Gurdjieff

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sexta-feira, dezembro 09, 2005

Uma Breve História do Mito - Karen Armstrong

Já conhecida do público brasileiro por sua “História de Deus”, livro em que traça a rota do monoteísmo no decurso de 2000 anos de história, Karen Armstrong retoma agora a discussão da religião de acordo com o conceito mais amplo de “mito”, em uma “Breve História do Mito”, publicada pela “Companhia das Letras” em 2005. Curta e objetiva, esta pequena monografia abre os olhos do leitor, em uma perspectiva histórica que divide o assunto nas grandes Eras da aventura humana (a paleolítica, a neolítica, a “Era Axial”, o período “Pós-Axial”, a época das “grandes transformações e a idade moderna). Armstrong foi bem sucedida em unir com sutil maestria o didatismo de exposição à profundidade, algo raro em muitos especialistas no tema.
Nesta descrição da forma como os mitos foram alterando suas feições na história, Armstrong toma um primeiro passo lembrando que os homens “(...) sempre foram criadores de mitos. Arqueólogos escavaram túmulos do homem de Neandertal que continham armas, ferramentas e ossadas de um anima sacrificado; tudo isso sugere uma crença qualquer num mundo futuro similar àquele em que viviam”. Estes mitos, cujo significado é inscrito nos túmulos dos neandertais retém cinco aspectos principais. De maneira resumida:

Os túmulos dos homens de Neandertal nos revelam cinco aspectos importantes do mito. Primeiro, ele se baseia sempre na experiência da morte e no medo da extinção. Segundo, os ossos de animais indicam que o sepultamento foi acompanhado de um sacrifício. A mitologia em geral é inseparável do ritual. Muitos mitos não fazem sentido separados de uma representação litúrgica que lhes dá a vida, sendo incompreensíveis num cenário profano. Terceiro, o mito de Neandertal foi invocado ao lado de um túmulo, no limite da vida humana (...)”. “Quarto, o mito não é uma história que nos contam por contar. Ele nos mostra como devemos nos comportar (...)”. “Por fim, toda a mitologia fala de outro plano que existe paralelamente ao nosso mundo, e em certo sentido o ampara. A crença nessa realidade invisível, porém mais poderosa, por vezes chamada de mundo dos deuses, um tema básico da mitologia. Tem sido chamado de ‘filosofia perene’, pois alimentou a organização mitológica, social e ritual de todas as sociedades até o advento da modernidade científica, e continua a influenciar as sociedades mais tradicionais da atualidade”.

Melhor dizendo, apenas pela participação na divina os frágeis homens mortais podem realizar inteiramente seu potencial. Infelizmente, atualmente à palavra mito é sempre associada uma convenção negativa (mito equiparado a mentira), quando na verdade só é eficaz quando é verdadeiro. “Um mito, portanto, é verdadeiro por ser eficaz, e não por fornecer dados factuais. Contudo, se não permitir uma nova visão do significado mais profundo da vida, o mito fracassa. Se funciona, ou seja, se nos força a mudar corações e mentes, nos dá novas esperanças e nos impele a viver de modo mais completo, é um mito válido”.
O período em que a humanidade criou seus primeiros mitos foi o paleolítico (c. 20.000 a 80.000 A.C.), no qual foi completada a evolução biológica da raça humana. Ainda não havia a agricultura e os povos eram caçadores, que julgavam que qualquer coisa, por mais inferior que fosse, seria capaz de personificar o sagrado, ao qual se uniam completamente. Algo difícil para os modernos, para quem “(...)um símbolo está essencialmente separado da realidade invisível para a qual chama nossa atenção, mas o termo grego ‘symballein’ significa ‘colocar junto’: dois objetos até então distintos se tornam inseparáveis, como o gim e a água tônica da bebida”.
Estas primeiras mitologias ensinaram as pessoas a enxerga algo além, uma realidade invisível descrita nos termos do que se convencionou chamar “filosofia perene”. Os mitos mais primitivos estavam associados ao céu, que dava aos homens uma noção do divino, do remoto, separado da insignificância de suas vidas. A maior parte dos panteões daquele período contava com seus “Deus do Céu”, que ainda é encontrado, até hoje, entre pigmeus australianos e pigmeus da Terra do Fogo, jamais representado por imagens e dispensando sacerdotes. Era um Deus sempre ausenta das decisões diárias das pessoas e por isso fracassou relativamente, ao não cumprir todos os quesitos para o sucesso do mito (na Mesopotâmia, novos deuses como Enlil e Baal se impuseram, na Grécia Uranos, o Céu, foi castrado pelo filho Cronos).
Já nesta longínqua Era, paralelamente ao desenvolvido do mito irracional os caçadores-coletores formaram em embrião a idéia do “logos”, que viria a assumir importância capital milênios depois. Os seres humanos superaram suas desvantagens físicas desenvolvendo o raciocínio e o cérebro e, “mesmo neste estágio inicial, o Homo Sapiens já desenvolvia o que os gregos chamariam de logos, o modo de pensar lógico, pragmático e científico que lhe permitiria atual com sucesso no mundo”. Ou seja:

