Gurdjieff

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sexta-feira, julho 02, 2010

O Simbolismo na Maçonaria e o Trabalho - As Funções Intelectual Superior e Emocional Superior do Sistema de Gurdjieff

A Maçonaria tem sido definida ao longo do tempo por vários modos, entre eles como um “sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”. Nas instruções ministradas na Ordem, aspectos essenciais deste sistema são expostos paulatinamente, a partir da observância de rituais que remontam às “Escolas de Mistérios da Antiguidade”. Alguns autores que escrevem sobre a “Arte Real” ensinam que “quando a Maçonaria Livre e Aceita começou a ter uma vida própria, separada da Maçonaria Operativa, ela usava símbolos e emblemas para lembrar a seus membros os princípios morais e espirituais inerentes á sociedade. Ao longo do período em que se deu esse desenvolvimento, (...) o uso geral dos símbolos era uma prática comum e de uso cotidiano; assim, a sua incorporação em qualquer instituição esmerada, tal como a dos Maçons Especulativos, não seria nada extraordinária”.
Esses são os sistemas que, no passado, eram chamados de “Mistérios”, entre eles os do Egito, os da Pérsia, os de Elêusis, na Grécia e outros na Babilônia, Roma e nos grande centros da alta antiguidade. A esse respeito, na “Introdução sobre a Doutrina Esotérica” que abre a grande obra do Sr. Èdouard Schuré em português (“Os Grandes Iniciados”), enfatiza-se que “todas as religiões têm uma história exterior e uma história interior; uma aparente, outra oculta. Por história exterior entendo os dogmas e os mitos ensinados publicamente nos templos e nas escolas, reconhecidos no culto, e as superstições populares. Por história interior entendo a ciência profunda, a doutrina secreta, a ação oculta dos grandes iniciados, profetas ou reformadores que criaram, sustentaram, propagaram estas mesmas religiões“. Esta é a “tradição esotérica ou doutrina dos mistérios, é bastante difícil de discernir, pois ela se passa no fundo dos templos, nas confrarias secretas, e seus dramas mais surpreendentes se desenrolaram inteiramente no mais profundo das almas dos grandes profetas, os quais não confiaram suas crises supremas ou seus êxtases divinos a nenhum pergaminho e também a nenhum de seus discípulos”.
Estes círculos exotéricos e esotéricos delimitam a fronteira entre a humanidade mecânica e o trabalho isto é, entre a "Torre de Babel" ou o "Reino da Confusão das Línguas" e a busca através de "sofrimentos intencionais e esforços conscientes" do conhecimento de si. Podem ser vializados nas esferas concêntricas que demonstram as dimensões exotérica, mesotérica e esotérica da vida. A passagem de uma a outra compreende uma fase "transicional" de tomada de decisão, de rompimento da dualidade e formação da tríade no ser humano, isto é, a criação de uma linha contínua de resultados.
Com toda a sua sagacidade, o filósofo Greco-armênio, Georges Ivanovitch Gurdjieff, expressava sua interpretação das escolas de conhecimento e de mistérios como meios de transmissão de verdades arcanas que não poderiam ser traduzidas nos marcos da linguagem convencional. Segundo ele deveria haver uma “ciência objetiva”, uma unidade de todas as coisas e “procurava-se, pois, colocá-la em formas capazes de assegurar sua transmissão adequada, sem risco de deformá-las ou corrompê-las”.
