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quarta-feira, dezembro 21, 2011

O Grande Culpado de Viktor Suvorov - Parte II (Pacto "Molotov-Ribbentrop, Blitzkrieg em Khálkhin-Gol Mongólia)



Compondo um alentado volume de 400 páginas recheadas de dados históricos, informações geopolíticas, considerações de fôlego sobre estratégia militar, análises exaustivas e precisas dos equipamentos aéreos, terrestres e marítimos envolvidos nas operações e preciosas explicações sobre a engenharia militar e esquemas logísticos por trás da movimentação de tropas, armas, munições, tanques e veículos no front Leste, o livro representa uma primorosa peça de literatura militar. Mas qual é sua tese principal? Simplesmente a de que a URSS, sob comando de Stálin (que nada tinha de ingênuo, como popularizado pelos almanaques e professores de história do Ocidente e ideológos soviéticos) não foi vítima de uma "traição" de Hitler, o que contraria a versão oficial dos aliados e seus amigos soviéticos de a liderança alemã jogou na lixeira as cláusulas do Pacto Molotov-Ribbentrop, desencadeando,
em 1941, a sorrateira operação "Barbarossa" contra o império soviético.

Sátira ao Pacto Hitler-Stálin


Antes de que o acusem de fazer apologia ao nazismo ou à figura do também Tirano Adolf Hitler, Suvorov , um patriota russo, posiciona-se ainda no prefácio como alguém profundamente convictos das similitures entre os dois governantes que disputavam o controle do mundo na primeira metade do século XX. Curiosamente, até nos gostos eram semelhantes, para não dizer iguais. Uniformes semi-militares, paradas gigantescas, desfiles pomposos e magistralmente orquestrados, o pendor a sufocar e matar ardilosamente inimigos reais ou não, a mesma bandeira vermelha. Dois radicalismos, diametralmente opostos na aparência mas representando táticas inteligentemente adaptadas pelos poderes do Mal absoluto como este "blogueiro" costuma dizer.




Para sustentar sua tese o autor tem o dom de unir lógica elementar e depoimentos de militares e políticos soviéticos e alemães que, até muito recentemente, mofavam nos arquivos da KGB ou foram propositalmente olvidados por aqueles que escreveram a história recente. Ao contrário de um Stálin temeroso e indeciso com relação ao que fazer quando da invasão nazista, o "Grande Líder" (grande mesmo, muito maior que o Führer germânico em astúcia e inteligência) havia preparado meticulosamente o maior arsenal bélico jamais visto na história da humanidade e fabricado com incrível celeridade equipamentos militares mais velozes e adequados ao ataque (não à defesa) em todo o mundo de então. Tanques anfíbios ou gigantescas divisões de tanques com os KV e T-34, aviões bombardeiros (dos quais a Alemanha não tinha um exemplar sequer) ao estilo dos Douglas americanos que bombardearam Hiroshima e Nagazaki, poderosas flotilhas em parte montada na URSS ou importada de nações "amigas" estacionada em rios de importância estratégica capital como o Dnieper, mais de um milhão (sim, um milhão) de pára-quedistas treinados secretamente e, naturalmente, com objetivo de serem lançados em um ataque rápido e fulminante à Alemanha.

O livro desconcerta o leitor ao apelar para o óbvio: por que não se admitir que a Alemanha, mesmo que sucumbisse a qualquer surto de loucura suicida, poderia se envolver em uma guerrra que colocasse contra ela quase todos os países do mundo e, entre eles, as maiores potências industriais e militares da época. È esta uma questão sobre a qual se detém Suvorov, comentando o objetivo real e cristalino do tratado Hitler-Stálin (manhosamente apelidado de "pacto Molotov-Ribbentropp pelos partidários da retórica "humanitarismo soviético"):
"Em 23 de agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética assinaram em Moscou um acordo sobre a destruição do estado polonês e a divisão de seus territórios. A Polônia tinha acordos de assistência mútua com a França e o Reino Unido; portanto, o ataque da União Soviética e da Alemanha conduziu toda a Europa – e naturalmente o mundo – à guerra. De fato, oito dias depois, em 1º de setembro de 1939, estourou a segunda guerra mundial. Era o resultado direto e inevitável do acordo feito em Moscou".



"O acordo entre União Soviética e Alemanha é tradicionalmente chamado pacto Molotov-Ribbentrop, o que induz a confusões e não reflete bem a essência do que aconteceu. O pacto, assinado em Moscou, foi um complô entre Hitler e Stálin para conduzirem juntos uma guerra agressiva na Europa. Portanto, esse documento era um pacto Hitler-Stálin".

"(...) Entretanto, oito dias após assinar o pacto de Moscou, Stálin o violou. Hitler iniciou uma guerra de agressão contra a Polônia, na esperança de que seu aliado, Stálin, tivesse a mesma atitude. Porém, Stálin enganou a Hitler. Em 1º de setembro e nas duas semanas subseqüentes, as tropas soviéticas posicionaram-se nas vizinhanças da fronteira polonesa, sem atacar nem invadir. A explicação que o governo soviético deu ao parceiro alemão foi que ainda não era o momento de o Exército Vermelho entrar em ação. O resultado é que a Alemanha levou a culpa toda de ter iniciado a guerra, à custa de Hitler e seus seguidores; Hitler e seus generais entraram para a história mundial como a causa principal e única da Segunda Guerra Mundial. A Polônia foi dividida, não na Chancelaria Imperial, nas no Kremlin. Hitler nem estava presente, mas Stálin estava. E Hitler ficou com a responsabilidade de ter iniciado a guerra, enquanto Stálin, não. Stálin entrou para a história como vítima inocente, libertador da Europa".pg. 138.