Desde o princípio, o Homo Sapiens compreendeu instintivamente que o mito e o Logus tinham tarefas diferentes a desempenhar. Usou o logos para aprimorar armamentos, e o mito, com seus conseqüentes rituais, para se reconciliar com os fatos trágicos da vida que ameaçavam sufocá-lo e o impediam de agir com eficiência”.

Com o período neolítico e a inovação da agricultura, mudou o foco principal do mito(c. 8000 a 4.000 A.C.). Não obstante tenha resultado do “logos”, ao contrário das revoluções tecnológicas da atualidade a agricultura levou a maior consciência espiritual, tornou-se tão sacramental quando o era a caça no período anterior.

A colheita era uma epifania, uma demonstração da energia divina, e quando os agricultores cultivavam a terra e produziam comida para a comunidade, sentiam que haviam penetrado no reino sagrado e participado de sua milagrosa abundância. A terra sustentava todas as criaturas – plantas, animais e humanos – como se fosse um útero vivo”.

Neste contexto, os rituais visavam a abastecer a força da natureza, evitando que se exaurisse. Mesmo a sexualidade humana era considerada idêntica à energia de origem divina que proporcionava frutos à terra e as pessoas eram vistas como pertencentes a ela. Assim como no paleolítico o céu, venerado, personificou-se no Deus Céu, no neolítico a “(...) terra nutriz e maternal se tornou a Deusa Mãe”. Com o advento das primeiras civlilização, entre 4000 a 800 A.C.; mais uma vez a visão do divino iria se alterar, agora com outra novidade: a invenção da cidade.
As primeira cidades surgiram na Mesopotâmia, depois no Egito, na China, na Índia e em Creta. O ritmo da mudança se acelerava e a seqüência lógica de causa e efeito era mais evidente par s pessoas. O homem finalmente tinha uma sensação de domínio do ambiente e estórias como a torre de Babel (o grande Zigurate da Babilônia) bem ilustram o quão arrogantes aquelas nações se tornaram em sua nova condição.

Assim como seus ancestrais haviam considerado a caça e a agricultura atividades sacramentais e sagradas, os primeiros urbanos viam suas conquistas culturais como essencialmente divinas. Na Mesopotâmia os deuses haviam ensinado aos homens a construir os zigurates, e Enki, deus da sabedoria, era patrono dos coureiros, ferreiros, barbeiros, pedreiros, oleiros, técnicos em irrigação, médicos, músicos e escritores. Eles compartilhavam a criatividade divina dos deuses, que haviam levado a ordem para onde só havia a confusão e caos”.

Permanecia a adesão das pessoas à “filosofia perene” e aquelas sociedades conservavam a crença de que tudo o que ocorria na terra era uma réplica da realidade celestial. Assim como sua cultura urbana evoluíra a partir de diminutas comunidades agrícolas, os deuses haviam atravessado uma evolução análoga, concepção que penetra a fundo os “mitos da criação” babilônicos descritos no “Enuma Elish” (segundo milênio A.C), cuja teogonia mostra como a partir de Apsu, o rio, Tiamat, o mar e Mummu, a nuvem opaca, surgiram os outros deuses, aos pares. Como explica Armtrong:

O mito examina o processo humano de mudança, que reproduz o desenvolvimento dos deuses. Ele reflete a evolução da cidade-Estado mesopotâmia, que havia dado as costas para a sociedade agrária anterior (agora tida como lenta e primitiva) e se estabelecera pela força militar. Após sua vitória, Marduk funda a Babilônia (...) A cidade é chamada ‘bab-ilani’ (“o portão dos Deuses”), o lugar onde o divino entra no mundo dos homens. (...) A cidade portanto pode substituir o antigo axis mundi, que ligava o céu e a terra na Idade do Ouro”.