Assim, “dando-se conta da imperfeição e da fraqueza da linguagem usual, os homens que possuíam a ciência objetiva tentaram exprimir a idéia da unidade sob a forma de ‘mitos’, ´símbolos’ e ‘aforismos’ particulares que, tendo sido transmitidos sem alteração, levaram essa idéia de uma escola a outra, freqüentemente de uma época à outra”. Estas idéias não atuavam sobre os estados convencionais, normais de consciência do homem mas sobre níveis superiores, o que ele denominava “centro emocional superior” e o “centro intelectual superior”. Ao primeiro, o “centro emocional superior”, destinavam-se os mitos, ao segundo, o “centro intelectual superior”, os símbolos.
A Maçonaria, portanto, elegeu como meio por excelência de aprendizagem a simbologia herdada tradições do passado que permeiam as instruções dos seus graus e seu Manual de Ritualística. Resultante da confluência mais recente das velhas Oficinas operativas de Roma e da Itália em seus albores, das corporações de ofício medievais e das contribuições dos filósofos herméticos e mestres da "Arte Real, esta nobre Ordem é a guardiã no Ocidente de um corpo de verdades que são incorporadas pelo Obr.'. através do trabalho consciente em Loj.'.. Isso significa que na verdadeira Maçonaria, assim como no "Trabalho", nenhuma transformação pode se operar sem que haja uma "harmonização" do Templo interno e do externo, do físico, do emocional e do intelectual. Tal como no "Quarto Caminho" nada é possível sem que os centros sejam harmonizados, tanto é que ao entrar no Temp.'. físico o cortejo de MM.'. deve, conduzido pelo M.'. de Cer.'., entrar em um "oceano de tranquilidade".
Na Maç.'., mais que em outras ordens, prerrogativas fundamentais do trabalho estão presentes. Em primeiro lugar, a necessidade de ser um bom "Chefe de Família", alguém que tenha responsabilidades e as cumpra. Ao contrário das falsas "ordens" de adolescentes (bruxaria, satanismo, simulacros da "Golden Dawn" e Thelema e mesmo da "Rosa Cruz" mercadológica) a Maçonaria exige que o M.'. seja trabalhador, tenha renda e seja fiel às suas obrigações no casamento e com a família.
Gurdjieff advertia que nenhum lunático ou vagabundo poderia ingressar no trabalho. Nenhum lunático ou vagabundo pode ser iniciado na Maçonaria.
Outras exigências da condição maçônica também são similares às do Trabalho. É indispensável uma vida sexual saudável e sem aberrações. Também é preciso tempo e recursos para cumprir obrigações maçônicas e socorrer aos homens. È fundamental a humildade porque no trabalho das oficinas todos os Obr.'. são iguais e regidos pelo nível. Em uma Loj.'. mesmo o Ven.'. M.'., caso transgrida os rituais ou a Lei Maçônica pode ser corrigido pelos IIr.'. O objetivo da Maçonaria, assim como no Grupo do Quarto Caminho ou a "Sangha" budista é escapar da "prisão do mundo material" e esse ato não se executa sem ajuda mútua. Por isso, equivocadamente, a Ordem foi confudida por tanto tempo como uma Sociedade de Socorro Mútuo. De certa forma não deixa de sê-lo.
Porém, ser Maçom não significa que se está no Trabalho Real.. No Trabalho Real de um Grupo Gurdjieff é preciso sempre estar trabalhando não apenas exteriormente mas sobretudo interiormente. Nas Loj.'. se diz um Ir.'. que está indisposto com outro Ir.'. não deve comparecer a suas reuniões para não comprometer a Egrégora. Porém, nem sempre este mandamento é levado a sério na prática. Em sentido amplo, no Trabalho, as coisas não são vistas tão "formalmente" e o mestre de um Grupo pode tomar decisões mais ou menos duras que soem como destempero ou demasiadamente violentas. Nesse sentido, o "Trabalho" transcende todo o resto e penetrar nele, como diria Nicoll, é submeter-se a mais Leis ainda que o comum dos mortais na Terra. É preciso estar ciente disso antes de tomar qualquer decisão preliminar sobre ele.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Uma Breve História do Mito - Karen Armstrong