Stálin traiu Hitler e não o inverso. Infelizmente, muito tarde para que pudesse sobreviver, Adolf Hitler viria a admitir a cruel cilada que lhe fora preparada pelo georgiano no Pacto de Moscou, pois, a grosso modo
"(...) a invasão da Polônia pelas tropas alemãs teve outras conseqüências: em 3 de setembro de 1939, a Grã Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha. Logo no terceiro dia, a Alemanha envolveu-se em uma guerra de duas frentes; ou seja, começou em desvantagem. Já que a Alemanha praticamente carecia de matéria-prima estratégica, uma guerra em duas frentes seria fatal para ela". Pg. 139.





O corolário da "quebra de acordo" por parte da URSS foi apressar o desenvolvimento de um cenário estratégico há muito tempo simulado nos jogos de guerra dos generais soviéticos: uma Alemanha pressionada pela Inglaterra e Estados Unidos, engalfinhando-se em uma pugna atroz na frente leste que levaria não só a ela – mas aos odiados capitalistas do Oeste – à exaustão, preparando-se o terreno para uma futura invasão do Exército Vermelho. O desdobramento imediato do Pacto Hitler-Stálin – a julgar por suas implicações políticas após Stálin revelar seu jogo – só poderia ser a guerra relâmpago.

Como aduz Suvorov:

"O resultado do pacto assinado em Moscou, em 1939, é que Stálin conseguiu a guerra – a guerra que ele desejara, planejara e preparara durante longo tempo. As nações da Europa Ocidental mergulharam em uma guerra destruidora, mas a União Soviética permaneceu neutra. Agora, Stálin poderia esperar a exaustão total e a autodestruição da Europa central e ocidental. Hitler adivinhou as intenções de Stálin e, em 1941, súbita e quase fatalmente, atacou a União Soviética. Nessa situação crítica, Stálin recebeu ajuda gratuita dos Estados Unidos e da Grã Bretanha, uma ajuda que em volume e quantidade não teve precedente histórico. Ao mesmo tempo, o papel soviético na eclosão da guerra foi rápido e totalmente esquecido. No cômputo final, a Polônia, por cuja liberdade as nações da Europa ocidental haviam entrado na Segunda Guerra Mundial, não ganhou a liberdade – mas foi entregue, juntamente com toda a Europa central e parte da Alemanha, ao controle de Stálin".



Pilotos soviéticos na Batalha de Khálkhin Gol

Muito oportunamente, o texto de Suvorov recorda ao leitor quem foi, aliás, o pioneiro da "Blitzkrieg". Adivinhem? Sim, Joseph Stálin.


A primeira Blitzkrieg da história foi realizada Em Khalkhin-Gol, na Mongólia, onde foi destruído o 6º Exército Japonês. Seus resultados foram silenciados na grande imprensa para que fossem melhor empregados como tática soviética de dissuasão dos verdadeiros objetivos expansionistas do país. Como relata Suvorov:





"A operação em Khálkhin-Gol foi brilhantee em planejamento e execução. Jukov arriscou-se bastante, mas de forma justificável. Ele ordenou que as bases do ar chegassem o mais perto possível das linhas de frente, o que permitia aos aviões levarem menos combustível e mais bombas. A intensidade do ataque por ar cresceu: os aviões decolavam e, mesmo antes que atingissem a altitude de cruzeiro, descarregavam as bombas, voltavam rapidamente, recebiam mais bombas a bordo e repetiam o processo. Quando os tanques soviéticos já tinham avançado bastante, a aviação pôde apoiá-los sem deslocamentos das bases. Jukov levou hospitais e bases de provisões à linha de frente, com munição e combustível; o que fosse necessário para a batalha era transportado de forma rápida e eficiente. (...) Durante os preparativos dessa ofensiva, Jukov proibiu quase todo o uso das comunicações por rádio, elas eram feitas apenas pelos dois que conversavam".




"Khálkhin-Gol foi a primeira guerra relâmpago do século XX; uma blitzkrieg em sua mais pura forma. Trata-se da primeira vez na história em que grandes unidades de tanques foram usadas corretamente: para ataque em profundidade. Foi o grande exemplo de concentração invisível de artilharia em áreas restritas da linha de frente. Também foi um exemplo de ataque totalmente surpresa; nos primeiros 90 minutos de batalha, a artilharia japonesa não disparou um único tiro nenhum avião japonês apareceu no céu". Pg. 143
"(...) Stálin exigiu silencio. Por quê? Porque estava preparando o mesmo tipo de vitória, só que em escala muito maior, em toda a Europa. O interesse de Stálin estava em ocultar o poder do Exército Vermelho, mantendo um véu sobre sua capacidade de lançar ataques-surpresa indefensáveis. O interesse de Stálin estava em deixar o mundo acreditar no atraso do Exército Vermelho e em sua incapacidade de enfrentar a guerra moderna. O interesse e Stálin era pegar Hitler de guarda baixa, não assustá-lo". Pg. 144



terça-feira, dezembro 20, 2011

O Grande Culpado de Viktor Suvorov - O Plano de Stálin para iniciar a Segunda Guerra Mundial - Parte I