Após o paleolítico despontou a “Era Axial” ( 800 a 200 A.C.), termo cunhado pelo filósofo Karl Jaspers que designa o desenvolvimento espiritual que caracterizou o período. São séculos misteriosos em que nasceram as grandes religiões e filosofias que orientam milhões de pessoas durante mais milênios. Não se sabe porque envolveu somente chineses, indianos, gregos e judeus e por que outros permaneceram de fora (a Mesopotâmia e o Egito). O ponto central desta Era consistiu na interpretação de natureza ética e intimista dos velhos mistos, o homem e seu ser adquirem renovada dimensão e o sagrado volta à sua transcendência original.]

As pessoas nos países axiais ainda ansiavam pela transcendência, mas o sagrado parecia agora mais remoto, estranho até. Um golfo passou a separar os mortais dos deuses. Eles não compartilhavam mais a mesma natureza; não era possível acreditar que os deuses e os homens se originaram da mesma substância divina”.

Os primeiros a partir rumo ao “etos axial” foram os chineses, com a “regra de outro” (“não fazer aos outros o que queremos que nos façam”) tenso sido formulada, pela primeira vez, por Confúcio. No fulcro do novo pensamento axial, via de regra, estava a concepção de que não bastava realizar os rituais, mas adotar um comportamento ético correto. Havia diferenciações na maneira de vislumbrar a herança do passado, mas entre os mais radicais inimigos dos mitos antigos – os israelista – brotou a primeira religião essencialmente monoteísmo, firmada pelo Segundo Isaías na Babilônia.
Na Grécia, as idéias da Era Axial foram alimentados pelo “logos” (razão), estabelecendo-se a verdade por meio da indagação permanente e de consciência crítica aguçada. Sócrates firma seu método (“a maiêutica”) e o apelo à dialética contribui para ampliar o fosso entre o racional (o “logos”) e o imanente, o “mito”. Após a “Era Axial” assumiram posição de destaque – sobretudo no Ocidente – as fés monoteístas, no período chamado de “Pós Axial” (200 A.C. a 1500 D.C.) pela autora.
Neste momento, as três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), inspiradas pelos sábios, filósofos e profetas axiais, reinvidicavam se basearem na história e não no mito. O judaísmo, em particular, possui relação conflituosa e paradoxal com a mitologia de outros povos, às vezes antagonizando-os, outras usurpando histórias estrangeiras para ilustrar sua própria visão. Mas, sem dúvida, inspirou outros mitos como o cristianismo, que assim como o Islã foi “uma reafirmação tardia do monoteísmo axial”. Em todas esta tradição (monoteísta) o mito continua a exercer seu papel.

Em virtude da dimensão mítica dessas religiões históricas, judeus, cristãos e muçulmanos continuaram a usar a mitologia para explicar suas visões ou reagir a uma crise. Todos os seus místicos recorreram ao mito. As palavras misticismo e mistério se vinculam a um verbo grego que significa ‘fechar os olhos ou a boca’. Ambas se referem a experiências obscuras e indescritíveis, pois estão além da palavra e se relacionam com o mundo interior, em vez do exterior (...) Como a mitologia oculta essa dimensão interior, profunda, é natural que os místicos descrevam suas experiências em mitos que podem parecer, à primeira vista, inimigos da ortodoxia e sua tradição”, (...) que está “(...) especialmente claro na Cabala, a tradição mística judaica”.

