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domingo, novembro 22, 2015

Monsieu Gurdjieff - Julius Evola

Monsieur Gurdjieff

Traduzido por CB , 22/11/2015 *

por Julius Evola (publicado pela primeira vez em Roma, 16 de abril de 1972; primeira publicação desta tradução francesa por Gérard Boulanger: A idade do ouro, primavera de 1987)



É raro que apareçam em nossa época – onde eles correm o risco de ser confundidos com certos mistificadores – personagens que nos façam tocar com o dedo, de maneira inquietante, isto a que foi reduzida, metafisicamente falando, a existência da grande maioria das pessoas.
A essa categoria pertence, sem qualquer sombra de dúvida, o “misterioso Senhor Gurdjieff”, a saber, George Ivanovitch Gurdjieff. A recordação de sua presença e da influência que exerceu é ainda viva, mesmo tendo morrido há muitos anos, como o testemunham as obras que lhe foram consagradas e mesmo os romances onde figura sob um outro nome. Louis Pauwels, o autor da Manhã dos Mágicos, pôde escrever um volume de mais de quinhentas páginas, objeto de duas edições sucessivas, no qual recolheu um grande número de documentos – artigos, cartas, lembranças, testemunhos – concernentes a ele. De fato, a influência de Gurdjieff se estendeu aos meios mais diversos: o filósofo Ouspensky (que a partir de sua doutrina, escreveu uma obra intitulada Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, assim como uma outra,  A Evolução Possível do Homem, da qual uma tradução italiana foi anunciada), os romancistas A. Huxley e A. Koestler, o arquiteto “funcionalista” Frank Lloyd Wright, J.B. Bennet, discípulo de Einstein, o doutor Wakey, um dos maiores cirurgiões nova-iorquinos, Georgette Leblanc, J. Sharp, fundador da revista The New Statement: todos tiveram com Gurdjieff contatos que deixaram traços.
Nosso personagem apareceu pela primeira vez em São Petersburgo, pouco antes da Revolução de outubro. Não sabemos grande coisa do que fez antes: ele mesmo se limitou a dizer que tinha viajado ao Oriente em busca de comunidades que depositavam os restos de um saber transcendente. Mas ao que parece, havia sido igualmente o principal agente tzarista no Tibete, que deixou para se abrigar no Cáucaso onde foi, quando criança, condiscípulo de Stalin. Na França, e em seguida em Paris, na Inglaterra e nos Estados Unidos, consagrou-se à organização de círculos que seguiam seus ensinamentos, círculos intitulados “grupos de trabalho”. Um editor francês que se retirou dos negócios lhe ofereceu em 1922 a possibilidade de fazer do chatêau d'Avon, próximo à Fontainebleau, sua “central” onde, em um primeiro momento, ele criou qualquer coisa como um exílio ou eremitério. Entre os boatos que circulam a respeito, alguns concernem ao domínio político. Gurdijieff havia tido contatos com Karl Haushofer, o fundador bem conhecido da “geopolítica”, que ocupou o primeiro plano no III Reich e, pretende-se mesmo que essas relações tenham presidido a escolha da cruz gamada como emblema do nacional-socialismo, cuja rotação se efetua, não em direção à direita, símbolo da sabedoria, mas à esquerda, símbolo do poder (como foi efetivamente o caso).
Que mensagem anunciou Gurdjieff? Uma mensagem ao menos desconcertante. Poucos homens “existem”, poucos têm uma alma “imortal”. Alguns dentre eles possuem o germe dela, que pode ser desenvolvido. Em regra geral, nós não possuímos um “Eu” de nascença: é necessário adquiri-lo. Aqueles que não o alcançam se dissolvem com sua morte. “Uma ínfima parte dentre eles chega a ter uma alma. ”
O homem na rua não é mais que uma simples máquina. Ele vive em estado de sono, como se hipnotizado. Ele crê agir, pensar, mas é “movido”. São os impulsos, os reflexos, as influências de toda ordem que atuam sobre ele. E não tem um “ser”. As maneiras de Gurdjieff não tinham nada de delicadas. “Você não pode compreender, você idiota completo, sua 'merdidade' ”, dizia ele em seu mau francês àqueles que dele se aproximavam. De Katharine Mansfield, morta durante sua estadia no eremitério d'Avon em busca da “via”, Gurdjieff declarou: “Eu não conheço”, querendo explicar por isto que a morte nada era, que ela não existia.

 A via ordinária é a a de um indivíduo continuamente aspirado, ou “sugado”, ensinava Gurdjieff. “Eu não sou aspirado pelos meus pensamentos, pelas lembranças, meus desejos, minhas sensações. Pelo bife que eu como, pelo cigarro que eu fumo, o amor que eu faço, os bons tempos, a chuva, a árvore, este veículo que passa, este livro. “Trata-se de reagir. De “despertar”. Então nascerá um “Eu” que, até então, não existia. Então ele aprenderá a ser, a ser dentro de tudo que ele faz e daquilo que se ressente, em lugar de representar mais que a sombra de si mesmo. Gurdjieff chamava “pensamento real”, “sensação real”, etc., isto que se manifesta de acordo com certa dimensão existencial absolutamente nova que a maioria das pessoas não podem nem mesmo imaginar. E ele distinguiu igualmente em alguns a “essência” da “pessoa”. A essência constitui a qualidade autêntica, a pessoa, o “indivíduo social”, construída de todas as peças, e exterior; estes dois elementos não são coincidentes, encontramos aqueles nos quais a “pessoa” é desenvolvida enquanto sua “essência” é nula ou atrofiada – e vice-versa. No nosso mundo, o primeiro caso prevalece; aquele de homens e mulheres cuja “pessoa” é exacerbada ao ponto de ser desmesurada, mas a essência está em um estado infantil – quando não é totalmente ausente.
Não é lugar aqui para evocar os procedimentos indicados por Gurdjieff para “despertar”, para se ancorar na essência. O que quer que seja, o ponto de partida seria o reconhecimento prático, experimental, de sua própria “inexistência”, este estado quase sonambúlico que faz com que sejamos “sugados” pelas coisas, por nossos pensamentos e nossas emoções. É igualmente a isto que serve o “método da desordem”: revolver a máquina que somos para tomar consciência do vazio que ela esconde. Não é preciso se surpreender se alguns dos que seguiram Gurdjieff nesta via foram levados a crises extremamente graves, perturbando seu equilíbrio mental ao ponto de fugirem ou de se afastarem com terror de experiências semelhantes nas quais tiveram experiências algo aproximadas com a impressão de viver a morte. Quanto àqueles que resistiram à prova e persistiram no “trabalho sobre si” junto a Gurdjieff, estes falam de um incomparável sentimento de segurança e de um novo sentido dando à sua sua existência.
Parecia que Gurdjieff exercia sobre quem quer que dele se aproximasse, de maneira quase automática e sem que o desejasse, uma influência que podia exercer efeitos positivos ou deletérios, segundo o caso. É fora de dúvida que possuía algumas faculdades supranormais. Ouspensky conta que recorrendo a uma ciência aprendida no Oriente, da qual no Ocidente não conhecemos “sequer uma parte insignificante sob o nome de hipnotismo”, Gurdjieff podia, graças a certas experiências, separar a “essência” da “pessoa” em um indivíduo dado – fazendo aparecer eventualmente a criança ou o idiota que se escondia por trás de qualquer indivíduo evoluído ou cultivado ou, inversamente, uma “essência” muito diferenciada a despeito da existência de manifestações exteriores.
Entre os testemunhos recolhidos por Pawels, há um particularmente picante relativo ao poder, atribuído igualmente no Oriente a certos iogues (e evocado por um autor digno de fé como Sir John Woodroffe), de “lembrar a fêmea à fêmea”. Aquele que conta a anedota se encontrava em Nova Iorque, em um restaurante, em companhia de uma jovem escritora muito segura dela mesma à qual mostrou o “famoso Gurdjieff, sentado em uma mesa vizinha. A jovem o mirou com um olhar de superioridade fixo, mas pouco tempo depois, ela se tornou pálida e parecia estar ao ponto de desfalecer. Isto deixou surpreso seu companheiro, que não conhecia essa grande mestra dela mesma. Mais tarde, ela lhe confessou isto: “É ignóbil! Eu olhei este homem e ele me surpreendeu. Ele apenas me observou friamente e, naquele momento, senti-me intimamente com uma tal precisão que experimentei o orgasmo! ”.
Gurdjieff se contentava com poucas horas de sono. Chamavam-no “aquele que não dorme”. Ele alternava um modo de vida quase espartano com banquetes de uma opulência russo-oriental desaparecida há muito tempo. Em 1934, foi vítima de um acidente automobilístico muito grave: ficou três dias em coma mas retomou a consciência e parecia ter rejuvenescido, como se o choque físico, no lugar de lesar seu organismo, o tivesse galvanizado. Numerosas coisas deste gênero correm por sua conta, nós mesmos as ouvimos diretamente, pela voz de um de seus próximos que dirigiu no México “grupos de trabalho” evocadas bem alto. Que seja bem entendido, um processo de mitificação é inevitável em casos desse gênero, e não é fácil separar a realidade do imaginário. Gurdjieff não deixou quase nada escrito e o que publicou é de qualidade suficientemente medíocre, mas é extremamente frequente que aquele que é “alguém” não tenha nem as qualidades nem a preparação para ser escritor: ele dá um ensinamento direto e exerce sua influência. Como já dissemos, à parte a coleção de testemunhos publicados por Pawels sob o título Senhor Gurdjieff, coube a Ouspensky escrever seus ensinamentos.
Gurdjieff morreu com a idade de oitenta e dois anos, em plena posse de seus meios e dizendo ironicamente aos discípulos que o assistiam: “Eu os deixo numa bela enrascada! ”
Ainda hoje, ele não cessa de ser citado e, como já dissemos, aqui e na Inglaterra, na França, na Africa do Sul, os restos dos grupos que foram constituídos sob sua influência subsistem.

www.gurdjieff.org para conhecer um pouco mais sobre G. Gurdjieff.

sábado, janeiro 01, 2011

O "Exagerado Senso do Eu" - Uma Personagem de Stanilavsky como Exercício do Trabalho

Uma das técnicas empregadas no budismo mahayana na meditação da vacuidade é a aquela em que o sujeito se apercebe de seu "exagerado senso do eu". Este "Eu", grandioso e pleno se manifesta em situações inusitadas mas é um útil - e talvez, principal - objeto de trabalho para o aspirante à iluminação.

No ramo mahayana o "Eu" não é a mente, nem o corpo. Ele também poderia ser a mente e o corpo, ou, em última hipótese, ter existência independente. Mas nenhuma dessas possibilidades demonstra a existência de um “eu” inerente. Ele é uma imputação mental que deixa de ter qualquer significado se analisado por negação do corpo e da mente e pela prática da vacuidade. Não implica em deixar de lado o “eu”. Ele pode prosseguir a representação de seu papel convencional junto à sociedade, aos familiares, aos amigos. Ele é um “Eu “ imputado que anda, come , fala e bebe por aí.

Em alguns momentos especiais há um agigantamento do “Eu”, ele se manifesta como uma explosão de “vontade”, um dos “Eus totais”, significativos que construímos. Se uma pessoa, por exemplo, toca em um forte traço de nós mesmos que ignoramos não ser tão importante mas diz respeito ao que realmente somos enquanto personalidade mutável este “Eu” associado a um plexo de traços subitamente vem à tona. Ele é agressivo, fala de modo calculado, com pausas lógicas, psicológicos e de “ar”. Entona, modula, dá cor à voz. Curva-se, move os braços, caminha, gira e aponta as mãos de modo peculiar. È como uma personagem detestável - que não gostamos, nem os outros -; em alguns casos o vilão da peça - que entra no palco.