Viktor Suvorov é o pseudônimo adotado por Vladmir Rezún, nascido na antiga União Soviética e oficial daquele país, no qual serviu na inteligência militar. Persona non grata tanto na ex-URSS quanto na atual democracia capitaneada pelo eterno mandatário Putin, mora incógnito em Londres, para onde desertou após partir de Genebra, Suiça. No Brasil, como de praxe, Suvorov é um ilustre desconhecido, apesar das prateleiras de algumas poucas livrarias contarem com ao menos um de seus livros vertido para a língua portuguesa: "O Grande Colapso - O Plano de Stálin para iniciar a Segunda Guerra Mundial", publicado pela pequena Editora Amarylis, em Barueri, São Paulo, 2010.
Georgiano bejando Titio Stálin
Mais que se inscrever simplesmente no rol da literatura “revisionista” da II Guerra Mundial, o livro de Suvorov é talvez a mais importante e elucidativa interpretação de inúmeros fatos “submersos” da história mundial na primeira metade do Século XX, sobretudo os bastidores políticos da invasão "surpresa" da Alemanha à URSS e as inúmeras manobras patrocinadas pelo Kremlin desde os anos 30 (a bem da verdade, ainda no imediato pós 1ª Guerra, com as ações de Lênin e Trótsky) sob a égide da "realpolitik" stalinista. O exemplo mais sórdido dentre eles foi o combate do Partido Comunista Alemão aos Sociais Democratas e consequente favorecimento ao NSADP, o Partido Nazista, nas eleiçõe ao Reichstag em Novembro de 1932. Ao tempo em que traz à tona bombásticas revelações amparadas por pesquisa minuciosa e dados de inquestionável veracidade, o livro foi alvo do mais flagrante boicote por parte da imprensa internacional e abaixo do equador é solenemente ignorado (nada de se admirar nesta nação de apedeutas). Mas o que explica o silêncio sepulcral dos formadores de opinião quando se trata de Suvorov? Tentemos desvendar o mistério, por partes.
Após o período de lutas intestinas que se seguiram à morte (ou assassinato) de Lênin, Iossip Vissarianovitch Djugachvilli (vulgo "Stálin") se sobressaiu como o homem de "aço" do Partido Comunista, aquele que eliminou a "direita" (Bukhárin e a dupla Kamenév-Zinoviev) e a "esquerda" (Trotsky que - desprezado por Stálin - caiu nos braços dos seus amigos "revolucionários" do México). Não só as disputas entre os bolcheviques pelo poder caracterizam os anos 30, que no plano externo à URSS se destacaram por eventos que os trotskystas (adeptos do vampiro Lev Bronstein Trotsky) viam como estupidez ou pusilanimidade stalinista, tais como a famosa “purga do exército” ou a participação soviética na guerra civil espanhola, anteolhados por um novo prisma pelo nosso autor. Longe do sanguinário e sombrio ditador que quer amealhar totalmente para si as rédeas do aparato estatal, fuzilando potenciais adversários, o que Stálin fez ao “depurar” as forças armadas foi apenas se livrar da velha guarda bolchevique incompetente e treinada para matar camponeses (a quem se atribuía o estigma de “kulaks”) com o objetivo de dotar o aparato militar de quadros mais jovens, dinâmicos e afeitos às modernas tecnologias.  Entre estes cães vermelhos raivosos precipitados no inferno por Stálin, ninguém era pior que o General Tukhatchévsky, um virulento e incompetente bolchevique que:
“(...) esforçou-se para conseguir o poder do modo mais tolo. Mais do que qualquer um, teve uma participação patética na guerra civil, e ainda assim declarou-se um vencedor. Decidiu editar pessoalmente o livro de três volumes chamado “Guerra Civil, 1918-1921, retratando a si mesmo como grande estrategista e culpando os outros por duas derrotas. Devo enfatizar que Tukhatvésky trabalhou especificamente para editar a história, não para escrevê-la”. Pg. 107.

Trótsky surrando duas irmãs contra-revolucionárias

Quanto à participação da URSS no teatro de guerra da Espanha, não só de glórias ou atos heróicos em grande parte inventados pelos comunistas (pois os anarquistas estavam preocupados demais em matar para explorarem sua “veia” poética) se caracterizou a atuação do seu exército. Assim como se aponta em Hitler a intenção de “testar” novo armamento naquele evento, pode-se muito ver em Stálin:

 “O objetivo óbvio (...), que aliás, foi expresso aberta e claramente, era atrair a Inglaterra e a França para a guerra espanhola. Se esse plano fosse bem sucedido, haveria um conflito maior entre Alemanha, Itália e Portugal de um lado, e França e Inglaterra do outro, no extremo ocidental do continente europeu, em território espanho. A União Soviética estava bem distante. (...) Tudo que Stálin tinha de fazer era jogar combustível em uma guerra que começava a esquentar”. Pg. 128.


Mas como operacionalizar esta guerra? Como alimentá-la de forma de adequá-la, tecer o necessário forro político e construir bases materiais para suportá-la e vencê-la?




