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segunda-feira, outubro 21, 2013

A Revolução dos Beagles


A invasão do Instituto Royal para “salvar” "Beagles" em cativeiro (ontem, domingo, dois delas foram encontrados vagando nas ruas o que denota um pouquinho do compromisso “animalnitário” dos seus salvadores) é um exemplo de correta preocupação com a sorte dos bichos, dissolvida em autopromoção de subcelebridades, banditismo puro e simples violência gratuita. Entrar na velha discussão da validade dos testes com animais demandaria um certo número de páginas que não estou disposto a escrever hoje e para ser bem sucinto repito a surrada fórmula: se aquelas pessoas são tão comprometidas assim (a ponto de derramarem lágrimas neuróticas na TV) com o destino dos "Beagles" em particular e dos animais em geral, por que não abrem mão de uma vez por todas de suas roupas, sapatos, alimentos, cosméticos e milhares de produtos que não só necessitam das pesquisas com seres vivos como demandam insumos de origem animal? 

Sou um dos defensores do ponto de vista de que a sociedade do futuro deverá mudar sua visão "coisificada" dos animais, o que dependerá não de ações tresloucadas com “Bloc Bocs” como seguranças, mas da busca de substitutos aos testes com seres vivos e sua normatização. Enquanto não me sinto disposto a escrever sobre assunto tão específico e complexo (tem gente parva que é capaz de produzir um argumento no Facebook à guisa de "última palavra" sobre a questão), volto a um tema que sempre a vem calhar nestas horas por favorecer interessantes paralelos com a "revolução dos Beagles" em curso no Brasil, o vegetarianismo.

Afinal de contas, se o sofrimento de um cão ao longe comove tão profundamente grande parte dessa gente, um suculento bife com fritos lhes parece bem-vindo.

Particularmente, aprecio e animais e os defendo e durante muito tempo não só estudei como pratiquei o vegetarianismo, o que pode parecer incrível para quem me vê hoje. O que me fez mudar de opinião em relação ao tema foi uma viagem à Bolívia e Peru há muitos anos, locais em que permaneci por 45 dias nas piores circunstâncias, como um aventureiro. Percebi que não havia praticamente alternativas de alimentação na Altitude (sobretudo na Bolívia) e fui obrigado a comer carne. Este foi o meu primeiro momento de reflexão. O segundo se deu quando descobri que monges tibetanos comem carne e leite e que a propalada tese de que todos os indianos e budistas não se alimentavam de proteína animal, o que é claramente falso. Aliás, o Tibete também é muito alto e em países como a China se comem até escorpiões uma vez que o interior é pouquíssimo agricultável e as margens dos grandes rios em que surgiu a civilização chinesa é superpovoada.

Ainda adolescente havia lido o livro "Vegetarianismo e Ocultismo" de Charles E. Leadbeater e Annie Besant, empolgando-me com as profundas convicções vegetarianas de ambos. Pouco antes os autores haviam se deslocado para Chicago (US) para uma ciclo de palestras e uma pesada e pestilenta atmosfera exalava dos abatedouros (a pioneira indústria de carnes americana) e fora percebida com muito desagrado pelos dois pretensos clarividentes. Entretanto, anos mais tarde, ao estudar  os verdadeiros escritos de sábios hindus notei que falavam de algo bem distinto do "vegetarianismo" cujas linhas gerais era propugnado por correntes da "Nova Era", tratando-se antes da distinção entre alimentos tamásicos, rajásicos e sattwicos, isto é, aqueles em que predominam cada uma das três "gunas" ou "modos do Ser" que teosofistas entendem de forma mais restrita como qualidades da matéria (um princípio de inércia (tamas), atividade (rajas) e equilíbrio (sattwa)). O que os Rishis e Iogues hindus advogavam era a proposição de que, no início da sua senda, era aconselhável (senão impositivo) ao "Lanu" (discípulo) que substituísse comidas mais "pesadas" (tamásicas) como a carne (ou a ingestão de bebidas alcoólicas) outras de ter mais "leve", verduras, legumes e mesmo leite ou queijos. E este era um caminho prescrito não para toda a sociedade mas apenas para uma pequena fração que percorre através dessas práticas o seu caminho espiritual. Nesse sentido, aliás, não é uma regra muito diferente de outras tradições espirituais.