Esta personagem parece obra do próprio Stanislavisky. É expressiva, plástica, representa uma linha contínua de desenvolvimento interior. Mas ela é repelente, não expressa o que pensamos e julgamos ser “nós mesmos”. Prestemos muita atenção nestes raros momentos de choque em que surge o “exagerado senso do Eu”, a personagem má que salta diante dos expectadores. Podemos aprender muito acerca de nós mesmos se a estudarmos conscienciosamente.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Arte Objetiva e as Antigas Escolas


Georges Ivanovitch Gurdjieff, expressava sua interpretação das escolas de conhecimento e de mistérios como meios de transmissão de verdades arcanas que não poderiam ser traduzidas nos marcos da linguagem convencional. Segundo ele deveria haver uma “ciência objetiva”, uma unidade de todas as coisas e “procurava-se, pois, colocá-la em formas capazes de assegurar sua transmissão adequada, sem risco de deformá-las ou corrompê-las”.
Assim, “dando-se conta da imperfeição e da fraqueza da linguagem usual, os homens que possuíam a ciência objetiva tentaram exprimir a idéia da unidade sob a forma de ‘mitos’, ´símbolos’ e ‘aforismos’ particulares que, tendo sido transmitidos sem alteração, levaram essa idéia de uma escola a outra, freqüentemente de uma época à outra”. Estas idéias não atuavam sobre os estados convencionais, normais de consciência do homem mas sobre níveis superiores, o que ele denominava “centro emocional superior” e o “centro intelectual superior”. Ao primeiro, o “centro emocional superior”, destinavam-se os mitos, ao segundo, o “centro intelectual superior”, os símbolos.
Símbolos e Mitos. Destes recursos se nutre a "Arte Objetiva" que se reflete diretamente nos recônditos superiores do ser humano. Os grandes monumentos do passado, as catedrais européias, as ruínas de Susa, as construções de Macchu Picchu, as pirâmides egípcias.
No renascimento, as escolas de arte objetiva, além da construção de templos se concentraram nas escolas de pintura, sediadas na Itália. Livros com "The Secret History of the World" de Mark Booth apontam nesta fase o surgimento de uma estranha e pujante arte no continente europeu. Em minha opinião ela se manifesta com maior intensidade nos pintores alemães e de Flandres, mais particularmente em Bruegel, Hyeronimus Bosh e do insuperável Albrecht Dürer.
Deixo o autorretrato da Dürer para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões acerca de sua expressão. Por enquanto.

Reencarnação e Eterno Retorno

Se há uma distinção significativa efetuada por Ouspensky - ausente em Gurdjieff, que não se ocupava do tema - é aquela entre reencarnação e eterno retorno, "eterna recorrência'. Ela está ligada ao choque no ponto 6 do eneagrama, o "choque das impressões". Lembremo-nos de que inscrito no eneagrama há um triângulo com os pontos 9, 3 e 6. Em um segundo giro, uma oitava atinge o ponto 3, é o "choque mecânico" do ar. Os outros dois choques são "choques conscientes" ensinados por G. nas aulas de Moscou. As idéias do trabalho podem produzir este impacto direto sobre a mecanicidade e libertar-se da mecanicidade é transformar sua vida atual e as futuras (quiçá as passadas pois no eneagrama, por difícil que pareça compreender, o passado afeta o futuro assim como o futuro o passado).
O Sr. Nicholls (1) (discípulo de Ouspensky que ministrava aulas em Londres) registrou em um de seus inúmeros encontros que "a memória é nossa relação com a quarta dimensão, é nossa relação com o tempo". Na morte, nossa personalidade "é destruída mas a essência retorna. Nesse momento nos é oferecida a oportunidade de recordar algo, somente se a essência registrou algo.Tudo quanto fazemos genuinamente toca a essência e a essência recordará ao retornar. Esta é uma das razões pelas quais o gênio de faz presente muito cedo, isto é, tudo que se fez de forma genuína".
Por uma boa razão o trabalho de Gurdjieff coloca ênfase na "recordação de si". Como a memória nos coloca em relação com a 4a dimensão - pois a vida não é uma linha reta - ela para nós é a única maneira de permanecer e não voltar exatamente no mesmo ponto de tempo em que paramos. Sem os choques, nós voltamos sempre ao mesmo tempo em paramos. Os famosas sequencias de Oupensky em "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido" (2) delineiam oitavas descontínuas, quebrando-se em emendado-se umas outras até que ao final ao invés de uma linha definida de ação sempre se perfaz um círculo. O homem mecânico sempre volta para o ponto de partida, suas intenções iniciais se evaporam e nenhum projeto é cumprido. Esta é a "Lei dos Sete" que no nível maior das séries existenciais é a "Lei do Eterno Retorno", que sob certas condições vale para a maioria dos homens deste planeta.

Notas:
1. Nichols, Maurice. Comentarios psicologicos sobre las enseñanzas de Gurdjieff y Ouspensky, v. II. Buenos Aires: Kier, 2006. 2a Edição.
2. Ouspensky, P.D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido. São Paulo: Pensamento, 2001.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O Lohan Chinês no British Museum

Desde 1914 um Lohan em cerâmica chinesa, um monge budista realizado, tem estado no British Museum. Esta figura é uma das oito figuras similares consideradas uma parte de um grupo que foi achado nas cavernas de uma localidade montanhosa perto de Yixian, em torno de oito milhas a sudoeste de Beijing, em 1912. A estátua tem a reputação em alguns círculos, de ser um exemplo de "arte objetiva".
Traduzido por Leo Frobenius de: http://www.octavearts.org.uk/the_lohan.htm
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Bem. Peço que observem detidamente a escultura do Lohan. Este título é o equivalente chinês do sânscrito "Arhat", aquele que obteve a quarta iniciação e está a pleno vapor caminhando rumo ao Adeptado. Tirem suas próprias conclusões sobre a obra, amparados pelo conceito de "arte objetiva" do Senhor Gurdieff (as pirâmides de Gisé, a catedral de Notre Dame, a esfinge).

"Durante os estágios seguintes da primeira, segunda e terceira Iniciações, o candidato desenvolve gradualmente a consciência búdica; mas na quarta Iniciação ele ingressa no plano búdico, e dali em diante ocupa-se em ascender firmemente pelos cinco subplanos inferiores do nirvânico, onde o ego humano tem os seu ser. (...) Na terminologia budista se chama Arhat a quem recebeu a quarta Iniciação, e significa o capaz, o benemérito, o venerável, o perfeito. Os hindus o chamam o Paramahansa, aquele que está acima ou além do Hamsa".
Leadbeater, C.W. Os mestres e a senda. Pensamento: São Paulo, 2006.

Fig 1. Inteira


Fig 2. Fronte


Fig 3. Lado Esquerdo

sábado, agosto 21, 2010

Uso de Drogas e Estágios Superiores de Consciência - A Falsa Opção


Muitos iniciantes no estudo do esoterismo e ocultismo se deparam após estudos avançados de Yoga ou do "Quarto caminho" com a cômoda possibilidade de empregar um "tipo de substância que, atuando sobre a "psiquê", induza a incursão célere em níveis "superiores" de consciência. A respota positiva a essa pergunta leva a opções como a do moderno "xamanismo" (em suas correntes e interpretações latino-americanas e brasileiras, inclusive) ou ao recurso a chás, cogumelos, infusões e beberagens associadas às idéias "à la Castañeda" em curso há cerca de três décadas.
Em sua magistral obra "O Quarto Caminho", um resumo de palestras realizadas em Londres para um seleto grupo de discípilos, Peter Ouspensky esclarece, de forma precisa e sucinta, toda a falácia subjacente às drogas e como o Sistema de Gurdjieff opõe-se veemente a elas. Por outro lado, o mesmo sistema rejeita abertamente os "vagabundos" ou indíviduos que sequer são capazes de dar um curso mínimo às suas vidas por reputá-los incapazes de dar, sequer, os passos iniciais no Trabalho.

"Pergunta: As drogas não podem nos pôr em contato com os centros superiores (1)?
Resposta: A idéia não é nova; as drogas foram usada nos tempos antigos, na Idade Média, nos Mistérios da Antiguidade, na magia, etc. Constatou-se que alguns estados interessantes resultavam de um uso inteligente das drogas. O sistema (2), no entanto, opõe-se a elas. O seu uso não dá bons resultados, porque elas não podem influir na consciência, faze-l a crescer. Entorpecendo os centros inferiores, as drogas podem nos pôr em contato com os centros superiores, mas isso não nos seria de nenhuma utilidade, porque só podemos nos lembrar na medida em que temos consciência. Visto que não a temos, a ligação com os centros superiores só resultará em sonhos ou inconsciência.
Todos esses estados de transe descritos, por vezes, nos livros, são um caminho muito perigoso. O ato de transportar-se a um transe está relacionado com a criação da imaginação no centro emocional superior, e isso é um beco sem saída. Se estivemos nele, não podemos sair nem ir adiante. A nossa idéia é controlar a imaginação; se, em vez disso, a convertemos, através de certos métodos, em imaginação no centro emocional superior, obteremos satisfação felicidade, mas, no fim das contas, trata-se apenas de dormir num nível superior. O verdadeiro desenvolvimento deve seguir duas linhas: desenvolvimento da consciência e desenvolvimento dos centros (3).
Além do mais, tais experiências são, em geral, desapontadoras, porque as pessoas geralmente consomem, na primeira experiência, todo o material que possuem para serem conscientes. Pode-se dizer o mesmo de todos os métodos de entorpecimento mecânicos e auto-hipnotizadores; dão os mesmos resultados que as drogas; adormecem os centros comuns, mas não podem aumentar a consciência. Mas, quando a consciência se desenvolver, os centros superiores não apresentarão nenhuma dificuldade. Admite-se que o centro emocional superior funciona no terceiro estado de consciência e o centro intelectual superior no quarto".

OBS:
(1) No sistema de Gurdjieff traçado por P.D. Ouspensky os centros intelectual e emocional superior não estão ativados no homem comum ou apenas acidentalmente. Em condições usuais de vida a “usina humana” não pode produzir as substâncias sutis (que Gurdjieff chamada de “hidrogênios” como combinações trinas de forças e elementos) para alimenta-lãs.
(2) O “Sistema” é o “Quarto Caminho” ou o “Caminho do Homem Astuto”, uma outra possibilidade em relação ao “Caminho do Faquir”, do “Monge” e do “Iogue” (definidos a partir do predomínio dos centros instintivo-motor, emocional e intelectual inferiores).
(3) Desenvolver os “Centros” é ter a capacidade de alimenta-los de forma adequada para funcionem com o seu próprio combustível.

sexta-feira, julho 02, 2010

O Simbolismo na Maçonaria e o Trabalho - As Funções Intelectual Superior e Emocional Superior do Sistema de Gurdjieff