Mas no século XVI de nossa própria Era, transformações sem precedentes na organização econômica – a revolução mercantil e capitalista – levaram a uma nova configuração das sociedades – primeiramente na Europa Ocidental e aos poucos no resto do mundo – e, simultaneamente, modificações na estrutura religiosa, com a emergência novas orientações do pensamento. Esta “modernidade” ocidental era filha direta da “logos”, afirmando o triunfo do “espírito científico pragmático” e baseando-se na “eficiência”. Os novos heróis não eram homens de espírito, mas inventores. A sensação de domínio do ambiente era maior e aumentava a percepção da incompatibilidade entre mito e logos.Em suma:

O logos científico e o mito se tornavam incompatíveis. Até então a ciência fora praticada dentro de uma mitologia abrangente que explicava sua importância. O matemático francês Blaise Pascal (1623-62), um homem profundamente religioso, enchia-se de horror ao contemplar o ‘silêncio eterno’ do universo infinito, aberto pela ciência moderna”.

Tão brusca separação entre “logos” e “mito” é problemática, no entanto. A crença em algo “superior” e a prática mística auxiliaram homens e mulheres a suportar a dor do mundo e encarar a realidade da extinção com menor desespero. Nosso mundo, sem o mito, não tem sido o melhor possível para todos os povos (vejam o Brasil, país do Terceiro Mundo) e está longe do prometido pelos iluministas do passado. Contrariamente ao previsto, as piores e mais dramáticas degradações da condição humana ocorreram no século XX e a irracionalidade se reveste das formas mais sombrias. Por isso, o que nos reservará o futuro senão a reconstrução do mito em bases mais sólidas, promovendo sua reconciliação com o “logos”. Aguardemos para ver.

terça-feira, dezembro 06, 2005

A Visão da Reencarnação entre os Antigos Gregos (Parte I)

Que a Grécia é o berço da civilização, legando-nos as letras (prosa e poesia), a escultura, a pintura, o teatro, a filosofia (a grande construção metafísica daqueles povos) e a ciência, não há quem duvide. Nossa tradição política ocidental deve, e muito, ao ideal grego da polis, combinado a institutos previstos no “Codex” romano e aperfeiçoados durante os séculos em que vigorou aquele império do qual Edward Gibbons dizia, não sem razão, ter sido “simples, prudente e benéfico” – dizendo com simplicidade, o maior e mais justo da história da humanidade - em sua “History of the Decline and Fall of the Roman Empire”.
Os estudiosos vulgares e toda a sorte de comentadores de baixo escol difundiram o infame boato nas instituições de ensino – talvez incentivados pelos mestres de orientação marxista, ou religiosos grotescos que abominavam a cultura greco-romana – a falácia memorável de que gregos e romanos adoravam ou se deleitavam em ritos orgiásticos rendendo preces a entidades assassinas e voluptuosas, que se compraziam no mal, ou imitavam, no Monte Olimpo, todas as vicissitudes e erros em que incorriam os mortais na terra.
Não raramente, o mentecapto de formação cristã ou pertencente a qualquer uma das assim chamadas “religiões do deserto” (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo) identifica o panteísmo greco-romano, seus mistérios, sua admirável teologia (sim, ao menos os helenos possuíram uma teologia), sua rica imagética, seu apelo imanente aos mais altos desígnios do Ser humano, com o animismo mais puro e simples ou a idolatria de um bezerro de ouro que representava os sentimentos mais torpes da parcela podre da antiga Mesopotâmia.
Estas miseráveis “religiões do deserto”, o desprezível monoteísmo da Era Axial (expressão de Karl Jaspers) que espezinhou toda uma herança cultural que irmanava os homens e os associava a seus antepassados (“manes”), granjeando-lhes um senso de pertencer a algo maior e mais duradouro, a “espécie”, toda este imenso arcabouço de valores, uma vez associado ao paganismo, fora deitado fora, mergulhando toda a civilização conhecida – ou um arremedo dela – à obscuridade.
Este episódio é relatado em minúcias na história escrita, aparecendo na parábola de “São Bento, Vida e Milagres”, escrito por São Gregório Magno (o Papa que criou o canto gregoriano e uma nova notação musical) e que ilustra simbólica e esotericamente o significado oculto da “Idade das Trevas” (muito embora não o fosse essencialmente, em parte graças à obra dos escolásticos e dos “faylasufs” árabes como Ibn Sina, Ibn Al Arabî e Ibn Róis).
No momento correto, as verdades ocultas serão desveladas, mas este não é o horário. Falaremos por enquanto da maneira como os gregos e seus filósofos (pré-socráticos sobretudo, os neo-platônicos com suas teorias do Uno e suas hipóstases) incorporavam a morte e a reencarnação em suas teses.

