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sábado, maio 25, 2013

Felicidade e Qualidade de Vida II - Tentativa de Interpretação


Felicidade e Qualidade de Vida - Uma Tentativa de Interpretação

Creomar Baptista

Tolkien rindo.
Do próprio sentido atribuído originalmente à felicidade podemos extrair algumas noções de relevante interesse para o nosso ensaio e válidas para uso cotidiano. A mais elementar delas tem a ver com o fato de que para ser feliz deve-se estipular o que é realmente importante. Para o recém-nascido, o contato com sua mãe e o alimento proporcionado pelo leite que dela emana confundem-se com sua própria existência.
Nada mais lhe diz respeito. Os ruídos e a agitação do mundo circundante só lhe trazem angústia e inquietude. Ele compreende que, para ele, aquele momento é único e imprescindível. Ele não se deixa levar por distrações induzidas por uma mente rebelde, como os adultos. Riquezas materiais, status, poder nas relações de trabalho, necessidade de agradar os outros ou parecer ser alguém que não é, nada disso lhe interessa. Mamar para ele representa a suprema autorrealização.
A identificação da felicidade com o divino, com o “êxito” e “sucesso” no mundo greco-romano –; uma vez relativizada por escolas como a dos estóicos e epicuristas (que estavam longe de propagandear as paixões animais, mas defendiam uma moral sóbria e adusta como recordado por um crítico severo como Sêneca) imprime ao conceito caráter bem distinto da alegria ou contentamento. Ele assimila um elemento de trajetória ou caminho (a distância que separa o humano do divino) a ser percorrido até alcançar um resultado (o que exige concentração e seletividade) o que, no plano espiritual, requer o cultivo de uma alma reta, serena e avessa aos caprichos das paixões, como diria Sêneca.
Trocando em miúdos, todo este breve – e até certo ponto simplista – arrazoado nos leva a estabelecer três “pontos provisórios” sobre a felicidade:
a) a felicidade decorre de uma justa capacidade de atribuir pesos a escolhas condizentes com os seus objetivos de vida isto é, significa discernir entre o “real” e o irreal” ou ilusório, o “necessário” e aquilo que atende a uma fantasia volátil que se esvanece tão rapidamente quanto uma bolha de sabão;
b) uma vez satisfeitas necessidades humanas básicas (comer, beber, manter uma vida sexual regular, dormir, descansar) o que é absolutamente imprescindível - a felicidade não se limita a aquietar impulsos disparados por desejos momentâneos;
c) a felicidade representa um propósito maior na vida e equivale à autorrealização do homem, ao pleno desabrochar de suas possibilidades.

Componentes da Felicidade como Autorrealização

Definir, ainda que de forma tacanha, o que é “autorrealização”, seria atrevimento de minha parte, senão impossível. Mas muitas correntes filosóficas e espirituais têm colocado como seu aspecto central a realização do seu verdadeiro EU, a transcendência dos aspectos inferiores do homem, do seu “Eu animal, carnal (7). Em certo sentido,significa tornar-se um “super-homem”8 ou superar o atual estágio de desenvolvimento humano.
Entender o que isto quer dizer em termos metafísicos é algo bastante espinhoso para o homem mediano. Mas todo o problema pode descer das nuvens se o colocarmos em termos de alguns propósitos que podem parecer simples, porém são os mais excelsos da existência humana neste planeta. Estes objetivos me parecem suficientemente válidos para a maioria das pessoas que não acalentam a “ambição” de alçar-se à perfeição neste curto período de existência. Não é de nosso interesse discutir o caso destes indivíduos, pois seus projetos de vida e aspirações vão muito além do que preocupa e azucrina as pessoas comuns (9).
Como bem ponderou Bertrand Russel, “existem dois tipos de felicidade, embora, naturalmente, haja graus intermediários. Os dois tipos a que me refiro poderiam chamar-se normal ou fantasista, animal ou espiritual, do coração ou da cabeça. A designação que venhamos a escolher entre tais alternativas depende do que quisermos demonstrar. No momento, não pretendo demonstrar nenhuma, mas apenas descrever.
Possivelmente, o modo mais simples de mostrar as diferenças entre esses dois tipos de felicidade é dizer que um deles se acha ao alcance de qualquer ser humano e que o outro só pode ser atingido por aqueles que sabem ler e escrever”(10).
Os objetivos que nos propomos oferecer como possíveis pontos de partida para a busca da felicidade real (não a alegria, o prazer momentâneo) são acessíveis a todos os homens. Não requerem altas doses de intelecção, erudição ou sequer a aquisição das primeiras letras. Mas representam, indubitavelmente, caminhos seguros para a autorrealização, com escopo restrito ao homem mediano. Enfim, acreditamos que aquele que almeja a felicidade deve perseguir como objetivos válidos e realmente pertinentes (ou aqueles a que deve atribuir maior peso):
a) a busca da construção de uma unidade familiar sólida, estruturada em valores ancestrais e liberta das amarras representadas pela coerção e a imposição de crenças e restrições contrárias à natureza.
b) a construção de uma relação afetiva madura, capaz de assegurar a integridade e individualidade das partes, encarando-se o amor como força ativa no homem (11).
c) uma vida produtiva, com o desempenho das atividades profissionais com desvelo, dando sempre o melhor de si, sem choramingar ou embrenhar-se em uma ciranda sem volta de reclamações e contestações, mas apresentando soluções para os desafios colocados pelo trabalho.
d) o cultivo de amizades e a convivência estreita com a comunidade, uma atitude compassiva e altruísta diante do próximo.
Para conciliar esses objetivos ou outros de análoga envergadura, o homem precisa cultivar algumas qualidades especiais que o façam atravessar a vida como ela é” sem que irrompa uma espécie de “rebelião interior” que aniquile definitivamente sua meta final, a felicidade. O passo preliminar é seguir a regra de ouro “não faças a outrem o que não queres que te façam”(12).
Essa máxima opera como uma vasta cadeia de causa-efeito responsável por gerar todo o sofrimento que aflige a humanidade. Como complemento dela, há outra virtude que precisa ser regada com muito cuidado, até que cresça e renda bons frutos: a paciência. Não sem razão, para os budistas, a chamada “perfeição da paciência” consiste em aceitar plena e alegremente todo e qualquer acontecimento, sem retaliar quem quer que seja. Não acredito que todos estaremos a “dar nossas caras a tapa”, mas poderemos aprender a aguentar uma certa dose de contrariedade em nossas relações do dia a dia, na família, no trabalho, no trânsito etc. A despeito da contemporaneidade ter erigido o frenesi lunático como seu bezerro de ouro, com um pouco de empenho somos capazes de adotar como critério de vida o fato de que o tédio deva ser suportado.