A raiz profunda de qualquer tese vegetariana (em que pesem as patuscadas ridículas da "Nova Era") é a objeção decidida à dor infligida a qualquer animal senciente; um princípio não só do ensinamento oriental mas presente - em maior ou menor grau e mais explícito em algumas que em outras - na maioria das perspectivas religiosas. No primeiro linha (a oriental) é traduzido em "Ahimsa", ou "não-violência". No budismo, em "compaixão" (também um dever cristão), ou profunda atenção a todos os que sofrem. Mas será que os ativistas dos "direitos dos animais" e os arruaceiros que se juntaram àquela ação pontual agiram com plena compaixão e não fizeram com que alguém sofresse? Será que no estágio atual de desenvolvimento da sociedade a pesquisa de novos e úteis medicamentos (não falo de cosméticos, pressuponho generosamente que a Luísa Mell não os utiliza) já pode prescindir do emprego de cobaias? Em segundo lugar: o ato perpetrado pelos manifestantes também não carrega enorme dose de violência? Digo isto, não só por pelo fato de equipamentos terem sido equipamentos como também por concorrer para o aumento da dor e sofrimento futuro em incontáveis pacientes?. 

Fica aqui minha modesta contribuição ao debate.

terça-feira, maio 24, 2011

Crítica à Krishnamurti. O “Não-Sistema” ou “Não-Pensamento” de Jiddu Krishnamurti – Uma Crença Perigosa sob a Capa de Autoconhecimento

(...) pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade”.
Krishna jovem. Sempre elegante.
Ele foi chamado de o “Instrutor do Mundo” e veículo do Senhor Maytreia (ou Buda Vindouro) por seus mentores Charles W. Leadbeater e Annie Besant, respeitáveis lideranças da Sociedade Teosófica em Adyar, Índia. Responsável direto por uma organização com milhares de membros ao redor do mundo – A Ordem da Estrela do Oriente - e investido de atribuições condizentes com seu elevado posto e missão, Jiddhu Krisnamurti não só renunciou ao título de “Buda” como também frustrou as expectativas nele depositadas por uma enorme multidão de seguidores (que esperava ardentemente pela mensagem de um novo condutor espiritual).

Ao abrir mão de seu status de “guia” e devolver propriedades da ordem aos antigos donos, o menino a quem se atribui a redação de “Aos Pés do Mestre” (obra prima do ocultismo ditada por um Adepto a Krishnamurti) optou por um estilo de vida marcado pela transmissão ininterrupta de uma filosofia particular – se assim se pode dizer- baseada no autoconhecimento e no abandono dos condicionamentos como caminho preferencial para a autorrealização.

Há obras que difundem a visão de um Krishnamurti ingênuo e acostumado aos prazeres e facilidades de uma vida pequeno-burguesa, sempre acompanhado por belas damas em amáveis herdades, castelos e hotéis luxuosos da Europa Ocidental ou então desfrutando de aconchegante estadia em aprazíveis mansões da Califórnia.

Um verdadeiro Gentleman
Como um místico ou homem espiritual, desligado do mundo grosseiro da matéria, vemos por outro lado um Krishnamurti sempre cercado por autoridades do mundo politico, mestres religiosos afamados, autores mundialmente aclamados (Aldous Huxley, para citar um exemplo, foi seu amigo íntimo) e um punhado de supostos amigos como Rajagopal - seu editor por muitas décadas - que o manipulavam visando abocanhar os lucros da “Krishnamurti Foundation”. Em linhas gerais, este é o relato presente no “Babuíno de Madame Blavatsky”, um livro concebido como libelo contra a Nova Era, unilateral, injusto e insanamente mordaz para com todo pensamento esotérico dos séculos XIX e XX que o autor não se esforçou por compreender.