Já conhecida do público brasileiro por sua “História de Deus”, livro em que traça a rota do monoteísmo no decurso de 2000 anos de história, Karen Armstrong retoma agora a discussão da religião de acordo com o conceito mais amplo de “mito”, em uma “Breve História do Mito”, publicada pela “Companhia das Letras” em 2005. Curta e objetiva, esta pequena monografia abre os olhos do leitor, em uma perspectiva histórica que divide o assunto nas grandes Eras da aventura humana (a paleolítica, a neolítica, a “Era Axial”, o período “Pós-Axial”, a época das “grandes transformações e a idade moderna). Armstrong foi bem sucedida em unir com sutil maestria o didatismo de exposição à profundidade, algo raro em muitos especialistas no tema.
Nesta descrição da forma como os mitos foram alterando suas feições na história, Armstrong toma um primeiro passo lembrando que os homens “(...) sempre foram criadores de mitos. Arqueólogos escavaram túmulos do homem de Neandertal que continham armas, ferramentas e ossadas de um anima sacrificado; tudo isso sugere uma crença qualquer num mundo futuro similar àquele em que viviam”. Estes mitos, cujo significado é inscrito nos túmulos dos neandertais retém cinco aspectos principais. De maneira resumida:

Os túmulos dos homens de Neandertal nos revelam cinco aspectos importantes do mito. Primeiro, ele se baseia sempre na experiência da morte e no medo da extinção. Segundo, os ossos de animais indicam que o sepultamento foi acompanhado de um sacrifício. A mitologia em geral é inseparável do ritual. Muitos mitos não fazem sentido separados de uma representação litúrgica que lhes dá a vida, sendo incompreensíveis num cenário profano. Terceiro, o mito de Neandertal foi invocado ao lado de um túmulo, no limite da vida humana (...)”. “Quarto, o mito não é uma história que nos contam por contar. Ele nos mostra como devemos nos comportar (...)”. “Por fim, toda a mitologia fala de outro plano que existe paralelamente ao nosso mundo, e em certo sentido o ampara. A crença nessa realidade invisível, porém mais poderosa, por vezes chamada de mundo dos deuses, um tema básico da mitologia. Tem sido chamado de ‘filosofia perene’, pois alimentou a organização mitológica, social e ritual de todas as sociedades até o advento da modernidade científica, e continua a influenciar as sociedades mais tradicionais da atualidade”.

Melhor dizendo, apenas pela participação na divina os frágeis homens mortais podem realizar inteiramente seu potencial. Infelizmente, atualmente à palavra mito é sempre associada uma convenção negativa (mito equiparado a mentira), quando na verdade só é eficaz quando é verdadeiro. “Um mito, portanto, é verdadeiro por ser eficaz, e não por fornecer dados factuais. Contudo, se não permitir uma nova visão do significado mais profundo da vida, o mito fracassa. Se funciona, ou seja, se nos força a mudar corações e mentes, nos dá novas esperanças e nos impele a viver de modo mais completo, é um mito válido”.
O período em que a humanidade criou seus primeiros mitos foi o paleolítico (c. 20.000 a 80.000 A.C.), no qual foi completada a evolução biológica da raça humana. Ainda não havia a agricultura e os povos eram caçadores, que julgavam que qualquer coisa, por mais inferior que fosse, seria capaz de personificar o sagrado, ao qual se uniam completamente. Algo difícil para os modernos, para quem “(...)um símbolo está essencialmente separado da realidade invisível para a qual chama nossa atenção, mas o termo grego ‘symballein’ significa ‘colocar junto’: dois objetos até então distintos se tornam inseparáveis, como o gim e a água tônica da bebida”.
Estas primeiras mitologias ensinaram as pessoas a enxerga algo além, uma realidade invisível descrita nos termos do que se convencionou chamar “filosofia perene”. Os mitos mais primitivos estavam associados ao céu, que dava aos homens uma noção do divino, do remoto, separado da insignificância de suas vidas. A maior parte dos panteões daquele período contava com seus “Deus do Céu”, que ainda é encontrado, até hoje, entre pigmeus australianos e pigmeus da Terra do Fogo, jamais representado por imagens e dispensando sacerdotes. Era um Deus sempre ausenta das decisões diárias das pessoas e por isso fracassou relativamente, ao não cumprir todos os quesitos para o sucesso do mito (na Mesopotâmia, novos deuses como Enlil e Baal se impuseram, na Grécia Uranos, o Céu, foi castrado pelo filho Cronos).
Já nesta longínqua Era, paralelamente ao desenvolvido do mito irracional os caçadores-coletores formaram em embrião a idéia do “logos”, que viria a assumir importância capital milênios depois. Os seres humanos superaram suas desvantagens físicas desenvolvendo o raciocínio e o cérebro e, “mesmo neste estágio inicial, o Homo Sapiens já desenvolvia o que os gregos chamariam de logos, o modo de pensar lógico, pragmático e científico que lhe permitiria atual com sucesso no mundo”. Ou seja:

Desde o princípio, o Homo Sapiens compreendeu instintivamente que o mito e o Logus tinham tarefas diferentes a desempenhar. Usou o logos para aprimorar armamentos, e o mito, com seus conseqüentes rituais, para se reconciliar com os fatos trágicos da vida que ameaçavam sufocá-lo e o impediam de agir com eficiência”.

Com o período neolítico e a inovação da agricultura, mudou o foco principal do mito(c. 8000 a 4.000 A.C.). Não obstante tenha resultado do “logos”, ao contrário das revoluções tecnológicas da atualidade a agricultura levou a maior consciência espiritual, tornou-se tão sacramental quando o era a caça no período anterior.

A colheita era uma epifania, uma demonstração da energia divina, e quando os agricultores cultivavam a terra e produziam comida para a comunidade, sentiam que haviam penetrado no reino sagrado e participado de sua milagrosa abundância. A terra sustentava todas as criaturas – plantas, animais e humanos – como se fosse um útero vivo”.

Neste contexto, os rituais visavam a abastecer a força da natureza, evitando que se exaurisse. Mesmo a sexualidade humana era considerada idêntica à energia de origem divina que proporcionava frutos à terra e as pessoas eram vistas como pertencentes a ela. Assim como no paleolítico o céu, venerado, personificou-se no Deus Céu, no neolítico a “(...) terra nutriz e maternal se tornou a Deusa Mãe”. Com o advento das primeiras civlilização, entre 4000 a 800 A.C.; mais uma vez a visão do divino iria se alterar, agora com outra novidade: a invenção da cidade.
As primeira cidades surgiram na Mesopotâmia, depois no Egito, na China, na Índia e em Creta. O ritmo da mudança se acelerava e a seqüência lógica de causa e efeito era mais evidente par s pessoas. O homem finalmente tinha uma sensação de domínio do ambiente e estórias como a torre de Babel (o grande Zigurate da Babilônia) bem ilustram o quão arrogantes aquelas nações se tornaram em sua nova condição.

Assim como seus ancestrais haviam considerado a caça e a agricultura atividades sacramentais e sagradas, os primeiros urbanos viam suas conquistas culturais como essencialmente divinas. Na Mesopotâmia os deuses haviam ensinado aos homens a construir os zigurates, e Enki, deus da sabedoria, era patrono dos coureiros, ferreiros, barbeiros, pedreiros, oleiros, técnicos em irrigação, médicos, músicos e escritores. Eles compartilhavam a criatividade divina dos deuses, que haviam levado a ordem para onde só havia a confusão e caos”.

Permanecia a adesão das pessoas à “filosofia perene” e aquelas sociedades conservavam a crença de que tudo o que ocorria na terra era uma réplica da realidade celestial. Assim como sua cultura urbana evoluíra a partir de diminutas comunidades agrícolas, os deuses haviam atravessado uma evolução análoga, concepção que penetra a fundo os “mitos da criação” babilônicos descritos no “Enuma Elish” (segundo milênio A.C), cuja teogonia mostra como a partir de Apsu, o rio, Tiamat, o mar e Mummu, a nuvem opaca, surgiram os outros deuses, aos pares. Como explica Armtrong:

O mito examina o processo humano de mudança, que reproduz o desenvolvimento dos deuses. Ele reflete a evolução da cidade-Estado mesopotâmia, que havia dado as costas para a sociedade agrária anterior (agora tida como lenta e primitiva) e se estabelecera pela força militar. Após sua vitória, Marduk funda a Babilônia (...) A cidade é chamada ‘bab-ilani’ (“o portão dos Deuses”), o lugar onde o divino entra no mundo dos homens. (...) A cidade portanto pode substituir o antigo axis mundi, que ligava o céu e a terra na Idade do Ouro”.