terça-feira, dezembro 13, 2011

Bestas, Homens e Deuses - Ferdinand Ossendowski

Ferdinand Ossendowsky
A obra "Bestas, Homens e Deuses - O Enigma do Rei do Mundo" (em português publicada pela Editora Hemus) permaneceria desapercebida a muitos leitores caso estes não houvessem recebido qualquer indicação sobre sua existência e caráter seminal. Este serviço foi prestado por certas escolas vinculadas à Filosofia Perene ou Teosofia que incorporaram algumas de suas revelações a seu próprio corpo doutrinário. Um grande Best Seller nos anos 30, "Bestas, Homens e Deuses" foi escrita pelo aventureiro, historiador, engenheiro de minas, geólogo, médico amador, explorador, cientista e Herói polonês Ferdinand Ossendowski. Querido e festejado em sua pátria, porém odiado pelos soviéticos e seu Partido Comunista (que combateu com tenacidade através de vasta produção intelectual), sua sepultura chegou a ser profanada pelo Exército Vermelho ao penetrar em Varsóvia, tamanho o ódio a ele devotado por Stálin e o desejo do genocida em confirmar sua morte.  No Brasil, tornou-se particularmente conhecido através da tradução em fascículos na revista Dharana do livro "Le Roi du Monde", do polêmico francês Rénée Guénon (talvez sua mais arguta contribuição como pensador). Um dos seus primeiros tradutores em solo brasileiro foi o Professor Henrique José de Sousa, fundador da Sociedade Brasileira de Teosofia, posteriormente rebatizada como "Sociedade de Eubiose. Queiramos ou não, a vinculação do intelectual polaco à Guénon tornou-o conhecido do seleto público que se aplica com seriedade e persistência ao estudo das Ciências Ocultas, sobretudo por ter sido um dos primeiros a descrever aspectos geográficos e de organização política do misterioso País de AGHARTA situado no interior da terra e da sua triarquia, composta pelo Brahytna, o Mahytma e o Mahanga, sob a égide do primeiro, o "Rei do Mundo".
Em "Bestas, Homens e Deuses", Ossendowski recapitula suas aventuras no interior da Grande Rússia, quando fugiu das garras dos revolucionários vermelhos que consolidavam seu processo de destruição civilizatória. Como profundo conhecedor do território imperial, em particular da Sibéria, Ossendowski traçou um plano de fuga que compreendia o percurso a partir de Krasnojarsk até a transposição da fronteira com a Mongólia, entrando em território neutro. Neste ínterim, a obra não só revela a capacidade adaptativa dos polônes face à mais cruenta realidade e impiedade humana -em um mundo dominado pela amoralidade dos bolcheviques, capazes dos atos mais vis em prol de sua própria promoção na máquina estatal. Ao mesmo tempo - e isto é seu traço mais importante - relata milagres e poderes jamais vistos por ocidentais e, ao final, sua descrição de estórias colhidas em lamaserias do Mongólia e  de personagens como o "Lama Vingador", dotado de aptidões que aos não-orientais mereceriam a fama de "espetaculares"  pelo simples fato de escaparem às suas representações dos fenômenos. Na Mongólia do Magnífico Gêngis Khan, conheceu de perto os "sidhis" ou faculdades psíquicas mais avançadas como a profecia, a clarividência e a manipulação dos três gunas (princípios da matéria) facultada aos grande iniciados.
Outro personagem que se sobressai no texto é o Barão Román Ungern Von Sternberg, o "Barão Louco", combatente antibolchevique considerado um herói entre os russos brancos no período. Alvo das calúnias, do escárnio e ridículo dos pseudo-historiadores então à soldo do Kremlin, Von Sternberg converteu-se Budismo e, profundamente devoto da sabedoria do Oriente, foi considerado  como a encarnação de um "Dharmapala", ou seja, detentor do elevado posto de "Protetor do Dharma", ao qual fez juz pelo carinho imenso dedicado à nação mongol e seu povo. Homem humilde e desapegado do mundo, Von Ungern mais tarde, vítima de traição, morreu nas mãos das hordas bolcheviques sanguinárias, passando a se inscrever entre os mártires da Nação Russa e reconhecido oficialmente como tal pelo atual Governo de Moscou.
Barão Von Ungern Sternberg - Grande Herói da Rússia Branca

Também na Mongólia - a versão do livro não deixa margem à dúvida - foi constatada a degradação do budismo, entregue a lamas bêbados e títeres pró-bolcheviques, muito distantes da tradição original. Esta situação, projetada para os dias de hoje nos ajuda a compreender as possíveis razões - e uma delas é o afastamento da Lei, do "Dharma" - que levaram à tomada do Tibete pelas hordas de chineses ateus comandados pelo facínora Mao Tsé Tung. Neste país, Ferdinand travou amizade com o "Buda Vivo", ou "Buda Encarnado",  isto é, o "Guardião do Misterioso e do Desconhecido [que] vive na Mongólia, terra dos milagres e dos mistérios", sua Santidade Djebtsung Damba Hutuktu Khã, Bogdo Gheghen, pontífice de Ta Kure. Entre estes homens ele vem a saber da existência do enigmático Rei do Mundo e seu Reino, Agharta, no interior da Terra. Em Agartha, alguns povos, como os Olets e os Calmucos aprenderam suas ciências misteriosas que trouxeram para a superfície da Terra.

"Em Agharta, os sábios panditas escrevem sobre tabuletas de pedra toda a ciência do nosso planeta e dos mundos. Os sábios chineses sabem disso. A ciência deles é a mais alta e a mais pura. A cada século, cem sábios da China se reúnem em um lugar secreto, à beira-mar, onde cem tartarugas imortais saem das profundezes do oceano. Sobre suas escamas, os chineses escrevem as conclusões, às quais a ciência chegou naquele século".

O Rei do Mundo traz em ocasiões determinadas sua mensagem aos homens. Uma das últimas, entregue a um chefe tibetano em uma tabuleta de ouro advertia com severidade:

"O Rei do Mundo aparecerá a todos os homens quando chegar o tempo de levar os homens bons para a guerra contra os homens maus. O tempo, porém, não chegou ainda. Os piores da humanidade ainda não nasceram".

