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sexta-feira, abril 06, 2012

Ocultismo e Alquimia - Nem tanto ao Céu, nem tanto à Terra

Heinrich Khunrath, Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, 1602.

A Alquimia é tradicionalmente a ciência e a arte de transmutar metais inferiores e menos nobres em metais superiores ou produzir uma certa espécie de medicamento ou Elixir da Vida Eterna capaz de conferir estabilidade a quem o ingere desde o momento em que é ministrado. Nos relatos que sobreviveram à impiedosa censura dos contemporâneos e que nos dão conta do real quadro dos indivíduos que beberam o elixir, consta que perderam os dentes e cabelos, sua tez repentinamente mudou de cor, a pele foi deitada por terra como o que sói acontecer com as serpentes e ressurgiram joviais como a mitológica fênix rediviva.  Mas na Alquimia, as dimensões filosófico-espirituais e a operativa só através de grosseira e intolerável manobra - incompatível com o ritmo natural da terra e suas estações  - poderiam ser dissociadas. Nenhum soprador meia tigela acalentaria idéia tão vergonhosa, tão oposta ao espírito da Arte e de uma época em que Fé e Razão caminhavam juntas e a Filosofia não havia sido amputada pelo arbítrio de um imprudente do corpo da Ciência. Ao menos, esta é a opinião deste pobre articulista, um reles soprador que se entretém em noites insípidas com a árida interpretação de textos que nem com a ajuda dos grimórios mais poderosos e a invocação de legiões de gênios instrutores do além poderia corretamente entender.

Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Na leitura de certos escritores dos séculos XVIII e XIX que tanto maravilham, mesmerizam alguns estudiosos do oculto, formando a argamassa do edifício ritualístico de venerandas e róseas ordens que congregam milhares de adeptos nos dias de hoje - sobressai um manhoso "tour de force" para contornar os obstáculos ao perscrutador que queira aventurar-se nos meandros sinuosos do "Jardim Hermético": a redução de um vasto escopo de operações alquímicas, elementos, artefatos, utensílios, e conceitos próprios à arte a um pequeno oratório  (não o panteão da Arte) doméstico de fugazes princípios espirituais mínimos que mais tarde viriam a ser consagrados pela "Nova Era" (a "espiritualidade" vaga, "light", inoculada em velocidade acelerada desde os anos 60 no Ocidente).

Os escritos dos Adeptos da Arte se perdem no caudal da História, desde tempos longínquos. São atribuídos a civilizações ainda mais antigas que engendraram aquela que se ergueu no Egito dos Faraós, passando pelos reinos dos caldeus, assírios, medo-persas, gregos, romanos, os judeus expelidos de sua pátria e a multidão de operadores europeus que desde o domínio islâmico na Península Ibérica fomentaram uma verdadeira "febre alquímica" no continente. Mas estes mesmos textos, cristalinos ou obscuros, simples ou complexos, filosóficos ou voltados para aspectos práticos, quintessenciais ou descendo às minúcias a serem seguidas na lavagem de um cadinho ou retorta, variam na ênfase emprestada a determinados pontos, na sequência das operações, na descrição das "chaves da obra", no uso dos fogos, na escolha dos recipientes e meios, nas fases e fins da obra.

Isto quer dizer que não há nada que aponte em qualquer autor uma tendência inata a tratar a matéria prima como algo sutil e espiritual (um "Azoth" que corresponda à luz astral, por exemplo), os estágios da obra como uma gradual escalada extática (a absorção no UNO) e os elementos constituintes dos metais, o enxofre e o mercúrio (ou o sal) como algo não-material. O contrário também não se pode dizer, embora seja mais difícil crer que uma infindável e bem elaborada nomenclatura combinada  com descrições precisas de intervenções físicas através do manejo de ingredientes igualmente físicos e sobejamente conhecidos à época seja apenas uma forma velada de apresentar descobertas e discutir pequenos resultados entre um grupo de "cientistas" (ao modo popperiano moderno, um "colégico de acadêmicos" que comentam seus "papers" redigidos com método socialmente aceito e ratificado) que se conhecem entre sim e guardam o significado de um  cardápio de sacrossantos termos como um segredo que não confessariam jamais, sob pena de perjuro. A contribuição dos "sopradores" e "Artistas" como um Yazid, um Jabir Ibn Hayyan, o sublime Raimundo Lullius, um Arnold de Villanova e alguns alquimistas do século XVIII às modernas técnicas da ourivesaria, química, ao trabalho com os metais e à própria indústria, com a criação de ácidos, solventes e sais é um fato, não obstante a ignorância instalada intencionalmente no meio universitário e o deboche dos contemporâneos que, aparentemente, se precipitam com sede de Tântalo no abismo da sua própria estupidez.