Outra narrativa dos fatos envolvendo esta notável personalidade do século XX pode ser encontrada na biografia escrita por Mary Lutyens e publicada no Brasil pela Editora Teosófica. Ao se assenhorar dos detalhes da vida do biografado, paulatinamente, o leitor sério não pode se equivocar sobre seu verdadeiro caráter e propósitos, condizentes com o que se espera de um homem digno e decente.

Filha de uma mulher que por muitos anos foi admiradora e amiga de Krishnamurti e tendo ela mesma intimidade tanto com o biografado como com os requisitos da vida espiritual e suas nuances, Lutyens estava habilitada para lançar luz sobre pontos outrora obscuros de K. enquanto homem sujeito às vicissitudes da vida ordinária. Apresenta um ser complexo, sujeito a processos espirituais que não podiam ser compreendidos pela maioria das pessoas e alguém que possuía em alto grau um denodado senso de deve a cumprir na sua passagem pela terra. Atendendo seja à sua própria vontade ou a de alguma misteriosa entidade que ele jamais nomina (às vezes fala da “coisa” em tom vago), é certo que Krishnamurti elaborou idéias originais e impressionou fortemente muitas pessoas com elas. Se estavam corretas, ou se atendiam àqueles que buscam respostas para os dilemas do espírito, só uma análise serena pode revelar.
De forma mais transcendental, fugindo do escopo mais limitado da ciência convencional, inúmeras testemunhas teriam visto e ouvido Krishnamurti ao longo de diferentes fases da vida sendo submetido a dois processos distintos, mas que podem sugerir o fato de seu corpo físico ter sido usado durante parte do tempo pelo que chamava de “morador interno”, aquele ser ignoto que poderia estar empregando-o como um veículo purificado e preparado para uma missão específica ao longo de sucessivas encarnações. Seus fins reais, entretanto, possuíam uma intencionalidade que escapava á compreensão do próprio K.

Um destes processos consistia em periódicos episódios de aguda dor - sobretudo ao longo da coluna espinhal – que para alguns podem remeter à tese da subida da “serpente”, Kundalini. Outro mais frequente ( verificado durante quase toda sua vida adulta ) consistia no que o próprio K. apelidava de “meditação”, um estado de plenitude e bem aventurança que experimentava, às noites, em seu leito. Há circunstâncias outras envolvidas na vida de K. que comprovam tanto sua clarividência e extrema intuição e sensibilidade assim como a presença generalizada de um sentimento de segurança e proteção que se estendia a todos que estavam diante dele. Além do sobrenatural envolvido em tais coisas, sobrepujando todos estes fatos (até certo ponto subjetivos e apoiados na observações de pessoas próximas) estava o claro testemunho fornecido pelas palestras públicas e escritos de um jovem não erudito e pouco versado nas disciplinas universitários, arredio aos estudos e com pouco treino em argumentação lógico-dialética, que, repentinamente, passou a falar com grande desenvoltura sobre espinhosos temas filosóficos.

Embora a vida de Krishnamurti em si seja intrigante e, em parte, maravilhosa, seus ensinamentos merecem ser analisados criticamente, sem a complacência daqueles que em público o declaram um mero “amigo”, um conselheiro (não alguém a que se deva seguir, uma vez que em seu próprio testamento ele exigiu isso) mas, em privado , idolatram-no como um guru do autoconhecimento. Estas interrogações sobre o pensamento de Krishnamurti são válidas na medida em que razoável parcela da literatura de autoajuda contemporânea (Osho, Eckhart Tolle, o “zen budismo” de revista e outros) parece enraizar-se no “leit motif” krishnamurtiano ao usar liberalmente expressões (pois K. jamais aceitaria o termo “conceitos”) como “condicionamentos”, “liberdade”, “viver o presente”, “a verdade é relativa”, “tempo psicológico e cronológico” e outras mais.

