Gurdjieff

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domingo, novembro 20, 2005

O Álcool e o Sentimento de Culpa

O pior após uma noite de bebedeira é o sentimento de culpa que se apossa de mim. O "day after" é simplesmente tenebroso, depressivo, angustiante. Sinto que não deveria ter feito aquilo e que perdi grande parte do dia na cama. Fico me lamentando das bobagens que falei. Mas por quê? Mais uma vez, o resultado de um passado cristão radical que condenava a ingestão de qualquer bebida alcóolica. Dos subterrâneos do inconsciente emerge a censura que entristece e dá um enorme sentimento de arrenpedimento pelo arrebatamento etílico.

Isto é totalmente cristão. Um psiquiatra, certo dia, me disse que a bebida atua em nosso sistema nervoso central, desinibindo-nos, a princípio. Quando seus efeitos atingem o auge, a concentração de álcool no organismo é máxima, ocorre o movimento inverso. Acredito que seja como uma curva em "U" invertido, que tem uma fase ascendente (o bem estar causado pelas doses iniciais e a euforia) e outra descendente (a depressão). Mas esta é uma explicação demasiado controversa no meu ponto de vista. Conheço várias pessoas que sentem mau psicologicamente quando têm um porre, mas uma série de outras que não sentem nada além dos sintomas tradicionais de indisposição e se limitam a tomar um "engov", sem culpa nenhuma.

A melancolia do bêbado arrependido é, nada mais, nada menos, que o cristianismo infantil que aflora. Nenhuma das velhas religiões pagãs via com maus olhos os álcool. Nem me consta que os vetustos patriarcas da Bíblia (o "Velho Testamento" é repleto de ecos politeístas e pagãos), como Noé, abominassem a bebida. Pelo contrário, em uma noite de festa regada a vinho, foi flagrado pelo filho nú. Tirante algumas excessões, como as regras para as sacerdotisas de algumas deusas e deuses (as "vestais romanas", as "prostitutas sagradas" da Mesopotâmia e Oriente Médio), os antigos até veneravam o alcóol como meio ritual de acesso ao divino, o que tinha significado pleno nas festas dionisíacas dos gregos.

Eu gostaria de me debruçar um dia sobre a associação entre álcool e pecado presente em religiões como o cristianismo - para me restringir àquela predominante no Ocidente, pois o islamismo o condena até mais veementemente. Certamente é menor o grau de censura em organizações cristãs mais antigas como a Igreja Católica, maior em outras da matriz protestante, sobretudo o calvinismo. Mas não se pode negar que já estava inscrito nas palavras dos evangelistas e autores do "Novo Testamento", que exortavam os fiéis a abominarem as paixões dos sentidos, que o vinho aguçava.




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