O aperfeiçoamento de materiais como o vidro e mesmo o requinte dos atuais lápis de cor deve-se à aplicação de alguns "filósofos" (principalmente alemães) que consumiam suas vistas diante da forja, o Athanor, por meses, anos ou décadas, no mais das vezes sem resultados palpáveis. Do seu trabalho não se originava a grande "obra", os metais imperfeitos convertidos no mais puro deles, o ouro com seu mercúrio translúcido e enxofre fixo, mas subprodutos - encarados como a borra imprestável - que, até os dias de hoje fazem a riqueza de países como Alemanha, a Suiça e parte da Europa Central, em especial a Bohêmia. Sem falar na Espagíria, que teve em Teophrastus Bombastus Von Hohenheim, vulgo Paracelsus, seu expoente de proa. Mesmo na atualidade, fração não desprezível da indústria farmacêutica alemã utiliza com proveito receitas de manipulação de plantas que são a base de remédios cuja composição data da longínqua e "ignara" Idade Média, periodo a que os próceres do iluminismo e sua guilhotina arremeteram a caluniosa pecha de "idade das trevas", como se os horrores covardemente perpetrados pelas facções dos revolucionários franceses e seus coevos bochelviques e outros não fossem apenas um tímido reflexo das atitudes viris e algo belas de um Átila ou Gêngis Khan.

Mas esta é apenas uma suposição. Há provas em demasia de que o que se fabricava era ouro, ou o "aurum potabile" a medicina universal. No Oriente é lugar comum o ensinamento de que a busca persistente da verdade, acompanhada por passos da "Yoga" (união) preliminar (a pureza dos atos mentais, físicos, verbais) em fases intermediárias é caracterizada pelo desenvolvimento de poderes psíquicos ("sidhis", em sânscrito) que equivalem à notável capacidade de alterar as propriedades da matérias (ou três qualidades da matéria, ou "gunas",  em sânscrito, "satwa, rajas e tamas", os princípios ativo, negativo e neutro que regem a organização do mundo). Uma vez dotado deste poder, para o alquimista/iniciado a modelagem plástica da matéria é mero entretenimento. Não deixa de ser oportuno mencionar que tais artifícios não são desejáveis por si sós. Cegam o aspirante à vida espiritual e dificultam posteriores progressos ao embriagá-lo com a recém conquistada habilidade de dominar a matéria, afastando-o do real objetivo da senda, a conquista do seu EU superior.

Outra possibilidade, menos nobre porém plausível - sustentada por alguns dos seus biógrafos atuais - é aquela de que os velhos operários da Antiga Ciência, com métodos hoje ignorados, houvessem descoberto técnicas que para os padrões modernos só pudessem ser aplicadas com a fabricação de aceleradores de partículas sofisticados, caros e mantidos em enormes galpões nas Universidades ou centros tecnológicos de grandes corporações. Esta é a hipótese que costumo chamar de "modernosa", frágil e inferior, posto que o ouro alquímico não se compara ao produto da abrasiva agressão ao metal perpetrada por um ansioso desconhecedor da Natureza.

Um terceiro caminho argumentativo que permeia diversos autores assinala que a alquimia, uma arte em seu primórdios associada a tintureiros de Alexandria e da Síria (que cheiravam mal com suas roupas manchadas pela gosma dos mexilhões dos quais era extraída a coloração das roupas que pintavam) ganhou, com o passar do tempo, foro privilegiado em matéria de buscar fazer com que o "vil metal" obtivesse a cor exterior do ouro, o que alguns malandros lograram fazer ao longo da história da humanidade com a gradual sofisticação da técnica de "folhear" a matéria impura ou aplicar-lhe corretivos que momentanemante pudessem iludir um incauto comprador. Particularmente tendo a discordar desta torpe motivação, embora não a exclua de um rol de possibilidades que na singular conjugação de fatores que poderíamos considerar candidatos - ao menos razoáveis - pelo despontar desta estranha ciência como área autônoma do conhecimento há, ao menos, uns 2000 anos.