domingo, dezembro 04, 2005

Mito Melanésio

Há um mito melanésio de beleza tocante, relatado por Mircea Eliade em "O Conhecimento Sagrado de todas as Eras". É o mito da "pele eliminada", que irei transcrever agora para que os leitores o meditem e entendam:

"No começo os homens nunca morriam, mas quando atingiam determinada idade eliminavam a pele como as cobras e os caranguejos, e tornavam-se jovens outra vez. Depois de um certo tempo, uma mulher que estava ficando velha foi a um regato para mudar de pele. Desfez-se da pele velha lançando-a à água e notou que ao ser levada pela corrente a pele ficou presa num galho seco. Depois voltou para casa onde tinha deixado o filho. Este, contudo, recusou-se a reconhecê-la, e disse chorando, que sua mãe era uma velha, diferente dessa jovem estranha; e assim, a fim de acalamar a criança, a mãe voltou ao regato em busca de seu tegumento eliminado e vestiu-o novamente. Desde então os seres humanos deixaram de eliminar a pele e começaram a morrer".

R.H. Codrington, The Melanesians (Oxford, 1891), p. 265.

Ramsés II não é o Faraó do Êxodo


É importante nunca confundir o Faraó que colocou seus magos e feiticeiros contra Moisés (ou M0ses, o Egípcio) com o grande Ramsés II da foto abaixo (a múmia foi recentemente devolvida ao Egito, em um gesto nobre da Grã-Bretanha que permitirá ao inesquecível governante daquele país repousar eternamente na terra pátria).


Ramsés II foi o grande conquistador do Egito, o Leão que derrotou os Hititas na Batalha de Kadesh (na qual aliás, não houve "vencedores" segundo modernos historiadores e teria resultado em um "jogo de soma zero", como reza a teoria dos jogos) e ergueu enormes estátuas e mausoléus por todo o Egito. O que chama mais atenção em sua conservadíssima múmia londrina são os traços claramente semitas do Faraó. Sim, Ramsés II veio do Norte e não era etnicamente de origem egípcia. Quem sabe não era estrangeiro?

O Verdadeiro Faraó do Êxodo

Acostumamo-nos a contemplar a figura sóbria de Ramsés II no Museu de Londres - uma das múmias mais conservadas da história, linda mesmo - e julgá-lo o Faraó sobre o qual foram lançadas as pragas de Moisés no Egito. Caso o fosse, não estaria lá, pois teria sido tragado pelo mar Vermelho durante a travessia dos hebreus, junto a todo seu exército.

Mas o verdadeiro Faraó do Êxodo foi Neferhotep I. Vejamos (1):

"Enquanto realizavam escavações nas ruínas do antigo templo de Karnak, arqueólogos franceses encontraram uma rara estátua do faraó Neferhotep I, que governou o Egito entre 1696 e 1686 A.C. A obra, que tem mais de 3.600 anos de idade e 1,8 metro de comprimento, está em ótimo estado. A estátua de Neferhotep, porém, está parcialmente bloqueada por restos de uma antiga estrutura, possivelmente um portão, o que impede, por enquanto, sua remoção do lugar onde foi encontrada. Alguns historiadores bíblicos acreditam que Neferhotep seria o governante do Egito à época do êxodos dos judeus".

Neferhotep I foi rei entre a XIII e XIV dinastias do Egito.