A Maçonaria tem sido definida ao longo do tempo por vários modos, entre eles como um “sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos”. Nas instruções ministradas na Ordem, aspectos essenciais deste sistema são expostos paulatinamente, a partir da observância de rituais que remontam às “Escolas de Mistérios da Antiguidade”. Alguns autores que escrevem sobre a “Arte Real” ensinam que “quando a Maçonaria Livre e Aceita começou a ter uma vida própria, separada da Maçonaria Operativa, ela usava símbolos e emblemas para lembrar a seus membros os princípios morais e espirituais inerentes á sociedade. Ao longo do período em que se deu esse desenvolvimento, (...) o uso geral dos símbolos era uma prática comum e de uso cotidiano; assim, a sua incorporação em qualquer instituição esmerada, tal como a dos Maçons Especulativos, não seria nada extraordinária”.
Esses são os sistemas que, no passado, eram chamados de “Mistérios”, entre eles os do Egito, os da Pérsia, os de Elêusis, na Grécia e outros na Babilônia, Roma e nos grande centros da alta antiguidade. A esse respeito, na “Introdução sobre a Doutrina Esotérica” que abre a grande obra do Sr. Èdouard Schuré em português (“Os Grandes Iniciados”), enfatiza-se que “todas as religiões têm uma história exterior e uma história interior; uma aparente, outra oculta. Por história exterior entendo os dogmas e os mitos ensinados publicamente nos templos e nas escolas, reconhecidos no culto, e as superstições populares. Por história interior entendo a ciência profunda, a doutrina secreta, a ação oculta dos grandes iniciados, profetas ou reformadores que criaram, sustentaram, propagaram estas mesmas religiões“. Esta é a “tradição esotérica ou doutrina dos mistérios, é bastante difícil de discernir, pois ela se passa no fundo dos templos, nas confrarias secretas, e seus dramas mais surpreendentes se desenrolaram inteiramente no mais profundo das almas dos grandes profetas, os quais não confiaram suas crises supremas ou seus êxtases divinos a nenhum pergaminho e também a nenhum de seus discípulos”.
Estes círculos exotéricos e esotéricos delimitam a fronteira entre a humanidade mecânica e o trabalho isto é, entre a "Torre de Babel" ou o "Reino da Confusão das Línguas" e a busca através de "sofrimentos intencionais e esforços conscientes" do conhecimento de si. Podem ser vializados nas esferas concêntricas que demonstram as dimensões exotérica, mesotérica e esotérica da vida. A passagem de uma a outra compreende uma fase "transicional" de tomada de decisão, de rompimento da dualidade e formação da tríade no ser humano, isto é, a criação de uma linha contínua de resultados.
Com toda a sua sagacidade, o filósofo Greco-armênio, Georges Ivanovitch Gurdjieff, expressava sua interpretação das escolas de conhecimento e de mistérios como meios de transmissão de verdades arcanas que não poderiam ser traduzidas nos marcos da linguagem convencional. Segundo ele deveria haver uma “ciência objetiva”, uma unidade de todas as coisas e “procurava-se, pois, colocá-la em formas capazes de assegurar sua transmissão adequada, sem risco de deformá-las ou corrompê-las”.
Assim, “dando-se conta da imperfeição e da fraqueza da linguagem usual, os homens que possuíam a ciência objetiva tentaram exprimir a idéia da unidade sob a forma de ‘mitos’, ´símbolos’ e ‘aforismos’ particulares que, tendo sido transmitidos sem alteração, levaram essa idéia de uma escola a outra, freqüentemente de uma época à outra”. Estas idéias não atuavam sobre os estados convencionais, normais de consciência do homem mas sobre níveis superiores, o que ele denominava “centro emocional superior” e o “centro intelectual superior”. Ao primeiro, o “centro emocional superior”, destinavam-se os mitos, ao segundo, o “centro intelectual superior”, os símbolos.
A Maçonaria, portanto, elegeu como meio por excelência de aprendizagem a simbologia herdada tradições do passado que permeiam as instruções dos seus graus e seu Manual de Ritualística. Resultante da confluência mais recente das velhas Oficinas operativas de Roma e da Itália em seus albores, das corporações de ofício medievais e das contribuições dos filósofos herméticos e mestres da "Arte Real, esta nobre Ordem é a guardiã no Ocidente de um corpo de verdades que são incorporadas pelo Obr.'. através do trabalho consciente em Loj.'.. Isso significa que na verdadeira Maçonaria, assim como no "Trabalho", nenhuma transformação pode se operar sem que haja uma "harmonização" do Templo interno e do externo, do físico, do emocional e do intelectual. Tal como no "Quarto Caminho" nada é possível sem que os centros sejam harmonizados, tanto é que ao entrar no Temp.'. físico o cortejo de MM.'. deve, conduzido pelo M.'. de Cer.'., entrar em um "oceano de tranquilidade".
Na Maç.'., mais que em outras ordens, prerrogativas fundamentais do trabalho estão presentes. Em primeiro lugar, a necessidade de ser um bom "Chefe de Família", alguém que tenha responsabilidades e as cumpra. Ao contrário das falsas "ordens" de adolescentes (bruxaria, satanismo, simulacros da "Golden Dawn" e Thelema e mesmo da "Rosa Cruz" mercadológica) a Maçonaria exige que o M.'. seja trabalhador, tenha renda e seja fiel às suas obrigações no casamento e com a família.
Gurdjieff advertia que nenhum lunático ou vagabundo poderia ingressar no trabalho. Nenhum lunático ou vagabundo pode ser iniciado na Maçonaria.
Outras exigências da condição maçônica também são similares às do Trabalho. É indispensável uma vida sexual saudável e sem aberrações. Também é preciso tempo e recursos para cumprir obrigações maçônicas e socorrer aos homens. È fundamental a humildade porque no trabalho das oficinas todos os Obr.'. são iguais e regidos pelo nível. Em uma Loj.'. mesmo o Ven.'. M.'., caso transgrida os rituais ou a Lei Maçônica pode ser corrigido pelos IIr.'. O objetivo da Maçonaria, assim como no Grupo do Quarto Caminho ou a "Sangha" budista é escapar da "prisão do mundo material" e esse ato não se executa sem ajuda mútua. Por isso, equivocadamente, a Ordem foi confudida por tanto tempo como uma Sociedade de Socorro Mútuo. De certa forma não deixa de sê-lo.
Porém, ser Maçom não significa que se está no Trabalho Real.. No Trabalho Real de um Grupo Gurdjieff é preciso sempre estar trabalhando não apenas exteriormente mas sobretudo interiormente. Nas Loj.'. se diz um Ir.'. que está indisposto com outro Ir.'. não deve comparecer a suas reuniões para não comprometer a Egrégora. Porém, nem sempre este mandamento é levado a sério na prática. Em sentido amplo, no Trabalho, as coisas não são vistas tão "formalmente" e o mestre de um Grupo pode tomar decisões mais ou menos duras que soem como destempero ou demasiadamente violentas. Nesse sentido, o "Trabalho" transcende todo o resto e penetrar nele, como diria Nicoll, é submeter-se a mais Leis ainda que o comum dos mortais na Terra. É preciso estar ciente disso antes de tomar qualquer decisão preliminar sobre ele.

sexta-feira, junho 25, 2010

A Curta Vida do Homem como um Fenômeno Cósmico - Relações entre a Cristalização do Órgão Kundabuffer e o Raio de Criação no sentido de Gurdjieff

Vale do Capão, Chapada Diamantina. Foto do autor.
Estou em uma pousada no Vale do Capão, na Chapada Diamantina. A paisagem é bucólica, apaixonante como os picos dos Alpes, mais nova e menos imponente que os Andes mas transbordam mistérios da "mãe natureza". A temperatura é baixa e agradável, contrastando com o sempiterno calor da cidade de Salvador e a alta umidade do ar que me deixa enxaguado de suor durante todo o dia. Nas trilhas da Chapada colho pequenas amostras da flora local e cheiro seu aroma com o intuito de associá-lo a algo conhecido. As casas enormes dos cupins do mato abundantes por aqui me intrigam. Elas são feitas de terra amalgamada em substância secretada pelos pequenos insetos. Furo como uma espécie de "experiência científica" uma delas com o golpe de um pequeno martelo e centenas deles saem do seu reino. Intimamente me debato com certo sentimento de culpa por ter destruído trabalho tão belo e ao mesmo tempo me assaltam três idéias: em primeiro, a de que aquele "drama de proporções cósmicas" que abalou todo o "mundo dos cupins" partiu de um ato de vontade de minha parte (tomar o matelo e batê-lo na casinha). Outra foi a conclusão de que, do ponto de vista dos cupins,nada poderia ter sido antecipado, o choque com o meu martelo não poderia ser evitado. Elas são exatamente como nós, sujeitos a "leis superiores" e sujeitos ao acaso pois, assim como para nós, tudo para os cupins acontece. A terceira idéia é menos filosófica e se relaciona com o remorso que desencadeia ato tão brutal do ponto de vista dos valores "espirituais" ou o que nos ensinaram nos cursos de "bom mocismo" da religião da "Nova Era" quanto aos animais.
À noite volto para meu canto e durmo com o zunido das cigarras e os barulhinhos dos grilos. Ressinto-me de que ainda preciso um longo trabalho sobre mim mesmo para que as impressões que borbulham em meio tão rico possam ser assimilados pelo meu mecanismo interno e produzir as substâncias de ordem superior de que meu organismo realmente precisa.
Da varandinha do quarto vislumbro as montanhas que circundam o vale. Caminhando por ma trilha que conduz a um mirante, à tardinha, percebo que o efeito da tênue luz solar sobre as formas gigantescas ao longe compõe um espetáculo fascinante. Com a câmera reflex mais um tripé tiro algumas fotografias e usando meu lápis grafite faço esboços rápidos da paisagem em um caderno de desenho, para retocá-los depois. Espanto-me como a visão física das coisas pode mudar graças a meros deslocamentos do sol em sua carreira diurna. Assim como no mundo físico, nossa interpretação dos fenômenos também é sujeita às distorções de perspectiva. A forma como a luz incide ou não sobre nossa razão é que determina seu grau de objetividade.
Antes do anoitecer de ontem, ainda no mirante, contemplo o infinito. Tudo se cala e com os ouvidos capto apenas um som básico que reúne em um fio vibratória continuo as emanações de toda a natureza, o vento batendo nas pedras, os bichinhos e animais da caatinga, os resquícios da atividade humana em uma a vila próxima. Nestes momentos de intensa atividade consciente vieram-me à mente algumas implicações da idéia do raio de criação ensinada nas escolas e transmitida ao Ocidente por Georges Gurdjieff principalmente as relações entre os vários cosmos e a duração da vida do homem na atualidade.


A formação rochosa da Chapada Diamantina faz parte de um subgrupo comportado pela Serra do Espinhaço no Brasil. Há cerca de um bilhão de anos atrás o Ser Vivo que é o planeta Terra foi depositando ao longo de sua evolução geólógica, umas sobre as outras, camadas rochosas e areníticas que resultaram na atual conformação da sua superfície que se assemelha às delicadas capas de um doce folheado. Há algumas centenas de milhões um movimento de “ejeção” propiciado pela peculiar dinâmica energética do “fogo interno” que arde nas camadas que circundam frenético núcleo terreno elevou estas paragens situadas na Bahia alguns metros. O mesmo ocorreu nos Andes, por isso este "autor" teve a oportunidade de colher várias amostras de conchas em povoados nos arredores de Cuzco, situados milhares de metros acima do nível do mar. Em sua esfera cósmica e no seu lugar no raio de criação que emana do Absoluto, o Planeta que habitamos não se encontra em uma posição confortável. Fica apenas um pouquinho acima do “pior lugar do universo”, a lua. Aqui as possibilidades de evolução do homem são muito pequenas, senão inexistentes. Só com “sofrimentos intencionais e trabalhos conscientes” o homem pode esperar alguma mudança em seu destino.A “cronologia geológica” é trilhões de vezes mais abrangente que a humana segundo a escala dos cosmos. Penso que não é possível comparar a vida do homem com a da terra por dois motivos. Em primeiro lugar, a terra “ab initio” tem uma fim determinado para sua existência e um período de vida estipulado. O homem também tem um fim determinado para sua existência - suprir um dos seus satélites,a lua ou Anulios de alimento, isto é, manter a pulsação do “raio de criação” , ou seja, a oitava cósmica, desde a origem à sua nota final , a lua. Se o fim a que tende o homem enquanto gênero é definido, sua duração vital nem sempre o foi. Hodiernamente, pequenas mudanças na "qualidade de vida do homem" (mais alimento físico, sistemas de saúde eficientes, melhores remédios ou menos guerras e violência urbana) alteram o que os "demógrafos" (esquisitos "especialistas" hasnamussem em "populações humanas")batizaram de "expectativa de vida" que, no geral, oscilam no intervalo compreendido entre uns 70 e 90 anos, no máximo. Mas nem sempre foi assim.
Antes que as conseqüências do órgão que fazia com que os seres humanos não vissem as coisas como elas realmente são - o órgão “Kundabuffer” de que Gurdjieff fala nos “Relatos de Beelzebub a seu Neto“- fossem cristalizadas na “psique” do homem (um termo adorado pelos modernos “hanasmussem-demagogos”, os psicólogos) - o homem vivia o número de anos que fossem necessários até que alcançasse a “razão objetiva”. Costumo dizer que as elevadas idades dos patriarcas bíblicos, de São Noé a São Matusalém, não são apenas alegóricas ou mesmo equivalentes à nossa atual “métrica etária” mas escritas com outros nomes que eram usados na alta antiguidade. Estas idades expressas em livros do Novo Testamento, para o horror dos "hermeneutas de salão", expressavam a real duração de suas vidas e talvez pecassem por serem inferiores ao termo real da existência daqueles homens e mulheres com nível elevadíssimo de Ser.
Ocorre, para ser mais exato, que no “plano da obra cósmica” o homem não é importante. Não interessa ao desenvolvimento da oitava descendente cósmica que o homem evolua.Muito pelo contrário. Se todos os homens fossem conscientes de si mesmos a lua não teria alimento e o grande mecanismo equilibrante concebido pelos maiores "engenheiros do universo" para remediar os efeitos do impacto de corpo celeste Condoor sobre o planeta há milhões de trilhões de anos não mais funcionaria. Haveria uma grande perturbação cósmica (uma nova "perturbação transalpânica", de acordo com a terminologia adotada pelo Sr. Gurdjieff)que influenciaria até mesmo os outros raios de criação, trazendo incessantes preocupações ao “TODO BONDOSO” e particularmente ao nosso “TODO GLORIOSO SOL”.
Na Idade Média - que outro grupo de "fazedores de intrigas", os "historiadores" competentemente transformaram em "Idade das Trevas" - os teólogos e pensadores sistematizaram visões do mundo como criado por um Grande Arquiteto do Universo manipulando seus instrumentos de trabalho, o esquadro e o compasso. Segundo orientações de um antigo povo de pescadores em busca de passatempo, os gregos, foram construídos mecanismos reais e representações gráficas do sistema solar como um conjunto de órbitas colocadas em movimento por meio de uma alavanca central impulsionada pelo “primum móbile”.
As teorias dos teólogos, válidas ou não a depender da escola escolhida, seja de Ptolomeu, Brahe ou Copérnico, podem ser aceitas como uma tentativa de compreender o sistema solar como um todo articulado e mutuamente dependente. Nesse sentido, os velhos filósofos que são alvos da zombaria e sarcasmo dos modernos “papagaios empolados da pseudo-ciência capitalista” estariam corretos. O “raio de criação” (o Absoluto, Todos os Mundos, a Via Láctea, o Sol, os Planetas, a Terra e a lua) iniciando-se no absoluto ou o dó original e a lua, o dó final, é organizado racionalmente. Seu primeiro semi-tom é preenchido pela vontade do absoluto em si. O segundo semi-tom pela vida orgânica sobre a terra, na qual está o gênero humano.
Se apenas um por cento da humanidade alcançasse a consciência objetiva, o raio de criação seria rompido. A destruição de todos os cosmos e raios de criação seria uma possibilidade objetiva. Isso então não é possível para a maioria das homens o que não significa que haja possibilidades. Estas possibilidades são dadas, mas apenas para alguns que entram em contato com as verdadeiras escolas. A escola cujos ensinamentos originais GURDJIEFF trouxe ao Ocidente é a ÚNICA que detém o real segredo da evolução do homem. Todas as demais tradições ficaram apenas com algumas migalhas daquele pão que fora feito com o fermento original dos GRANDES MESTRES que visitaram esse planeta nos principais momentos de sua história.
Antes que a Chapada Diamantina fosse sedimentada através da deposição de materiais esparsos, antes que se elevasse alguns metros acima de seu nível primordial, os grandes Mestres que conceberam este ensinamento e acompanharam os percalços da Terra e dos recentíssimos seres humanos já estavam por aqui. Alguns foram enviados em seu nome. Santo Ashieta Shiemah, São Moisés, Santo Buda, São Jesus, São Lama. Pouquíssimos homens de três cérebros ou três centros independentes foram iluminados por por um pequeno raio desse feixe de luz. Seus ensinamentos foram desvirtuados por seguidores inescrupulosos ou simplesmente escravizados no inferno real, o “reino da mecanicidade”.
Todos os verdadeiros adeptos possuíam longa vida no mundo físico, todos aqueles que viveram antes da cristalização do famigerado órgão “Kundabuffer” viviam até o alcance da consciência objetiva. Costumo dizer que a ênfase dada ao mundo físico neste Sistema é fundamental pois é a realidade material que temos como verdadeiro parâmetro. Qualquer discussão sobre "reencarnação" representa enorme perda de energia e lenha para a fogueira da imaginação, sem qualquer utilidade real para o Trabalho. O fato é que temos a chance de mudar nossa “cronologia” e nos aproximarmos da cronologia da Chapada Diamantina que é um pedaço rugoso da epiderme terráquea. Quiça podermos cristalizar elementos solares em nós. A única forma de fazê-lo é encetar o trabalho na linha do Gurdjieff, o QUARTO CAMINHO. O momento para tal é o AGORA, a união entre o horizontal e o vertical.