Quando nascerão? Que viva eternamente em paz a alma do inigualável Ferdinand Ossendowsky, que o bom karma conduziu à Mongólia e à divulgação destes grandes e inefáveis mistérios.



domingo, novembro 06, 2011

Mudanças, a Primavera Árabe e os Designios de Ordem Superior

Estava em Paris no início do ano e entre alegres passeios deparei-me com uma matéria do "Le Figaro" que abordava as manifestações contra o Presidente Ben Ali na Tunisia. Como me encontrava em um das grandes capitais islâmicas da atualidade, Paris, um tiranicídio calculado - assunto tão apropriado aos frequentadores do que lá se chama "boucherie musulmane" era lenha na Lareira dos intelectuais de óculos fundo de garrafa e verniz "filosófico" que circulam impacientemente e sem rumo a devorar seus cigarros "gitanes". Tão absorvido estava em objetivos lúdicos que o "bota-fora" de Ben Ali do outro lado do oceano me despertou tanta curiosidade quanto o show de um ugandense rechonchudo com roupas coloridas cuja cara redonda era estampada em cartazes por todo Montmartre. Porém, qual não foi minha surpresa ao pisar em solo brasileiro e constatar que o noticiário exibia movimentos análogos no Cairo e - desafiando tudo o que eu reputava como estabilidade política - na Líbia e, num piscar de olhos, Iêmen e Siria.
"Que diabos está a ocorrer", pensei então com meus botões. Tudo isto surgiu do nada? O estopim fora a corrupção desenfreada daquele regime cuja derrubada animou os povos de todo o Norte da Àfrica e Oriente Médio? Só D'us poderia fornecer uma resposta mais ou menos crível para eventos daquela magnitude ou um pouco de astrologia, como o fato de Netuno ter entrado no signo de peixes em abril de 2011 (nele estará definitivamente em 2012) ou a lua gigante que se manifestou neste ano.
Eventos de ordem cósmica - dos quais conhecemos apenas umas poucas manifestações planetárias visíveis - são os responsáveis em última instância por todas as modificações ocorridas no terreno político que alguns atribuem tão somente ao revolver circunstancial do tecido social que, em  momentos específicos, irrompe como um vulcão adormecido, jorrando a lava de insatisfações acumuladas por anos de opressão brutal a camadas da população.
O levante árabe, seja o que for que signifique (nascimento ou ocaso da liberdade, novas ditaduras laicas ou fundamentalismo religioso, etc) não é um fenômeno isolado na esfera política. Ele é acompanhado em todo o mundo pela mobilização de centenas de jovens contra um capitalismo amoral baseado na finança internacional, esta, por sua vez, apoiada na ganância de um grupelho de vigaristas que se locupletam das farras nas bolsas de valores e dos diferenciais pagos pelos juros de títulos públicos. Com os Estados Unidos e a Europa Ocidental em crise econômica duradoura e  a falência de Estados como Portugal, Grécia e, agora, Itália, os grandes deste mundo, presos pelo desaspero, exacerbam ainda mais o colapso de todo o sistema econômico-político-social mobilizando-se no mês de novembro, através do governo de Israel, para um ataque "preventivo" ao Irã.
Aos Senhores do Karma e à grande Confraria de Adeptos responsáveis pela manutenção da Ordem do Mundo através dos ditames de seu Senhor, toda a flagrande monstruosidade humana "compactada" que se apresenta neste ano de 2011 apresenta-se, tão somente, como o prelúdio do tão esperado apocalipse que se projeta sobre nosso pequeno planeta. Ele próprio se contorce nos últimos anos, produzindo tempestades, furações, terremotos de escala inimaginável, maremotos devastadores e uma alteração pronunciada nos padrões climáticos que traz frio às zonas tropicais na estação do verão.
Mas ninguém parece se dar conta disso. Escorrem-me lágrimas dos olhos, enterneço-me com o impressionante grau de mecanicidade que acossa o ser humano, inerte, incapaz de escapar com as próprias mãos ou com ajuda de Seres Superiores do lodaçal em que se meteu. Pobre "ser humano" - se é que assim pode ser chamado - dominado pelas paixões inferiores e os vícios, aprisionado em uma cadeia de irrealidade que o torna um joguete odioso da Hierarquia Negra que espalha a semente da separatividade e do egoísmo nesta Terra. Este, o "homem atual", não só ignora sua miséria mas continua a patrocinar a guerra, o crime, a roubalheira, a discórdia. Surdo às demonstrações dadas pelo Alto, continua a massacrar o próximo, a promover a guerra e a pilhagem, a cultivar o mesquinho amor próprio e satisfazer seus sentidos mais baixos como se nada estivesse acontecendo.
Ó pobre civilização, seus dias estão contados nesta terra. Não poderemos jamais conhecer o que move os grandes Instrutores e Condutores da Humanidade, além da sua devotada e virtuosa motivação. Mas tudo o que sabemos é que da destruição brota o novo, um estado de ser em novo patamar. Nossa humanidade, não obstante, talvez esteja condenada.

terça-feira, maio 24, 2011

Crítica à Krishnamurti. O “Não-Sistema” ou “Não-Pensamento” de Jiddu Krishnamurti – Uma Crença Perigosa sob a Capa de Autoconhecimento

“(...) pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade”.
Krishna jovem. Sempre elegante.
Ele foi chamado de o “Instrutor do Mundo” e veículo do Senhor Maytreia (ou Buda Vindouro) por seus mentores Charles W. Leadbeater e Annie Besant, respeitáveis lideranças da Sociedade Teosófica em Adyar, Índia. Responsável direto por uma organização com milhares de membros ao redor do mundo – A Ordem da Estrela do Oriente - e investido de atribuições condizentes com seu elevado posto e missão, Jiddhu Krisnamurti não só renunciou ao título de “Buda” como também frustrou as expectativas nele depositadas por uma enorme multidão de seguidores (que esperava ardentemente pela mensagem de um novo condutor espiritual).