Após o paleolítico despontou a “Era Axial” ( 800 a 200 A.C.), termo cunhado pelo filósofo Karl Jaspers que designa o desenvolvimento espiritual que caracterizou o período. São séculos misteriosos em que nasceram as grandes religiões e filosofias que orientam milhões de pessoas durante mais milênios. Não se sabe porque envolveu somente chineses, indianos, gregos e judeus e por que outros permaneceram de fora (a Mesopotâmia e o Egito). O ponto central desta Era consistiu na interpretação de natureza ética e intimista dos velhos mistos, o homem e seu ser adquirem renovada dimensão e o sagrado volta à sua transcendência original.]

As pessoas nos países axiais ainda ansiavam pela transcendência, mas o sagrado parecia agora mais remoto, estranho até. Um golfo passou a separar os mortais dos deuses. Eles não compartilhavam mais a mesma natureza; não era possível acreditar que os deuses e os homens se originaram da mesma substância divina”.

Os primeiros a partir rumo ao “etos axial” foram os chineses, com a “regra de outro” (“não fazer aos outros o que queremos que nos façam”) tenso sido formulada, pela primeira vez, por Confúcio. No fulcro do novo pensamento axial, via de regra, estava a concepção de que não bastava realizar os rituais, mas adotar um comportamento ético correto. Havia diferenciações na maneira de vislumbrar a herança do passado, mas entre os mais radicais inimigos dos mitos antigos – os israelista – brotou a primeira religião essencialmente monoteísmo, firmada pelo Segundo Isaías na Babilônia.
Na Grécia, as idéias da Era Axial foram alimentados pelo “logos” (razão), estabelecendo-se a verdade por meio da indagação permanente e de consciência crítica aguçada. Sócrates firma seu método (“a maiêutica”) e o apelo à dialética contribui para ampliar o fosso entre o racional (o “logos”) e o imanente, o “mito”. Após a “Era Axial” assumiram posição de destaque – sobretudo no Ocidente – as fés monoteístas, no período chamado de “Pós Axial” (200 A.C. a 1500 D.C.) pela autora.
Neste momento, as três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), inspiradas pelos sábios, filósofos e profetas axiais, reinvidicavam se basearem na história e não no mito. O judaísmo, em particular, possui relação conflituosa e paradoxal com a mitologia de outros povos, às vezes antagonizando-os, outras usurpando histórias estrangeiras para ilustrar sua própria visão. Mas, sem dúvida, inspirou outros mitos como o cristianismo, que assim como o Islã foi “uma reafirmação tardia do monoteísmo axial”. Em todas esta tradição (monoteísta) o mito continua a exercer seu papel.

Em virtude da dimensão mítica dessas religiões históricas, judeus, cristãos e muçulmanos continuaram a usar a mitologia para explicar suas visões ou reagir a uma crise. Todos os seus místicos recorreram ao mito. As palavras misticismo e mistério se vinculam a um verbo grego que significa ‘fechar os olhos ou a boca’. Ambas se referem a experiências obscuras e indescritíveis, pois estão além da palavra e se relacionam com o mundo interior, em vez do exterior (...) Como a mitologia oculta essa dimensão interior, profunda, é natural que os místicos descrevam suas experiências em mitos que podem parecer, à primeira vista, inimigos da ortodoxia e sua tradição”, (...) que está “(...) especialmente claro na Cabala, a tradição mística judaica”.