segunda-feira, abril 19, 2010

AS RELÍQUIAS DO BUDA - O VERDADEIRO "COLAR DE BUDA"

Algumas "relíquias" de Buda 

As Relíquias do Buda - O Verdadeiro Colar de Buda



As relíquias do Buda Sakiamuni foram oferecidas por Sua Santidade, o Dalai Lama ao Lama Zopa Rinpoche. Muitos outros mestres budistas uniram-se ao projeto e ofereceram relíquias para serem colocadas no coração da estátua do Buda Maitreia. Quando os corpos de mestres espirituais são cremados, entre suas cinzas surgem cristais parecidos com pérolas. Estes objetos são especiais porque guardam a essência das qualidades do mestre. As relíquias são evidências físicas de que ele desenvolveu muita compaixão e sabedoria antes da morte. Elas proporcionam uma oportunidade única de conexão espiritual com seres iluminados”.

O trecho acima foi reproduzido de um convite para a apresentação das relíquias do Buda Sakiamuni em capitais do Brasil. Não só deste Buda, mas discípulos notáveis como Maudgalyayana, Ananda e Sariputra e antecessores como o Buda Kasyapa. Quando estes mestres espirituais deixam a terra e são cremados surgem estas pequenas “pérolas” como testemunho de sua santidade.

Mas o que são estas pequeninas “pérolas” veneradas como relíquias do Buda por toda a extensão do Oriente? Os Budismos Exotéricos cegadas por cerimônias cuja chama espiritual oculta deixaram de compreender há muitos séculos não são capazes de compreender o que são estas “relíquias”, que não são cristalizações de virtudes ou “parâmitas” dos Budas mas representam a própria sobrevivência física e dos Budas e seu vínculo material com o presente e o passado.

Este misterioso ensinamento permaneceu oculto por séculos, talvez milênios, até que Georges Illitch Gurdjieff na série de revelações em Moscou no início do século XX trouxe a lume o segredo do “Colar de Buda”. Este termo não expressa a cadeia de reencarnações como usualmente é aceito, mas um vínculo permanente com Buda. A exposição ora realizada em várias capitais do Brasil, entre elas Salvador, pode trazer algumas destas peças entre as quais somente o verdadeiro clarividente saberia distinguir aquelas que são falsificações produzidas nos mosteiros tibetanos os verdadeiros “colares de Buda”.


Mas do que se tratam? O que são e qual é a verdadeira natureza destas relíquias?

Em “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido” Piotr Demianovich Ouspensky relata de forma conspícua observações magistrais de Gurdjieff sobre o “Colar de Buda”. Permitam-nos reproduzir estes preciosos argumentos:

Noutra ocasião, falávamos do Budismo do Ceilão. Eu expressava a opinião de que os budistas devem ter uma magia, cuja existência não reconhecem e cuja possibilidade é negada pelo Budismo oficial. Sem nenhuma relação com essa observação e enquanto mostrava minhas fotografias a G., falei-lhe de um pequeno relicário que vira numa casa amiga, em Colombo, onde havia, como de costume, uma estátua de Buda e, ao pé desse Buda, uma pequena dágaba (*) de marfim em forma de sino, isto é, uma pequena réplica cinzelada de uma verdadeira dágaba, interiormente vazia. Meus anfitriões abriram-na em minha presença e mostraram-me alguma coisa que era considerada uma relíquia, - uma pequena bola redonda, do tamanho de uma bala de fuzil de grosso calibre, cinzelada, segundo me parecia, numa espécie de marfim ou de nácar.
G. escutava-me atentamente.
- Não lhe explicaram a significação dessa bola? Perguntou.
-Disseram-me que era um fragmento de osso de um discípulo do Buda; que era uma relíquia sagrada de grande antiguidade.
- Sim e não, disse G.. O homem que mostrou o fragmento de osso, como você, diz, nada sabia ou nada queria lhe dizer. Pois não era um fragmento de osso, mas uma formação óssea particular que surge em torno do pescoço como uma espécie de colar, em decorrência de certos exercícios especiais. Já ouviu essa expressão: “colar de Buda”?
- Sim, disse, mas o sentido é completamente diferente. É a cadeia de reencarnações do Buda que chamam “colar de Buda”.
- È exato que esse seja um dos sentidos dessa expressão, mas falo de um outro sentido. Esse colar de ossos que rodeia o pescoço, sob a pele, está diretamente ligado ao que é chamado ‘corpo astral’. O corpo astral está, de certo modo, ligado a ele ou, para ser mais preciso, esse ‘colar’ liga o corpo físico ao corpo astral. Ora, se o corpo astral continua a viver depois da morte do corpo físico, a pessoa que possui um osso desse ‘colar’ poderá sempre se comunicar com o corpo astral do morto. Essa é a magia deles. Mas eles nunca falam dela abertamente. Tem, pois, razão, em dizer que têm uma magia, e temos aqui um exemplo dela. Isso não significa que o osso que viu seja verdadeiramente um osso. Encontrará ossos semelhantes em quase todas as casas; estou lhe falando apenas da crença que está na base desse costume.
E eu devia admitir uma vez mais que nunca encontrara tal explicação.
G. esboçou para mim um desenho que mostrava a posição dos ossinhos sob a pele; formavam na base da nuca, um semicírculo que começava um pouco adiante das orelhas.
Esse desenho relembrou-me de imediato o esquema ordinário dos gânglios linfáticos do pescoço, tais como são representados nos quadros anatômicos. Mas nada mais pude saber
”.


Ao visitante desatento tais observações sobre as “relíquias” dotadas do dom de cura e capazes de trazer inolvidáveis benefícios espirituais e físicos àqueles que por isso anseiam (assim como, supostamente o fazem as relíquias católicas ou de outras religiões) podem proporcionar-lhes um vislumbre do que dos resultados do contato físico com o elo cristalizado dos Budas. Essa é verdadeira “magia oriental” e suas relíquias – se verdadeiras – são os atributos físicos dos verdadeiros Santos.

(*) Santuário budista em forma de cúpula.

Mais informações sobre a exposição no Brasil em:

http://www.cebb.org.br/noticias/344-exposicao-reliquias-do-buda-brasil-2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

O que é o Homem?

O que é o homem? Todos nós realizamos conjecuturas todo o tempo acerca do que é o homem e em que consiste seu papel no universo. Rememoramos a criação de Santo Adão e Santa Eva, da lama da qual foi gerado o homem primordial e e da corrupção em que foi lançado após a "queda", após a deliciosa mordiscada do pomo da vida no Paraíso e o exílio no mundo sublunar.
Acostumamo-nos a um acalentar o sonho de um lugarzinho especial do Ser Humano junto ao Todo-Poderoso Criador do Céu e e da Terra e ao ledo engano de que o homem é um ser especial na ordem cósmica.
Realmente um ledo engano.
"Sois pó e ao pó voltarás", escreveu São Moisés.
O que São Moisés intentou expressar com esta frase? Apenas a óbvia conclusão de que o homem é nada, ele é pó, ele nada significa no interior da economia geral do universo..
O homem em geral faz um elevado juízo de si mesmo, sempre se julga superior ao que realmente é caso se pudesse conhecer enquanto tal. Ele é o "Ò do Borogodó", para usar uma gíria antiga do Brasil ou o suposto "Califa de um reino de milhões de Egos" que ele confunde com sua altaneira personalidade.
O homem entretanto é menos que uma pequena formiga no universo e seu desaparecimento sequer é notado na ordem cósmica. Morto a "solda universal" representada pela força ígnea do sol deixa de manter coesos os elementos que compõe a frágil máquina humana, o "prana" como dizem na Ìndia não mais opera. O homem se torna uma massa amorfa em fase de putrefação e se desintegra como matéria mal cheirosa e úmida na terra mãe.
O homem se dilui na vida orgânica da terra e contribui para que a lei setenária do universo se realiza. Sua alma alimenta a lua e nada mais.
O homem não é nada sobre a terra. È insignificante, pequeno e desprezível, ao menos em seu estado atual de mecanicidade. Como a maior fração percentual de seu gênero está rotulada como "mecânica", sua própria extinção enquanto tal não causaria maiores impactos sobre o funcionamento do relógio universal.
Hoje choram os mortos do Haiti mas nunca é demais recordar uma pequena lição: "O homem assiste a milhares de mortos em um cataclismo natural, faz suas orações, deita-se em sua cama e dorme tranquilamente. Caso soubesse na véspera, entretanto, que perderia para sempre um pequeno pedaço de seu dedo mindinho, apenas um pequeno pedaço, ele não só ficaria acordado a noite toda como pediria ajuda a todos os seus irmãos, amigos e pais, quiça à polícia, para defender-se".

Este é o homem.

sexta-feira, outubro 16, 2009

O Exercício do "Stop"

No sistema de Gurdjieff o conhecimento de si mesmo e o estudo de si parte da observação do próprio corpo, seus movimentos, gestos e posturas. As funções motoras são indissociáveis das demais funções que caracterizam a 'máquina humana' e qualquer um que queira satisfatoriamente prosseguir no quarto caminho deve esforçar-se para dominá-las.