Tudo o que Krishnamurti disse ou escreveu carrega uma generosa dose de verdade. Fala diretamente à nossa intuição, parece correto a princípio. Mas somente a princípio. Em minha opinião diz algo, paradoxalmente, a dois extremos: o homem espiritual colocado em patamar mais elevado ou aquele que ainda sequer começou a galgar os degraus da verdadeira espiritualidade e se sente confortado com uma mensagem que faz com que as coisas pareçam ser mais simples do que são. O homem intermediário, aquele que tem algum conhecimento dos ensinamentos dos mestres espirituais, o homem que sofreu influencias de tipo superior e “cruzou” a estreita cerca entre o mundo profano e o ocultismo, este só pode encontrar em Krishnamurti um colega de jornada tão perdido quanto ele, não um amigo fiel. A voz sedutora do indiano lhe sussurra uma alternativa mais simples e menos penosa que o trabalho e a luta incessante contra si mesmo, algo muito nocivo ou mesmo mortal para o aspirante à vida superior.

Muitos de nós gostariamos de “tocar a orla” da iluminação com pouco esforço. Justamente esta promessa parece estar implícita em muitas das transcrições de palestras e escritos sobre K. Nestes viceja a proposição latente de que é possível dispensar guias, não abrir mão de qualquer coisa que seja e dedicar horas e que mais horas ao estudo ou à meditação é mera tolice. A própria meditação é apenas uma projeção do que está arraigado dentro de nós em nossa mente, uma enorme tolice. Também poderíamos descartar as opiniões que outros nutrem a nosso respeito ou mesmo relacionarmo-nos com eles. Amigos, pais, professores não importam. Não só qualquer dependência deles é nociva como podem nos inspirar padrões de comportamento tradicionais que irão nos impedir de descobrir nossos próprios caminhos.

Como regra, Mestres e gurus devem ser encarados com incredulidade. Krishnamurti os odiava, às vezes com razão como quando se entediou com a estúpida tagarelice de Maharish Mahesh Yogi em um vôo em direção à Índia. Na aprendizagem há apenas o processo de aprender, não há professores ou alunos. É mais difícil formar um bom professor que um bom aluno, pois o primeiro precisa, antes de mais nada, aprender a aprender e ouvir. O professor precisa ser ensinado.

Ora, isto vai de encontro a todo um precioso conjunto de instruções do Oriente e do Ocidente que defendem a importância de um instrutor qualificado, um Mestre que possa adequadamente orientar o discípulo ao longo de um percurso tortuoso, porém eivado de recompensas para os que ultrapassam a reta final. Não são “mestres” no sentido usualmente atribuído ao título no Ocidente, professores arrogantes empoleirados em suas cátedras caquéticas a arrotar uma pretensa erudição morta extraída dos livros. O instrutor de que fala a antiga tradição nada mais é que um homem e mulher que por si mesmo alcançou um estado superior de consciência, tornou-se um “Arhat”, um “Bodhisattwa”, um “Arya Bodhisattwa”, um “Buda”, um “Cristo”.

Por sua enorme compaixão e magnanimidade, os grandes conquistadores do mundo legaram à humanidade instruções precisas sobre a maneira como eles próprios obtiveram a vitória. Estas não são necessariamente idênticas, mas semelhantes, o que prova que os princípios e o método são inequívocos. Estas são as características dos ensinamentos dos verdadeiros instrutores. Eles não se dedicam apenas a descrever os estados que experimentam mas fornecem aos homens o método, o “algoritmo” para a resolução do grande problema humano. Por isso se diz do Senhor Buda, como exemplo, que ele fornece “instruções precisas e que não nos enganam”. Já o pobre Krishnamurti, tangencia a amargura da vida humana e sua falta de sentido mas não aponta caminhos, não indica os passos que devem ser seguidos. Lança o homem no abismo enquanto ele mesmo permanece mergulhado no presente, em um estado de permanente e atemporal satisfação com o instantâneo, uma postura diametralmente oposta à dos expoentes mais conhecidos da espiritualidade.