Mas no século XVI de nossa própria Era, transformações sem precedentes na organização econômica – a revolução mercantil e capitalista – levaram a uma nova configuração das sociedades – primeiramente na Europa Ocidental e aos poucos no resto do mundo – e, simultaneamente, modificações na estrutura religiosa, com a emergência novas orientações do pensamento. Esta “modernidade” ocidental era filha direta da “logos”, afirmando o triunfo do “espírito científico pragmático” e baseando-se na “eficiência”. Os novos heróis não eram homens de espírito, mas inventores. A sensação de domínio do ambiente era maior e aumentava a percepção da incompatibilidade entre mito e logos.Em suma:

O logos científico e o mito se tornavam incompatíveis. Até então a ciência fora praticada dentro de uma mitologia abrangente que explicava sua importância. O matemático francês Blaise Pascal (1623-62), um homem profundamente religioso, enchia-se de horror ao contemplar o ‘silêncio eterno’ do universo infinito, aberto pela ciência moderna”.

Tão brusca separação entre “logos” e “mito” é problemática, no entanto. A crença em algo “superior” e a prática mística auxiliaram homens e mulheres a suportar a dor do mundo e encarar a realidade da extinção com menor desespero. Nosso mundo, sem o mito, não tem sido o melhor possível para todos os povos (vejam o Brasil, país do Terceiro Mundo) e está longe do prometido pelos iluministas do passado. Contrariamente ao previsto, as piores e mais dramáticas degradações da condição humana ocorreram no século XX e a irracionalidade se reveste das formas mais sombrias. Por isso, o que nos reservará o futuro senão a reconstrução do mito em bases mais sólidas, promovendo sua reconciliação com o “logos”. Aguardemos para ver.

terça-feira, dezembro 06, 2005

A Visão da Reencarnação entre os Antigos Gregos (Parte I)

Que a Grécia é o berço da civilização, legando-nos as letras (prosa e poesia), a escultura, a pintura, o teatro, a filosofia (a grande construção metafísica daqueles povos) e a ciência, não há quem duvide. Nossa tradição política ocidental deve, e muito, ao ideal grego da polis, combinado a institutos previstos no “Codex” romano e aperfeiçoados durante os séculos em que vigorou aquele império do qual Edward Gibbons dizia, não sem razão, ter sido “simples, prudente e benéfico” – dizendo com simplicidade, o maior e mais justo da história da humanidade - em sua “History of the Decline and Fall of the Roman Empire”.
Os estudiosos vulgares e toda a sorte de comentadores de baixo escol difundiram o infame boato nas instituições de ensino – talvez incentivados pelos mestres de orientação marxista, ou religiosos grotescos que abominavam a cultura greco-romana – a falácia memorável de que gregos e romanos adoravam ou se deleitavam em ritos orgiásticos rendendo preces a entidades assassinas e voluptuosas, que se compraziam no mal, ou imitavam, no Monte Olimpo, todas as vicissitudes e erros em que incorriam os mortais na terra.
Não raramente, o mentecapto de formação cristã ou pertencente a qualquer uma das assim chamadas “religiões do deserto” (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo) identifica o panteísmo greco-romano, seus mistérios, sua admirável teologia (sim, ao menos os helenos possuíram uma teologia), sua rica imagética, seu apelo imanente aos mais altos desígnios do Ser humano, com o animismo mais puro e simples ou a idolatria de um bezerro de ouro que representava os sentimentos mais torpes da parcela podre da antiga Mesopotâmia.
Estas miseráveis “religiões do deserto”, o desprezível monoteísmo da Era Axial (expressão de Karl Jaspers) que espezinhou toda uma herança cultural que irmanava os homens e os associava a seus antepassados (“manes”), granjeando-lhes um senso de pertencer a algo maior e mais duradouro, a “espécie”, toda este imenso arcabouço de valores, uma vez associado ao paganismo, fora deitado fora, mergulhando toda a civilização conhecida – ou um arremedo dela – à obscuridade.
Este episódio é relatado em minúcias na história escrita, aparecendo na parábola de “São Bento, Vida e Milagres”, escrito por São Gregório Magno (o Papa que criou o canto gregoriano e uma nova notação musical) e que ilustra simbólica e esotericamente o significado oculto da “Idade das Trevas” (muito embora não o fosse essencialmente, em parte graças à obra dos escolásticos e dos “faylasufs” árabes como Ibn Sina, Ibn Al Arabî e Ibn Róis).
No momento correto, as verdades ocultas serão desveladas, mas este não é o horário. Falaremos por enquanto da maneira como os gregos e seus filósofos (pré-socráticos sobretudo, os neo-platônicos com suas teorias do Uno e suas hipóstases) incorporavam a morte e a reencarnação em suas teses.