" - Cada raça, disse, cada época, cada nação, cada país, cada classe, cada profissão, possui um número definido de posturas e de movimentos que lhe são próprios. Os movimentos e as posturas, ou atitudes, sendo o que há de mais permanente e imutável no homem, controlam tanto sua forma de pensamento domo sua forma de pensamento como sua forma de sentimento. Mas o homem nem mesmo faz uso de todas as posturas e de todos os movimentos que lhe são possíveis. Cada um adota certo número delas, conforme a sua individualidade. Assim, o repertório de posturas e movimentos de cada indivíduo é muito limitado".
"(...) O homem é incapaz de mudar a forma de seus pensamentos e de seus sentimentos enquanto não tiver mudado seu repertório de posturas e movimentos do pensamento e do sentimento, e cada um tem um número determinado delas. Todas as posturas motoras, intelectuais e emocionais estão ligadas entre si".
"É uma ilusão crer que nossos movimentos sejam voluntários. Todos os nossos movimentos são automáticos. E nossos pensamentos, nossos sentimentos também o são. O automatismo de nossos pensamentos e de nossos sentimentos corresponde de maneira precisa ao automatismo de nossos movimentos. Um não pode ser mudado sem o outro. De maneira que, se a atenção do homem se concentrar, digamos, na transformação de seus pensamentos automáticos, os movimentos e atitudes habituais intervirão imediatamente no novo curso de pensamento, impondo-lhes as velhas associações habituais".
"Nas circunstâncias usuais, não podemos imaginar o quanto nossas funções intelectuais, emocionais e motoras dependem umas das outras; e, no entanto, não ignoramos quanto nossos humores e nossos estados emocionais podem depender dos movimentos e das posturas. Se um homem assume uma postura que nele corresponde a um sentimento de tristeza ou de desencorajamento, pode estar certo, então, de que rapidamente se sentirá triste ou desencorajado. Uma mudança deliberada de postura pode provocar nele o medo, a aversão, o nervosismo ou, ao contrário, a calma. Mas como todas as funções humanas - intelectuais, emocionais e motoras - têm seu próprio repertório bem definido e reagem constantemente umas sobre as outras, o homem nunca pode sair do círculo mágico de suas posturas".
"Mesmo que um homem reconheça essas ligações e empreenda lutar para livrar-se delas, sua vontade não é suficiente. Devem compreender que esse homem tem apenas vontade bastante para governar um só centro por um breve instante. Mas os outros dois centros opõem-se a isso. E a vontade do homem nunca é suficiente para governar três centros ao mesmo tempo".


O que é o STOP?


G.I.Gurdjieff transmitiu ao ocidente uma antiga técnica psico-fisiológica aprimorada no Ocidente que se tornou conhecida como "método do 'Stop'".
O stop consiste:

"Para opor-se a esse automatismo e adquirir um controle das posturas e movimentos dos diferentes centros, existe um exercício especial. Consiste no seguinte: a uma palavra ou a um sinal do mestre, previamente combinado, todos os alunos que o ouvem e o que vêem devem no mesmo instante suspender seus gestos, quaisquer que sejam - imobilizar-se no lugar na mesma posição em que o sinal o surprendeu. Mais aindas, devem não só cessar de se mover, mas conservar os olhos ficos no mesmo ponto que olhavam no momento do sinal, conservar a boca aberta se estiverem falando, conservar a expressão da fisionomia e, se estivessem sorrindo, manter esse sorriso. Nesse estado de 'stop', cada um deve também suspender o fluxo dos pensamentos e concentrar toda a atenção, mantendo a tensão dos músculos, nas diferentes partes do corpo, no mesmo nível em que se encontrava e controlá-la o tempo todo, levando, por assim dizer, a atenção de uma parte do corpo a outra. E deve permanecer nesse estado e nessa posição até que outro sinal convencionado lhe permita retomar uma atitude normal, ou até que caia de cansaço a ponto de ser incapaz de conservar por mais tempo a primeira atitude. Mas não tem nenhum direito de mudar seja o que for, nem o olhar, nem os pontos de apoio; nada. Se não pode aguentar, que caia - mesmo assim, é preciso que caia como um saco, sem tentar proteger-se de um choque. Do mesmo modo, se tivesse algum objetivo nas mãos, deve conservá-lo durante tanto tempo quanto possível; e se as mãos se recusarem a obedecer e o objeto lhe escapa, isto não é considerado falta grave".
"Cabe ao mestre vigiar para que nenhuma acidente aconteça, devido às quedas ou às posições desascostumados, e esse respeito, os alunos devem ter plena confiança em seu mestre e não temer nenhum perigo".
"(...) Um estudo de si mecânico só é possível com a ajuda do 'stop', sob a direção de um homem que o compreenda".

Fonte: OUSPENSKY, P.D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido - em busca do milagroso. São Paulo, Ed. Pensamento.

segunda-feira, agosto 24, 2009

A Famosa “Serpente Kundalini” e o Papel do Sexo em Gurdjieff segundo P.D. Ouspensky e os “Fragmentos (...)”

A Famosa “Serpente Kundalini” e o Papel do Sexo em Gurdjieff segundo P.D. Ouspensky e os “Fragmentos (...)”



Muitos dos candidatos à senda iniciática e os neófitos em ocultismo exalam suspiros ansiosos diante da simples menção da palavra “sexo”. O pronunciar do mantra “Kundalini” exerce efeito vibracional da mesma magnitude ou maior, sem dúvida ampliado quando conjugado ao vocábulo sânscrito “Tantra” ou junto ao supra sumo dos gurus orientais, a “Yoga”.

Isso resulta em “Kundalini Yoga” ou “Tantra Yoga”. Seria engraçado notar outras associações que só a risível mecanicidade dos homens explicaria mas não é outro nosso propósito que anotar o pensamento de P. D. Ouspensky contido em “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido – Em busca do Milagroso”, esta obra notável que, em que pesem as diferenças com o estilo argumentativo e a didática do mestre conserva em linhas magistrais o essencial de seu pensamento apresentado nas conferências a que compareceu P.D.O.

A visão de G (como chamaremos à moda usual de Georges Illitch Gurdjieff) começa a ser esboçada quando fala do repertório definido de pais que o homem representa habitualmente e como “(...) o estudo dos papéis que cada um representa é uma parte indispensável do conhecimento de si. O repertório de cada homem é extremamente limitado’. Esses papéis, como observa, exercem uma função prodigiosa nas relações entre homem e mulher (pg. 290) e demonstram como o tipo real, a essência, é escondida nestas mesmas relações pois elas se travam com base em uma espécie de “coincidência de gostos”, por assim dizer, correlacionada à personalidade (aparência e não à essência) do casal. “(...) o homem 'mecânico' não pode amar. Nele, isto ama ou isto não ama”.

A grosso modo, o “sistema” de Gurdjieff é fundamentada no pressuposto de que o homem é uma máquina e para estudá-lo é antes necessário compreender a mecânica que a psicologia em sentido estrito. Para o homem “tudo acontece” e ele dificilmente escapa ao conjunto de “leis da mecanicidade” por esforço próprio o que, não obstante, pode ser feito por um esforço consciente em grupo capaz de produzir “choques artificiais” adicionais que garantam a cristalização de algo mais sutil em si mesmo.

Poucos compreendem, entretanto, a importância que desempenha o sexo no conjunto do sistema porque via de regra se resumem os “centros do homem” aos centros instintivo, motor, emocional e mental. O “centro sexual” cumpre um papel que é ignorado por muitos adeptos do “Quarto Caminho” (ou a escola introduzida por G. Gurdjieff no Ocidente) ou é entendido como a contrapartida conceitual da famosa “kundalini” hindu, ao qual difere em número, gênero e grau.

“Kundalini” para Gurdjieff em nada se aparenta à “serpente ígnea” que se aloja no chackra situado na base da coluna e o “despertar de kundalini” não se relaciona em absoluto ao acréscimo de faculdades desconhecidas ou poderes (“sidhis”) transcendentes. Na realidade:

“(...) é a potência da imaginação, a potência da fantasia, que usurpa o lugar de uma função real” (...). “Kundalini é uma força introduzida nos homens para mantê-los em seu estado atual”. Despertar para o homem significa ser “deshipnotizado”.

Kundalini é algo que foi colocado no homem “por fora” e serve para mantê-los escravizados, sujeitos ás leis mecânicos e reféns das influências planetárias, transformando-se em “alimento para a lua” de acordo com a utilidade quer forças de ordem cósmica reservaram à terra na economia da universo. Sem “Kundalini” o homem não é mais hipnotizado, não age como na velha fábula em que o cordeiro pensa que é um Leão.

Kundalini, posteriormente tratada nos “Contos de Belzebu a seu Neto” nada mais é que o estranho órgão “kundabuffer” que faz com que os homens e mulheres neste pequeno planeta, estes insólitos seres “tricerebrados” ajam de maneira tão estranha diante dos olhos do estupefato neto do velho e sábio Belzebu.

Como afirmava o velho caucasiano em suas conversas com os mais seletos discípulos,

Ao mesmo tempo, o sexo desempenha um papel enorme na manutenção da mecanicidade da vida. Tudo o que as pessoas fazem está em ligação com o sexo; a política, a religião, a arte, o teatro, a música, tudo é sexo”. (...) Essa é a principal fonte de energia de toda a mecanicidade. Todos os sonos, todas as hipnoses dela decorrem. Tentem compreender o que quero dizer. A mecanicidade é particularmente perigosa quanto as pessoas não a querem tomar pelo que é e tentam explicá-la por outra coisa. Quando o sexo é claramente consciente de si mesmo, quando não se esconde por trás de pretextos, não se trata mais de mecanicidade de que falo. Ao contrário, o sexo é claramente consciente de si mesmo, quando não ser esconde por trás de pretextos, não se trata mais da mecanicidade de que falo.Ao contrário, o sexo, que existe por si mesmo e não depende de mais nada já é uma grande realização. Mas o mal reside nessa perpétua mentira de si mesmo”.

O sexo é a principal fonte da escravidão humana e o laço que o ata em caráter quase irrevogável à mecanicidade, impedindo-o de ser algo mais que uma simples e previsível máquina. Contudo, há algo de positivo nele, desde que exploradas suas possibilidades enquanto fator de “transmutação” do homem.

Lembram-se do que foi dito a respeito das quarenta e oito leis? Não podem ser modificadas, mas é possível libertar-se de grande número delas. Quero dizer, há uma possibilidade de mudar. O estado de coisas para s
i mesmo pode escapar à lei geral. Aí, como em qualquer outra parte, a lei geral não pode ser mudada, tanto mais que a lei de que falo, isto é, o poder do sexo sobre as pessoas, oferece possibilidades muito diversas. O sexo é a principal fonte de nossa escravidão, mas também nossa principal possibilidade de libertação
”.

Neste ponto ingressa-se no campo da alquimia enquanto ciência das transmutações e estudo da unidade da matéria. O sexo se torna ingrediente indispensável no processo que conduz ou ao nascimento de um novo corpo físico à base da união dos princípios masculino ou feminino ou à constituição de um corpo astral sem “bodas alquímicas”, sem o “sol e lua” como se pode dizer (Gurdjieff e Ouspensky não usavam essa notação alquímica.

O processo de Criação de um Novo Corpo Físico depende da forma como são manipuladas substâncias sutis, em especial a mais fina e rara que pode ser produzida pela fábrica humana (o corpo humano de três andares), o hidrogênio si 12. Por assim dizer:

O novo ‘nascimento’ de que falamos, depende da energia sexual tanto quanto o nascimento físico e a propagação das espécies”. “(...) o hidrogênio si 12 é o hidrogênio que representa o produto final da transformação do alimento no organismo humano. É a matéria a partir da qual o sexo trabalha e produz. É a ‘semente’ ou o ‘fruto’. “(...) si 12 pode passar ao dó da oitava seguinte com o auxílio de um ‘choque adicional’. Mas esse ‘choque’ pode ser de dupla natureza e duas oitavas diferentes podem começar, uma fora do organismo que produziu si, outra no próprio organismo. A união dos si 12 masculino e feminino – e tudo que a acompanha – constitui o ‘choque’ da primeira espécie e a nova oitava começada com a sua ajuda desenvolveu-se independentemente, como um novo organismo ou uma nova vida’.
“Essa é a maneira normal e natural de utilizar a energia de si 12. entretanto, no mesmo organismo há outra possibilidade. É a possibilidade de criar uma vida nova dentro do organismo onde si 12 foi elaborado, mas desta vez sem a união dos princípios masculino e feminino
”.