Ao abrir mão de seu status de “guia” e devolver propriedades da ordem aos antigos donos, o menino a quem se atribui a redação de “Aos Pés do Mestre” (obra prima do ocultismo ditada por um Adepto a Krishnamurti) optou por um estilo de vida marcado pela transmissão ininterrupta de uma filosofia particular – se assim se pode dizer- baseada no autoconhecimento e no abandono dos condicionamentos como caminho preferencial para a autorrealização.

Há obras que difundem a visão de um Krishnamurti ingênuo e acostumado aos prazeres e facilidades de uma vida pequeno-burguesa, sempre acompanhado por belas damas em amáveis herdades, castelos e hotéis luxuosos da Europa Ocidental ou então desfrutando de aconchegante estadia em aprazíveis mansões da Califórnia.

Um verdadeiro Gentleman
Como um místico ou homem espiritual, desligado do mundo grosseiro da matéria, vemos por outro lado um Krishnamurti sempre cercado por autoridades do mundo politico, mestres religiosos afamados, autores mundialmente aclamados (Aldous Huxley, para citar um exemplo, foi seu amigo íntimo) e um punhado de supostos amigos como Rajagopal - seu editor por muitas décadas - que o manipulavam visando abocanhar os lucros da “Krishnamurti Foundation”. Em linhas gerais, este é o relato presente no “Babuíno de Madame Blavatsky”, um livro concebido como libelo contra a Nova Era, unilateral, injusto e insanamente mordaz para com todo pensamento esotérico dos séculos XIX e XX que o autor não se esforçou por compreender.

Outra narrativa dos fatos envolvendo esta notável personalidade do século XX pode ser encontrada na biografia escrita por Mary Lutyens e publicada no Brasil pela Editora Teosófica. Ao se assenhorar dos detalhes da vida do biografado, paulatinamente, o leitor sério não pode se equivocar sobre seu verdadeiro caráter e propósitos, condizentes com o que se espera de um homem digno e decente.

Filha de uma mulher que por muitos anos foi admiradora e amiga de Krishnamurti e tendo ela mesma intimidade tanto com o biografado como com os requisitos da vida espiritual e suas nuances, Lutyens estava habilitada para lançar luz sobre pontos outrora obscuros de K. enquanto homem sujeito às vicissitudes da vida ordinária. Apresenta um ser complexo, sujeito a processos espirituais que não podiam ser compreendidos pela maioria das pessoas e alguém que possuía em alto grau um denodado senso de deve a cumprir na sua passagem pela terra. Atendendo seja à sua própria vontade ou a de alguma misteriosa entidade que ele jamais nomina (às vezes fala da “coisa” em tom vago), é certo que Krishnamurti elaborou idéias originais e impressionou fortemente muitas pessoas com elas. Se estavam corretas, ou se atendiam àqueles que buscam respostas para os dilemas do espírito, só uma análise serena pode revelar.
De forma mais transcendental, fugindo do escopo mais limitado da ciência convencional, inúmeras testemunhas teriam visto e ouvido Krishnamurti ao longo de diferentes fases da vida sendo submetido a dois processos distintos, mas que podem sugerir o fato de seu corpo físico ter sido usado durante parte do tempo pelo que chamava de “morador interno”, aquele ser ignoto que poderia estar empregando-o como um veículo purificado e preparado para uma missão específica ao longo de sucessivas encarnações. Seus fins reais, entretanto, possuíam uma intencionalidade que escapava á compreensão do próprio K.

Um destes processos consistia em periódicos episódios de aguda dor - sobretudo ao longo da coluna espinhal – que para alguns podem remeter à tese da subida da “serpente”, Kundalini. Outro mais frequente ( verificado durante quase toda sua vida adulta ) consistia no que o próprio K. apelidava de “meditação”, um estado de plenitude e bem aventurança que experimentava, às noites, em seu leito. Há circunstâncias outras envolvidas na vida de K. que comprovam tanto sua clarividência e extrema intuição e sensibilidade assim como a presença generalizada de um sentimento de segurança e proteção que se estendia a todos que estavam diante dele. Além do sobrenatural envolvido em tais coisas, sobrepujando todos estes fatos (até certo ponto subjetivos e apoiados na observações de pessoas próximas) estava o claro testemunho fornecido pelas palestras públicas e escritos de um jovem não erudito e pouco versado nas disciplinas universitários, arredio aos estudos e com pouco treino em argumentação lógico-dialética, que, repentinamente, passou a falar com grande desenvoltura sobre espinhosos temas filosóficos.

Embora a vida de Krishnamurti em si seja intrigante e, em parte, maravilhosa, seus ensinamentos merecem ser analisados criticamente, sem a complacência daqueles que em público o declaram um mero “amigo”, um conselheiro (não alguém a que se deva seguir, uma vez que em seu próprio testamento ele exigiu isso) mas, em privado , idolatram-no como um guru do autoconhecimento. Estas interrogações sobre o pensamento de Krishnamurti são válidas na medida em que razoável parcela da literatura de autoajuda contemporânea (Osho, Eckhart Tolle, o “zen budismo” de revista e outros) parece enraizar-se no “leit motif” krishnamurtiano ao usar liberalmente expressões (pois K. jamais aceitaria o termo “conceitos”) como “condicionamentos”, “liberdade”, “viver o presente”, “a verdade é relativa”, “tempo psicológico e cronológico” e outras mais.