"Dos reis desta duas dinastias consta uma lista com trinta nomes, é tudo o que sabemos. Alguns continham o nome de Sobk e disso se pode deduzir que eram originários de Fayum, enquanto que outros levavam o prestigioso nome de Amenemhat.
O primeiro da série, Sebekhotep, que provavelmente se casou com Skemiofris, e o segundo, Skehemkare, parecem ter tido o controle do país, mas deduzimos que em breve a situação se agravou e no decurso de cinqüenta anos sucederam-se um trinta reis, corruptos, simples burgueses e, por fim, um negro, por nome de Nehesi (o que significa exatamente negro). Neferhotep I, nas inscrições, se vangloriou de suas origens humildes. O mais importante parece ter sido um dos Sebekhotep, que conseguia não só governar, mas retomar o controle de Biblos. Um outro, Sebekhotep, mandou erguer para si grandes estátuas em Tânis. De resto, foi uma era de reinados curtos (poucos anos ou poucos meses - um rei chegou a reinar por dois dias) e de reis privados de poder (ou assassinados) por outros que em breve tinham o mesmo destino. No fim, surgiram duas dinastias distintas e simultâneas, uma em Tebas e a outra em Xóis, no Delta. Os poucos documentos que nos restaram não nos permitem esclarecer este obscuro período; sem dúvida, a economia sofreu com isto e a desorganização devia ser total, tanto assim que o país não teve mais condições sequer de defender as próprias fronteiras" (2).

As implicações desta descoberta encobrem ainda mais o mito de Moisés e do Êxodo, que fica situado bem antes da ascensão de Akhenaton. Mas a minha tese principal continua válida, isto é, de que a religião hebréia é herdeira direta do monoteísmo de "Amarna" e do culto ao disco solar, Aton. Ele foi reforçado com o espírito de Akhenaton, embora provavelmente seja mais antigo, remontando a Deuses (em particular El) da Caldéia, de onde viera Abrão-Abraão anos antes, o "pai" das tribos de Israel.

O importante é reter que na dinastia anterior, do "Médio Império", foi criado o Deus Supremo Amon, o invísivel, que abria caminho certamente para a adoração de uma divindade única com o Faraó Akhenaton, séculos depois. Como diz Paul Johnson:

"O Médio Império também criou seu Deus supremo, Amon, que, originalmente, não era uma divindade tebana, mas um deus verdeiramente primevo, desse muito arcaicos. Ele parece ter se estabelecido deliberadamente como o contrapeso tebano para Ptah, de Mênfis, e Atum, de Heliópolis. O culto de Amon se tornou, entõa, a religião oficial da família régia. Mas ele ainda era mais do que isso. Seu grande mérito era a invisibilidade, fazendo com ele pudesse ter sua presença imanente declarada em todos os lugares. Multiforme e sincrético, ele era capaz de ser associado convenientemente a outros deuses importantes, como Rá. Passível de realizar viagens, ele se abria para, potencialmente, assumir a posição de um Deus imperial" (3).

Esta gloriosa dinastia foi sucededida pelas XIII e XIV, marcadas pelo reinado de Faraós como Neferhotep, ou seja:

"Essa dinastia foi substituída pela Décima Terceira, é improvável, entretanto, que os reis tardios dessa última tenha controlado a totalidade do país. Os próximos 200 anos, até a criação do Novo Império, durante a Décima Oitava Dinastia, em cerca de 1570 A.C., ficaram conhecidos como o Segundo Período Intermediário. A propaganda egípcia posterior apresentou essa Idade das Trevas como uma vergonhosa e cruel conquista estrangeira realizada pelos hekaukhasut ("príncipes dos países estrangeiros") - um termo que aparece equivocadamente em Manêton como hicsos, ou "reis pastores".

(1) Revista Galileu, no 168, Julho 2005.
(2) MELLA, Federico A. (op. citada).
(3) JOHNSON, Paul. História Ilustrada do Egito Antigo. Ediouro. São Paulo: 2002.