Gurdjieff deixa claro que a energia sexual só pode ser gasta de duas maneiras legítimas, a vida sexual normal e a transmutação. “(...)Neste domínio, qualquer invenção é das mais perigosas”. Isso pode ser entendido como uma admoestação que visa coibir as chamadas práticas da “mão esquerda” (não entendidas, diga-se de passagem, à moda piegas de vários autores ocultistas, principalmente “teósofos” mas como um conjunto de ações que deturpam o caminho e aumentam a mecanicidade do homem).

O sexo, em si, se normal e bem utilizado é bom e saudável. O grande mal, o mais pernicioso é o “abuso do sexo” Como Gurdjieff entende a expressão “abuso do sexo”?

Ela designa o mau trabalho dos centros em suas relações com o centro sexual ou, noutros termos, a ação do sexo exercendo-se através dos outros centros e a ação dos outros centros exercendo-se através do centro sexual, ou para ser mais preciso, o funcionamento do centro sexual com o auxílio da energia tomada dos outros centros e o funcionamento dos outros centros com o auxílio da energia tomada do centro sexual”.

Abuso do sexo é qualquer situação que produz o mal funcionamento dos centros, sua desarmonia e desorganização. O centro sexual rouba energia dos demais centros (o motor, o emocional e o mental) e estes se alimentam, por seu turno, das energias do centro sexual. Nesse caso o homem se descontrola e tende a se tornar um ser horrendo e desprezível. O sexo como parte neutralizante do centro motor deixa de operar e seu centro, o centro sexual, passa a se “alimentar” de coisas mais impuras e grosseiras.

”(...) O centro sexual trabalha com o hidrogênio 12, disse ele desta vez. Isto é, deveria trabalhar com ele. O hidrogênio 12 é si 12 mas o fatoé que raramente trabalha com o seu hidrogênio próprio. As anomalias no trabalho do centro sexual exigem estudo especial”.

Além de tomar para si “hidrogênios inferiores”, o centro sexual começa adquirir caraterísticas que não são próprias dele, é contaminado por atributos dos demais centros e, em especial, do centro emocional. Como demonstra G.; no centro sexual, no centro emocional superior e no intelectual superior não há duas partes.

Tudo o que se relaciona com o sexo deveria ser, quer agradável, quer indiferente. Os sentimentos e as sensações desagradáveis provêm todos do centro emocional ou do centro instintivo”.
Mas em conseqüência do mau trabalho dos centros, acontece freqüentemente que o centro sexual entra em contato com a parte negativa do centro emocional ou do centro instintivo. A partir daí, certos estímulos particulares ou mesmo quaisquer estímulos do centro sexual, podem evocar sentimentos desagradáveis, sensações desagradáveis”.

O sexo é importantíssimo por fim pois é o mais rápido dos centros por trabalhar com o hidrogênio 12.

“(...) Isto significa que ele é mais forte e mais rápido que todos os outros centros. De fato, o sexo governa todos os outros centros (pq. 292)”.

“(...) Quando a energia do sexo é saqueada pelos outros centros, é esbanjada num trabalho inútil, nada resta para ele mesmo e deve, a partir de então, roubar a energia dos outros centros, que é de qualidade bem inferior à sua e bem mais grosseira”.
Mas quando o centro sexual trabalha com energia que não é a sua, isto é, com os hidrogênios relativamente inferiores, 48 e 24, suas impressões tornam-se muito mais grosseiras e ele cessa de ter no organismo o papel que poderia desempenhar. Ao mesmo tempo sua união com o centro intelectual e a utilização de sua energia pelo centro intelectual provocam um excesso de imaginação de ordem sexual e, por acréscimo, uma tendência a satisfazer-se com essa imaginação. Sua união com o centro emocional cria a sentimentalidade, ou, ao contrário, a inveja, a crueldade”.

As mais grandiosas obras em todos os terrenos são frutos inegáveis da ação do centro sexual. Essa energia se reconhece “(...) por um ‘sabor’ particular, por um certo ardor, por uma veemência ‘desnecessários”. O maior desafio do homem que trabalha sobre si mesmo no espírito do quarto caminho e compreender (e antes SER para COMPREENDER) como utilizá-la da forma correta e não fazer mal uso do sexo tornando-se um infra-sexual conforme ensina Ouspensky em “Um Novo Modelo do Universo”. Um demônio vil, asqueroso e perverso aguilhoado pela torpe sujeição aos mais abjetos prazeres que satisfaçam sua mecanicidade.

domingo, agosto 23, 2009

Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido - Ouspensky

Li "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido - Em Busca do Milagroso" há muitos anos e desde o início percebi que estava diante de algo "diferente", algo que jamais vira em muita busca pelo oculto, o desconhecido, as chaves do desenvolvimento espiritual. Tudo era misterioso e excitante, a forma da narrativa em primeira pessoa conjugada com as observações cáusticas de Gurdjieff transcritas pontual e tempestivamente por Ouspensky o tornavam uma obra da estatura dos grandes romances maometanos do século XII ou dos relatos de aventuras incríveis e impossíveis. Definitivamente é algo que se inscreve no rol do abstruso e "fora do sentido comum" porque para a maioria dos homens e mulheres em seu estado de consciência vigente tudo o que Gurdjieff ensinava em suas palestras ressoaria como misticismo absurdo e um conjunto de paradoxos evidentes (Ouspensky fala logo nas primeiras páginas sobre um livrinho infantil de "paradoxos evidentes" da Coleção Stolypin,muito apreciada nos lares russos. O real é necessariamente um "paradoxo" evidente para quem possui a consciência objetiva).
Em 1914 o Império dos Czares estava dava seus estertores finais. O resultado da guerra estava sendo decidido no front e era pouco aspicioso para a aristocracia russa. Em Moscou Ouspensky observava os caminhões cheios de muletas novas em folha e sequer pintadas ainda que seriam destinadas às tropas na fronteira. As grandes cidades da Mãe Rússia eram assoladas pela fome e agitação social. O mundo estava prestes a ruir e nunca em toda a história se tinha tido notícias de guerra desta magnitude e extensão.
Em meio ao turbilhão de informações de um estado de guerra e uma economia paralisada Ouspensky tenta se situar em Moscou, onde exerce a profissão de jornalista. Havia publicado seu opúsculo "Tertium Organum" e contava com um bom círculo de amigos na capital imperial e certo prestígio. Há pouco tempo retornara de viagem ao Oriente (India e Tibete) e descrevera suas experiências em pequenos artigos, o que não passara desapercebido ao grupo de um misterioso "oriental" que vendia tapetes. Ao mesmo tempo, ao manusear os folhetins da época tomara conhecimento de um ballet que estava sento representado em Moscou que se chamava "A Luta dos Magos". Seu autor era um "hindú", um "oriental". Posteriormente travaria contato pessoal com esse "oriental" e os primeiros rudimentos publicados da orientação do "Quarto Caminho" iriam vir à luz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A Adversidade e o Quarto Caminho

O Senhor Gurdjieff (G.) ensinava que as pontes para o "quarto caminho" eram o sofrimento e a tensão. Poderíamos simplesmente escolher um dos caminhos tradicionais (o do faquir, o monge ou o do iogue) e operar sobre nossos centros físico (como o faquir), emocional (como o monge) ou o intelectual (como o iogue) mas isto é muito difícil no mundo ocidental, no capitalismo tresloucado em que vivemos.
Havia portanto um outro caminho. Ninguém pode apontar para onde conduz. Ninguém sabe como é construído. É uma obra individual que só depende de você mesmo e sua vontade. Tudo o que sabemos é que para ingressar nesta senda é preciso ter sofrido. Cristo passou por sua paixão, foi crucificado e ressuscitou. Temos também que ser supliciados pela vida para entermos que somos "máquinas" que dormem. Temos que derspertar para o "quarto caminho".
Do sofrimento nasce a tensão e passa a operar a "Lei das Três Forças" (o princípio positivo, o negativo e o neutro, os elementos oxigênio, hidrogênio e nitrogênio da química oculta).
Da entrechoque entre os dois primeiros princípios surge algo novo. O primeiro alento do homem em direção ao caminho do miraculoso, preconizado por G. mas que tem que ser desenvolvido por você mesmo.
Seguir esta trilha não é fácil. É preciso determinação, vontade. Mas será que temos a vontade? Sabemos o que é vontade? A resposta é não. Para que a tivéssemos teríamos que ter cristalizado um corpo superior, o causal. O amo (a vontade) daria suas instruções ao cocheiro (a mente) e este conduziria o cavalo (os sentimentos e as emoções) atrelado à carruagem (os instintos do corpo físico).
Este esforço parte de uma decepção. Como diz G., se éramos materialistas, deveríamos estar decepcionados com o materialismo. Se éramos ocultistas, decepcionados com o ocultismo. Se cristãos, decepcionados com o cristianismo. Se téosofos, decepcionados com a teosofia. Necessitamos ainda de um Mestre, alguém que severamente nos indique os erros. Devemos ingressar em um grupo, onde obteríamos a chave do conhecimento oculto de Gurdjieff, o "trabalho" através da "lembrança de si mesmo". Sem lembrarmo-nos de nós mesmos continuaremos a palmilhar a terra sem jamais enxergamos nosso papel nela.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Panorama do Pensamento de Ouspensky - Parte III (Eterno Retorno e Outros Temas)

A TEORIA DO ETERNO RETORNO

Uma crença central de Ouspensky é a doutrina conhecida seja como do eterno retorno, seja da recorrência. Surpreendentemente, a despeito da relativa obscuridade desta idéia a teoria contudo teve aderentes ao longo das eras e influenciou muitos escritores notáveis. O mais conhecido campeão recente da teoria foi James Joyce, cuja novela Finnegans Wake, é baseada totalmente na idéia. Como matéria filosófica esteve associada ao nome de Nietzche, e apesar do impacto relativamente menor que a idéia teve sobre muitos de seus comentadores acadêmicos no corpo de escritos de Nietzche, foi reconhecida como central por certos comentadores influentes [12]. No pensamento ocidental a doutrina é conhecida com referencia a Pitágoras através dos comentários de Eudemos de Rodes, por Archytas de Tarentum, talvez Plotino e o Neoplatonista do sexto século, Simplicio. Com sua ênfase na moderna escatologia a Cristandade moderna nunca suportou a doutrina, ainda que Ouspensky cite varias passagens nos Evangelhos nas quais, em sua opinião, indica-se que o próprio Cristo estava familiarizado com a noção de repetição e oferece uma passagem de Orígenes em “Sobre os Primeiros Princípios” como uma indicação do cristianismo primitivo em desacreditar a idéia [13].
A recorrência como uma hipótese cosmogônica nunca foi considerada palpável, ainda que como um fundamento moral possua certo apelo. Isto é, se todas as ações se repetem eternamente o imperativo de maximizar a condição de alguém deve ser aumentado. Ainda, com poucas exceções, isto também se julgou carente de um fundamental aceitável para qualquer teoria deôntica e o hoje o homem médio ficaria surpreendido em deparar-se com a idéia. Naturalmente para Ouspensky a recorrência não era uma teoria física ou moral mas era, ao invés disso, uma base metafísica que fluía de sua concepção metageometrica da forma do mundo.
Olhando em retrospective nossa discussão especulativa concernente à representação em quatro dimensões de nossa vida devemos lembrar que qualquer figura quadrimensional necessariametne engloba a vida inteira de uma coisa e não apenas uma serie de momentos discretos arrancados da memória. Para entender a relação da teoria da recorrência do assim chamado “Novo Modelo” de Ouspensky, deixe-nos imaginar uma forma geométrica especifica em sua relação com nossa vida. Começamos com a linha fazendo a vida de um homem. Um ponto, nascimento, começa no ano 1900 enquanto a linha termina com a morte do sujeito, em 1970, digamos. A figura completa da vida do homem constitui uma forma quadridimensional. Agora, deixe-nos curvar a linha em um ângulo de 360o. Aqui, o fim da linha se conecta com o principio. A morte termina no nascimento. Um homem é nascido em 1900, vive sua vida, morre em 1970 e renasce novamente em 1900, encontrando exatamente as mesmas circunstâncias de sua existência previa. Conscientemente limitado à forma fenomenal tridimensional não reconhece uma eternidade no fio da existência, mas somente o momento estático. Um homem entende seu nascimento mas nunca compreende o que viria “antes” nem, com alguma conhecimento real, entende o que o espera “após” a morte também, dependendo das circunstâncias de sua vida, havendo inúmeras exposições “religiosas” concernentes à suposta vida futura que ele irá abraçar com graus diferentes de confiança.
Aceitar a o caráter fixo da recorrência seria, de maneira equivalente, negar qualquer possibilidade da mudança real ou evolução do estado de um homem, se está destinado a reviver sua vida e em todos os aspectos não pode escapar da mão pela qual ele ou ela é levado? Esta é uma questão em aberto mas Ouspensky procura abordá-la através da doutrina das possibilidades. Isto é, em cada momento no tempo várias possibilidades de de ação se apresenta, ao menos potencialmente. À medida que nos movemos através do tempo um curso dado se desdobra consistindo na atualização de certas possibilidades. Certamente, na medida em que continuamos inconscientes para diversas possibilidades inerentes a cada momento somos sem querer carregados por nosso tempo particular. Se circunstancias outras de vida são mesmo possíveis isto só pode ocorrer após o alcance de um nível de consciência que nos permita reconhecer o potencial de mudança inerente a cada momento da vida de cada um. Para Ouspensky, o homem atado a uma linha particular, não nenhuma possibilidade em absoluto de determinar sua condição, contudo, é o propósito da idéia esotérica mostrar um meio de sairmos de improdutivo ciclo atual da recorrência.