Tudo o que Krishnamurti disse ou escreveu carrega uma generosa dose de verdade. Fala diretamente à nossa intuição, parece correto a princípio. Mas somente a princípio. Em minha opinião diz algo, paradoxalmente, a dois extremos: o homem espiritual colocado em patamar mais elevado ou aquele que ainda sequer começou a galgar os degraus da verdadeira espiritualidade e se sente confortado com uma mensagem que faz com que as coisas pareçam ser mais simples do que são. O homem intermediário, aquele que tem algum conhecimento dos ensinamentos dos mestres espirituais, o homem que sofreu influencias de tipo superior e “cruzou” a estreita cerca entre o mundo profano e o ocultismo, este só pode encontrar em Krishnamurti um colega de jornada tão perdido quanto ele, não um amigo fiel. A voz sedutora do indiano lhe sussurra uma alternativa mais simples e menos penosa que o trabalho e a luta incessante contra si mesmo, algo muito nocivo ou mesmo mortal para o aspirante à vida superior.

Muitos de nós gostariamos de “tocar a orla” da iluminação com pouco esforço. Justamente esta promessa parece estar implícita em muitas das transcrições de palestras e escritos sobre K. Nestes viceja a proposição latente de que é possível dispensar guias, não abrir mão de qualquer coisa que seja e dedicar horas e que mais horas ao estudo ou à meditação é mera tolice. A própria meditação é apenas uma projeção do que está arraigado dentro de nós em nossa mente, uma enorme tolice. Também poderíamos descartar as opiniões que outros nutrem a nosso respeito ou mesmo relacionarmo-nos com eles. Amigos, pais, professores não importam. Não só qualquer dependência deles é nociva como podem nos inspirar padrões de comportamento tradicionais que irão nos impedir de descobrir nossos próprios caminhos.

Como regra, Mestres e gurus devem ser encarados com incredulidade. Krishnamurti os odiava, às vezes com razão como quando se entediou com a estúpida tagarelice de Maharish Mahesh Yogi em um vôo em direção à Índia. Na aprendizagem há apenas o processo de aprender, não há professores ou alunos. É mais difícil formar um bom professor que um bom aluno, pois o primeiro precisa, antes de mais nada, aprender a aprender e ouvir. O professor precisa ser ensinado.

Ora, isto vai de encontro a todo um precioso conjunto de instruções do Oriente e do Ocidente que defendem a importância de um instrutor qualificado, um Mestre que possa adequadamente orientar o discípulo ao longo de um percurso tortuoso, porém eivado de recompensas para os que ultrapassam a reta final. Não são “mestres” no sentido usualmente atribuído ao título no Ocidente, professores arrogantes empoleirados em suas cátedras caquéticas a arrotar uma pretensa erudição morta extraída dos livros. O instrutor de que fala a antiga tradição nada mais é que um homem e mulher que por si mesmo alcançou um estado superior de consciência, tornou-se um “Arhat”, um “Bodhisattwa”, um “Arya Bodhisattwa”, um “Buda”, um “Cristo”.

Por sua enorme compaixão e magnanimidade, os grandes conquistadores do mundo legaram à humanidade instruções precisas sobre a maneira como eles próprios obtiveram a vitória. Estas não são necessariamente idênticas, mas semelhantes, o que prova que os princípios e o método são inequívocos. Estas são as características dos ensinamentos dos verdadeiros instrutores. Eles não se dedicam apenas a descrever os estados que experimentam mas fornecem aos homens o método, o “algoritmo” para a resolução do grande problema humano. Por isso se diz do Senhor Buda, como exemplo, que ele fornece “instruções precisas e que não nos enganam”. Já o pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade.

Para Krishnamurti, nas vidas dos homens são impressas basicamente duas heranças. Uma de origem material, ou seja, sua posição social, bens e obrigações para a coletividade. Outra é uma herança de caráter “psicológico” e que forma sua personalidade, enraizada em concepções, tradições, sistemas de pensamento e crenças que lhe foram inculcadas desde que nasceu na família, na escola ou em outros ambientes sociais. Estas duas marcas são perenes e criam condicionamentos dos quais ele dificilmente se livre, a menos que cultive a atenção no seu quotidiano, certa capacidade de estudar a si mesmo mediante a observação cuidadosa e sistemática dos seus sentimentos, pensamentos e atos, investigando-os e descobrindo por si mesmo porque eles são o que são.

Nesta via, que é íntima, não cabe o conhecimento formal, livresco. Este se adquire pela leitura e áridos estudos na escola ou nas religiões. Estas prescrições das escrituras sagradas de todos os cultos são apenas registros das experiências de outros homens e mulheres. Eles não são a verdade. A verdade em si não existe, ela deve ser descoberta sempre, a qualquer momento, mediante o autoconhecimento. Mesmo o autoconhecer-se não tem fim, ou verdadeiro conhecimento não vem de fora mas de dentro. Os textos podem apenas lhe trazer informações de segunda mão, mas o que importa é sua própria vivência, a compreensão que se tem desta vivencia quando é anulado o “Eu observador”.

Parte-se todo o tempo do princípio de que nada se pode aprender no mundo. Nada é integral, verdadeiro. Tudo se reduz a uma imensa rede de impressões captadas por um “Eu” egóico, um feixe de sentimentos, pensamentos, emoções que julga ser você porém não é o seu “Eu verdadeiro”. A mente atua como um experimentador, o “censor” que diz que aquilo é bom ou ruim desde que satisfaça ou não os seu desejo de prazer. Não se pode fazer nada a respeito disso, apenas deixarem os pensamentos flanarem e observá-los. Quanto mais atento o observador, tão mais rápido a mente irá se aquietar e você passará a perceber as coisas na sua integralidade. O bosque lá fora, os passarinhos crocitando no jardim, os gatinhos ronronando e os peixes na Lagoa cantarão hinos ao cosmos e o indíviduo (ou o não indivíduo) terá diante de si a verdadeira vida una.

