus), swamis e gurus com quem Yogananda privou da amizade e companheirismo em modestos ashrams das grandes cidades da Índia. Quão magnifica nos parece a visão beatífica de Lahiri Mahasaia levitando, desmaterializando-se e materializando-se em diversos planos de modo a nos fazer crer piamente em nossas ridículas limitações de tempo e espaço. Saber que Sri Yukteswar manipulando o prana ("vitátrons" na falta de expressão melhor) e podia reconstituir com matéria astral o corpo físico e "ressuscitar" como o Mestre de Nazaré. Saber que não só Jesus foi capaz de produzir milagres mas que todos nós também o somos desde que nos integremos à essência divina de Deus ou ao todo, unamos o microcosmo ao macrocosmo. O livro é todo ele um festival que inunda o Ganges de nossa alma com guirlandas de rosas e perfumes miraculosos.