Ocorrendo ou não fraudes, supondo "poderes" adquiridos para o deleite de um aspirante despreparado ou o desenvolvimento de técnicas apropriadas, os testemunhos da transmutação de metais menos pobres utilizando o pó de projeção (ou não) em prata ou ouro se repetem na literatura, embaraçando até mesmo os críticos mais veementes dos alquimistas, alcunhados de parasitas e supersticiosos remanescentes daquele sombrio intervalo que antecedeu o "Século das Luzes". Não se trata de um polêmico Cagliostro entre maçons egípcios exibindo sua maestria conquistada entre os Hospitalários em Malta, mas as evidências de um Nicolas Flamel, do Bom Trevisano, os resultados de um Sendivogius ou um Seton. Mas de que se trata, enfim, esta ciência tão vilipendiada por alguns, perseguida por outros, alçada ao altar excelso do trabalho sobre o metal imperfeito do Ser por outros?

A Alquimia é mais um ramo das Ciências Antigas cujas chaves o Iluminismo quase sepultou em caratér definitivo. Quase,  porque algumas insuflações de persistentes adeptos atuais a mantêm viva, inconsciente, prostrada no leito mas cheia de esperanças de recobrar a lucidez. Estes poucos abnegados fazem jus à máxima de Heinrich Kunrath, inscrita em um de seus mais famosos painéis e que bem expressa o labor do alquimista: ORA, LEGE, LEGE, RELEGE, LABORA ET INVENIES

segunda-feira, agosto 14, 2006

A Alquimia da Felicidade Perfeita - Notas

‘Arabî, Ibn. A alquimia da felicidade perfeita. São Paulo, Ed. Landy, 2002.

Observação: traduzido por Roberto Ahamad Cattani

“2. A Alquimia representa a ciência que tem por objeto as proporções e as medidas atribuídas a tudo o que comporta a proporção entre os corpos físicos e os conceitos metafísicos, na ordem sensível e na ordem inteligível. Seu poder soberano reside nas transmutações, quero dizer, nas mudanças de estado por influxo da ‘Fonte Única’ (al-‘Ayn-Al-wâhida). A alquimia é uma ciência natural, espiritual, divina. Nós a declaramos, de fato, uma ciência divina, pelo fato de que ela traz a harmonia estável, motiva o descanso epifânico e a íntima solidariedade (entre os seres): e pelo fato de que ela manifesta os Nomes divinos por influxo do ‘denominado divino’ (al-Mosammâ al-Wâhid), segundo a grande diversidade de seus conceitos metafísicos.
Dísticos

“3. Encontra-se o Objeto (da Busca), encolhido entre uma dobra escondida e um fluxo alastrado. Da mesma forma que o ‘como’ (kayf) e o ‘quanto’ (kamm) revelam proporções. Em virtude disso, nossos veículos corporais erram em busca dos vestígios de sua simplicidade primária. Este extravio realça um mistério inviolado. A revelação do ser é portadora de sentenças que ela legifera, e a justa sentença situa-se entre uma interdição e uma prescrição”.
A Ciência do Elixir e suas duas vias de aplicação
“4. A alquimia é a ‘Ciência do Elixir” (“ilm bîl-lksîr) que comporta duas vias de aplicação. Quero dizer que sua ação pode consistir: tanto em produzir uma essência ab origine, como o ‘Ouro Mineral’ (Dhahab ma’dinî), quanto em eliminar um mal e uma moléstia, como faz o “Ouro da Obra” (Dhahab sina-i), que está ligado ao Ouro Mineral, assim como a constituição do outro mundo e aquela deste mundo estão ligadas na aspiração de ambos ao justo equilíbrio”.