UMA BREVE DESCRIÇÃO DO FARA

Storia: Secondo il Canone di Torino, a Sebekhotpe III successe Neferhotep che regnò undici anni. Le testimonianze su costui, come sul suo predecessore, sono relativamente numerose. Varie iscrizioni su roccia presso la prima cateratta ricorderebbero una sua visita nella località, e una lapide in steatite trovata nello Wadi Halfa dimostra che la sua autorità si estendeva almeno fin laggiù. Anche più interessante è un bassorilievo scoperto nella lontana Biblo sulla costa siriaca, che rappresenta il principe locale nell'atto di rendergli omaggio. Un suo ritratto ci è rimasto in una bella statuetta che si trova nel museo di Bologna. Per lo studioso dei geroglifici, tuttavia, la più importante reliquia del suo regno è una grande stele scoperta da Manette ad Abido e lasciata in loco a causa delle sue condizioni precarie. Il significato generale dell'iscrizione è ancora chiaro malgrado le lacune dell'unica copia disponibile. Il faraone è presentato a consulto con i suoi cortigiani, mentre espone la sua intenzione di far modellare nella forma autentica le statue di Osiride e della sua Enneade e ordina di far si che egli abbia modo di consultare gli antichi testi dove queste cose sono registrate. I cortigiani s'inchinano in segno d'assenso con la consueta ossequiosità. Un funzionario viene mandato ad Abido a preparare il cammino. Egli dà disposizioni perché Osiride venga portato in processione sulla barca sacra; quindi arriva il re, sovrintende personalmente alla fabbricazione delle statue e prende parte alla rappresentazione mimata della sconfitta dei nemici del dio. Il resto del testo è dedicato a pie lodi della divinità e a minacce rivolte contro chi in futuro osasse sminuire il ricordo di un così grande e benefico re.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Teoria em Estado Prático - Louis Althusser


Suspenda-se a interminável discussão esotérica. Um conceito que anda esquecido e que Louis Althusser (o hoje menosprezado "philosophe français") lavrou em "Sur la Théorie", a "teoria em estado prático". O que é isso? Que diabo pode ser esta tal "teoria em estado" prático? Não seria contraditório falar em "teoria em estado prático"? Mas Althusser, que amava o taoísmo do Ying-Yang de Mao-Tsé-Tung (que detestava tomar banho e tinha os dentes podres, como Stálin), mascarado de contradições "dialéticas" (quem não se lembra das contradições "principais e secundárias" que amparavam as táticas das "esquerdas festivas" do mundo?), não se preocupava em levar o raciocínio a paroxismos. Alguns deles, como esta estranha e pouco convencional noção da "teoria prática" têm até algum sentido. Vamos lá.

Althusser, ao raiar da vida (após ter assassinado sua mulher em um surto até hoje não explicado), de ídolo inquestionável da "gauche" francesa (aquela mesma que adora os "cafés", ama bons queijos e bons vinhos, vagabundeia na Universidade de Paris e recebe um "salaire minimum d'insertion", pago pelo contribuinte francês e que aumenta o déficit público e diminuiu a produtividade do país, esta mesma esquerda que tem sua congênere no Brasil, a famosa "festiva" do impagável Nelson Rodrigues), este requintado autor de "Pour Marx" ("best seller" da "gauche" mundial pós-Sartre, o chatíssimo), foi convertido no demônio goethiano.

Atribuíram a Althusser todos os epítetos que seriam capazes de jogar na lama os brios de qualquer esquerdista, em tempos em que ser "verdadeiramente de esquerda" era um troféu a ser exibido nos botequins da vida e qualquer desvio com relação à "santíssima trindade do Marxismo" (Marx-Engels-Lênin) era um crime de lesa-pátria (a pátria mundial dos operários, que sequer existiam...), disseram que o velho não era marxista. Não era marxista? Ora bolas, tinha sido assim por décadas. Mas na minha opinião foi ele próprio que desencadeou o questionamento sobre sua obra ao confessar - volto a dizer, já com o pé na tumba - que de "O Capital" (esta tediosa e longa obra de Marx) só havia lido um livro, repito, um livro, do primeiro volume do tomo 1 (são quatro tomos, fora os acréscimos "post-mortem").

Joguei no lixo os livros de Althusser quando rompi com o marxismo há 11 anos. Mesmo sem consultá-los (aconteceu o mesmo com Avicena, porém em outras circunstâncias pois sua casa foi incendiada pelos turcos...), tenho frescas na memória o "seu corte epistemológico" (a separação radical entre o jovem e o velho Marx, no que julgo estava certo) e o seu método "estruturalista" (uma abordagem que conquistava os corações dos estudantes franceses). Althusser enganou a todos por bastante tempo mas, sem dúvida, era original em alguns pontos de vista.

Bem, a sua explicação de uma "história sem sujeito" era um recurso capenga, assim como algumas outras proposições (principalmente as políticas), mas a sua "teoria em estado prático" era "sui generis". Se bem me lembro, não se podia considerar como teorias apenas raciocínios em alto nível de abstração, mas também os atos e ações de grandes personalidades (políticos, homens de Estado, revolucionários como Lênin e Stálin). Mesmo que não houvessem escrito livros "teóricos", sua própria ação podia ser teorizada, ou seja, a prática virava teoria.