Para Krishnamurti, nas vidas dos homens são impressas basicamente duas heranças. Uma de origem material, ou seja, sua posição social, bens e obrigações para a coletividade. Outra é uma herança de caráter “psicológico” e que forma sua personalidade, enraizada em concepções, tradições, sistemas de pensamento e crenças que lhe foram inculcadas desde que nasceu na família, na escola ou em outros ambientes sociais. Estas duas marcas são perenes e criam condicionamentos dos quais ele dificilmente se livre, a menos que cultive a atenção no seu quotidiano, certa capacidade de estudar a si mesmo mediante a observação cuidadosa e sistemática dos seus sentimentos, pensamentos e atos, investigando-os e descobrindo por si mesmo porque eles são o que são.

Nesta via, que é íntima, não cabe o conhecimento formal, livresco. Este se adquire pela leitura e áridos estudos na escola ou nas religiões. Estas prescrições das escrituras sagradas de todos os cultos são apenas registros das experiências de outros homens e mulheres. Eles não são a verdade. A verdade em si não existe, ela deve ser descoberta sempre, a qualquer momento, mediante o autoconhecimento. Mesmo o autoconhecer-se não tem fim, ou verdadeiro conhecimento não vem de fora mas de dentro. Os textos podem apenas lhe trazer informações de segunda mão, mas o que importa é sua própria vivência, a compreensão que se tem desta vivencia quando é anulado o “Eu observador”.

Parte-se todo o tempo do princípio de que nada se pode aprender no mundo. Nada é integral, verdadeiro. Tudo se reduz a uma imensa rede de impressões captadas por um “Eu” egóico, um feixe de sentimentos, pensamentos, emoções que julga ser você porém não é o seu “Eu verdadeiro”. A mente atua como um experimentador, o “censor” que diz que aquilo é bom ou ruim desde que satisfaça ou não os seu desejo de prazer. Não se pode fazer nada a respeito disso, apenas deixarem os pensamentos flanarem e observá-los. Quanto mais atento o observador, tão mais rápido a mente irá se aquietar e você passará a perceber as coisas na sua integralidade. O bosque lá fora, os passarinhos crocitando no jardim, os gatinhos ronronando e os peixes na Lagoa cantarão hinos ao cosmos e o indíviduo (ou o não indivíduo) terá diante de si a verdadeira vida una.

Dizendo-se contrário a todos os sistemas de pensamento Krishnamurti lançou as bases do seu próprio. Nele não se reserva qualquer função ao esforço e ao gradual controle das faculdades inferiores do homem, o que deixa de ter qualquer importância. Não há qualquer hierarquia de seres no universo ou meta evolutiva, tudo se embaralha em um eterno processo de busca da autoconsciência rumo a uma vaga reintegração ao Todo. Nada impede, contudo, que o homem goze e saboreie os prazeres do “presente”, do “agora”. Não é preciso ter – como ele próprio salienta – compromissos com quaisquer causas terrestres. Estas causas apenas refletem um sentimento inato e egoísta de autogratificação. Nada de ser caridoso, nada de combater à guerra fratricida, nada de lutar em prol dos animais ou defender a natureza. Libertemo-nos de todo esse entulho imposto por nosso Ser “autocentrado” e sejamos atentos, observando tudo com esmero. Este é o “não-sistema filosófico” ou “não-pensamento” de Krishnamurti, a base ideal para uma era sem valores ou qualquer perspectiva de futuro como a nossa.

segunda-feira, maio 03, 2010

A Vida Oculta na Maçonaria de Leadbeater

A Vida Oculta na Maçonaria de Leadbeater(*)