O Arquétipo Único” dos Minerais e as vicissitudes de sua formação

“5. Aprenda então que todos os minerais remetem a um ‘arquétipo único’ (Al wâhid). Este arquétipo exige ser religado ao Grau de Perfeição representado pela “aureidade” (dhahabîya). Entretanto, esse Arquétipo ainda é um objeto natural, proveniente do influxo de certos Nomes divinos, cujo impacto pode manifestar-se de várias formas, ele pode ser afetado durante a progressão, por males e enfermidades, provocados pela oposição de períodos e das naturezas (elementais) inerentes às localidades que atravessa – como a natureza quente do verão, a natureza fria do inverno, a secura do outono, a umidade da primavera – e devidos à própria jazida da mina, a seu calor e frieza”.

A Conjunção Alquímica do enxofre e do mercúrio e a concepção do Mineral

“6. Resumindo, muitos são os males (que afligem o Arquétipo mineral). Quando um desses males predomina sobre o Arquétipo durante certos períodos, ele propaga-se e dinfunde-se de fase em fase e leva o Arquétipo a emergir da condição de um ciclo para introduzi-lo na condição de outro ciclo. Esse fator poderoso implanta-se então no Arquétipo mineral, no qual produz a aparição de uma ‘forma’ destinada a conduzir sua substância a uma realização completa. Essa forma geradora é denominada “enxofre” (kibrît), ou ainda “mercúrio” (zîbaq). São os genitores do que, depois de sua conjunção e do seu acasalamento, aparece na forma de minerais (ou metais, ma’âdin), por causa de alguns males que atingiram o filho (que eles conceberam). Enxofre e mercúrio então se unem e se acasalam para engendrar uma substância nobre, de perfeita constituição, chamada Ouro.
7. Graças a esse Ouro, os pais são enobrecidos, pois esse é o grau (de Perfeição) ao qual eles ambos aspirava quanto à sua própria substância – embora com as restrições de que esse Arquétipo é um ‘pneuma’ no domínio das coisas divinas e um vapor (bukhâr) na Natureza, e de que os pais (ou genitores) são um objeto concreto e uma realidade natural. É por isso que especificamos claramente que esse produto é aquele ao qual os dois aspiravam ‘quanto à sua substância’, e não quanto à sua forma específica. Porque a condição apropriada para a substância material relaciona-se às formas. Então, quando o mal que atingiu o Arquétipo no seio da mina foi embora e transformou-se em enxofre e mercúrio, sabemos que ambos tinham o poder de agir. Se os pais não padeceram nenhum mal suscetível de afastá-los do princípio do ‘equilíbrio das naturezas’, desviando assim o Arquétipo do seu caminho normal, bem, a criança que eles geraram constitui o produto no qual as suas respectivas essências transmudaram. A sua conjunção se perfará no Grau da Pefeição, ou seja: o Ouro que todos cobiçavam desde a origem.
A gênese do mineral e suas analogias com o ser humano
“8. Quando os genitores conjungiram-se e acasalaram-se no seio da mina, conforme a natureza intrínseca desse mineral específico, e contanto que ele esteja em condição de receber o influxo natural do tempo apropriado (no mento da sua concepção), eis o mineral encaminhado numa ‘via reta’, em tudo semelhante ‘à natureza primordial que Deus empregou para constituir os seres humanos’, pois, mais tarde, são os pais da criança que (desviando-a da sua natureza primordial) farão dela um judeu, um cristão, um masdeísta.
Da mesma forma (para os minerais), se é só o componente do pai (o enxofre) que se acumula no filho por uma incidência de ordem mineral em virtude de um acidente no tempo, neste caso uma das propriedade elementares predominará sobre suas homólogas. Ela crescerá e se desenvolverá às custas das outras e estas irão enfraquecendo sob o impacto da propriedade elementar que se tornará exclusivamente preponderante no seio da substância. E isto por causa do que a essência desta propriedade lhe traz, essência que cria o obstáculo à via do justo equilíbrio, estrada de peregrinação, graças à qual emergirás (do mundo terrestre) em direção à cidade maravilhosa (al-Madînat al-fâdila), que é inteiramente de ouro e perfeito. Aquele que a alcança, em verdade, nunca mais deverá submeter-se às transmutações transitórias em formas de ser deficientes. Então, quando essa propriedade elementar predomina (sobre as outras) no seio da substância, a sua fonte fundamental fica corrompida, e é então a forma do ferro que aparece, ou aquela do cobre, do estanho, do chumbo, ou ainda da prata, dependendo do elemento preponderante. Com isso, podes entender a palavra de Deus enunciando ‘harmoniosamente formado e disforme’ (Alcorão. 22.5). Isto é: de constituição perfeita, só pode tratar-se do Ouro, de constituição imperfeita, são os demais metais.