PENSAMENTOS DIVERSOS

Política: Ouspensky escreve que porquanto a política não possa solucionar os principais problemas do homem, ela certamente cria condições necessárias para impedir a possibilidade de desenvolvimento individual. Os pontos de vista de Ouspensky relacionados ao comunismo russo, i.e, bolchevismo, eram inequívocos. Ele falou da política bolchevique como mera morte, nem mais, nem menos. Entendendo a natureza do homem em termos hobbesianos, sua sátira ao enfado da “inteligentizia” do oeste com seria não menos acerba se não estivesse correta. Nas “Cartas da Rússia”, Ouspensky descreveu a vida russa pós-revolucionária ordinária: fome, cólera, tifo, frio, violência, assassinato e suicídios. Também, o “direito a viver” (i.e, a posse de um certificado governamental permitindo a alguém ‘andar na rua’) é agora uma “regra para todo o mundo”. Quase supondo como seria a vida atual em Nova Iorque (ou LA, ou Rio, etc) ele continua: “As pessoas não entendem que se alguma coisa existe isto acontece devido à inércia. O empurrão inicial do passado ainda está trabalhando, mas não pode ser renovado. Ai jaz o horror... pois a inércia não pode durar para sempre. Você deve convir que o fato de estarmos andando aqui e de que ninguém esteja nos assaltando é anormal [ele está, neste momento, setembro de 1919, freqüentando uma rua deserta em Ekaterindar com uma companhia]. E tornado possível somente pela inércia. O homem que será muito em breve roubado e assassinado neste mesmo lugar ainda não percebeu o fato de que pode faze-lo agora sem medo de punição. “Não é o que Thomas Hobbes descreve em seu Leviatã quando nos diz (no tão falado ‘estado da natureza’ de anarquia política) que a vida é ‘solitária, pobre, suja, brutal e curta’ (...)”.
Não há dúvida de que, se Ouspeky não houvesse escapado para o Oeste, ele teria sido morto como um “inimigo do povo”. De fato, C.M. Sciabarra em um livro recentemente publicado por Avn Rands sobre as influências filosóficas russas (Avn Rand: O Radical Russo, The Pensylvania State University Press, 1995), discute o caso de Nicolau Lossky, o mentor de Miss Rand e professor de filosofia na Universidade de Petrogrado. O professor Sciabarra escreve que, “a despeito (de Lossky) de sua aderência socialismo Fabiano, foi denunciado pelo regime como um “contra-revolucionário religioso” e desde então forçado ao exílio. Dada a visão de Ouspensky, não precisamos imaginar o tratamento que lhe aguardava caso não houvesse emigrado.
Além disso, Ouspensky nunca analisou discretamente a política ou o Estado como um sujeito distinto e separado de seu organon metafísica forma, mas, contudo, a inferência de a democracia liberal no estilo ocidental combinava com um forte componente de direitos individuais se adequava melhor a seus pontos de vista sem dúvida. Mas Oupensky nunca esteve no núcleo da tradição filosófica ocidental, uma corrente que enfatiza a política como um fim em si (i.e, Maquiavale e Hobbes) ou, mais comumente e na tradição do Oeste que provém de Platão, como uma condição para produzir cidadãos do iluminados.
Ao longo de seus escritos fica claro que Ouspensky era um feroz nacionalista russo e patriota à sua maneira. Lendo-o somos lembrados da passagem do “Esboço da História” de Wellls em que o fervor de Ouspensky pode ser expelhado no estilo helenístico que Wells descreve assim,
“Mas no fundo, o patriotismo no grego era uma paixão pessoal de intensidade inspiradora e perigosa. Como o amor refletido, era apto a se tornar algo odioso. O exílio grego lembrava o do emigrante russo ou francês ao estar pronto a tratar sua amada pátria duramente a fim de salvá-lo dos demônios em forma humana que tomaram possessão dela e o expulsaram”.

Institucionalismo: instituições culturais estabelecidas, receberam pouca consideração. Ouspensky geralmente enxergava as forma sinstitucionais como estupidificadoras, e, no longo prazo, um obstáculo ao livre pensamento. Ele julgou a moderna Cristandade em sua atual forma burocrática uma “vergonha” e via a academia com desprezo similar. Um comentário bem conhecido de Ouspensky é aquele em diz que os professores estão matando a universidade, assim como os padres mataram a igreja.

Psicologia: A psicologia moderna perdeu toda conexão com suas raízes, as quais, no inicio, nunca foram conhecidas como “psicologia” propriamente, uma disciplina separada e distinta da ciência e das humanidades mas, em lugar disso, conectada com a verdadeira religião, certas escolas filosóficas e, no Oeste, praticas de Ioga, cujo propósito era leva à transformação da psique humana. Neste sentido, a moderna psicologia existia simplesmente para a edificação e classificação de certas patologias ou anormalidades psíquicas.
Os pontos de vista de Ouspensky sobre Freud são particularmente depreciativos. Penso que podem haver várias razões para este óbvio descontentamento. Primeiramente, de um ponto de vista filosófico, os trabalhos de Freud podem ser vistos como ingênuos, não-científicos e particularmente pouco originais. Lendo-o como um filósofo tornamo-nos convencidos da síntese peculiar de (ou ao menos a interrelação próxima) dos escritos de Hobbes, Schopenhauer e Nietzche sem a profundidade ou a densidade poética destes progenitores intelectuais. E acredito que um argumento pode ser levantado sobre a estima crescente dos contemporâneos por Freud, levou ao desdém de Ouspensky pelos intelectuais ocidentais de seu tempo. Em todos os momentos, é claro que Ouspensky entendeu o fundamento epistemológico completamente subjetivo da psicanálise e reagiu, ao menos em sua mente, apropriadamente, enquanto os psicanalistas se mascaravam de ciência positiva. Naturalmente, os esforços puramente especulativos de Ouspensky em seus próprios livros não suportavam certamente da forma tradiconal que o Iluminismo entendeu o paradigma cientifico, no entanto Ouspensky foi o primeiro a admitir que muito do seu pensamento não era cientifico em sentido estrito, mesmo que, em sua opinião, poderia ser conhecido (e portanto, provado para a satisfação de um indivíduo dentro dele ou dela) psicologicamente, via experiência.
Certamente a sugestão de Freud de que a civilização não era mais que os impulsos bestiais da natureza entra frontalmente em desacordo com a opinião de Ouspensky que via a civilização como guiada pela inteligência (mesmo se, na sua base e manifestações populares, a falta de inteligência da civilização real fosse patente). Também os elementos anti-darwinianos em Ouspensky contradiziam marcadamente o materialismo biológico inerente ao pensamento freudiano. Para Ouspensky, a consciência era um principio superveniente da natureza e representava um aspecto fundamental do ser. Freud, de outra parte, veria os artifícios sublimes da criação artística como nada mais que o impulso sexual sublimado [15]. Suas opiniões sobre o assim chamado “movimento comportamentalista/behaviorista” eram igualmente pouco lisongeiras. Esta asserção pode parecer surpreendente, já que os princípios behavioristas que explicam as ações humanas não contradizem a crença de Ouspensky no corpo como uma máquina. Mas, pelo contrário, o que objetiva no behaviorismo era sua negação da volição consciente como causa primeira da ação.
Sexo e Sexualidade: As assertivas usuais de Ouspensky sobre o sexo às vezes paracem ser conservadoras, outras vezes, inteiramente estranhas para o leitor moderno, freqüentemente claras em um modo proscritos, mas, provavelmente, enigmáticas. Mas não é exagerado dizer que a idéia do sexo em relação com algum objetivo ou o significado da vida parece sempre carregada com as sementes da incompreensão. Certamente nenhum outro aspecto da vida humana é tão cercado de mistério e tabu. Mesmo hoje, quando a representação social da sexualidade é aparentemente mais comum que em qualquer tempo na memória, o assunto é usualmente discutido com certa exitação, certo desconforto ou humor premeditado que obscurece sua clareza.
Para Ouspensky o sexo era no fim limitado pelos processos da vida, morte e renascimento com todas as suas ramificações. O seguinte excerto (e todas as subseqüentes referencias nesta seção) ao “Um Novo Modelo” explica: A vida que conhecemos, contem em si nenhuma finalidade. Esta é a razão pela qual há tantas coisas estranhas, incompreensíveis e inexplicáveis nela. E de fato não pode ser explicada por si mesma. Nem seus sofrimentos e prazeres, nem seu inicio nem seu fim, nem suas maiores realizações têm qualquer significado. Tudo isto não é mais que uma preparação para alguma outra vida futura, ou meramente nada. Por si a vida aqui, em nossa plano, não tem qualquer valor, nenhum significado e nenhum ponto. É muito curto, muito irreal, muito efêmera, muito ilusória, para qualquer coisa possa ser pedida dela, para que qualquer coisa possa ser construída nela, para que qualquer coisa possa ser criada fora dela. Seu significado total reside em outra, uma nova, futura vida, que se segue após o “nascimento”.
O nascimento como uma função da vida é visto como uma continuação da existência do ser de alguém em ciclo terno de recorrência, ou um escape para um novo reino ou uma nova existência. E, neste sentido, o sexo é a chave.
A continuação do ser ao longo do círculo da recorrência é o objetivo da natureza. A transformação do ser através da repetição é o alvo de um tipo superior de homem. Infelizmente para o homem, a natureza tem precedência aí. Ouspensky discute como a energia sexual como um agente causal separado e distinto é responsável por nossa inabilidade geral para progredir a partir da condição que Nietzche entende como “humana, demasiado humana”, ao Ubermensch (o “super-homem”).
Do ponto de vista da natureza o propósito do sexo, isto é, a continuação das espécies, pode ser considerado um aspecto da empresa sexual. Isto simplesmente porque a natureza deu ao homem um excedente de energia sexual consideravelmente acima do que é necessário para a continuidade da vida humana. Assim, a própria natureza criou este sistema aparentemente ineficiente a fim de preservar o que originalmente pretendeu. Por isto, a vida sexual do homem fosse limitada somente ao montante de energia necessária para a procriação e sustentação das espécies, o efeito procriativo, poderia, efetiva e ironicamente, não ocorrer.
“sem este imenso influxo de força o objetivo original não seria provavelmente atingido, e a natureza não seria capaz de fazer as pessoas servirem a ela e que suas espécies fizessem o mesmo. As pessoas começariam a barganhar com a natureza, estabelecer condições, demandar concessões, pedir por alívios e a natureza teria de concordar. A garantia contra isso é o excesso de energia que sega o homem, torne-o um escravo, force-o a servir aos propósitos da natureza na crença de que está servindo a si, suas próprias paixões e desejos, ou, pelo contrário, fazer com que o homem acredite que está servindo os propósitos da natureza, ao passo que na realidade serve suas próprias paixões e desejos”.