NOTAS
6. “O conhecimento de Deus e de sua vontade é considerado essencial para a vida muçulmana. Um temachave
do Alcorão é que Deus se revela através de ‘sinais’ (ayat)”. (...) “Cada sinal traz informação sobre
Deus e sua força criadora – a fim de aprender sobre Deus, portanto, deve-se envidar todos os esforços
para reconhecer e captar tais sinais”. GORDON (2009).

7. YOGANANDA, Paramhansa. A sabedoria de Yogananda. A essência da autorrealização. São Paulo: Ed. Pensamento, 2012. AUROBINDO, SRI. A Sabedoria de Sri Aurobindo – seleção de seus escritos.São Paulo: Ed. Shakti, 1999. A hipótese de que há um corpo físico (animal, carnal) ao lado de uma alma ou espírito não é apanágio do judaísmo, cristinianismo ou islamismo. Ela é onipresente no Oriente, entre os povos das Américas e em todas as regiões do mundo.
8. O que nada tem a ver com filosofias discutíveis ou ideologias nefastas do século XX.
9. Na platéia para que que proferi originalmente esta palestra afirmei, a título de exemplo, que nenhum de nós necessita ser uma Irmã Dulce para ser caridoso, aludindo ao fato de que certas atitudes altruístas podem ser executadas por todos. Um rapaz folgazão formulou então a seguinte pergunta, de que tão espontânea soou hilária: “Mas a irmã Dulce ao menos saiu no lucro porque virou Santa. E eu? O que vou ganhar com isso?”.
10. RUSSEL, Bertrand. A conquista de felicidade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
11. “(…) O amor maduro é a união sob a condição de preservar-se a própria integridade, a própria individualidade. O amor é um poder ativo no Ser humano; um poder que demole as paredes que o separam de seus companheiros, que o une aos outros; o amor o faz superar o senso de isolamento eseparatividade, permitindo-o ainda ser ele mesmo e reter sua integridade. No amor ocorre o paradoxo de que dois seres se tornam um e continuam a ser dois”.FROMM , 2006.
12. O intuito de não fazer com esta apresentação passasse por um libelo cristão e fosse “ecumênica” na medida do possível não é obstáculo para o cumprimento do mandamento maior, prescrito em Lucas 10:27: “A isto ele respondeu: amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Libertos de uma visão antropomórfica de um Deus longínquo e concebendo-o como presente em nós mesmos os dois mandamentos se equivalem.11“(…) O amor maduro é a união sob a condição de preservar-se a própria integridade, a própria individualidade. O amor é um poder ativo no Ser humano; um poder que demole as paredes que o separam de seus companheiros, que o une aos outros; o amor o faz superar o senso de isolamento e separatividade, permitindo-o ainda ser ele mesmo e reter sua integridade. No amor ocorre o paradoxo de que dois seres se tornam um e continuam a ser dois”.FROMM , 2006.






2 comentários:

june disse...

Você é especial!Faz-nos sentirmos em êxtase! Agradeço o presente que a vida me deu e a oportunidade de conhecê-lo e aos seus textos!!!

C. Baptista disse...

Linda, te adoro!