Dizendo-se contrário a todos os sistemas de pensamento Krishnamurti lançou as bases do seu próprio. Nele não se reserva qualquer função ao esforço e ao gradual controle das faculdades inferiores do homem, o que deixa de ter qualquer importância. Não há qualquer hierarquia de seres no universo ou meta evolutiva, tudo se embaralha em um eterno processo de busca da autoconsciência rumo a uma vaga reintegração ao Todo. Nada impede, contudo, que o homem goze e saboreie os prazeres do “presente”, do “agora”. Não é preciso ter – como ele próprio salienta – compromissos com quaisquer causas terrestres. Estas causas apenas refletem um sentimento inato e egoísta de autogratificação. Nada de ser caridoso, nada de combater à guerra fratricida, nada de lutar em prol dos animais ou defender a natureza. Libertemo-nos de todo esse entulho imposto por nosso Ser “autocentrado” e sejamos atentos, observando tudo com esmero. Este é o “não-sistema filosófico” ou “não-pensamento” de Krishnamurti, a base ideal para uma era sem valores ou qualquer perspectiva de futuro como a nossa.

terça-feira, março 15, 2011

Férias Espirituais

Um pré-requisito da vida espiritual é a regularidade. O avanço rumo a níveis superiores de Ser requer constância e aplicação, o que por si representa cumprir um degrau importante da senda interna. Diz-se no budismo que a preguiça é o defeito comum a todos os que rejeitam qualquer esforço. Portanto é preciso vencer a preguiça por todos os meios possíveis. Não vale apelar para o velho ditado "se não pode vencê-la, junte-se a ela". No caso da relutância em praticar os exercícios espirituais, ou se apela para o intenso esforço externo ou se deve correr do perigo. Correr do perigo, em alguns casos, pode significar se impor certo grau de isolamento dos familiares, amigos, da vida social enfim.
Pode ser necessário um penoso período de aprendizado pessoal para que possamos compreender que não somos super-homens, ou, sendo mais exato, ainda não somos super-homens. Isto significar reconhecer nossos limites e fraquezas e, neste momento, recolher-se e tolhar ao máximo os contatos com o mundo exterior seja a melhor estratégia a adotar.
Somos muito frágeis e tendemos a exagerar nossas conquistas espirituais. É muito comum, inclusive, extasiarmo-nos ao término de alguns poucos meses de esforços com o estado de serenidade que advém naturalmente, por exemplo, da meditação constante e da estrita observância de regras mínimas de pureza. Porém, esta espécie de "gozo transcendente" e toda a auto-gratificação que envolvem pode anular todo o acúmulo de méritos precente.
Em outras situações, sentimo-nos fortes em demasia, capazes de estender por lapsos mais largos de tempo nossa atuação no "palco da vida". Cremos poder representar o papel cósmico que nos foi destinado adiando obrigações espirituais e, repentinamente, damos uma série de passos atrás. A reconquista da discipla anteriormente cultivada torna-se difícil. È como tirar "férias espirituais" por um período e logo dar-se conta que este descanso foi se prolongando "ad infinutum".
Há pessoas em que o nível de consciência é tão alto em que a vida interna e externa são quase ou totalmente coincidentes. Na prática, são seres raros e pertencentes a um pequenino círculo esotérico da humanidade. O rebanho humano em que nos incluímos depende ainda de pastores que lhe prodigalize os devidos cuidados...

quarta-feira, janeiro 12, 2011

O Vento não é Triste nem Alegre

O vento não é triste nem alegre. Ele é simplesmente o vento. Os humanos inventaram conceitos que expressam estados de espírito aos quais elas se agarram como uma criança ao peito materno. Sua busca de autogratificação, o apego e à rejeição os conduzem a uma eterna escravidão e até mesmo quando se suicidam o fazem por não terem sido afastados de seu objeto de apego. A identificação no Ser humano é tamanha que há muitos de nós que rejeitamos qualquer esforço de conhecimento de nós mesmos e de liberação das ínúmeras leis que nos nos tornam mecânicos. Temos inclusive uma medonha aversão - que tentamos esconder de nós mesmos - da possibilidade de algum dia coisas como "mãe", "pai", "amigos", "filhos", "lar", "bens materiais" um dia não possam ter tanta importância. O que será de nós sem eles? Só nos esquecemos ao pensar assim de duas coisas importantíssimas: eles irão morrer um dia, nós também. A impermanência é a tônica deste reino em que estamos.
Quem seremos nós sem nossas famílias, sem nossos pais, sem nossos filhos? Confundimos a verdadeira espiritualidade com preces repetidas pelo nosso bem estar e de nossos entes queridos quando. Somos agarrados, deludidos, mecanizados, identificados. Estamos em pecado, não nos arrependemos. Não seguimos o conselho do Cristo e não deixamos nosso pai, mãe e irmã.
Aos nossos olhos de fariseus é escandaloso e indigno abandonar os pais. Aos olhos do verdadeiro trabalho anterior não. Trabalhar sobre si não é se tornar indiferente, é saber palmilhar uma trilha de bambu a milhares de metros de altura, manter o equilíbrio e permanecer vivo, sem cair. Por permanecer vivo quero dizer manter o verdadeiro amor ao próximo, que é permanente, não ilusório; é multilateral, não unilateral, é genuíno, não identificado.
Com a persistência necessária no treino do desapego iremos realizar em nosso íntimo a compreensão de que tudo é relacional. A vida - não a simples vida biológica, mas a "dança cósmica" - é um produto de eventos concatenados. Nossa vida é uma seqüência de eventos ensinava o Prof. Nicholls, nada mais que isso. Produtos de circunstâncias - cármicas, chamem-nas como quiserem - não são bons ou ruins, não são alegres nem tristes. No plano do universo apenas os seres humanos os tratam dessa forma.