(*) Reprodução de postagem da comunidade "Teosofia" do Orkut

Na semana passada concluí uma pequena peça em que trabalho com alguns trechos da "Vida Oculta na Maçonaria" de Leadbeater, entre outros autores. Nada melhor que uma cuidadosa releitura para apontar aspectos positivos e negativos de um autor. Em alguém como o Sr. Leadbeater - cujo livro é tão afamado entre aqueles que buscam raízes "arcanas e proto-históricas" para a ordem - o raciocínio exuberante e as mais improváveis conjecturas sempre podem andar juntas. Mas gostaria de registrar minha opinião sobre o tema em tela:
1) O livro é delirante ao destacar as cerimônias "maçônicas" que o Sr. Leadbeater presenciou em sua vida no Egito. Em alguns pontos a gente quase é levado a dar gargalhadas tal a capacidade pictórica do autor em reconstruir aquelas cenas vistas por "clarividência" em uma "Loja Maçônica" egípcia. Outros devaneios de monta são as descrições dos utensílios e o recurso à "metodologia clarividente" sempre que lhe faltam os meios disponíveis. A descrição dos anjos auxiliando Saint Gérmain, "o chefe de ..." é simplesmente cinematogrática ...
2) Contrariando Mdme. Blavatsky e seu adorado Ragon - a quem tenho muitas críticas, pois se concentrava mais em dividir a ordem que em buscar uma plataforma unificadora - Leadbeater - foi grau 33 da co-Maçonaria], não da maçonaria, diga-se de passagem (nada contra os graus, apenas indico um ponto de choque com HPB que nesse assunto apoiava Ragon);
3) A visão de Leadbeater sobre os desafios dos três graus simbólicos da maçonaria não deixa de ser bem válida;
4) Em que pesem alguns exageros, a idéia da "cobertura do templo interior" manifestada por Leadbeater é digna de nota.

Bem, para que não pareça ser algo pessoal, recomendo aos amigos a leitura da Jules Boucher que ao comentar dezenas de autores maçônicos faz tabula rasa da pesquisa clarividente de Leabeater.

O que mais incomoda é que a literatura sobre o tema já era extensa na época em que foi publicada a obra cuja segunda tradução foi em 1928. À luz das modernas pesquisas, inclusive do que produziram os maçons operativos, a contribuição de C.W.L. se apequena ainda mais. Com alguma dose de generosidade, algumas interpretações do simbolismo podem ser bem vindas.

domingo, julho 20, 2008

"Teosofia" e Teosofias

Alguns amigos e amigas insistem em reanimar o vetusto debate sobre a essência da Teosofia. A Teosofia ou “Sabedoria Divina”, “Brahma Vhydya” é muito anterior a Madame Blavatsky e à Sociedade Teosófica, o que em si não é novidade, sendo reiterado em inúmeras ocasiões pela mesma. O nome nos foi transmitido pelos filósofos alexandrinos, os ”philaletheus” ou “aquele que ama a verdade” e “(...) o nome Teosofia data do terceiro século da nossa era e foi introduzido por Amônio Saccas e seus discípulos, os quais iniciaram o Sistema Teosófico Eclético”. E continua: “O objetivo principal dos fundadores da Escola Teosófica Eclética era um dos três objetivos de sua sucessora moderna, a Sociedade Teosófica, ou seja, reconciliar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema de ética comum, baseado em verdades eternas”. E ainda: “A ‘Religião-Sabedoria’ era una na antiguidade; e a uniformidade da filosofia religiosa primitiva é comprovada pelas doutrinas idênticas ensinadas aos iniciados durante os MISTÉRIOS, uma instituição universalmente difundida em outros tempos. ‘Todos os alunos antigos indicam a existência de uma única Teosofia anterior a eles. A chave que desvendar um terá de desvendar todos os outros; de outra forma não poderá ser a chave verdadeira’”.
Não somente posterior aos divinos teósofos das luzes como Böehme, Eckartshausen, não propriamente uma superação dos alquimistas herméticos da idade média, não uma sucedânea dos cabalistas e magos franceses, a exemplo de Éliphas Lévy. A teosofia de Blavatstky e sua escola entesouram as mesmas e magníficas verdades de outras teosofias que, essencialmente, são aspectos de uma mesma sabedoria divina, que remonta ao princípio dos tempos. Claro que uma escola deste gênero não se limitaria à tradição oriental. Todo o esforço empreendido por HPB se voltava, naturalmente, para a promoção de uma síntese do conhecimento religioso – cabala, hermetismo, religiões tradicionais, sistemas do Oriente – embora o componente especificamente hindu tivesse função relevante neste edifício intelectual.
Todos somos potencialmente teósofos, desde que o emprego de nossos faculdades superiores possibilitem-nos beber do conhecimento divino que emana dos planos superiores. O teósofo “de gabinete”, compilador de informações livrescas ou aquele que aguarda eternamente a vinda de um “mestre” que venha lhe instruir sobre a “senda iniciática” não são os melhores modelos nesse aspecto. A filiação à Sociedade Teosófica ou a preferência pelas obras que nos foram legadas por HPB também não delimitam o ser “teósofo”. A própria Blavatsky sempre se declarou um humilde instrumento a serviço dos mestres e nunca reinvidicou para si mesma condição superior à de simples mortal.
Além do cerceamento da pesquisa teosófica ao âmbito da Sociedade Teosófica e de HPB (há quem seja visceralmente contra, inclusive, outros teósofos como Charles Leadbeater ou Annie Bésant) ocorre mormente a delimitação dos estudos aplicados ao cânone blavatskyano ou ao repertório seguido pela própria Blavatsky enquanto viva. Este procedimento metodológico excluiria de antemão como “temas não-teosóficos”, tudo aquilo que HPB deixara de abordar como o que manifestamente desprezava. Dito de outra forma, nada de abordar assuntos do século XX, culturas africanas e latino-americanas, xamanismo, wicca, Aleister Crowley, certas escolas ocultistas etc. Tudo isso não tem características “teosóficas” por não ter sido abordado por Blavatky ou não constar das publicações da S.T.
Bem, onde ficam objetivos como a promoção da “fraternidade universal”, o estudo dos “poderes latentes do homem” “and so on”. Perguntem a Madame Blavatsky! Mas cuidado, porque o espiritismo é “não-teosófico”...

