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segunda-feira, novembro 28, 2005

Mais alguns Limites da Ciência

Sou um produto do século XX. Estudei matemática, física, química e biologia. Não deixo de consultar meu médico regularmente, uso antibióticos, interesso-me por astronomia. Leio bastante sobre técnicas para prolongar a longevidade e até mesmo a que está relacionada uma vida extensa e de boa qualidade. Na semana passada maravilhou-me um estudo científico que relaciona um determinado gene ao câncer. Retirando-o, pode ser inibida a reprodução desordenada de células que os médicos denominam "carcinogênese" mas também se acelera o processo de envelhecimento. Uma relação paradoxal entre os opostos.
O fato de respeitar a ciência não me tornou fanático por ela. Reconheço que muitas perguntas não foram ainda satisfatoriamente e, talvez, nunca o serão. Tomou ares de lugar comum a falta de precisão da medicina. Todos os dias nos deparamos com novas descobertas que contradizem tudo aquilo que havia sido dito há poucos anos ou meses. Não me surpreenderia se um grupo de pesquisadores australianos afirmassem em breve que fumar cigarros faz bem à saúde ou beber vodka aumenta a quantidade de neurônios no cérebro.
Na astronomia os estudos também são extremamente contraditórios e as "conclusões" instáveis. Houve mesmo a inflação do universo? Há defensores ardorosos desta tese, outras a afastam com desdém. O mesmo ocorre com a famosa teoria do "big-bang", que parece favorecer a tese cristã da criação "ex nihilo" (a partir do nada). Esta versão da origem do Universo coincide estranhamente com a visão neoplatônica do Uno e suas emanações ou do desdobrar do "ein soft" da cabala em "sephiróts" (ou hipóstases de Plotino). É bastante atraente para algumas religiões monoteístas mas não se sabe de quem a tenha provado, por enquanto.
As "dobras do universo" - e a pressuposta capacidade de nos remetermos a dimensões paralelas - ou as consequencias lógicas da teoria mais ampla da relatividade, como o espaço-curvo, têm servido mais para alimentar a imaginação dos escritores de roteiros para Hollywood que para ampliar nossa compreensão do funcionamento das coisas. Estas teorias - e outras que pululam no meio científico de hoje - soam extravagantes para os cérebros mais refinados e nos fazem, às vezes, acreditar que a parábola da criação do "Gêneses" é bastante racional (face ao que temos lido...)
Apesar dos astrônomos e físicos elaborarem modelos do universo, as certezas estão confinadas mais a estas construções racionais que à realidade. Mesmo com os poderosos telescópios - como o "Hubble" e aqueles dispostos em observatórios em terra - até hoje sequer conhecemos nosso próprio sistema solar (há coisa de um mês identificamos outro planeta e temos dúvidas se Plutão é mesmo um planeta ou apenas mais um objeto do "Cinturão de Kuipfer", uma vez que sua órbita é muito irregular).
E a matéria escura? Depois de termos negado o recurso teórico do éter (que fascinou tantos pensadores), cunhamos um outro conceito que não sabemos definir muito bem do que se trata, mas é útil para garantir a estabilidade de nossos modelos. Ela faz sentido por que nos dá um "quantum" adicional de matéria (espertamente chamada de "escura" e invisível") que ajuste nossas hipóteses a conclusões que deliberamente queremos tomar. Mais um "artifício de cálculo" que algo palpável.
E se nossos conhecimentos do universo e nossa Via Láctea são tão estreitos, o que dizer do que sabemos de nosso próprio planeta, a Terra. Nós ainda não a conhecemos, isto é inquestionável. Décadas após o lançamento de "Viagem ao Centro da Terra" do fantástico Júlio Verne, ainda ignoramos quase por completo o que existe no centro do planeta. Embora saibamos que a Terra não é oca (ao contrário do que pensam alguns fanáticos que sustentam esta doutrina esotérica), nada podemos asseverar com segurança sobre sua composição interior. Há projetos como lançar um bólido impulsionado por chumbo derretido em seu interior, provisionado com câmeras, porém este experimento é mais inviável que lançar sondas espaciais aos confins do sistema solar.
Em outras áreas do (des) conhecimento nossas limitações são ainda mais evidentes. Principalmente na biologia, na medicina, na economia, na física (sim, na física) e no terreno aparentemente árido e correto da matemática. Prosseguimos como viajantes cegos neste mundo que um dia sonhamos ter desvendado, do alto de nossa ignorância, propriedade indissociável da condição humana.
Como conclui Stephen W. Hawking em "Uma Breve História do Tempo" (1), tudo o que temos são modelos explicativos do comportamento das leis da universo. Os povos primitivos acreditavam que uma torre infinita de tartarugas sustentava a terra, nós referendamos a teoria da supercordas. "As duas descrevem o universo, ainda que a última o faça de maneira muito mais matemática e precisa do que a primeira. A ambas, entretanto, falta a evidência empírica: ninguém jamais viu uma torre gigante de tartarugas com a terra em seu topo; mas tampouco ninguém jamais viu uma supercorda".