domingo, dezembro 04, 2005

Mito Melanésio

Há um mito melanésio de beleza tocante, relatado por Mircea Eliade em "O Conhecimento Sagrado de todas as Eras". É o mito da "pele eliminada", que irei transcrever agora para que os leitores o meditem e entendam:

"No começo os homens nunca morriam, mas quando atingiam determinada idade eliminavam a pele como as cobras e os caranguejos, e tornavam-se jovens outra vez. Depois de um certo tempo, uma mulher que estava ficando velha foi a um regato para mudar de pele. Desfez-se da pele velha lançando-a à água e notou que ao ser levada pela corrente a pele ficou presa num galho seco. Depois voltou para casa onde tinha deixado o filho. Este, contudo, recusou-se a reconhecê-la, e disse chorando, que sua mãe era uma velha, diferente dessa jovem estranha; e assim, a fim de acalamar a criança, a mãe voltou ao regato em busca de seu tegumento eliminado e vestiu-o novamente. Desde então os seres humanos deixaram de eliminar a pele e começaram a morrer".

R.H. Codrington, The Melanesians (Oxford, 1891), p. 265.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Mitos Fundadores – III

Um dos mitos fundadores mais difundidos no decorrer de milênios por todo o globo é o da reencarnação, isto é, a circularidade das existências que se prolongam na esfera terrestre após a morte dos indivíduos. No Cristianismo, admite-se a “encarnação” do Logos na carne (Jesus Cristo), embora a leitura cuidadosa dos dois testamentos às vezes nos transmita a nítida impressão de que o próprio “Filho de Deus” (literal ou simbolicamente considerado como o “eleito” do Senhor) é uma encarnação de outro notável profeta de Israel, Elias.

Mas é no Velho Testamento em que lemos o mais veemente depoimento da crença dos hebreus em espíritos. Se o desventurado Rei David, abandonado por Javé, teve de recorrer a uma necromante (uma pessoa que invoca espíritos) para fazer “subir” (do “sheol”, inferno ou “Hades” grego) o espírito do juiz e profeta Samuel (I Samuel, capítulo 28), conclui-se que os espíritos podiam se manifestar, assim como ensinado por modernas seitas - das quais falaremos em outra ocasião - e as religiões de outros povos. Se os espíritos podem ser invocados, também não causaria estranheza que pudessem retornar à vida em novos veículos motores (corpos).

“(...) 6 Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.
7 Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante.
8 Então Saul se disfarçou, vestindo outros trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de noite à casa da mulher. Disse-lhe Saul: Peço-te que me adivinhes pela necromancia, e me faças subir aquele que eu te disser.
9 A mulher lhe respondeu: Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer?
10 Saul, porém, lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Como vive o Senhor, nenhum castigo te sobrevirá por isso.
11 A mulher então lhe perguntou: Quem te farei subir? Respondeu ele: Faze-me subir samuel.
12 Vendo, pois, a mulher a samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul.
13 Ao que o rei lhe disse: Não temas; que é que vês? Então a mulher respondeu a Saul: Vejo um deus que vem subindo de dentro da terra.
14 Perguntou-lhe ele: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência.
15 samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer.
16 Então disse samuel: Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo?
17 O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi.
18 Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto.
19 E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará o arraial de Israel na mão dos filisteus.
20 Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite
”.
Dogmas da reencarnação estão presentes no corpo doutrinário esotérico dos egípcios, nos mistérios de Elêusis gregos, nos ritos romanos e celtas, nas práticas dos xamãs, na filosofia pitagórica, no neoplatonismo de Plotino e seus seguidores, nas religiões de matriz védica, no budismo de Sidharta Gautama e nos escritos de Allan Kardec, que elaborou um edifício de raciocínio que retira todo o encanto oculto do tema.