Analisando o conceito de "teoria em estado prático", só agora, na minha maturidade, consigo apreendê-lo na plenitude. Por teoria em estado prático entende-se o seguinte: Stálin escreveu que era preciso unir os povos da URSS, mas como sua ação direcionou-se para sua atuação, a teoria "prática" ensina que exterminar é uma boa coisa. Lênin falou de democracia, porém por razões "maquiavélicas" implementou uma ditadura. Logo, a "teoria leninista em estado prático" ensina-nos que um passo necessário para conquistar a liberdade final dos homens no comunismo é implantar uma ditadura (com ou sem proletariado).

A tal "teoria em estado prático" serve para a gente explicar, aqui no Brasil, por que o Zé Dirceu é tão cínico e o Lula tão ignorante. Tudo isto, ensina-nos Althusser, pode ser condensado em uma estratégia de "realpolitk" - explicada em termos "prático-teóricos" - em que os fins justificam os meios. Não se pode comparar um homem que rouba para financiar uma causa (o José Dirceu) com quem rouba para poder tomar água mineral francesa na prisão (Maluf). Eu, pelo sim pelo não, prefiro o Maluf que, ao menos, apropria-se dos impostos pagos pelos cidadãos mas não quer criar nenhuma sociedade exclusivista, anti-democrática e assassina como os Senhores Lula e Dirceu.


Mitos Fundadores – III

Um dos mitos fundadores mais difundidos no decorrer de milênios por todo o globo é o da reencarnação, isto é, a circularidade das existências que se prolongam na esfera terrestre após a morte dos indivíduos. No Cristianismo, admite-se a “encarnação” do Logos na carne (Jesus Cristo), embora a leitura cuidadosa dos dois testamentos às vezes nos transmita a nítida impressão de que o próprio “Filho de Deus” (literal ou simbolicamente considerado como o “eleito” do Senhor) é uma encarnação de outro notável profeta de Israel, Elias.

Mas é no Velho Testamento em que lemos o mais veemente depoimento da crença dos hebreus em espíritos. Se o desventurado Rei David, abandonado por Javé, teve de recorrer a uma necromante (uma pessoa que invoca espíritos) para fazer “subir” (do “sheol”, inferno ou “Hades” grego) o espírito do juiz e profeta Samuel (I Samuel, capítulo 28), conclui-se que os espíritos podiam se manifestar, assim como ensinado por modernas seitas - das quais falaremos em outra ocasião - e as religiões de outros povos. Se os espíritos podem ser invocados, também não causaria estranheza que pudessem retornar à vida em novos veículos motores (corpos).

“(...) 6 Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.
7 Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante.
8 Então Saul se disfarçou, vestindo outros trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de noite à casa da mulher. Disse-lhe Saul: Peço-te que me adivinhes pela necromancia, e me faças subir aquele que eu te disser.
9 A mulher lhe respondeu: Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer?
10 Saul, porém, lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Como vive o Senhor, nenhum castigo te sobrevirá por isso.
11 A mulher então lhe perguntou: Quem te farei subir? Respondeu ele: Faze-me subir samuel.
12 Vendo, pois, a mulher a samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul.
13 Ao que o rei lhe disse: Não temas; que é que vês? Então a mulher respondeu a Saul: Vejo um deus que vem subindo de dentro da terra.
14 Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência.
15 samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer.
16 Então disse samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?
17 O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi.
18 Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.
19 E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará o arraial de Israel na mão dos filisteus.
20 Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite
”.
Dogmas da reencarnação estão presentes no corpo doutrinário esotérico dos egípcios, nos mistérios de Elêusis gregos, nos ritos romanos e celtas, nas práticas dos xamãs, na filosofia pitagórica, no neoplatonismo de Plotino e seus seguidores, nas religiões de matriz védica, no budismo de Sidharta Gautama e nos escritos de Allan Kardec, que elaborou um edifício de raciocínio que retira todo o encanto oculto do tema.