NOTAS:

(1) HAWKING, Sthephen. Uma breve história do tempo - do big bang aos buracos negros. São Paulo. Ed. Rocco: 1988. 30a Edição.

segunda-feira, novembro 21, 2005

A Ciência Moderna reduz o Homem

Nos acostumamos a vislumbrar o mundo pelas lentes da ciência por mais de quatro séculos e nossa sensibilidade diante das maravilhas da natureza foi embotada. A perspectiva científica com seu método clássico, à base da prova, se mostrou importante enquanto divisora de águas entre o misticismo medieval primário. Sobretudo, abalou o fanatismo religioso que levou à inquisição e aos inúmeros episódios de intolerância que mergulharam a Europa em um mar de sangue que se estendeu até o Novo Mundo.
Mas, uma vez liberto, o Prometeu da ciência, sem controles e desrespeitando os fundamentos do convívio humano por séculos, tornou-se um pesadelo que também produziu seus próprios fanatismos e o terror de massas genocida, que caracterizou o século XX. A ciência dos iluministas que visava à libertação dos homens do que se supunha a opressão das trevas converteu-se em seu oposto, uma arrogante ferramenta a serviço das elites econômicas e políticas, despojada de princípios, ignorante da ética, desvinculada da reflexão filosófica maior e insensível às grandes indagações do Homem desde os primórdios da vida em comunidade.
O período do renascimento foi qualitativamente diferente do iluminismo posterior. A antiguidade greco-romana era descoberta, a ciência passava a ser cultivada e apoiada pelos príncipes e nobres, mas as tradições esotéricas e místicas, as artes e a filosofia caminhavam em harmonia em um humanismo completo e global. Os grandes cientistas dos séculos XVI e XVII, Johannes Kepler, Isaac Newton, Leibiniz e tantos outros, ocupavam-se da astronomia e da física como instrumentos para a contemplação da verdade mística e divina.
Para Tycho Brahe, o formidável astrônomo observacional que construiu o maior observatório de sua época, reunindo a mais fantástica coleção de dados sobre os objetos celestes até então vista (que amparou as próprias teorias de Kepler), o rigor em precisar a posição dos astros e suas órbitas era fundamental para traçar horóscopos. Sim. A astronomia, em essência, não fazia qualquer sentido se não pudesse ser empregada como meio de aprimorar as previsões da astrologia. Importantes eram os homens e seu destino, não o exercício científico per si. Filosofia e ciência ainda não haviam se apartado, e celebres cientistas ou matemáticos como Leibniz e Descartes assentavam seus sistemas em uma procura resoluta pela razão última das coisas que remetia a Deus.
Contemporâneo e tido como co-descobridor do cálculo, Leibniz discutiu a localização da alma e concluiu, como Kepler, que o movimento depende da ação de um espírito, Deus. Isto pareceria estranho e inaceitável para um físico moderno, mas Leibniz partilhava do visão de mundo dominante (“Weltanshauung”) em que a metafísica abstrata conduziria o homem ao encontro do criador. Déscartes criou um método até hoje associado ao “cientificismo” e o crítico vulgar equipara “mecanicismo” a “cartesianismo” pois se esquece, deliberadamente ou não, que todo o seu sistema voltava-se premeditadamente para Deus.
Do que se sabe de Isaac Newton, seus estudos sobre mecânica, ótica, astronomia e cálculo diferencial e integral ocuparam bem pouco de seu tempo de vida. Suas maiores obsessões eram a teologia e alquimia, às quais se dedicou com paixão durante anos a fio. Talvez para Newton, assim como para Brahe, Kepler e, quem sabe, o próprio Galileu, progredir na concepção do mundo e conhecer suas leis naturais (ampliando a previsibilidade dos fenômenos) não fosse mais que um instrumento para alcançar a divindade e apreender parte do mistério da existência.
O homem era a medida de todas as coisas e aquela que se erguia como o campo mais importante do conhecimento, a alquimia, mais que a busca da pedra filosofal ou a transformação dos metais inferiores em ouro – objetivos de artífices vulgares – procurava separar o sutil do denso, a matéria corrutível da alma, nas palavras de Hermes Trimegistus na “Pedra da Esmeralda”.