sexta-feira, agosto 18, 2006

Charles W. Leadbeater - O Caminho da Provação

Em seu magistral livro, "Os Auxiliares Invisíveis", o eminente teósofo inglês, o Bispo Charles W. Leadbeater resgata sábios conhecimentos orientais sobre o caminho do progresso espiritual. Segundo ele, há basicamente quatro meios: a) a companhia daqueles que já entraram nele; b) a escuta ou leitura de claros ensinamentos sobre a filosofia oculta; c) a reflexão esclarecida; d) a prática da virtude, ou uma longa série de vidas virtuosas, o que desenvolverá no indivíduo a convicção necessária para entrar na senda.
Os estágios do discipulado (períodos do progresso) são: 1. Manodváravajjna (a abertura das portas da mente), em que o candidato vem a adquirir firme convicção da insubsistência e do valor nulo dos fins materiais; 2. Parikma (preparação para a ação), estágio no qual o candidato aprende a praticar o bem somente pelo amor do bem, adquirindo "a perfeita indiferença para com o gozo do fruto de suas ações); 3. Upacharo (atenção ou conduta), estágio em que são adquiridas as seis qualificações (shatsampatti) dos hindús, quais sejam:
a) Samo (quietude), ou seja, pureza e calma do pensamento, com perfeito domínio da mente:
b) Damo (subjugação), igual domínio ou pureza das ações e palavras;
c) Titikcha (paciência ou capacidade sofredora), isto é, a prontidão para arcar calmamente com tudo o quanto o nosso karma venha a nos impor;
d) Samadhama (concentração), em outras palavras, a inteireza da menta a capacidade de não ser desviado do caminho por qualquer tentação;
e) Saddha (Fé); a confiança no Mestre ou em nós próprios, pois sem o instrutor competente não crescemos;
f) Anuloma ("ordem direta ou sucessão, significando que a sua pessoa segue, como conseqüência natural das outras três"), fase em que se é tomado do desejo de libertação da vida terrestre e união ao altíssimo (Mumukshutva);
g) Gotrabhu (condição para estar apto ao iniciado), estágio em que o candidato enfeixa todas as condições anteriores.
"Quem é o Gotrabhu?, o Buda diz: 'O homem que está de posse daquelas condições, às quais imediatamente se segue o princípio da santificação - eis o Gorabhu' ".