PONTO CHAVE:
“As transmutações são um absurdo”; a alquimia da visão e a função da faculdade “imaginal”.
69. Se és perspicaz, estás agora iniciado na ciência que diz respeito às ‘formas dos existentes que vês’. Concordarás que esta ciência é de primeira, já que não poderias ficar sem ela, mesmo menosprezando-a . Parece-te evidente que as transmutações são um absurdo. Deus fita através de alguns dos seus servidores, e estes percebem a vara como uma serpente, embora seja mesmo uma vara. É um ato de percepção divina, que para nós é ‘imaginal’ (Khayâli). O mesmo acontece com todos os existentes (visíveis). Olhe, isto é uma pedra inerte, insensível, incapaz de falar, sem vida. Não dirias: eis um vegetal, eis um animal dotado de sensação e de percepção, eis um homem dotado de razão. Pois é teu olhar que te informa sobre tudo isso.
70. Suponha que outro individuo se ponha a observar contigo. Ele vê e escuta as saudações das pedras, dos vegetais e dos animais. Pois as duas experiências são verdadeiras, e a faculdade que empregas para negar o que o outro sustenta é a mesma faculdade que ele está usando. Cada um dos dois ampara-se numa prova idêntica, e mesmo assim as suas conclusões são diferem. Em nome de Deus! O bastão de Moisés sempre fora uma serpente sem cessar de ser um cajado, tudo isso simultaneamente no mesmo objeto? De fato, a visão de cada um dos homens não pode perceber o que é o objeto em si. Já constatamos este fato, e dessa forma tomamos consciência do que representa a visão de uma individualidade concreta. É a visão de um ou do outro, a partir de uma essência única, imanente à primeira manifestação e a nenhuma outra, imanente à segunda manifestação e à nenhuma outra”.

A alternância das relações de identidade

71. Diga então: Deus! Diga: o mundo! Diga: sou eu! És tu! É ele! É tudo isso junto no âmbito dos pronomes pessoais. Isto se prolonga indefinidamente sem interrupção. Zayd afirma, no fundo de ti mesmo é ele! E é Omar! E ele diz de ti: és tu! Tu dizes de ti: sou eu! Então sou idêntico a ti (o olho de ti mesmo), e sou idêntico a ele (o olho dele mesmo); e todavia não sou que me identifico a ti, ou a ele. De forma que os relacionamentos de identidade alternam, indefinidamente. São mares transbordantes, sem fundo nem margem. A sublimidade do meu Senhor está escondida nessas ‘partículas de ouro’, e se chegardes a conhecer o que eu entendi, saboreareis a deleitação da eternidade, experimentareis o temor que não dá descanso à pessoa. O próprio desmoronamento da montanha foi a prova da sua solidez, e o fato de que Moisés retomou a consciência é a prova de que ele havia desmaiado (ver. 7. 143).
NOTA DO TRADUTOR: De fato, Ibn’Arabî é taxativo nesse ponto a cada vez que menciona, a faculdade dos sentidos (quwwat al-hiss) não é outra coisa que a faculdade ‘imagética’ (quwwat Khayâliya), que permite o místico visionário perceber a linguagem e as saudações dos objetos e das criaturas que vê como inertes. Há uma simples transformação da faculdade sensível na faculdade de percepção imaginativa. Estas mesma faculdade em Deus é designada como ‘ato de percepção divina’ (supra, & 69). Não são as formas percebidas que mudaram, é o órgão de percepção que se modificou. Da mesma forma que Moisés vê de repente seu cajado como uma serpente, e da mesma forma a coluna de ouro continua sendo uma coluna de mármores, quanto à substância primitiva.