Temos discutido o primeiro aspecto do sexo no esboço de Ouspensky, isto é, a continuação da vida. Contudo ele nota que em adição a seu objetivo inicial, dois propósitos coordenados podem ser identificados: primeiro, a preservação das espécies em um nível definido, que se não mantido, leva a raça a degeneração, segundo, a possibilidade no homem em si que leva à evolução real.
Quando discute a manutenção da raça, Ouspensky identifica tanto características primárias quanto secundarias do sexo. As características primárias são os órgãos sexuais masculino e feminino. As características secundárias são “todos aqueles atributos, diferentes dos órgãos sexuais, que tornam homens e mulheres diferentes em si”. Ademais, o “desenvolvimento normal do sexo é uma condição necessária de um tipo de desenvolvimento correto, e a abundância e riqueza das características secundárias apontam para tipo que se aprimora e ascende. Contrariamente à visão moderna, Ouspesnky continua: “(...) o declínio da ração sempre significa o enfraquecimento e alteração de características secundárias isto é, a aparição de atributos masculinos na mulher e femininos no homem”. Ainda que não discutido em detalha, é este segundo fim da natureza, isto é, a manutenção e melhora das espécies, que se manifesta no excedente de energia sexual”.
Ouspensky então procede à descrição do sexo normal em homem. Aqui, ele descreve as diferenças entre o sexo inferior, i.e, infra-sexo, e o sexo de tipos mais elevados, ou supra-sexo. E com o infra-sexo temos duas divisões adicionais: a degeneração óbvia e oculta. Na primeira achamos “todas as anormalidades sexuais óbvias” como o sexo não desenvolvido, todas as perversões manifestas em desejos sexuais anormais ou a abstinência (nojo do sexo, medo do sexo, indiferença ao sexo, interesse no próprio sexo são exemplos dados por Ouspensky). E é nesta passagem que encontramos a seguinte afirmação não explicada: “(...) o interesse no próprio sexo... tem um significado completamente diferente nos homens que nas mulheres, e nas mulheres não é necessariamente um sinal de infra-sexo”.
A Segunda divisão do infra-sexo, a degeneração oculta, é por sua vez dividida em dois grupos. O primeiro Ouspensky denominou sexo “colorido pela psicologia do lupanar”. Aqui, o sexo é cercado por uma atmosfera de sujeira, algo a ser evitado ou motivo de piada. Pornografia em suas várias manifestações são exemplos. A manifestação derradeira do “desta degeneração oculta do infra-sexo” é o sexo conectado com a violência e crueldade no homem. A figura de Otelo é apresentada como um exemplo neste aspecto: Um homem nesta forma de infra-sexo parece continuamente estar andando à beira de um precipício. O sexo e todas as emoções pertencentes ao sexo tornam-se nele inevitavelmente conectados com a irritação, suspeita e inveja; em qualquer momento pode ele próprio se achar no poder de um senso de injuria, orgulho ferido, uma sensação assustadora de posse, e não há formas de crueldade e violência de que não seja capaz a fim de vingar sua “honra ultrajada” ou “sentimento de injúria”.
O sexo normal é esquematizado de acordo com teoria dos tipos. Isto é, sexo que é coordenado com o restante das funções vitais do homem e o qual é mutuamente complementado por uma hierarquia de opostos. Em certos indivíduos a máxima expressão da sexualidade se manifesta. Em seguida, existe uma categoria secundária e mais baixa de parceiros cujo amor é expressado em uma relação mais formal e menos passional, mas que permanece não só com certa dose de paixão, ou, ao menos, compaixão. A terceira e quarta categorias são menos interessantes para os participantes e podem levar ao infra-sexo.

Filosofia e as Ciências: Ouspensky estava particularmente impressionado com a natureza do pensamento científico e filosófico assim como com a maneira com estas disciplinas continham o germe ou ao menos a possibilidade de começar a aquilatar os caminhos que levavam a possíveis soluções para os problemas fundamentais da existência humana. De todos os filósofos do Oeste, Kant provavelmente se aproxima mais, mas somente na medida em que esclareceu a distinção entre noumeno e fenômeno que se tornou o ponto de partida para a própria tentativa de Ouspensky de reconciliar a epistemologia com a metafísica. O movimento da moderna psicologia para fora da metafísica particularmente o desenvolvimento da análise lógica foi, para Ouspensky, errado. Ele certamente iria estar de acordo com Wittgenstein, que, no prefácio do “Tractatus”, admite o quão pouco é ganho realmente ao seguir-se esta linha particular.
Nietzche também percebe surpreendentemente bem o que poderia parecer estranha, incrível ou ultrajoso, dependendo da visões das pessoas concernentes ao corpo de seus escritos. Eu mesmo penso que a leitura de Nietzche por Ouspensky é, de certa forma, se não completamente compatível com o perfil global de Ouspensky, ao menos explicada até certo grau. Com isto em mente, talvez fosse instrutivo contrastar diversas passagens nas quais Nietzche, talvez, sublinhe a relação. Como um texto de referência cito o “Gotzen Dammerung” [G-D] ou “Crepúsculo dos Ídolos”. Este pequeno livro que traz o conjunto das idéias da maturidade de Nietzche,e pode ser tomado como representativo de seu pensamento é, em muitos sentidos, um texto desejável para mencionar, pois foi pensado pelo autor como um sumário que contivesse todos os aspectos de sua obra. Talvez a maior contradição entre Nietzche e Ouspensky fosse evidenciada pela distinção entre o “mundo real” e o “aparente”. A epistemologia de Ouspensky partia da dualidade kantiana entre o fenômeno e o noumeno. E numa primeira aproximação isto parece contradizer Nietzche:

“Primeira proposição. Os fundamentos sobre os quais estes mundo tem sido designado como aparente estabelecem só sua realidade – outro tipo de realidade é absolutamente não-demonstrável.
“Segunda proposição. As características que têm sido assinaladas ao ser real das coisas são as características do não-ser, da nulidade – o mundo real foi construída fora da contradição do mundo atual: um mundo aparente, de fto, na medida em que não é mais que uma ilusão ótico-moral (G-D, “Razão na Filosofia”). Aqui, Nietzche argumenta contra a metafísica kantiana e a noção cristã mais prosaica da vida após a morte. A última (a crítica da escatologia cristã) certamente não se opõe a Ouspensky, embora se formos reconciliá-la com a visão anterior devamos argumentar que isto só pode ser feito por meio do método psicológico que nos permita transcender o dualismo kantiano que, para Ouspensky, era um cisma ontológico resultante da leitura equivocada da natureza real ou forma do mundo. Por fim, Ouspensky entendeu que a disjunção básica entre o mundo real e aparente era uma incompreensão fundamental que poderia, mas ramente o era, ser superada.
Voltando para natureza do homem no Unvierso, Nietzche comenta:

“(O Homem) não é nada mais que o resultado de desenho especial, uma vontade, um propósito, ele não é o sujeito de uma tentativa de atingir um ideal de homem... Nós inventamos o conceito de propósito. Na realidade, não há propósito” (G-D, “Os Quatro Grandes Erros”).
Isto pareceria estar em contradição direta com os pensamentos de Ouspensky, mas ele próprio ensinou que o propósito da Natureza não era criar um tipo superior de homem. De fato, a Natureza tem seus próprios objetivos e propósitos que são servidos pelo homem tal qual é. Assim, se um tipo mais elevado é possível, isto deve ser conseguido pela via antinatural. E a anti-natureza existe para Ouspensky como a possibilidade de consciência.
Tanto Ouspensky quanto Nietzche têm uma profunda desconfiança com relação às instituições estabelecidas, particularmente a academia. Ouspensky freqüentemente criticava o método das escolas, i.e, particularmente a supressão do livre pensamento como um fator de aceitação estática da tradição e, como mencionado anteriormente, uma de suas anedotas favoritas era que os professores estavam matando a universidade assim como os padres mataram a igreja. Compara Nietzche:
“Aprendendo a pensar: nossas escolas não mais têm qualquer idéia do que isto signfica. Mesmo em nossas universidade, a teoria, a prática e a vocação da lógica estão começando a morrer. Quem entre (nós) ainda conhece da experiência...!” (G-D, “O que falta aos alemães”).
Mais obviamente estamos impressionados pela concordância entre as duas sobre a importância do super-homem e a doutrina do eterno retorno, mesmo que no último caso Ouspensky critique a explicação de Nietzche da necessidade do retorno no espaço físico e tempo local. Como um contrapeso à poética de Nietzche (alguns podem dizer, obscuridades), Ouspensky tem um pendor pela literatura oculta prevalecente nos seus dias, mas somente na medida em que representava uma avenida para explorações adicionais de questões que a filosofia e a ciência haviam abandonado. Do mesmo modo ele descontava qualquer valor autêntico que estes mesmos escritos pudessem oferecer em termos de conhecimento real e os considerava mera fantasia.
Matemáticos e geômetras, especialmente aqueles cujas investigações pavimentaram o caminho para o alcance de, digamos, novas idéias introduzidas na física, eram tidos em alta conta. Os nomes de Bolyai, Gauss, Riemann e Lobatchevscky eram proeminentes. Na física, Minkovsky, Fitzgerald e Lorentz, Bohr e Einstein eram discutidos, contudo, Ouspensky sempre sustentou que a introdução (realmente, o triunfo) da física matemática na análise dos fenômenos estritamente físicos ao lado do desenvolvimento da aceitação difundida da teoria da relatividade era uma instância de uma falta de compreensão fundamental da natureza dos fenômenos derivada de uma perspectiva inerentemente limitada. Esta visão parte da tradição da filosofia ocidental a qual reconhece os postulados matemáticos como fundamentalmente a priori e não empíricos [deixando de lado o argumento de Kant com relação à natureza sintética a priori da matemática]. Para Ouspensky, supor que o fundamento da teoria empírica pode ser de alguma forma derivado da análise matemática pura é algo epistemologicamente errado.
Em “Um Novo Modelo”, Ouspesnky sublinha e argumenta contra a visão comumente defendida de que os “Principia” de Newton de certa forma posicionaram e legitimaram a gravitação como um fenômeno conhecido e, portanto, entendido. Pelo contrário, e de fato, ele nos aponta que Newton meramente concebeu uma fórmula para calcular os movimentos terrestres. Voltando às modernas concepções da teoria física como mencionado previamente, Ouspensky criticou o que lhe parecia uma mistura desnecessária e desordenada de teorias relativísticas devido à tentativa equivocada de reconciliar fenômenos incomensuráveis. De fato, se este amontoado de descrições não tivessem sido geradas por PHD’s, elas seriam aceitas como fantásticas e tratadas com a mesma incredulidade como as quimeras contra as quais se levanta a ciência. Por exemplo, a idéia usual do espaço como uma superfície não-euclidiana e “curvada” pela massa é derrubada desde que entendamos o “espaço tridimensional no tempo” como um simples recorte de um conjunto maior e mais extenso.
A visão de Ouspensky com relação à teoria dawiniana da seleção natural como um mecanismo para especiação era hostil (ainda que ele apreciasse as implicações filosóficas contidas na idéia da evolução e expressasse concordância com a idéia da modificação intra-espécies via variabilidade genética temporal). Ele concebia a vida orgânica na terra como algo em que parte podem ou não ter alguma relação direta com os propósitos do conjunto. Certamente ele considerava o Homo Sapiens o produto de ao menos algum tipo de progresso vital, mas supunha ingênuo acreditar que um processo puramente mecânico fosse de algum modo responsável pela existência e subseqüente aperfeiçoamento dos seres humanos.
Ouspensky considerava a vida em si em termos muito mais amplos e há indícios para crer que ele julgava o universo inteiro “vivo” – ao menos em certo sentido. Aqui devemos ser cuidadosos para evitar atribuir panteísmo ao pensamento de Ouspensky o qual em nenhum caso era religioso em qualquer sentido da palavra. Ainda, não há dúvida de que ele considerava o universo inteligente e, como tal, teleologicamente responsável pela emergência da vida (inclusive o home), ainda que ele não concordasse com as opiniões esposadas pela filosofia idealista tipificada por Fichte, Schelling, e Hegel (isto é, o homem como quintessência criada pelo Espírito ou o Ser como propósito da existência para expressar o entendimento e elucidação da realidade de modo que o Ser Absoluto como Ser possa de alguma conhecer reflexivamente a si próprio). Temos a idéia, ao ler Ouspensky que, que fato, o homem é um experimento, mas se é ou irá ser um experimento exitoso, esta é a grande questão.